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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

19
Nov20

Quem é o pai de governadora de SC, professor de história que negava holocausto

Talis Andrade

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e textoA imagem pode conter: texto que diz "DENÚNCIA Não é uma simples opinião quando encoraja Racismo e Ameaças 2IR5 petiata no novamente Em resposta agora só falta gente m4t4r el4 e entrar o suplente que branco OPT nie deverie fizeram com e nOsse mais Por tudo que ANA LÚCIA MARTINS VEREADORA Não compartilhe publicações racistas,machistas οU ameaças DENUNCIE!"

Os sindicatos em solidariedade a primeira mulher negra, eleita vereadora de Joinville, professora Ana Lúcia Martins, que vem sofrendo ameaças de morte, denunciou:

Mais um desses crimes no Paraíso Nazista, que Santa Catarina se transformou: Lugar de inseguranças físicas e morais, para as vidas das pessoas negras

Santa Catarina era macabra, exótica e humilhantemente conhecida pelos movimentos nazistas e racistas que, como erva daninha, parasita, sempre reaparece, como acontece hoje no governo de Daniela Reinehr, eleita pelo PSL, que abandonou.Daniela aparece de perfil, com painel atrás dizendo 'Governo de Santa Catarina'

Governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido) titubeou ao ser perguntada por jornalista sobre passado do pai. Foto Mauricio Vieira

 

Escreve Hyury Potter, de Florianópolis para a BBC News:

O passado do pai entrou na agenda da atual governadora interina de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido), fazendo com que ela emitisse uma nota à imprensa, (29/10), afirmando ser "contrária ao nazismo".

O posicionamento veio depois de a governadora se recusar a responder a um jornalista, (27/10), se concordava com a visão de seu pai, Altair Reinehr, professor aposentado que tinha sido colaborador de uma editora especializada em livros de teor antissemita que negavam o holocausto e outros crimes da Alemanha nazista.

Era a primeira entrevista coletiva concedida por Daniela, que acabara de assumir o governo após o Tribunal Especial de Julgamento afastar o governador Carlos Moisés (PSL) por até 180 dias, para que este responda por crime de responsabilidade no caso do reajuste salarial dos procuradores do Estado. Arrolada no mesmo processo, Daniela foi absolvida.

Altair é conhecido em Maravilha, pequeno município do extremo oeste catarinense, por defender ideias nazistas. Ele também defendeu na Justiça o diretor da editora Revisão, que publicava livros antissemitas nos anos 1980 e 1990.

Até se aposentar em 1998, Altair Reinehr lecionava história para crianças da escola estadual Nossa Senhora da Salete, em Maravilha, cidade catarinense com 26 mil habitantes, onde indicava a seus alunos livros de conteúdo antissemita da editora Revisão, aponta a antropóloga doutora pela Unicamp, Adriana Dias, que pesquisa sobre nazismo no Brasil há mais de 20 anos.

"Altair indicava livros da editora Revisão em sala de aula para crianças, isso é muito grave. Durante a minha pesquisa, conversei com alguns alunos que confirmaram que os exemplares eram de negação do holocausto, algo que ele mesmo mencionava nas aulas", disse a pesquisadora.

Ex-sindicalista da categoria, Reinehr chegou até a atuar na organização de greves dos professores na década de 1980. Em 1985, foi presidente da Associação de Professores de Maravilha. Ao mesmo tempo que defendia melhores condições de trabalho para os professores, o catarinense negava crimes da Alemanha nazista.

Para o professor de história, tudo não passou de uma "lenda" criada para ocultar crimes de guerra dos Aliados, de acordo com texto assinado pelo próprio Reinher e publicado no jornal A Notícia, de Joinville, em 2005.

A pesquisa da antropóloga Adriana Dias mostra que Reinehr chegou a colaborar com textos para a editora, criada em 1987 e que pertencia ao antissemita confesso Siegfried Ellwanger Castan (1928-2010). A publicação de livros que afirmavam que "quem sofreu com o holocausto foi o povo alemão" resultou em uma condenação por crime de racismo no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A decisão foi depois confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2002, quando teve grande repercussão na imprensa.

