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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil. As melhores charges. Compartilhe

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O CORRESPONDENTE

17
Mai22

"O tempo político de Eloy"

Talis Andrade

ELOY DE SOUZA – TOK de HISTÓRIA

 

Vou transcrever um texto de um jornalista completo: Woden Madruga, um cronista dos maiores. Da galeria de Antônio Maria, Rubem Braga, e dos dois Veríssimo: o de Natal e o de Porto Alegre.

Mando um cheiro para Woden via deputada Natália Bonavides, que não conheço pessoalmente, mas acompanho e registro sua intensa vida política.

Fiz a última entrevista de Eloy de Souza, duas páginas repletas de fotografias no jornal A República, cuja instalações gráficas modernizei, realizando a compra da impressora, com a exigência de que além de jornais editasse livros. Nenhuma placa registra o feito. 

De Dinarte, a confissão: "Não tenho o curso primário, mas vou criar a Universidade do Rio Grande do Norte".

Escreve Woden: O tempo político de Eloy
Atualizado: 14/05/2022
 
Na gaveta dos papéis desarrumados encontro um envelopão com várias cartas de Eloy de Souza (1873/1959) para o “majó” Theodorico Bezerra (1903/1994). São cartas originais, todas manuscritas, datadas entre os anos de 1945 a 1950 e enviadas do Rio de Janeiro, Natal e Nova Cruz. No meio delas há cópia datilografada de uma carta que o doutor Eloy escreveu para Dinarte Mariz e para o dr. José Augusto Bezerra de Medeiros. O mote principal dessa correspondência, claro, é a política. A política das décadas de 1940 e 1950, muita parecida com a atual, quase os mesmos bastidores (camarinhas) partidários de hoje. Transcrevo a carta na íntegra:
 
“Nova Cruz, 14/6/945
 
Caros Dinarte e José Augusto
 
Tenho refletido muito a respeito da nossa situação política no tocante, principalmente, á organização da chapa dos que nos devem representar na Câmara e no Conselho Federal. Se o interesse de todos é a vitória do pleito o meu sobreleva a qualquer outro, porque se fôssemos, por ventura derrotados ficaria privado do desejo e propósito e sepultar-me em nossa terra. De um tal desastre não escapariam as conquistas morais e materiais realizadas pelos ancestrais num esforço consciente de perpetuidade. Tudo soçobraria; e é preciso que não sossobre. Pela amostra que aí está podemos prever o que virá depois de tal calamidade se concretizar.
 
Assim sendo, devem vocês considerar o campo eleitoral e por indicações adequadas fortalecermos o êxito da campanha. É preciso olhar o Oeste e o Assú por circunstâncias que uma conversa pessoal melhor esclarecerá. Só não me considero inválido porque, mercê de Deus, ainda conservo a faculdade de auto-crítica que me aconselha e determina escrever-lhes estas linhas, que espero e conto serão lidas por vocês com a devida atenção.
 
De meditação em meditação cheguei a convicção de que devo por ponto final na minha atividade representativa, sem prejuízo da minha colaboração propriamente partidária em tudo que se possa e deva fazer para assegurar a nossa vitória agora e depois. Venho, pois, dizer-lhes que não sou candidato a nenhum mandato na representação nacional. Meu tempo passou. O mundo que vai nascer em nada se parece com aquele em que tenho vivido tão longamente. É possível, será bem certo, talvez, que sua organização corresponda melhor à felicidade humana. Seja, porém, como for, já não tenho saúde para ajudar os gigantes que vão empreender essa construção de proporções tão vastas.
 
Não lhes escrevo palavras, mas sim, lhes comunico uma resolução que respeitada muito mais me solidariza com os meus amigos e os seus bens propostidos. Sinto-me no dever de acrescentar que minha deliberação foi tomada de acordo com minha mulher para quem a minha renúncia completa a harmonia da minha vida pública.  Não fujo. Antes busco com a minha atitude fortalecer ainda mais minha autoridade combativa.
 
Abraços e saudades do velho e fiel amigo,
 
Eloy de Souza”.
 
No final da cópia da carta, Eloy de Souza acrescentou à mão: “Caro Theodorico: Uma parte desta carta talvez sirva para enfeitar o meu necrológio. Velho Eloy”. 
 
O Democrata 
 
No mesmo envelopão, entre as cartas, tem um recorte do jornal “O Democrata”, edição de 4 de dezembro de 1947, destaque para o artigo de Eloy de Souza com o título “Exemplo a ser imitado”, que traça o perfil de Theodorico Bezerra como político e empresário.
 
“O Democrata”, fundado em 1945, era o órgão do Partido Social Democrático, cujo diretório estadual tinha como presidente Theodorico Bezerra. Naquele ano de 1947, confiro no expediente do jornal, “O Democrata” era dirigido por Veríssimo de Melo; secretário, Joanilo de Paula Rego; redator-chefe, Esmeraldo Siqueira.
 
