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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Set21

Grupo lança “Bella Ciao” à brasileira: “darei minha vida para expulsar o ditador”

Talis Andrade

 

O grupo Salvadores Dali, conhecido por suas releituras transgressoras, cria versão em português da canção secular italiana; veja o clipe

 

Por Julinho Bittencourt /Fórum /Combate

Depois de lançar seu álbum autoral em 2019 e, em seguida, um EP com versões transgressoras de Noel Rosa no fim de 2020, o grupo carioca Salvadores Dali está de volta com novo trabalho: a canção italiana secular Bella Ciao. Alçada ao universo pop em todo mundo nos últimos anos com o seriado espanhol La Casa de Papel, a música ganha agora nova vestimenta contestadora e chega também em videoclipe, disponível no canal do YouTube da banda – lançado no último dia 7 de setembro, não por menos, uma data carregada de muita simbologia no calendário brasileiro.

De origem imprecisa – seus primeiros registros remontam ao século XVI – a canção foi sendo modelada ao longo dos séculos a partir de contribuições anônimas de camponeses, tendo inicialmente como seu tema central o amor. Mas na segunda Guerra Mundial, a canção popular tornou-se um hino antifascista para animar a resistência italiana, os partigiani, contra Mussolini. Com essa ressignificação, acaba se consagrando de vez na cultura popular, ganhando várias versões, tais como a jazzística de Wood Allen, a melancólica de Tom Waits e a vibrante de Manu Chao. Por conta do seriado espanhol, superou fronteiras inéditas, sendo cantada, inclusive, nas varandas italianas durante a pandemia como um hino de resistência à triste devastação do novo corona vírus na Lombardia.

Respeitando o isolamento social, os Salvadores Dali resolveram gravar a canção em português e em sintonia com o trabalho transgressor, sua maior identidade. Com pequenos ajustes na tradução da poesia original já consagrada, a longeva Bella Ciao aporta no nosso Brasil atual, carregada do espírito contestador e crítico em seus novos versos: “Suas mentiras e todo ódio/Ó bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao./Custaram vidas que foram embora/Pela sandice e desamor.” Assim a luta contra o fascismo, ou neofascismo, se une à indignação com relação aos números da covid-19 no país.

Nessa (sub)versão  – conceito que os Salvadores criaram para definir sua estética musical – o aspecto rítmico não ficou de fora. Similar às canções populares na Europa do século XIX, a música se inicia de forma melancólica, introduzida apenas pelo piano e baixo acústico. Segundo o baixista Jorge Moraes “a ideia é expressar de fato a angústia que todos sentimos em relação ao momento presente, mas sem também ficarmos presos, todavia, a esse luto musical”. Não por menos, a segunda parte da canção mergulha profundamente no estilo punk dos anos 70.

O videoclipe contou com a participação de vários amigos dos integrantes, como a mezzo-soprano Vivian Fróes, que também é militante de direitos humanos e da causa das pessoas transgêneras; a cantora de brazilian jazz e samba Flávia Enne; o sociólogo Nelson Ricardo (também compositor do grupo carioca); o cantor e poeta Zuza Zapata; a cantora de Jazz e MPB Manni Moritz; o vocalista Xandão, da banda de rock CaverJets e a participação especial de Marianna Leporace. “A canção foi produzida coletivamente, ao longo de todos esses séculos. Por isso, não faria sentido algum apresentá-la ao público sem a participação de nossos amigos”, afirma o guitarrista Marcio Meirelles.

Os integrantes do grupo Salvadores Dali que participaram desse projeto são Jorge Moraes (baixo), Marcio Meirelles (Guitarrista e pianista), Robson Batista (saxofonista) e Jorge Casagrande (bateria).

28
Nov20

E depois do domingo?

Talis Andrade

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por Antônio Martins

- - -

Nas eleições, surgiu o embrião de uma Esquerda Plural. Ela poderá mostrar a que veio nas próximas semanas – enfrentando o pacote de maldades que o governo Bolsonaro, derrotado nas urnas, prepara para o Natal. Oito hipóteses provocadoras

No Outras Palavras

1. Uma eleição e dois fenômenos

Dois fatos de relevância e raridade marcaram as eleições de 2020 – e têm potência para se impor, qualquer que seja o resultado final do próximo domingo. O governo Bolsonaro foi derrotado em quase todas as cidades em que o presidente posicionou-se. Das 27 capitais, restam-lhe chances em Fortaleza (quase nulas) e Belém. A agenda de ultradireita, que teve forte impacto eleitoral em 2018 – quando elegeu “azarões” grotescos como Wilson Witzel (RJ) e Romeu Zema (MG) – desgastou-se e perdeu tração. E embora numericamente o Centrão e os partidos da direita tradicional (PSDB, DEM e MDB) tenham elegido mais prefeitos, a segunda novidade é outra. Emergiu uma Esquerda Plural

Candidatos como Guilherme Boulos, Manuela D’Ávila, Marília Arraes e Edmilson Rodrigues mostraram, apesar de suas diferenças pontuais, que as lógicas da solidariedade, da justiça social, da redistribuição de riquezas e da construção do Comum podem ter grande apelo popular. Suas campanhas, além disso, refrescaram-se. Livraram-se do ar pesado de institucionalidade e marketismo que prevalecia ao menos desde a primeira eleição de Dilma. Voltaram a atrair a juventude e os artistas. Abriram diálogo com os movimentos sociais.

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2. Novo desenho

Estes fenômenos, por sua vez, reconfigurarão a própria constelação da esquerda. O velho desenho (que perdurou por três décadas), em que o PT era o núcleo em torno do qual precisavam girar os outros partidos (mesmo quando se opunham ao petismo), dificilmente se sustentará. Abriu-se a possibilidade, há muito necessária, de uma configuração nova, marcada por diversidade. Nela deveriam ter voz e poder real de influência os diversos partidos; e, além deles, organizações autônomas que expressem outras formas de ação coletiva não abrangidas pelas estruturas partidárias.