No julgamento do STF, ministros leram trechos de livros da editora de Castan, que também era autor de obras favoráveis ao regime hitlerista. O ministro Maurício Corrêa chegou a citar o livro Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentira, onde Castan escreveu que "os únicos gananciosos da Grande Guerra foram de fato os judeus".

Mesmo assim, o pai da governadora interina de Santa Catarina considerou que não havia qualquer indício de discurso racista, como ele afirmou em depoimento como testemunha de defesa de Castan. Na transcrição, é relatado que "Altair Reinehr, ao ser inquirido, declara ter lido todas as obras descritas na inicial, informando que nunca vislumbrou qualquer resquício de racismo a quem quer que seja. Diz nunca ter observado qualquer conduta racista do acusado".

Em 1998, a Justiça do Rio de Janeiro determinou o recolhimento de livros da editora Revisão na Bienal do Livro por conta do conteúdo antissemita. Dois anos depois, a participação de Castan na Feira do Livro de Porto Alegre também gerou protestos e um embate judicial.

Foto colorida desbotada mostra policiais e manifestantes em estande de bienal

Protesto da organização nuances - Grupo pela Livre Expressão Sexual contra a editora Revisão na Feira do Livro de Porto Alegre, em 2000

 
 

As sucessivas derrotas na Justiça brasileira, em diferentes instâncias, geraram a proibição dos livros antissemitas da editora Revisão. Mas até hoje é possível comprar exemplares em sites de livrarias virtuais.

"Em 2004, pouco depois do julgamento, lembro que vi livros da editora Revisão na banca no aeroporto de Salvador", conta Adriana Dias. "Avisei a Polícia Federal, o dono da banca foi detido, obrigado a retirar os livros e a pagar uma multa. São livros com conteúdo falso sobre a história e não deveriam ser vendidos, mas qualquer pessoa pode achar hoje em livrarias na internet, infelizmente."

Governadora muda discurso

Na coletiva realizada na manhã de terça-feira, o repórter Fábio Bispo, do The Intercept Brasil, perguntou à governadora interina Daniela Reinehr se esta concordava "com as ideias neonazistas e negacionistas sobre o holocausto" de seu pai.

Daniela evitou responder diretamente à pergunta e disse que "me cabe, como filha, manter a relação familiar em harmonia, independente das diferenças de pensamento".

O caso ganhou as manchetes de vários veículos de imprensa e também comentários em redes sociais, criticando o que consideraram uma "passada de pano" em ideias nazistas. A repercussão negativa fez Daniela se pronunciar novamente na quinta-feira (29/10), desta vez em nota*, onde diz ser "contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas".

A reportagem da BBC News Brasil questionou a governadora interina, através da assessoria de imprensa, se ela teria lido as obras da editora Revisão que o pai indicava aos alunos, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.

Foto no Instagram mostra Daniela ao lado de várias pessoas dentro de sala de aula, entre adultos e crianças, todos enfileirados olhando para foto

Postagem de março na conta de Daniela no Instagram mostra a governadora aparentemente ao lado do pai em visita à escola Nossa Senhora da Salete

 

'O Brasil não passou por uma desnazificação', diz pesquisadora

O assunto nazismo não chega ser novidade no Brasil, muito menos em Santa Catarina. Em sua pesquisa, Dias encontrou 334 células nazistas em atividade no Brasil, sendo 69 delas em Santa Catarina. A antropóloga diz que a eleição do presidente Jair Bolsonaro deu ainda mais espaço a esses grupos, que apregoam supremacia racial e religiosa.

"Há grandes semelhanças na forma como o nazismo usava a religião para controlar o povo e como o governo Bolsonaro usa as igrejas aqui. É inegável também que muitos grupos e pessoas perderam qualquer pudor em expor pensamentos antissemitas e preconceituosos. Há uma permissividade maior com esses atos", afirmou a pesquisadora.