O primeiro diretor do jornal foi Rui Paiva. Passaram também pelo posto Romildo Gurgel, Antônio Pinto de Medeiros e Manoel Varela, entre outros. O jornal funcionava num sobradinho da avenida Duque de Caxias, esquina com a Praça Capitão José da Penha, do outro lado o Grande Hotel, de propriedade de Theodorico Bezerra, velha Ribeira de muitas e preciosas histórias.
 

- - -

Fui secretário do jornal "O Nordeste", dirigido por Romildo Gurgel, da campanha de Djalma Marinho a governador. E a alegria de algumas 'farras' com Antônio Maria e Veríssimo de Melo. 

28
Nov21

O Brasil perdeu a graça

Talis Andrade

antonio maria.jpeg

 

 

por Gustavo Krause

Sinto falta do Brasil acolhedor, solidário, inspirado no humor irreverente. Hoje, o País está intoxicado pelo veneno do ódio. Antônio Maria foi personagem de inesquecível geração de grandes talentos.

O título não idolatra o passado. Cada época tem graças e desgraças. Existem lapsos de tempo em que as civilizações brilham. Na Europa, a Belle Époque, (1870), apesar dos guerras mundiais, deixou traços indeléveis da Art Nouveau, do impressionismo e fortes marcas da cultura cosmopolita e hedonista.

No Brasil, estes anos dourados atingiram, de modo expressivo e diferenciado, Manaus, Belém, São Paulo, Minas, Salvador, Recife e o Rio de Janeiro, locomotiva dos novos tempos, encantadora e poderosa, tornou-se a eterna “Cidade Maravilhosa” batizada pelo escritor maranhense, Coelho Neto, transformada em hino pelo compositor André Filho.
Sinto falta do Brasil acolhedor, solidário, inspirado no humor irreverente. Este sentimento explodiu quando li Vento Vadio – As crônicas de Antônio Maria, (Todavia, 2021) débito impagável com Guilherme Tauil (das 185, 132, inéditas). Hoje, o País está intoxicado pelo ódio.As crônicas de Antônio Maria

Maria foi um “multimídia” avant la lettre. Teve o destino dos cometas hiperbólicos: brilho intenso e pouca duração. Morreu fulminado por um enfarte, em “casa”, a calçada de uma rua de Copacabana aos 43 anos (15/10/64, madrugada), como previra. Era um “cardisplicente”, distribuído no corpanzil de 1,80 e 120 quilos.

Filho de usineiro, abreviou outro destino: “Pai rico, filho nobre e neto pobre”. O pai especulou com o preço do açúcar: perdeu tudo. Com u´a mão na frente e outra atrás, Maria correu atrás do “pão dormido”: Recife/Rio/Recife/, Fortaleza, Salvador e Rio, seu palco iluminado.

O Rio de Janeiro atraia gente do Brasil inteiro. Muitos nordestinos. Maria, pernambucano, dividiu apartamento com os conterrâneos Fernando Lobo e Augusto Rodrigues. Aprontaram. Depois de muitos goles, disputaram uma prova de natação na banheira. Apartamentos inundados e os três despejados.

Os quatro verbos de Maria: amar, sofrer, esquecer e se divertir. O biógrafo Joaquim Ferreira dos Santos (Um Homem chamado Maria, Objetiva, Rio de Janeiro, 2006) relata fielmente a vida naquela época como uma aventura de apaixonados, encoberta pela frase imortal do biografado: “A noite é uma criança”.Imagem 1 de 1 de Livro Um Homem Chamado Maria

Ele torrava o maior salário da TV Tupi: 50 mil cruzeiros. Liso, comprou um Cadillac, carro chique, apartamento improvisado e espaço para escrever textos.

Sedutor irresistível. O antigalã sabia escutar as mulheres. O sucesso “Ninguém me ama” era um apelo infalível. Viveu três anos com a belíssima Danuza Leão, ex-mulher do patrão.

Seus frevos poéticos fizeram de Maria, Patrono da Academia Pernambucana da Boemia composta por “[…] trinta homens sentados […] trinta copos de chope, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados”.

- - -
Estátua Antônio Maria de Araújo Morais, no Recife Antigo. Foto Hugo Acioly
19
Mar21

Urariano Mota: Para o centenário de Antônio Maria

Talis Andrade

 

antônio_maria estatua recife.jpg

 

Ele poderia ter sido lembrado, reverenciado e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil

 

por Urariano Mota

- - -

Ele, o gênio da crônica brasileira, nasceu em 17 de março de 1921. Deveria ser lembrado todos os dias pelas canções, pelas crônicas, pelas frases espirituosas, pelo amor generoso que dividiu com as pessoas e cidades. Mas como não posso fazer muito, copio a seguir o seu perfil que escrevi no Dicionário Amoroso do Recife.