3. Três fantasmas

Passado este breve respiro, porém, a realidade de chumbo tornará a pesar – e precisará ser desafiada. A partir de segunda-feira, o Brasil se verá às voltas com três fantasmas. A segunda onda da pandemia, potencialmente devastadora – pois tratada com negligência extrema. As milhões de famílias ameaçadas por desemprego ou pobreza aguda, assim que terminarem o Auxílio Emergencial e o subsídio contra as demissões. E, em especial, o esforço do governo para aprovar no Congresso, ainda antes do fim do ano, uma agenda de ataque aos direitos sociais e de destruição do Público. Neste cenário de pesadelo, a Esquerda Plural que se esboçou nos últimos meses terá, paradoxalmente, uma oportunidade para mostrar a que veio. Ela o fará se converter a força e a legitimidade alcançadas nas eleições em propostas que sinalizem outra saída, diante da tempestade que se anuncia. Na melhor hipótese, pode começar a se compor, em torno dos três eixos emergenciais – Saúde, Renda e Direitos – um horizonte alternativo tanto a Bolsonaro quanto ao neoliberalismo. Este horizonte pode, assim como as campanhas que reconvocaram a esperança, ter apoio popular e amplitude surpreendentes.

4. Saúde e Vacinas

50 mil. 100 mil. 170 mil mortos por covid e 6,2 milhões de contaminados – parte dos quais sofrerá sequelas limitantes e duradouras. Nos últimos meses, à medida em que sucessivas marcas fúnebres foram ultrapassadas, e em que ainda assim a popularidade de Bolsonaro não despencou, espalhou-se entre a esquerda a impressão de que não é possível mobilizar as maiorias em torno da defesa da Saúde. Tal hipótese é autoindulgente, por esconder uma omissão. Desde o início da pandemia, a oposição a Bolsonaro foi incapaz de formular e apresentar à sociedade uma alternativa de ação diante da doença. As quarentenas, decretadas por alguns governadores, foram parciais e acabaram precocemente, diante da pressão do poder econômico. Em nenhum estado adotou-se uma ação sistemática e maciça de testagem e rastreamento, que pudesse servir de exemplo. As críticas à negligência do governo jamais chegaram a compor uma proposta clara e distinta em relação ao descaso em vigor. Pergunte a si mesmo: qual a proposta da oposição para enfrentar a pandemia? Você terá dificuldades em identificá-la – quanto mais a população limitada à cobertura precária da mídia comercial.

Infelizmente, a oportunidade de corrigir a ausência virá agora, quando se forma a segunda onda. A epidemiologia alerta que poderá ser mais grave  que a primeira – já que os focos de transmissão estão espalhados e capilarizados por todo o país. Mais uma vez, o governo brasileiro teve vasto tempo para preparar uma resposta, pois passaram-se semanas até o país ser atingido. Mais uma, oscila entre a indolência e a sabotagem criminosa. Há sete milhões de testes mofando num armazém do ministério da Saúde. Ao invés de colaborarem para que os brasileiros tenham acesso a uma vacina (como se faz na Argentina, que se prepara para um vacunazo nos primeiros dias de 2021), o ministério da Saúde e a Anvisa dedicam-se a protelar os esforços para a imunização em massa. Retardam em especial, por extremismo ideológico, a vacina cujos testes estão mais adiantados no Brasil: a Coronavac chinesa, que será produzida pelo Instituto Butantan.

Pesquisadores como Gastão Wagner alertam que, a esta altura, está precisamente nas vacinas a chave para conter a tragédia no Brasil. Seu desenvolvimento científico foi muito mais rápido que se previa. Um a um, os testes que chegam à fase final vão demonstrando eficácia de ao menos 70%, suficientes para assegurar imunidade coletiva. Duas instituições brasileiras de excelência (a Fiocruz e o Instituto Butantã) firmaram, a despeito do descaso do governo, acordos para produção, com transferência de tecnologia, de dois dos imunizantes mais promissores – o da Universidade de Oxford (em parceria com corporação farmacêutica AstraZeneca) e a Coronavac. Estados como o Maranhão e o Paraná estão prestes a adquirir uma terceira vacina promissora – a Sputnik V, do instituto russo Gamaleya.

Países como a Alemanha e a Rússia preparam o início da imunização ainda em dezembro. Assegurar que a vacinação comece nas primeiras semanas de 2021, e que toda a população brasileira seja imunizada no primeiro semestre do ano é um objetivo viável e mobilizador. Uma esquerda digna do nome precisa abraçá-lo a partir da próxima segunda-feira; transformá-lo em foco central de sua ação; conquistar a sociedade para a ideia e torná-la possível por meio da mobilização. Isso requer alguns passos prévios. O planejamento logístico tem de começar já. A estrutura do SUS precisa ser reforçada. Como o lote de vacinas já encomendado para compra ou produção por Fiocruz e Butantã é ainda insuficiente, será preciso reforçá-lo – tanto nestas instituições quanto em outros laboratórios. É possível, se houver vontade e ação política.

5. Os R$ 600

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O segundo fantasma a assombrar os brasileiros no final de ano será o do empobrecimento abrupto. Cerca de 40 milhões de pessoas perderão, a partir de dezembro, o Auxílio Emergencial, sua única fonte de renda. Nesse mesmo mês termina o subsídio do Estado às empresas que, em vez de demitir na pandemia, reduziram a jornada de trabalho. Tende a haver, em consequência, ondas de demissão em massa. Poderá formar-se uma espiral rumo ao fundo do poço: menos dinheiro nas mãos da população significará redução de consumo, vendas menores e maior propensão a demitir – realimentando o ciclo negativo. Os primeiros sinais já apareceram. O IBGE  anunciou hoje (27/11) que o índice de desemprego, medido pela PNAD, chegou ao recorde histórico de 14,6%, atingindo 17,9% no Nordeste. Desde junho (e também de forma inédita) mais de 50% da População Economicamente Ativa está sem trabalhar, por desocupação ou desalento.