Com 84% dos moradores se autodeclarando de cor branca, segundo o Censo 2010 — maior percentual do país — e com uma fatia significativa de descendentes de alemães vivendo em várias cidades —, partes de Santa Catarina parecem ser um terreno fértil para a circulação de ideais simpáticos ao nazismo.

Contatado pela BBC News Brasil via whatsapp, Odair Batistello, diretor da escola estadual Nossa Senhora da Salete, onde Reinehr lecionou, não quis dar entrevista, mas enviou um áudio dizendo que o professor Reinehr é "um dos ícones da escola e que mais se identificaram com a [escola] Salete".

Em Blumenau, cidade do Vale catarinense que se orgulha de suas origens germânicas, um dos candidatos a vereador nestas eleições é Wandercy Pugliesi, professor de história conhecido por ter uma suástica pintada na piscina de casa e por ter dado o nome de Adolf ao filho.

Para Adriana Dias, o país inteiro possui células nazistas por conta da falta de uma divulgação adequada dos crimes praticados pelo regime liderado por Hitler.

"A Alemanha passou por um processo de desnazificação após a guerra, mas o Brasil não. Aqui alguns jornais falavam bem do nazismo até o governo Vargas determinar a mudança de posição. Então, do dia pra noite, os brasileiros mudaram de lado. É por isso que o nazismo é punido com rigor na Alemanha e aqui é algo aceitável", afirma Dias.

A reportagem da BBC News Brasil não conseguiu contato com o professor aposentado Altair Reinehr.

A governadora do Estado, Daniela Reinehr, disse que deve realinhar sua gestão ao governo do presidente Jair Bolsonaro e que revisará decretos sobre a pandemia, focando na retomada econômica. "Minha fala sempre foi de prevenção, de cuidado, mas sem prejudicar o setor econômico", disse. "Nunca fui a favor da generalização do fecha tudo. Eu acredito que precisamos cuidar dos doentes de acordo com o quadro clínico de cada um."

ÍNTEGRA DA NOTA DA GOVERNADORA INTERINA DANIELA REINEHR:

Antes de mais nada é preciso declarar que sou contrária ao nazismo, assim como sou contrária a qualquer regime, sistema, conduta ou posicionamento que vá contra os direitos individuais, garantias de segurança ou contra a vida das pessoas, e sinceramente, pensei ter deixado isso claro quando fui questionada durante entrevista coletiva concedida na terça-feira (27/10), independente das palavras usadas. Consigo entender a reação das pessoas ante o posicionamento que me imputaram, e principalmente porque isso aconteceu de forma injusta, a partir de uma atitude antiética, que apresentou um vídeo editado, com uma pergunta alterada. Sou amiga de Israel e dos Judeus, e qualquer ilação contrária não corresponde com a verdade.

Daniela Cristina Reinehr Governadora Interina do Estado de Santa Catarina

Florianópolis, 29 de outubro de 2020.

25
Jul20

A formação da personalidade autoritária

Talis Andrade

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O contexto social e político é decisivo. Mas que características psíquicas levam os indivíduos a ansiar por relações de poder baseadas na força bruta e na opressão?

por Rodrigo Duarte/ Outras Palavras

O crescimento e a difusão de posições políticas neofascistas e até mesmo a eleição de políticos de extrema-direita – como nos Estados Unidos, Reino Unido, Hungria, Brasil – conclamam as consciências democráticas do mundo todo a não apenas se contrapor politicamente ao fenômeno, mas também compreendê-lo e sobre ele refletir em profundidade. Esse tipo de reflexão sempre teve na Teoria Crítica da Sociedade um esteio importante, a partir da publicação, em 1944, de uma primeira versão da Dialética do esclarecimento, de Theodor W. Adorno e Max Horkheimer, para a compreensão em profundidade – e em detalhes – do autoritarismo. Naquele mesmo ano de 1944, uma obra não menos relevante começou a ser gestada, quando Adorno, ainda na condição de exilado nos Estados Unidos, foi chamado a coordenar um grupo de pesquisadores da Universidade de Berkeley com o propósito de realizar uma investigação inédita. O objetivo era identificar, em indivíduos considerados “normais”, elementos psíquicos que predisporiam sua adesão a posições políticas fascistas, não obstante o caráter “liberal” da democracia estadunidense. Essa pesquisa deu origem ao livro A personalidade autoritária, de autoria coletiva, publicado em 1950 e que tem sido considerado, desde então, um clássico da psicologia social. Uma obra que, de modo peculiar no momento presente, é revestida de enorme atualidade.