Antônio Maria, do Recife e do Mundo

Na Rua do Bom Jesus existe uma escultura de Antônio Maria. Não poucas vezes, andando pelo Recife, paro diante da figura do cronista fundamental. Ali a vontade que me assalta é a de chamar as pessoas que passam e com elas conversar sobre ele. Começaria por um “você sabe quem é?”, em lugar de um “você sabe quem foi”. No entanto, jamais poderia imaginar uma conversa involuntária que tive sobre Antônio Maria, impossível de reprimir.

Foi numa sexta-feira, por volta das 11 da manhã, quando eu caminhava pela Rua do Bom Jesus somente pelo prazer de voltar àquela rua, à qual tantas vezes fui na adolescência. Súbito, ao subir a calçada, eis que noto um aglomerado de senhoras e senhores, em pequeno tumulto ao redor da estátua de Antônio Maria. O que é isso? Me pergunto. E chego mais perto, como se de passagem eu parasse de repente. Então pude ver turistas, o que se notava pelas cores das roupas e vermelhão recente nas peles abrasadas. E por um certo estar muito à vontade também. As senhoras, como jamais fariam as nativas do Recife em público, as senhoras sentavam-se no colo da estátua do cronista, agitavam-se nos quadris e davam gritinhos. Antônio Maria não despregava um sorriso no concreto, enquanto as demais senhoras gritavam também e os risonhos senhores aplaudiam. Eu já deixava a cena como um intruso na festa, quando a um sinal o grupo se recompôs entre gritinhos que morriam. Destacado, passou então a falar um jovem, que se vestia como um recifense fantasiado de turista no Recife. Camisa florida, boné, óculos escuros, tênis cintilante.

Era o guia. Olhem, explicações a turistas em excursão, para os ouvidos de um nativo, são tediosas. Mas a fala do jovem guia tinha colorido, ele falava com exemplos de pedagogia de cursinho para vestibulares. Sabem? Aquelas aulas agradáveis que simplificam o que não pode ser simplificado. Curioso, resolvi ficar, e pude ouvir:

— Este senhor é meio gordinho, não é? Uma graça. Pois saibam que este homem é autor do primeiro frevo composto em Pernambuco.

Dicionário Amoroso do Recife.jpg

 

Eu fiquei parado, estático, hipnotizado e tonto. O jovem guia continuava a falar as coisas mais inverossímeis e absurdas sobre Antônio Maria, que eram recebidas em altíssimo grau de aprovação por todos. Nem passava pela cabeça de ninguém que o frevo tinha mais de cem anos – de registro em jornal –, e, portanto, Antônio Maria não poderia compor música nos primeiros anos do século 20. Pois Maria era genial, mas também tinha o direito de nascer depois do primeiro frevo de Pernambuco.

Na hora, essas razões não me acudiam, porque ninguém pesquisa em livros, artigos e anotações no instante em que fala. Apenas me socorri da memória, que me disse: “peraí, Antônio Maria não compôs Vassourinhas nem Borboleta Não É Ave”.  E fiz sinal, educado, ao guia professor de aulão para vestibulares. Ele surpreendido me concedeu a palavra, talvez por não saber o que viria de um nativo vestido de recifense. E falei, entre gaguejos e pausas, procurando clareza à medida que seguia a linha da lembrança:

— Acho que houve um pequeno engano. Antônio Maria não é autor do primeiro frevo em Pernambuco. Ele é autor do Frevo Nº 1 do Recife.

— Ah, ele é autor do primeiro frevo do Recife. Não é de Pernambuco. 

— Não, ele é autor do Frevo Nº 1 do Recife. Esse é o nome. É o número 1 de Antônio Maria, para ele que fez, entende?

— Ah…

E me senti então estimulado a continuar a conversa, porque grande era o desconhecimento do guia e guiados na Rua do Bom Jesus.

— Antônio Maria não é autor só de frevos. Ele compôs sucessos mundiais da música popular brasileira. Vocês já ouviram Ninguém me Ama? Pois é, Nat King Cole gravou a música e virou sucesso em todo o mundo. Não era pra menos, não é? Manhã de Carnaval — já ouviram falar? —, pois, é outra canção em que ele botou letra. Mas além de compositor, Antônio Maria foi, é um cronista dos melhores do Brasil de todos os tempos. Sabem quem diz isso? É Luis Fernando Veríssimo quem diz.