O Auxílio Emergencial foi, de longe, a medida mais emblemática adotada pelo Estado brasileiro durante a pandemia. A oposição, empurrada por uma coalizão de organizações da sociedade civil, o criou (o governo propôs, de início, um pagamento de R$ 200, em prestação única). A potência do benefício não tem precedentes. Enquanto valeu R$ 600, ele transferiu aos mais pobres, a cada mês, o que o Bolsa Família faz em um ano. Bolsonaro, que não o queria, apropriou-se dele, e cavalgou em sua popularidade. Porém, a partir de setembro, foi pressionado a abandoná-lo, pela ala neoliberal de seu governo e pela oligarquia financeira, de quem depende. Enquadrou-se. Luta agora por um remendo (que veremos melhor no próximo tópico).

O recrudescimento da pandemia exige, ao contrário, retomar o Auxílio – no mínimo nas bases em que existiu em 2020. Do ponto de vista sanitário, ele é indispensável para evitar que parte da população exponha-se ainda mais ao vírus, aceitando por necessidade qualquer tipo de trabalho. Além disso, o Auxílio é o que permitirá manter a economia à tona, evitando as ondas de quebradeira e desemprego.

Também aqui abre-se brecha para uma Esquerda Plural. O segundo ponto de uma pauta de emergência pode ser Renda. Nos debates cruciais que o Congresso travará a partir da próxima semana – e que tendem a repercutir na sociedade – precisa aparecer com clareza uma proposta robusta. Implica prorrogar o Auxílio Emergencial por todo o período que durar a pandemia. Significa, também, dizer com clareza de onde sairão os recursos. Nenhum centavo será tirado dos gastos sociais do Orçamento. Será dinheiro novo, impresso do nada pelo Banco Central. Talvez R$ 504 bilhões, se os R$ 600 forem pagos ao longo de doze meses, para 70 milhões de brasileiros. Parece muito? Compare, então, com um valor 2,4 vezes maior. Numa única penada, em 23/3, o Banco Central autorizou a emissão de R$ 1,2 trilhão para um conjunto de ações voltadas a proteger o sistema financeiro de prejuízos e falências provocados pela pandemia.

Propor a prorrogação dos R$ 600 por todo o tempo que durar a pandemia terá, além de tudo, um interessante efeito de pedagogia financeira. Permitirá, aos defensores do status quo, explicar por que o Banco Central pode fabricar dinheiro para os banqueiros – mas está impedido de fazer o mesmo para as vítimas da covid…

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6. Arranjo esdrúxulo

A batalha em torno do Auxílio Emergencial será árdua e complexa. Para enfrentá-la, as duas alas em que está dividido hoje o bloco do poder tentam um arranjo esdrúxulo. Está expresso na chamada “PEC do Pacto Federativo”, cuja tramitação será retomada logo após as eleições. Se ela prosperar, o Congresso agradará Bolsonaro, permitindo-lhe criar uma espécie de “Bolsa Família turbinada” – ainda que incomparável ao Auxílio Emergencial. Porém, há um pulo-do-gato: os recursos para tanto serão sugados dos programas sociais já existentes. Se a ideia prosperar, os neoliberais estarão ainda mais contemplados que o presidente. Porque estará se consumando a visão de “Renda Básica” sustentada por Milton Friedman, economista que se destacou na chamada “Escola de Chicago” e assessorou a ditadura do general Augusto Pinochet. Segundo sua visão, o Estado deveria deixar de oferecer serviços públicos, substituindo-os por pagamentos em dinheiro (“vouchers”), com os quais os mais pobres fariam “compras” nos “mercados” de Saúde, Educação, Previdência e outros.

Concebida por Paulo Guedes ainda em 2019, a “PEC do Pacto Federativo” está sendo alterada, sob orientação explícita do Palácio do Planalto, por seu relator no Congresso, o senador Márcio Bittar (MDB-AC). Embora falte ajustar detalhes, o sentido é claro. Para abrir espaço à “Bolsa Família turbinada” de Bolsonaro, Bittar e o governo querem impor um conjunto de cortes nos gastos sociais. Alguns serão fixos – e duríssimos. Aventa-se acabar com as normas constitucionais que obrigam governadores e prefeitos a gastar um percentual mínimo de suas receitas em Saúde e Educação. Fala-se em congelamento das aposentadorias (numa conjuntura de inflação acelerada de alimentos…). Outros cortes são móveis – e radicais. Quando os gastos sociais ultrapassarem certos percentuais, serão disparados “gatilhos” que poderão reduzir os salários dos servidores e as horas por eles trabalhadas. Imagine os efeitos no SUS, em meio à pandemia, ou na Educação pública…

7. Esquerda Plural

O arranjo entre o bolsonarismo e os ultracapitalistas é ousado, porém frágil. Terá de se consumar em poucas semanas – porque foi propositalmente adiado para após as eleições. Temendo desgastes, o governo quer aprová-lo em ritmo de rolo compressor. Pretende, inclusive, suprimir ritos institucionais do Congresso. Arma, com o Centrão, trâmites para que PEC do Pacto Federativo siga diretamente ao plenário, sem passar por comissões temáticas, para evitar debates e desgastes. É um passo difícil. A manobra pode ser questionada no Judiciário, dizem integrantes da própria base governista. Ou o tema, incômodo e explosivo, pode vazar para a opinião pública.

Uma Esquerda Plural poderá tirar proveito deste impasse entre os poderosos se encarar um problema básico. Falta na cena nacional, pelo menos desde 2013, uma alternativa antissistêmica real. O PT, incapaz de superar a crise do projeto lulista, voltou-se para o passado. Sua capacidade de formular alternativas, e mesmo de ser sensível aos dramas populares, declinou até quase extinguir-se. A cena política ficou restrita a uma escolha entre duas facções da direita. Rodrigo Maia é decerto um aliado, quando se trata de limitar os arreganhos autoritários de Bolsonaro. Mas e quando entra em debate o congelamento dos gastos sociais, do qual o presidente da Câmara é partidário? A quem podemos nos aliar: ao desprezo de Bolsonaro pelas instituições?