Embora os resultados da pesquisa tenham apontado para uma situação mais ampla que o preconceito em relação a judeus, o fato gerador da investigação foi um financiamento fornecido pelo Jewish Labor Committee estadunidense, que incluiu vários projetos sobre o assunto e influenciou também na inclusão do capítulo “Elementos do antissemitismo” na Dialética do esclarecimento. Além disso, havia também o “Projeto sobre o antissemitismo”, iniciado por Adorno e Horkheimer em 1941.  Tratava-se de um trabalho essencialmente teórico, embora retomasse a pesquisa empírica iniciada ainda na Alemanha e intitulada Estudos sobre autoridade e família. Ambas as investigações – considerando-se também o referido capítulo da Dialética do esclarecimento – serviram de ponto de partida para a contribuição de Adorno em A personalidade autoritária, como fica patente na declaração dos próprios autores da pesquisa de que o “antissemitismo foi o ponto de partida para a investigação sobre o caráter autoritário”.

Em A personalidade autoritária, destaca-se um ponto de vista ético-político — não escamoteado em prol de uma suposta “neutralidade” científica — no qual os autores contemplam a possibilidade de explicitar os pressupostos psicológicos para o desenvolvimento de uma racionalidade mais substantiva, superior à instrumental que ainda hoje predomina de forma quase absoluta. Vale observar que um importante pressuposto teórico da pesquisa é de que o fascismo, embora seja um fenômeno de massas, tem sua gênese numa predisposição psicológica dos indivíduos, na medida em que “um caráter maduro aproximar-se-ia mais de um sistema de pensamento racional do que um imaturo. […] Nisso baseia-se a convicção de que à busca pelos determinantes psicológicos da ideologia subjaz a esperança de que as pessoas possam se tornar mais racionais”. Levando em consideração a irracionalidade congenial às ideologias totalitárias, a esperança dos autores poderia ser igualmente determinante na consolidação de uma democracia mais plena.

Entre os pressupostos da pesquisa empírica – que incluía preenchimento de questionários, fornecimento de dados, respostas discursivas a questões projetivas, entrevista ideológica, entrevista clínica e Teste de Apercepção Temática – estava a ideia de que as pessoas que demonstram susceptibilidade extrema para a propaganda fascista têm muito em comum, enquanto as que a rejeitam enfaticamente diferem muito entre si. Além disso, os autores do estudo externam a convicção de que “o antissemitismo, mais do que em propriedades reais dos judeus, repousa em fatores subjetivos da situação geral do antissemita”.

Vale ressaltar que o papel determinante ou não da propaganda antidemocrática no posicionamento político das pessoas depende fortemente da atuação de poderosas comunidades de interesse econômico. Não por acaso, a escala F (de fascismo) de medição de tendências autoritárias, obtida com base em um dos quatro tipos de questionário aplicados, foi estabelecida por Adorno diretamente vinculada à influência da indústria cultural sobre os indivíduos. A consideração desse fato pode explicar, aliás, por que “nesses casos o indivíduo parece não apenas ignorar seus interesses, mas até mesmo agir contra eles; parece identificar-se com um grupo maior, como se indagações menos racionais dos próprios interesses determinassem seu ponto de vista”.

