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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

07
Jun21

“Não é doença, é fome”

Talis Andrade

doença fome.jpgA cabeleireira Jaqueline Silva Viana, de 40 anos, em sua casa, com os filhos Ítalo, 21, e Tamires, 11, e o neto Davi, 3. CADU GOMES

Unidades de saúde de Brasília identificam aumento de busca por pessoas com sintomas que acreditam ser de doença, mas que, na verdade, estão famintas. É mais um dramático impacto da pandemia

 

 

Era junho de 2020 quando a cantora e atendente em padaria Lígia Régia da Silva, de 38 anos, perdeu o emprego. No mesmo mês, o pedreiro Josimar Moraes, 48, foi despejado de casa porque não tinha como pagar aluguel de 600 reais, e passou a catar materiais recicláveis pelas ruas. A pandemia de coronavírus também mudou por completo a vida de Jaqueline Silva Viana, 40, uma cabeleireira que viu os dois salões em que trabalhava como freelancer fecharem no ano passado. Além da perda de renda durante a maior crise sanitária do planeta, há outro desastre que une esses três moradores de Brasília: eles estão doentes de fome. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde relatam que, nos últimos meses, têm percebido um aumento no número de pessoas que dão entrada em centros de saúde pública com sintomas que acreditam ser de alguma doença, mas, na verdade, estão famintas. E em plena capital do país, a terceira cidade com o maior produto interno bruto (PIB) do Brasil.

“Todas as semanas, atendo mais ou menos cinco pacientes dizendo que estão doentes, mas, quando examinamos, notamos que, na verdade, não é doença, é fome”, disse a médica Natália, que trabalha em uma unidade de saúde de Sobradinho, cidade-satélite do Distrito Federal. “Em 15 anos de profissão, nunca imaginei que ouviria relatos como os que tenho ouvido ultimamente. Ainda mais em uma cidade tão rica”, completa a profissional. Para esta reportagem, foram ouvidos doze médicos, enfermeiros, gestores e terapeutas que trabalham no Sistema Único de Saúde. Como não tinham autorização do poder público para dar entrevista, seus nomes verdadeiros foram preservados para evitar que sofram punições.

Em São Sebastião, outra cidade-satélite, os relatos são parecidos. “Já atendi paciente que chegou aqui com tontura. Quase desmaiando. Dei o meu lanche da tarde para ele e notei que seu problema era fome, não doença”, conta Marcelo, médico há 22 anos. O mesmo ocorreu em Ceilândia. “Já atendíamos pessoas com alto índice de vulnerabilidade social. Mas, antes, elas diziam que tinham comido duas ou três vezes ao dia. Agora, dizem que, quando comem uma, já se dão por satisfeitas”, afirmou a terapeuta Mariana.

Sem maneira de botar comida em casa, é comum também aparecerem pessoas com crise de ansiedade e pânico. “Imagina você ter crianças em casa e não saber como vai levar comida pra casa? É de deixar qualquer um doente, mesmo. Temos visto muitos casos assim”, diz o agente de saúde Kleidson Oliveira, que há cinco anos trabalha em ONGs que dão assistência às pessoas que vivem nas ruas ou em comunidades pobres da capital brasileira. “Nunca vi tanta gente nas ruas e em condições tão desesperadoras”, afirma.

A situação é resultado do empobrecimento da população brasileira. No ano passado, o Brasil viu disparar o número de pessoas com insegurança alimentar grave ou moderada, 27,7% da população está neste grupo. Significa dizer que cerca de 58 milhões de brasileiros correm o risco de deixar de comer por não terem dinheiro. Os dados são de uma pesquisa feita por cientistas do grupo “Alimentos para a Justiça”, da Universidade de Berlim em parceria com as universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Brasília (UnB). O levantamento contou com o financiamento do Governo alemão e foi divulgado em abril.Image

Desde meados do ano passado, a cabeleireira Jaqueline teve de buscar novas fontes de renda. Passou a lavar roupas para vizinhos e a fazer cortes de cabelo em domicílio. Contudo, como seus clientes também estavam com poucos recursos financeiros, viu o dinheiro minguar. Na semana passada, com três meses de aluguel atrasado —uma dívida total de 2.400 reais— e a despensa vazia, ela caminhou dez quilômetros até um centro de saúde em Ceilândia, onde o filho Ítalo recebe tratamento psiquiátrico. Lá, enquanto o rapaz era atendido pela equipe médica, ela relatou a uma outra profissional que estava se sentindo fraca e um pouco perdida, sem saber o que fazer. O diagnóstico: fome e crise de ansiedade. O nervosismo ocorria principalmente por não saber como proporcionar uma vida digna aos seus dois filhos, de 21 e 11 anos, e um neto, de 3 anos, que dependem dela para viver.