Saúde, Renda e Direitos. Ou, mais concretamente: Vacinas, Auxílio Emergencial prolongado e Revogação da Emenda Constitucional 95, para abrir espaço ao gasto social. Em torno destes eixos simples, potencialmente transformadores e de fácil compreensão poderia se articular, nas próximas semanas, o esboço de novos rumos para o Brasil. Uma alternativa visível tanto ao projeto protofascista quanto aos ultracapitalistas. O sinal de que, assim como acontece agora em algumas capitais, o país poderá tornar-se respirável novamente.

8. Boulos e Erundina

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Vítima da nova onda da pandemia, Guilherme Boulos não poderá participar das últimas horas da campanha – assim como ficou ausente de um debate com Bruno Covas que contribuiria para uma arrancada à vitória. O resultado da eleição é, nesse momento, totalmente incerto. Mas, eleito ou não, ele está em condições de cumprir um papel especial na vida política brasileira – tanto pelo peso de São Paulo quanto por seus méritos pessoais.

Boulos expressou como ninguém a possibilidade de uma Esquerda Plural. Embora amigo e admirador de Lula, soube afastar-se da imagem de “versão mais jovem” do ex-presidente (que cultivou em 2018), por perceber que ela não contribuiria para tornar claro o choque de projetos no país. Rejeitou a polarização à moda dos Fla-Flus. Compreendeu que só superando-a teria espaço para politizar – ou seja, para debater projetos de futuro comum.

Sua campanha teve trunfos memoráveis. Com pouquíssimos recursos, usou a internet e as redes como talvez nenhum político de esquerda tenha feito antes. Segundo a própria revista Veja, a repercussão de suas postagens nas redes sociais foi vinte vezes superior à de Bruno Covas. Recosturou solidariedades rompidas há muito, ao reunir, em seu apoio, Lula, Ciro Gomes, Marina Silva e Flávio Dino. Mas atraiu também expressões de fora do mundo político tradicional: Caetano Veloso e Felipe Neto são apenas os nomes mais conhecidos, numa vasta rede de artistas, intelectuais e “influenciadores”. Esta amplitude não reduziu em nada o sentido de sua mensagem. Chamado de “radical” por adversários, assumiu e ao mesmo tempo ressignificou o termo, lembrando que “radical é haver, na cidade mais rica do país, gente obrigada a revirar latas de lixo para comer”.

Caso não vença, Boulos poderá optar por percorrer o país, credenciado pela votação surpreendente e construindo alternativas políticas. Sua admiração por experiências como a do Podemos e por personagens como Bernie Sanders é conhecida. Ele terá a chance de expressar a possibilidade de um projeto pós-capitalista no Brasil; de ser um articulador privilegiado dos inúmeros coletivos que acalentam, dentro ou fora dos partidos, esta esperança.

Mas se eleger-se prefeito no domingo, tanto os desafios quanto as possibilidades crescerão exponencialmente. O poder conservador tentará cercar seu governo – e terá para isso vasta máquina: poder econômico, Câmara Municipal, mídia, Judiciário… A Boulos restará mobilizar a sociedade, pressionar as instituições de fora, e dividir com astúcia os adversários.

São Paulo será, neste caso, o contraponto perfeito ao governo federal – e um possível polo articulador de alternativas. Imagine, por exemplo, uma secretaria de Saúde que convoque epidemiologistas de todo o país para propor e oferecer a estados e municípios meios para o combate à covid. Um Fórum pelo Direito à Cidade. Um esforço para pensar, em meio à regressão prolongada da economia brasileira, um novo projeto de desenvolvimento, livre das noções alienantes do “crescer sem limites”. Pense no papel que poderia desempenhar, em tudo isso, alguém com a experiência e a capacidade de imaginação política de Luiza Erundina.

Novas lutas e desafios vão abrir-se no domingo, assim que fechadas as urnas e contados os votos. Outra página infeliz pode começar a ser virada.

18
Nov20

La Croix evoca "sementes" de Marielle para falar do aumento de candidatas negras no Brasil

Talis Andrade

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Demonstração de indignação após a morte de Marielle Franco. Rio de Janeiro, 22 de março de 2018.

REUTERS /Ricardo Moraes

 

por RFI
 

Com o título “Brasil: prefeituras confirmam avanço de candidatas negras e mulheres” , o jornal católico La Croix faz um balanço das eleições de 15 de novembro no Brasil para o público francês. O jornal, que tem uma correspondente em São Paulo, dá destaque também ao que chama de isolamento político de Bolsonaro.

La Croix abre a matéria dizendo que “os candidatos apoiados pelo presidente de extrema direita Jair Bolsonaro não conseguiram convencer os eleitores no primeiro turno das eleições municipais brasileiras em 15 de novembro. Por outro lado, candidatos negros e mulheres, herdeiros da ex-vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, compareceram durante a votação”.

“Os resultados das urnas, que caíram tarde da noite devido a um ataque informático, refletem o isolamento político do presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro. De outro lado, os partidos tradicionais de centro e de direita conservadora saem fortalecidos”, analisa La Croix.

O jornal fala ainda da perda de hegemonia do PT e das disputas no Rio e em São Paulo. “Apelidado de ‘bolo’, por um trocadilho inteligente, Guilherme Boulos eclipsou o candidato do PT a prefeito de São Paulo, assim como o do ‘filhote’ de Bolsonaro, o astro da televisão Celso Russomanno”, escreve La Croix.

“No Rio de Janeiro, o ex-pastor evangélico e prefeito em fim de mandato Marcelo Crivella estará presente no segundo turno, mas recebeu apenas 22% dos votos. Uma pontuação que não apaga o fato de a maioria dos candidatos apoiados pelo chefe de Estado ter perdido”, prossegue.

 

Mais e mais vozes negras

Outro destaque desta eleição municipal, constata o jornal, foi a forte presença de candidatos negros. Cerca de 277 mil candidatos se identificaram como negros, quase 50% do total. As mulheres afro-brasileiras se apresentaram 23% a mais este ano do que há quatro anos.