 O impacto determinante da indústria cultural no psiquismo dos indivíduos tem a ver com o fato de que o fascismo – diferentemente de outros regimes ditatoriais –, necessita de uma base de massa para ter sucesso como movimento político, o que significa que ele deve assegurar uma cooperação ativa, e não apenas uma submissão medrosa de amplos setores da população envolvida. Esse impacto ocorre porque a ideologia fascista veiculada pelos meios de massa corresponde à estrutura de caráter dos indivíduos integrantes dos mencionados setores, uma vez que “antigas expectativas, nostalgias, medos e inquietações tornam as pessoas receptivas a certas convicções e resistentes a outras”.

As características psicológicas que, de acordo com os autores, permitem aferir o grau de antissemitismo latente nos sujeitos da pesquisa foram: a) “convencionalismo”, ou seja, a fixação em valores aceitos de forma convencional e acrítica; b) “submissibilidade autoritária”, a qual designa a submissão completa e acrítica a um líder; c) “agressão autoritária”, que é a tendência do autoritário a punir pessoas consideradas outsiders; d) “anti-intracepção”, que significa uma reação extremada contra tudo o que é subjetivo ou imaginativo; e) “superstição e estereotipia”, que indica a crença na determinação mística do próprio destino; f) “pensamento de poder”, que designa a identificação completa com formas de poder; g) “destrutividade e cinismo”, que corresponde à hostilidade generalizada e gratuita; h) “projetividade”, a qual aponta para a projeção de pulsões sobre o exterior; i) “sexualidade”, que consiste na exacerbação no trato com processos sexuais.

Todas essas características, normalmente combinadas entre si em proporções diversas, constituem a alta pontuação de um indivíduo na escala F e, via de regra, estão relacionadas à integração defeituosa das leis morais em sua estrutura de caráter. Numa linguagem psicanalítica, dir-se-ia que a consciência ou supereu são imperfeitamente integrados no eu, entendido aqui como a unidade das funções de autocontrole e da autoexpressão do indivíduo. Pode-se supor, segundo os autores da pesquisa, que a internalização fracassada do supereurelaciona-se com uma fraqueza do eu, com sua incapacidade de executar a integração necessária do supereu com o eu.

Praticamente todas as características mencionadas relacionam-se igualmente com a “fraqueza do eu”: com a anti-intracepção, porque o anti-intraceptivo extremo não ousa refletir sobre fenômenos humanos, na medida em que se encontra inseguro sobre sua própria identidade. A superstição e a estereotipia também se ligam a “hábitos de pensamento proximamente aparentados com o preconceito, na medida em que não podem impedir também a atividade espiritual no âmbito extraceptivo”.

Também à característica “pensamento de poder”, a qual se manifesta como demonstrações aparentemente gratuitas de força, “subjaz a hipótese de que a exibição exagerada de robusteza não apenas pode refletir a fraqueza do eu, mas também o peso da exigência posta a ele, isto é, dominar a intensidade de certas necessidades pulsionais, que são reprovadas pela sociedade.

No caso da variante “destrutividade e cinismo”, a fraqueza do eu se expressa na aceitação da agressividade extrema sem nenhuma forma de censura moral, o que remete, mais uma vez, à integração defeituosa do super-eu no eu. A variante “sexualidade” subjaz a quase todos os comportamentos associados à alta pontuação na escala F, uma vez que os distúrbios na economia psíquica dos indivíduos associam-se, como sugerido, a descaminhos das pulsões.

Tais descaminhos associam-se, por sua vez, à característica da “projetividade”, cujo mecanismo exprime-se em conexão com a agressão autoritária. O autoritário tende a projetar seus impulsos reprimidos em outras pessoas, a fim de prontamente acusá-los: “Projeção é, portanto, um meio de manter pulsões do isso alheias ao eu e pode ser considerada um sinal de incapacidade do euem preencher suas funções”.