“Me receitaram remédios que nem sempre tem no posto. Preciso de 100 reais para os meus remédios e os do meu filho. Mas como vou comprar, se nem dinheiro pra comer tenho?”, indigna-se. Sensibilizados pela situação, os profissionais da unidade de saúde doaram duas cestas de alimentos para a cabeleireira. Não puderam fazer diretamente, para não vincular o atendimento na unidade à doação. Então, pediram para um conhecido entregar os produtos no dia seguinte na casa dela. Pela primeira vez no mês ela pôde abastecer o armário da cozinha. “Foi uma bênção. Só que a situação é humilhante para quem trabalha e pagas suas contas desde os 14 anos de idade.”

Situação semelhante foi relatada pela cantora Lígia Régia. Além de perder seus shows na noite brasiliense, o carro da família foi roubado com parte dos equipamentos que ela e seu pai usavam nas apresentações. “Somos cantores amadores. Não tínhamos dinheiro para o combustível, quem dirá para seguro do carro. Agora, estamos sem equipamentos e sem comida”, declarou a cantora, que vive com o pai e as duas filhas, de 8 e 3 anos. “Eu tinha dois contratos perto de serem assinados. Não tenho perspectiva de nada mais”.

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O ÚNICO REMÉDIO PRA FOME É A COMIDA
ELIZA, GESTORA DE SAÚDE EM BRASÍLIA

As campanhas de doações de alimentos que os postos de saúde realizam acabam por ajudar centenas de pessoas que não têm o que comer. Eles angariam apoio de vizinhos da comunidade que se mobilizam para entregar alimentos não perecíveis por meio de agentes comunitários. “Não chega a ser um trabalho organizado. É apenas um alento, um carinho, o único remédio pra fome é a comida”, afirma a gestora Eliza, uma das organizadoras dos programas de arrecadação.

As campanhas, no entanto, atingem apenas os pacientes que têm moradia fixa. Não é o caso do pedreiro e catador de recicláveis Josimar. “Fome? É claro que eu já passei e ainda passo, de vez em quando. Quando comecei a catar latinhas, eu nem sabia pra quem eu tinha de vender. Nos últimos dois meses me estruturei melhor, mas ainda tem dias que não sei se terei o almoço ou a janta”, diz ele em um acampamento em área pública na Asa Norte de Brasília. Raramente recebem doações por lá.

“Ouvi dizer que nos postos de saúde alguns trabalhadores estavam doando cestas. Mas pediram para eu dar um endereço. Como vou fazer isso, se vivemos na rua?”, afirmou ao lado de três filhos (de 5, 7 e 8 anos) e da esposa que está se recuperando de um resfriado e pouco tem ajudado no trabalho. No dia em que a reportagem o encontrou, Josimar teria o que comer. Ele tinha comprado um pacote de arroz, que cozinharia em uma fogueira, e ganhou dez pães velhos de uma padaria do bairro. “Hoje, o dia vai ser tranquilo. Amanhã, eu penso depois. Cada dia tem a sua agonia”.

Área em que moradores de rua vivem na Asa Norte, em Brasília. Entre eles, o pedreiro Josimar Moraes.
Área em que moradores de rua vivem na Asa Norte, em Brasília. Entre eles, o pedreiro Josimar Moraes.A. BENITES
05
Abr20

Covid-19: o drama dos médicos especializados em ‘fim de vida’ na França

Talis Andrade

 

 

"Não é porque estamos em um período centrado em emergências que devemos esquecer a humanidade", dizem os profissionais especializados em “cuidados paliativos” no fim da vida, uma categoria importante da medicina francesa. Os especialistas neste tipo de cuidado também estão na linha de frente da pandemia galopante de coronavírus para tentar evitar qualquer "submersão" ao desespero, sobretudo para os pacientes em estado grave da Covid-19.

Para os agentes de saúde responsáveis ​​pelo alívio de pessoas com formas graves de Covid-19, que enfrentam ansiedade, dor e asfixia, e que não serão capazes de se beneficiar da reanimação artificial, o desafio é aprender com o que aconteceu na Alsácia, uma região muito afetada pela doença na França.

Em Mulhouse, em particular, as equipes não estavam preparadas para a chegada maciça de pacientes, disse o professor Régis Aubry, ex-presidente da Sociedade Francesa de Cuidados Paliativos (SFAP), que trabalha em uma unidade de um hospital universitário na região de Bourgogne Franche Comté (centro).

De repente, o SFAP, em consulta com outros especialistas (geriatras, ressuscitadores, pneumologistas) foi mobilizado para ajudar e treinar colegas de saúde. Para alguns pacientes, a reanimação pode ser inalcançável: "Fazer uma triagem? É isso que os médicos da reanimação fazem o tempo todo", lembra o professor Olivier Guerin, presidente da sociedade francesa de gerontologia e geriatria (SFGG )

Garantir "apaziguamento"

Assim, mesmo antes da era do Covid-19, para certas doenças crônicas, como "insuficiência respiratória grave, sabe-se que a ressuscitação ou reanimação não é benéfica a longo prazo, não faremos com que sofram por nada", diz o Dr. Thibaud Soumagne, ressuscitador do Hospital Universitário de Besançon, que também é pneumologista. Neste hospital, como em outros lugares, foi criada uma unidade de cuidados paliativos para a Covid-19.