“Num país onde mais da metade dos habitantes se declara preto ou pardo, isso ainda é pouco”, escreve. Mas, relembra o La Croix,  uma lei do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aprovada em agosto, revisou para cima a distribuição de verbas de campanha a favor dos candidatos negros.

“Essa medida influenciou o debate público, mas não veremos realmente os efeitos até as próximas eleições”, acredita Marcelle Decothe, do Instituto Marielle Franco, criado em janeiro de 2020 para dar vida ao legado político desta vereadora e ativista dos direitos humanos e LGBT, assassinada em março de 2018 aos 38 anos, e que promove candidatos negros às eleições.

 

Sementes de Marielle Franco

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A morte de Marielle Franco deu origem a candidaturas de mulheres negras, poeticamente chamadas aqui de “sementes” de Marielle.

“Acabamos de publicar o resultado de um estudo sobre a violência política no Brasil contra as mulheres negras”, acrescenta Marcelle Decothe, em entrevista ao La Croix.

A violência institucional é também a da falta de recursos para se candidatar, explica. Quando essas mulheres não podem pagar para fazer campanha, isso mantém a desigualdade, continua.

"No primeiro turno, Monica Benício, que compartilhava a vida de Marielle Franco, foi eleita vereadora do Rio "por um mandato feminista e antifascista", escreve, citando Decothe.

 
22
Ago20

Toffoli faz crítica velada a Moro: 'há pessoas que afastam outras da vida pública de olho em eleições futuras'

Talis Andrade

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247 - Em seu voto no julgamento do dossiê do governo Jair Bolsonaro sobre antifascistas, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, fez uma crítica velada ao ex-ministro Sergio Moro.

Segundo Toffoli, "há pessoas" que trabalham para criar inimigos e afastam pessoas da vida pública de olho em "galgar" eleições futuras, em referência à perseguição promovida pelo ex-juiz contra o ex-presidente Lula, inviabilizando a candidatura em 2018 de uma das maiores lideranças brasileiras.

"Há muitas pessoas que aparecem muitas vezes na imprensa bem na foto, mas são péssimas na vida pública e nas vidas que elas têm, criando fundos para administrarem, criando inimigos políticos para depois serem candidatos e afastando pessoas da vida pública, querendo galgar depois eleições futuras. Eu já disse isso e não preciso repetir, para bom entendedor meia palavra basta", disse Toffoli.

 

21
Ago20

Toffoli faz crítica velada a Moro: 'há pessoas que afastam outras da vida pública de olho em eleições futuras'

Talis Andrade

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247 - Em seu voto no julgamento do dossiê do governo Jair Bolsonaro sobre antifascistas, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, fez uma crítica velada ao ex-ministro Sergio Moro.

Segundo Toffoli, "há pessoas" que trabalham para criar inimigos e afastam pessoas da vida pública de olho em "galgar" eleições futuras, em referência à perseguição promovida pelo ex-juiz contra o ex-presidente Lula, inviabilizando a candidatura em 2018 de uma das maiores lideranças brasileiras.

"Há muitas pessoas que aparecem muitas vezes na imprensa bem na foto, mas são péssimas na vida pública e nas vidas que elas têm, criando fundos para administrarem, criando inimigos políticos para depois serem candidatos e afastando pessoas da vida pública, querendo galgar depois eleições futuras. Eu já disse isso e não preciso repetir, para bom entendedor meia palavra basta", disse Toffoli.

 

30
Jul20

Perversa desigualdade social escancarada pela pandemia

Talis Andrade

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VI - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Conclusão

O momento político atual pode ser resumido por duas constatações:

1 - a pandemia acelerou a mudança de conjuntura, com Bolsonaro e o seu governo passando prioritariamente a se defender, enquanto as forças antifascistas assumiram a ofensiva; e

2 - apesar disso, Bolsonaro e o seu governo demonstram ainda capacidade de resistência, que pode ser vencida se a ofensiva antifascista não esmorecer, não cair no atual “canto da sereia” de Bolsonaro de que tem a intenção de se conciliar com os outros poderes da República.

A resiliência de Bolsonaro e de seu governo, que está lhe dando uma sobrevida, apesar de todas as barbaridades já cometidas, decorre de múltiplas fontes, sendo as três primeiras, na prática política concreta, inseparáveis: 1- acima de tudo, dos interesses do grande capital contemplados nas reformas e políticas neoliberais encaminhadas pelo Ministro da Economia; 2 - da tática camaleônica da direita neoliberal (que exerce uma oposição seletiva ao governo Bolsonaro); 3 - da preocupação dos dois sujeitos anteriores com o protagonismo das forças políticas antifascistas e antineoliberais (identificadas como o inimigo estratégico principal);  4 - da existência de um movimento neofascista atuante e belicoso, embora em processo de enfraquecimento; 5 - da identificação e apoio da extrema direita militar tradicional, sempre projetando o seu desejo de tutelar a sociedade através da ameaça de uma intervenção; 6 - do comprometimento das principais igrejas evangélicas neopentecostais com ambas as faces do governo Bolsonaro: o neofascismo e o neoliberalismo e 7- da falta de uma forte convicção das forças de esquerda de que, de fato, já passou a hora de parar Bolsonaro e o seu governo – embora haja, retoricamente, esse consenso entre elas.

Portanto, se está diante de uma situação muito complexa, reforçada mais ainda com a recente aproximação de Bolsonaro e a “velha política”, o onipresente e famigerado Centrão – agora em sua versão mais baixa. Por tudo isso, embora Bolsonaro se encontre momentaneamente nas cordas, o jogo ainda está sendo jogado. A superação de sua resiliência, que levará a sua queda e, principalmente, implique uma saída favorável às forças populares, não será resultado apenas das ações da direita neoliberal – comprometida, em última instância, com esse governo.