Para concluir, pode-se dizer que a atualidade das contribuições de A personalidade autoritária fica patente até mesmo se cotejamos a caracterização feita do “pontuador alto” na escala F com a dos neofascistas brasileiros, inclusive com seu “chefe supremo”: são convencionais, submissos ao líder, agressivos, “extrospectivos”, supersticiosos, identificados com o poder autoritário, destrutivos e “projetivos” – podendo-se reconhecer em todas essas características um subjacente descaminho das pulsões sexuais.

 

04
Jun20

O Holocausto e o racismo de Abraham Weintraub

Talis Andrade

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II - Comparações descabidas com nazismo desvalorizam memória do Holocausto

Paula Adamo Idoeta entrevista Avraham Milgram

 

BBC News Brasil - O ministro da Educação, Abraham Weintraub, comparou a Noite dos Cristais com uma operação da Polícia Federal. Como isso costuma ser visto por pessoas que viveram o Holocausto e por pessoas que o estudam?

Avraham Milgram - Essa declaração é totalmente absurda e inconsequente do ponto de vista histórico e da memória do Holocausto. Essa projeção da Noite dos Cristais, de 1938, para o que o ocorreu (na operação autorizada pelo) Supremo Federal Tribunal e o Bolsonaro é totalmente descabida.

Esse assunto não teve repercussão aqui em Israel, porque o coronavírus toma a atenção praticamente de tudo e porque o país está mais orientado aos EUA do que à América Latina. (...)

Mas em referência à Noite dos Cristais: foi o pogrom - evento violento de massas contra judeus que acabava com mortes e depredações. Ocorreu de 9 a 10 de novembro de 1938 em toda a Alemanha e foi um ato organizado pelo Partido Nacional Socialista, o único que havia, o partido de Hitler.

Foi algo coordenado a tal ponto que em toda a Alemanha, na Áustria e nos Sudetos Tchecos (região montanhosa entre República Tcheca, Alemanha e Polônia), já anexados, quase todas as sinagogas da maioria absoluta das comunidades foram queimadas, em um ato criminoso de caráter racial antissemita.

E no dia seguinte 30 mil judeus foram levados para campos de concentração.

Os negócios de judeus foram depredados e quebrados. Da quantidade de vidros que se encontrava nas calçadas vem o nome de Noite dos Cristais Quebrados.

Foi um evento impressionante na sua magnitude, porque ocorreu em todo o Grande Reich (Alemanha, Áustria e Sudetos) ao mesmo tempo, e era impossível que alguém não soubesse o que ocorria.

Só em Berlim foram queimadas 28 sinagogas, edifícios grandes, imponentes, e todo o mundo via a fumaça. Foi uma tragédia muito grande. (...) Mesmo para judeus liberais, as sinagogas eram o símbolo da identidade judaica.

Os judeus, a partir desse pogrom, esse episódio violento e trágico, entenderam que não havia mais o que fazer na Alemanha. Mesmo os judeus que tinham alguma esperança de encontrar seu lugar nessa nova ordem fascista-nazista se desiludiram e buscaram abandonar a Alemanha e eventualmente a Europa, e tentar visto de imigração para qualquer lugar do mundo.

Foi um evento que marcou a memória dos judeus, mas também dos alemães. Veja só: em todos os países se comemora uma vez ao ano a memória do Holocausto em 27 de janeiro, data da libertação de Auschwitz. Na Alemanha, o dia 9 de novembro é o dia mais simbólico da tragédia dos judeus alemães, devido às consequências e resultados da Noite dos Cristais Quebrados, além de ser também o dia em que Hitler tentou conquistar o poder, dia da rendição da Alemanha (na Primeira Guerra, em 1918) e da queda do Muro de Berlim. Uma concentração de efemérides.

A associação descabida do ministro da Educação é, na minha opinião, uma grande ignorância e porque ele buscou um símbolo muito forte para associar a instituição que ele queria desacreditar aos nazistas, que são o pior que havia e o pior que houve, e até hoje nenhum crime superou o dos nazistas - digo agora não apenas em relação à Noite dos Cristais, mas do processo de 1933 a 1945, com o assassinato da maioria dos judeus da Europa.