Danuza_Leão_Antônio_Maria.jpg

O casal Danuza Leão e Antônio Maria

 

“Bah!”, ouvi. Confesso que tive vontade de falar mais, de contar o amor e desengano de Antônio Maria por Danuza Leão, de transmitir suas frases espirituosas e, acima de tudo, falar daquelas crônicas imortais, escritas com os dedos transformados em coração. Uma coisa violenta e terna de pernambucano, que não põe meio termo. Mas aí era faltar à educação e misericórdia para com o guia. Puxei brusco um freio de mão e parei. O guia então, por gentileza, puxou aplausos. Acho que ele fez mais isso por gentileza ritual, algo assim como o costume recente de aplaudir de pé um show medíocre. O certo é que agradeci e saí andando, confuso e perturbado, o resto da rua.

Mas, o que não falei ali tentarei falar nestas linhas, atento aos limites do espaço.

O cronista Antônio Maria, falecido em 15 de outubro de1964, foi, é, um homem que todos deveriam ter como um companheiro de jornada e de leitura permanente. Não fosse ele o compositor de canções eternas como Frevo Nº 1 do Recife, como Ninguém me Ama, Manhã de Carnaval, Menino Grande, Suas Mãos, O Amor e a Rosa, Valsa de uma Cidade, não fosse o autor de um grito, “nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar”, não fosse ele o autor de letras que são a ternura em quintessência, ainda assim ele deveria ser lido todos os dias, como uma lição e dever para educar sensibilidades.

Numa coluna de revistas de curiosidades e fofocas, poderia ser dito que ele foi marido de Danuza Leão, roubada por ele do seu patrão, o grande jornalista Samuel Wainer. E que, ao receber o troco mais adiante, ficou só, morreu de fossa e de amor em uma madrugada três e cinco, talvez. Que, feio, grande e gordo, conquistava mulheres pelo poder da lábia e da inteligência. Que foi ameaçado por Sérgio Porto (sim, o Stanislaw), por ter servido de conselheiro sentimental, de modo muito interessado, a uma namorada de Sérgio Stanislaw Ponte Preta. E que ao se apresentar como Carlos Heitor Cony a uma madame, levou-a para a cama, para depois contar ao verdadeiro Heitor, “Cony, você broxou”.

Mas ele poderia ter sido lembrado, reverenciado e lido principalmente por suas crônicas, que estão entre as maiores e melhores já escritas no Brasil. Suas crônicas, quase digo, suas mãos, misturavam humor, crueldade e lirismo, a depender dos dias e da vida, que não eram iguais, para ele ou para ninguém. Como neste perfil arguto de Aracy de Almeida:

Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: “Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu”… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa.

antonio_maria.jpg

Ou aqui, dias antes de morrer:

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca…

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida. 

Ou nestas considerações sobre o sono:

Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes.

E finalmente aqui, ao lembrar o carnaval na sua infância:

Muitas vezes, de madrugada, o menino acordava com o clarim e as vozes de um bloco. Eles estavam voltando. O canto que eles entoavam se chamava “de regresso”. Não sei de lembrança que me comova tão profundamente. Não sei de vontade igual a esta que estou sentindo, de ser o menino que acordava de madrugada, com as vozes de metais e as vozes humanas daquele Carnaval liricamente subversivo.

A boa memória conta que Antônio Maria, ao narrar uma partida de futebol, exclamava no rádio quando via um jogador chutar fora do gol: “Bola no fotógrafo!”. Para a barbárie ou ignorância que não o lembra, vale dizer: bola no fotógrafo.

- - -

Nota deste correspondente: Já era noite alta na redação do Diário de Pernambuco. Quando Edmundo Morais, chefe de reportagem, me chama e ordena: - Vá no Grande Hotel e entrevista meu primo Antônio Maria. Eu era repórter especial, para cobrir as coisas inesperadas e celebridades que passavam pelo Recife.  Para o jornalista empregado, Antônio Maria não era famoso pelas crônicas, pelos frevos e sambas, e sim porque gordo (pesava 130 quilos) e feio, e 'mulato', roubara a bela esposa do patrão. O recepcionista do hotel, que já me conhecia, telefona, e logo depois descem Antonio Maria e Danuza no esplendor de sua beleza. Parece que fiquei hipnotizado. Foi quando Antônio Maria me acorda perguntando: - Bebe? Falo que Edmundo está esperando a entrevista. Antônio Maria: - Se vc é jornalista quebra o galho. Caminhamos para o restaurante que estava de luzes apagadas. Viramos a madrugada no uísque. Bebi outra vez com Antônio Maria no Recife. Na casa de um parente dele. Noutra viagem. Fiquei com a impressão que todo Recife tinha parentesco com Antônio Maria. Inclusive os poetas Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Perto dele falecer me deparei com Antonio Maria em um bar de Copacabana. Não sei se me reconheceu. Fiquei com aquela imagem de bêbado. Que os amigos me garantiam que morreu de tristeza, de dor de corno. Abandonado por Danuza, que deixava assim, excomungada, o idolatrado papel de musa das redações.                   

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