Embora essas ações (efetivadas, principalmente, através do protagonismo do Judiciário e da mídia corporativa, além de decisões e medidas do parlamento), sejam importantes para fustigar, isolar e impor limites à Bolsonaro e ao seu governo, colocando-os na defensiva, o “xeque mate” político só poderá resultar, em última instância, da capacidade das forças antifascistas e antineoliberais de conseguir ganhar corpo e organização, aglutinando e dirigindo, em um movimento de rua, a ampla maioria da sociedade brasileira – vítima da violência política-econômica-social-racial-cultural do governo neofascista-neoliberal de Jair Bolsonaro.

De qualquer sorte, para além da atual conjuntura, o futuro pós-pandemia, no mundo e também no Brasil, não será simplesmente um retorno à situação anterior. Antes de tudo, o combate ao vírus evidenciou, claramente, a importância de se ter um sistema público de saúde universal, efetivamente aparelhado e funcionando. Também evidenciou, num plano mais geral, e mais do que nas anteriores crises econômicas estrito senso, a importância fundamental do Estado e de suas políticas para reduzir os seus efeitos mais deletérios e garantir a sustentação e o apoio aos mais vulneráveis.

Subjacente às duas evidências, uma terceira se impôs: o mantra neoliberal de que “o Estado não tem dinheiro” (daí o permanente ajuste fiscal e as políticas de austeridade), como se ele fosse semelhante a uma empresa ou família, caiu por terra. Em todos os países, os respectivos Estados criaram (fabricaram) dinheiro e gastaram, utilizando-se de políticas fiscais e monetárias. Até o FMI, através de um dos seus relatórios mais recentes, propõe uma política de déficit fiscal para enfrentar a recessão mundial em andamento.

Todas essas evidências, assim como a perversa desigualdade social escancarada pela forma diferenciada como o vírus atingiu diferentes segmentos da população, estarão, provavelmente, no centro do debate e das disputas políticas futuras – contribuindo para aprofundar a crise de hegemonia do neoliberalismo.

29
Jul20

5 - As forças políticas antifascistas e antineoliberais

Talis Andrade

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V - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Mas é necessário destacar uma quarta constatação óbvia: as distintas frações da burguesia não são os únicos sujeitos da conjuntura, nem esta se move exclusivamente pelas suas ações e sob o seu controle. As forças políticas antineoliberais e verdadeiramente, por princípio, antifascistas, embora ainda sem ter (longe disso) a direção do processo de derrubada de Bolsonaro e de seu governo, se recuperaram do seu grande abatimento político e moral – que vinha desde o golpe de 2016 – e passaram a acreditar que isso é possível e necessário. Embora a pandemia dificulte a sua capacidade de articulação e mobilização, atrasando a constituição de um movimento de massa nas ruas que seja decisivo para a retirada do fascista, isso tenderá a ser concretizado na medida em que o vírus comece a dar uma trégua.

Além disso, já há um consenso, pelo menos retoricamente, entre as diversas correntes desse campo político de que não se pode esperar a eleição de 2022 para derrotar Bolsonaro nas urnas. A pandemia, sempre ela, inviabilizou essa tática: tirar o fascista o mais rápido possível passou a ser visto como uma questão de vida ou de morte. A demora em se chegar a esse consenso e, agora, expressá-lo em ação política também vem contribuindo, involuntariamente, para a resiliência de Bolsonaro e de seu governo.

Essa demora na ação política das forças antineoliberais e antifascistas está associada a um problema importante, que precisa urgentemente ser equacionado: o fato de elas não terem conseguido ainda constituir uma unidade em torno de “com quem e como” caminhar na luta contra Bolsonaro. Daí o debate acerca de qual o tipo de frente a esquerda deve construir, organizar, mobilizar e/ou aderir: frente ampla, frente (única) de esquerda ou uma combinação de ambas ao mesmo tempo? E qual o significado, a natureza, o conteúdo e o objetivo de cada uma delas? Frente democrática e/ou frente antifascista?

A resposta não é fácil de ser dada. Por um lado, é muito importante a constituição de um leque de forças suficientemente amplo, que concorra para a derrubada de Bolsonaro o mais rápido possível; mas, de outro, não se pode desconhecer o que é fundamental e prioritário para as distintas frações do capital e os seus prepostos – presentes na grande mídia corporativa e nas diversas Instituições do Estado e esferas da sociedade. Basta ver o que o Congresso Nacional e o STF têm aprovado e legalizado, em plena pandemia, aproveitando-se dela: Medidas Provisórias, Decretos e Projetos de Lei que continuam viabilizando e implementando a agenda neoliberal, estrutural e de longo prazo, do grande capital – como, por exemplo, a continuação da Reforma Trabalhista, com a retirada dos sindicatos das negociações agora individualizadas; a privatização do saneamento já mencionada; e o ataque aos serviços e servidores públicos, com congelamento de salários, concursos e progressão nas carreiras. Tudo justificado pela urgência da crise sanitária; na verdade, o início da chamada “Reforma Administrativa” já anunciada antes da pandemia.

Adicionalmente, também não se pode ignorar a tática da direita neoliberal com relação a Bolsonaro, que visa antes encurralá-lo e controlá-lo do que derrubá-lo de fato, assim como o tipo de saída que ela propõe e que melhor atende a seus interesses. Contudo, até aqui, ela é a protagonista maior da oposição a Bolsonaro, a força política que tem a iniciativa e está dirigindo e manobrando esse processo. Se depender dela, e do grande capital, Bolsonaro só cairá em última instância – se, de fato, tornar-se um empecilho incontornável à execução da agenda neoliberal.