 

BBC News Brasil - O quão perigoso é se fazer comparações do tipo para a memória do Holocausto?

Milgram - É perigoso no sentido de desvalorizar a memória do Holocausto, desvirtua a essência do que houve em termos de atos anti-judaicos da Alemanha naquela época. E, por outro lado, engrandece e aumenta de forma exponencial um ato de caráter político local (brasileiro) destituído de essência racial, étnica, nacional e outras particularidades que há nas tendências genocidas nazistas.

É perigoso no sentido da falta de proporção, de conscientização e de honestidade intelectual, de comparar duas coisas incomparáveis sob qualquer ponto de vista.

Há aqui uma coisa perigosa, já que você usou o termo perigoso, do uso e abuso da memória do Holocausto, da história geral e anti-judaica em particular, para qualquer coisa.

Não digo que essa questão política não seja importante, de jeito nenhum. (...) Esse debate é importante na política brasileira. Respeito tudo isso. (O problema é) o uso, e principalmente o abuso pelo ministro da Educação - que precisa ser educado -, de falar uma aberração desse tamanho. (Continua)

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28
Fev20

O assobio do Bolsonaro à matilha

Talis Andrade

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por Jeferson Miola

 

O assobio do Bolsonaro à matilha tem similitude histórica com o processo de esgarçamento institucional, político e social por meio do qual Hitler se alçou ao poder e implantou o regime nazista na Alemanha dos anos 1930.

Ante esta realidade ameaçadora, é preferível exceder-se nas preocupações do que subestimar as tendências ditatoriais e militaristas que adquiriram contorno bastante nítido no início do 2º ano da barbárie bolsonarista.

Este artigo, escrito em 2 partes, pretende abordar o significado do assobio do Bolsonaro à matilha à luz da experiência histórica do avanço nazista. Afinal, o parentesco ideológico do bolsonarismo com o nazi-fascismo é cada vez mais notório. Não somente devido às semelhanças temperamentais e pessoais dessas 2 figuras abjetas que são Bolsonaro e Hitler, mas porque ambos representam saídas escolhidas pelas próprias classes dominantes em momentos de crise do capitalismo.

Parte 1 – o incêndio de Reichstag, a adesão da burguesia e o ascenso de Hitler

No livro A ordem do dia, o escritor francês Éric Vuillard ilustra como a adesão política e financeira de líderes empresariais e dirigentes de grandes indústrias foi fundamental para a ascensão de Hitler e dos nazistas ao poder.

Vuillard mostra que atuais multinacionais alemãs como Allianz, Basf, Bayer, Thyssenkrupp, Opel, Krupp [atualmente ThyssenKrupp] e Siemens corresponderam aos apelos de Hitler e doaram dinheiro para a campanha do Partido Nazista no pleito de novembro de 1932.

Naquela eleição parlamentar, o Partido Nazista obteve a maior votação proporcional, porém não suficiente para indicar Hitler como Chanceler [Primeiro-Ministro] da Alemanha. Mas em 30 de janeiro de 1933, com o apoio e a pressão da burguesia alemã, Hitler ascendeu ao cargo.

O incêndio de Reichstag [Parlamento alemão] na noite de 27 de fevereiro de 1933, falsamente atribuído ao Partido Comunista [PC], foi aproveitado por Hitler para consolidar seu poder e, assim, avançar na implantação do regime nazista. “Se esse incêndio tiver sido obra dos comunistas, como acredito, precisamos exterminar essa peste assassina com punho de ferro”, alardeava o Führer.

De acordo o ministro de propaganda nazista Goebbels o objetivo era, “por meio do incêndio e do terror, causar tumultos e, em meio ao pânico geral, tomar o poder”. E de fato foi o que aconteceu à continuação, com a consolidação da ditadura nazista que, poucos anos depois, arrastou o mundo aos horrores da 2ª guerra mundial.