Portanto, a queda de Bolsonaro, e o tempo e a forma como isso ocorrerá, dependerão de o campo político antineoliberal e antifascista constituir-se como uma força independente robusta, que tenha capacidade de disputar a direção desse processo. Isto exigirá, entre outras coisas, a construção e organização de um grande movimento de massas de rua antifascista e pela derrubada de Bolsonaro. Com isso, o dúbio e vacilante comportamento da direita neoliberal, de oposição seletiva e claudicante ao governo Bolsonaro, será colocado em xeque. A questão central é se esse campo político conseguirá responder ao problema combinando, ao mesmo tempo, independência e capacidade de aglutinação e direção; na prática isso definirá os rumos e os desdobramentos da conjuntura política e econômica do país. (Continua)

28
Jul20

4- As classes dominantes e o Governo Bolsonaro

Talis Andrade

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IV - Retrato do Brasil, em impasse perigoso

por Luiz Filgueiras e Graça Druck 

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Contudo, de um ponto de vista que vá além dos acontecimentos políticos mais visíveis e aparentes, é fundamental reconhecer os movimentos conjunturais das classes sociais dominantes e suas distintas frações – que viabilizaram a vitória eleitoral de Bolsonaro, identificando as que continuam acompanhando-o irrestritamente e aquelas que passaram a se opor e criticar, mas que ainda apoiam, seletivamente, o seu governo. Essa é uma variável decisiva para o desenlace do processo, mas muito mais difícil de ser compreendida.

A pandemia trouxe à tona duas posições e comportamentos antagônicos, que cortoaram a sociedade de cima a baixo, inclusive no que concerne a distintas frações do capital: de um lado, os favoráveis ao isolamento social, que reconhecem que se pode contemplar tanto o combate à pandemia (objetivo primário) quanto a defesa da economia e, de outro, a defesa prioritária do funcionamento pleno da economia, combinada com o “isolamento vertical” (isolamento apenas dos grupos de risco). Como de praxe, os interesses imediatos das distintas frações do capital (no caso, prejudicados ou favorecidos, de um lado, pela pandemia e o isolamento social e, de outro, pelas medidas do governo ou a ausência delas) definiram os seus respectivos posicionamentos e comportamentos.

No que se refere ao que se poderia reconhecer como sendo o capital comercial e de serviços, que abrange um enorme e heterogêneo espectro de atividades e negócios – historicamente com a predominância de relações de trabalho mais precárias que na manufatura –, o apoio a uma ou a outra posição não pode ser identificado claramente a partir exclusivamente desse recorte – como se o mesmo constituísse um bloco monolítico. Embora haja uma tendência maior desses capitais de se alinharem com a segunda posição – especialmente os segmentos de pequenos e médios empresários, em virtude da maior dificuldade para enfrentar a crise –, existem também parcelas importantes que apoiam a primeira posição e são críticos de Bolsonaro e de seu governo.

O mesmo vale para distintos segmentos do agronegócio e da indústria, nos quais também não se consegue identificar um comportamento homogêneo dos capitais aí presentes; o que decorre da pulverização de interesses diferenciados relacionados ao tipo de atividade desenvolvida (tipo de produto e destino da produção) e ao tamanho e origem (nacional, estrangeiro ou associado) dos capitais.

Talvez apenas no caso do capital financeiro estrito senso se possa identificar o que se poderia chamar de um comportamento mais homogêneo, de natureza pragmática, que apoia e critica pontualmente, conforme o governo Bolsonaro facilite ou dificulte o encaminhamento da agenda neoliberal; e que na pandemia, por razões quase que óbvias (possibilidade de funcionar com trabalho remoto e manterem as relações com os clientes-consumidores através de plataformas digitais), apoiou o isolamento social.

No que concerne ao grande capital em geral (independentemente de sua origem e do setor de atividade no qual atua), uma primeira constatação: a defesa e execução das reformas e políticas econômico-sociais neoliberais, com a destruição dos direitos sociais e trabalhistas conquistados desde os anos 1930 e ampliados na Constituinte de 1988, unificam todas as frações da grande burguesia, sem exceção. Esse consenso soldou os seus mais diversos interesses no apoio, quase unânime, ao golpe judicial-parlamentar-midiático que construiu e executou o impeachment da presidente Dilma Roussef e, na sequência, sustentou o governo Temer e apoiou a eleição de Jair Bolsonaro – o neofascista neoliberal de ocasião. Esse consenso se constitui na principal razão que explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo, apesar de todas as barbaridades e insanidades já cometidas.

Uma segunda constatação, decorrente da anterior: a derrubada de Bolsonaro não é uma questão de princípio, nem inevitável, para qualquer fração da grande burguesia (outra razão explicativa para a sua resiliência e de seu governo); na verdade, o “melhor dos mundos” para qualquer uma delas seria mantê-lo até 2022, desde que ele se aquiete, suspenda a “guerra cultural” e pare com as ameaças mais explícitas às instituições e ao Estado de Direito. Em suma, desde que venha a ser possível enquadrá-lo e domá-lo, desde que ele não dificulte, não atrase e nem atrapalhe o encaminhamento da agenda neoliberal (reformas e políticas). A ameaça crescente de criminalização dele e de sua família, com a consequente possibilidade de abertura de um processo de impeachment, objetivamente se constitui em uma arma para controlá-lo; funcionando como uma espécie de chantagem.

No final de junho Bolsonaro, claramente amedrontado, começou a emitir sinais, e suposta intenção, de compor com os outros poderes da República. Caso isso não se viabilize, o que é provável, tendo em vista a natureza e o comportamento histórico do fascista (com recuos táticos momentâneos para poder recompor suas forças e depois retomar o ataque), o vice-Presidente Mourão pode se constituir no “Plano B” do grande capital. A pior saída para as classes dominantes seria a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, em virtude de fraudes cometidas na eleição de 2018; porque implicaria uma indesejável nova eleição, que anteciparia a disputa programada para 2022.

Isso nos remete a uma terceira constatação, decorrente das duas anteriores e que também explica a resiliência de Bolsonaro e de seu governo: o inimigo maior, estratégico, da grande burguesia é a esquerda antifascista e, principalmente, antineoliberal. O golpe de 2016, apesar de expressar uma disputa entre distintas frações da burguesia, foi, sobretudo, contra a esquerda, no seu sentido mais amplo, e pela retomada da agenda neoliberal. A eleição e o governo de Bolsonaro foram o seu desdobramento necessário. É por isso que os prepostos do grande capital – na mídia, no judiciário e no Congresso – criticam ou apoiam e aprovam, seletivamente, o comportamento de Bolsonaro e as ações de seu governo: duras críticas àquelas relacionadas à “guerra cultural” e ao autoritarismo mais explícito, mas efusivo e entusiástico apoio às medidas econômicas “pró-mercado” – como a recente aprovação pelo Congresso Nacional da possibilidade (para alguns a obrigatoriedade) de privatização da área de saneamento básico do país (água, esgoto etc.).

A constatação anterior também explica porque não há qualquer autocrítica do grande capital, e mesmo da classe média alta, com relação ao golpe efetivado com o impeachment fraudulento da então presidente Dilma Roussef; e muito menos o reconhecimento de que Bolsonaro e o seu governo foram o seu corolário necessário – mesmo quando os seus prepostos se dizem arrependidos de terem votado e acreditado no fascista, com muitos deles fingindo que não sabiam ou não tinham ideia de suas intenções e do que ele seria capaz. Assim, o comportamento padrão é sempre o de imputar ao PT e a seus governos a responsabilidade pelos eventos que desembocaram na eleição de Bolsonaro e no seu governo ou, no máximo, assumir uma explicação qualquer ad hoc; não há qualquer dilema de consciência ou de culpa com relação à crescente tragédia sanitária que vem ocorrendo, que tem tido a contribuição fundamental de Bolsonaro e o seu governo. (Continua)

11
Jun20

Peça 5 – o fantasma da ANTIFA

Talis Andrade

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V - Xadrez da guerra híbrida dos generais de Bolsonaro contra o País

Luis Nassif
GGN
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O site Defesa.net é o principal porta-voz dos grupos mais radicais. E reflete melhor o pensamento mais anacrônico dos militares do Palácio.
 
O artigo “O que você precisa saber sobre os protestos violentos para não ser idiota”, do coronel Fernando Montenegro, apresentado como  das Forças Especiais do Exército, comandante da Ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, é significativo desse pensamento linha dura. Como sua análise das manifestações americanas:
 

“Mesmo com a rápida ação do Estado americano na repressão aos policiais, uma onda de protestos violentos foi desencadeada. O grupo que está por trás das ações extremistas é a ANTIFA, organização de extrema esquerda, que normalmente também usa camisas negras e é patrocinada pelo especulador e globalista internacional George Soros para disseminar ódio e violência. Nesse caso, o que interessa é promover o caos, não interessando se talvez o mesmo tipo de abordagem desastrada poderia ter sido feito em um branco, o importante é divulgar uma narrativa de que houve racismo”.

Nos comentários, leitores tentam enquadrar o Movimentos dos Sem-Terra nos grupos terroristas abrigados na ANTIFA.

Em outro artigo, o General de Exército da reserva, Carlos Alberto Pinto Silva, Ex-comandante do Comando Militar do Oeste, do Comando Militar do Sul, sintetiza bem o pensamento dos militares de Bolsonaro:

“Estão acontecendo atividades de desestabilização do governo para a tomada do Poder por meio, entre outros, dos seguintes fatos

– obrigar o governo a se curvar frente ao sistema político e a burocracia derrotada em outubro de 2018;

– ensaio de um  caos político com a tentativa de desestabilizar o governo, e com um caos econômico e social como consequência da Pandemia, fazendo com que a dúvida e a insegurança dominem todas as ações e a nossa capacidade de indignar-se e reagir;

– distorção da realidade política do Brasil coloca a responsabilidade em tudo que acontece no atual governo;

– campanha midiática, contrária ao governo, planificada e constante no campo interno e externo, reforçada agora em época de Pandemia;

– algumas empresas da mídia adotaram explicitamente o papel de antagonistas ao governo, e estão fazendo de tudo para desestabilizá-lo, o que querem é o retorno da posição que ocupavam no passado, o que não vai acontecer se o Presidente Bolsonaro continuar no Poder;

– críticas ao governo por membros do Poder Legislativo e do Judiciário, que podem ser interpretadas como interferências indevidas no Poder Executivo;

– possibilidade de ações de agroterrorismo para prejudicar a economia e colocar a culpa no governo;

– constante ameaça de impeachment feita por políticos[6] e membros da sociedade, e,

– frequente interferência do Poder Judiciário em seara que não lhe compete. (Continua)

07
Jun20

PM fascista do Distrito Federal bloqueia manifestação democrática na Praça dos três Poderes

Talis Andrade

povo brasília 7 junho.jpeg

 

 

247 - Os manifestantes que participam do ato contra o governo Jair Bolsonaro, o racismo e o fascismo no Brasil, neste domingo (7), foram impedidos de chegar à Praça dos Três Poderes por um forte aparato de segurança montado pela Polícia Militar do Distrito Federal, ao contrários dos manifestantes favoráveis ao ex-capitão. Na manifestação favorável a Bolsonaro, os participantes portavam faixas pedindo intervenção militar. 

cordào fascista.jpeg

 

G1 - Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, os integrantes da marcha antifascista começaram a manifestação por volta das 9h, em frente à Biblioteca Nacional. Em seguida, o grupo – estimado em milhares de pessoas, uma vez que a Policia Militar não divulgou a estimativa dos participantes do ato – seguiu margeando a Esplanada dos Ministérios e retornou ao local de início. 

O grupo que se intitulava "a favor da democracia" entoou palavras de ordem. Os manifestantes, em sua maioria, usaram máscara de proteção facial.

Houve ainda a distribuição gratuita de máscaras, que são obrigatórias no Distrito Federal. Água, sabão e álcool em gel também eram entregues em um espaço chamado de "ponto anticovid".

Os manifestantes carregaram faixas e bandeiras com dizeres contra o racismo, antifascismo, pela democracia, por respeito às mulheres e em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). Alguns, vestindo jalecos brancos, representaram os profissionais de saúde e carregaram cruzes pretas em sinal de luto.

Outros cartazes também faziam referência ao "Estado genocida" e destacavam que "vidas negras importam". Torcedores do Corinthianscarregavam faixas pedindo respeito às mulheres.

 

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