Na mesma noite do incêndio de Reichstag, parlamentares, funcionários e dirigentes do PC foram ilegalmente presos e torturados pelas SA, as milícias paramilitares nazistas, em prisões clandestinas, onde alguns deles morreram em consequência dos suplícios sofridos.

No dia seguinte, 28 de fevereiro, no embalo da propaganda nazista da “ameaça comunista”, o presidente Paul Von Hindenburg assinou Decreto que extinguiu a liberdade de imprensa, de expressão e de reunião; proibiu jornais independentes e autorizou a intervenção do governo central nos governos regionais para “garantir a paz e a ordem”.

O Decreto foi uma arma sob medida para Hitler ampliar a perseguição e aniquilamento dos seus “inimigos”. Estudos documentam que em abril de 1933, menos de 2 meses depois do incêndio, cerca de 25 mil pessoas haviam sido detidas. Muitas delas, inclusive, em campos de concentração.

A “ameaça comunista” serviu como anestésico para a população; mas, sobretudo, foi usada como insumo para a retórica agressiva das elites e da imprensa dominante contra a resistência e a oposição democrática e popular ao nazismo.

Nos anos posteriores, esta propaganda foi ampliada com o anti-semitismo, o racismo aberto, a misoginia, preconceitos e perseguições de toda ordem, levando ao holocausto milhões de pessoas, principalmente judeus.

Com a imprensa burguesa funcionando como repetidora da retórica nazista e com a imprensa independente proibida, grande parte da população se convenceu que o PC tentara um golpe e que Hitler salvaria o povo alemão da “ameaça comunista” e da degradação racial.

O jornalista britânico Chris Harman no livro Trotsky – Como esmagar o fascismo, anota que mesmo com o avanço do terror nazista, “os líderes sociais-democratas decidiram que como Hitler havia chegado ao poder ‘legalmente’, eles não poderiam agir agora”.

Estes setores iludiam-se que “diante do governo e suas ameaças de golpe de Estado, os sociais-democratas e toda a Frente de Ferro mantém-se firme no solo da Constituição e da legalidade’ [sic]”.

O autor afirma ainda que “Apesar das contínuas ameaças, seus líderes faziam discursos corajosos no Reichstag – e depois garantiam que a oposição ao governo nazista seria ‘constitucional’”.

A candura da maioria do Reichstag e a complacência da social-democracia e da elite com Hitler – considerado o antídoto eficaz ao comunismo – cobrou um altíssimo preço histórico. As cicatrizes da crueldade e da barbárie nazista ficarão inapagáveis por toda a eternidade da existência humana.

No ensaio O que é o nazismo, escrito em 1934, Trotsky foi profético ao interpretar o nazismo como hipótese totalitária intrínseca ao próprio capitalismo em momentos de crise exacerbada e que, em vista disso, conta com a adesão das oligarquias dominantes e suas distintas frações:

Absolutamente falsas são as esperanças de que o governo Hitler cairá amanhã, se não hoje, vítima de sua incoerência interna. Os nazistas necessitavam de um programa para chegar ao poder; mas o poder serve a Hitler nem um pouco para aplicar seu programa. Suas tarefas são dadas pelo capital monopolista.

[…] O fascismo alemão, assim como o italiano, se ergueu ao poder nas costas da pequena-burguesia, que foi tornada bode expiatório contra as organizações da classe trabalhadora e as instituições democráticas. Mas o fascismo no poder é tudo menos o governo da pequena-burguesia. Pelo contrário, ele é a ditadura mais impositiva do capital monopolista.

Mussolini tem razão: as classes médias são incapazes de políticas independentes. Durante os períodos de grande crise, são invocadas a seguir os absurdos das políticas de uma das duas classes fundamentais. O fascismo conseguiu colocá-los a serviço do capital”.

A analogia da realidade brasileira com a tragédia da Alemanha dos anos 1930 alerta para a necessidade urgente de um padrão distinto de enfrentamento, para impedir que o Brasil tenha a mesma evolução insana com Bolsonaro. Antes que seja tarde demais.

[continua na parte 2]

 

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