Mas se as necessidades de ressuscitação excederem em muito a oferta disponível no país, as pessoas que poderiam se beneficiar delas correm o risco de serem privadas.

Aconteça o que acontecer, as abordagens terapêuticas oferecidas a todos os estabelecimentos de saúde e médico-sociais, mas também em casa, no contexto da epidemia na França, não visam a eutanásia, lembra o SFAP, que publicou propostas emitidas e folhas de conselhos terapêuticos de emergência para locais afetados pela saturação hospitalar ou que provavelmente serão saturados em breve.

O objetivo é "proporcionar alívio aos pacientes mais afetados" em caso de dificuldades respiratórias ou angústia.

No entanto, com "a escassez de midazolam (Hypnovel) para adormecer, a falta de morfina assim como de seringas elétricas", o Dr. Bernard Devalois, médico em cuidados paliativos em Bordeaux alerta contra "a tentação da eutanásia" que os cuidadores de lares de idosos podem sentir quando confrontados com os mesmos mergulhados em sofrimentos horríveis, como a asfixia.

Bernard Devalois lamenta, a esse respeito, "a ausência de um estoque estratégico de midazolam", que ele afirma ter "proposto constituir, quinze anos atrás, no caso de uma pandemia".

"Cuidado digno"

Morfina para aliviar dores e dificuldades respiratórias (dispnéia), midazolam (Hypnovel) para sedação (adormecer) e um medicamento para congestão brônquica, combinados, servem para amenizar o fim da vida, de acordo com o SFAP. Na ausência do Hypnovel, outros produtos injetáveis, como Valium ou Rivotril, são possíveis, mas "é um procedimento degradado", julga o Dr. Devalois.

“Os sintomas respiratórios são muito provocadores de ansiedade. Os ansiolíticos melhoram o conforto do paciente. Alguns por via oral são úteis, mas não podem mais ser usados ​​nos estágios finais do desconforto respiratório. Na fase de asfixia, a urgência é implementar sedação profunda muito rapidamente”, recomenda o Dr. Devalois.

As agências regionais de saúde (ARS) devem pedir às farmácias dos hospitais que forneçam estoques suficientes dos medicamentos necessários para asilos e pequenos hospitais, sugere ele.

O professor Claude Jeandel, presidente do Conselho Nacional de Geriatria Profissional, solicitou ao Ministro da Saúde o acesso aos medicamentos recomendados pelo SFAP "para tratamento digno da angústia respiratória asfixia do grande número de residentes que não têm hospitalização e que morrerão em asilos ".

 O modelo atual não está adaptado ao atendimento estruturado de idosos e pessoas com doenças crônicas na cidade, observa o professor Guérin, culpa segundo ele, da ausência de médicos coordenadores nos asilos, com poderes para prescrever em situações de emergência e de enfermeiros noturnos.

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03
Ago19

Doente de Brasil

Talis Andrade

Como resistir ao adoecimento num país (des)controlado pelo perverso da autoverdade

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El País
 
 

[Primeira parte] Jair Bolsonaro é um perverso. Não um louco, nomeação injusta (e preconceituosa) com os efetivamente loucos, grande parte deles incapaz de produzir mal a um outro. O presidente do Brasil é perverso, um tipo de gente que só mantém os dentes (temporariamente, pelo menos) longe de quem é do seu sangue ou de quem abana o rabo para as suas ideias. Enquanto estiver abanando o rabo – se parar, será também mastigado. Um tipo de gente sem limites, que não se preocupa em colocar outras pessoas em risco de morte, mesmo que sejam funcionários públicos a serviço do Estado, como os fiscais do IBAMA, nem se importa em mentir descaradamente sobre os números produzidos pelas próprias instituições governamentais desde que isso lhe convenha, como tem feito com as estatísticas alarmantes do desmatamento da Amazônia. O Brasil está nas mãos deste perverso, que reúne ao seu redor outros perversos e alguns oportunistas. Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só.

É desta ordem os relatos que tenho recolhido nos últimos meses junto a psicanalistas e psiquiatras, e também a médicos da clínica geral, medicina interna e cardiologia, onde as pessoas desembarcam queixando-se de taquicardia, tontura e falta de ar. Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado.

O fenômeno começou a ser notado nos consultórios nos últimos anos de polarização política, que dividiu famílias, destruiu amizades e corroeu as relações em todos os espaços da vida, ao mesmo tempo em que a crise econômica se agravava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho se deterioravam. Acirrou-se enormemente a partir da campanha eleitoral baseada no incitamento à violência produzida por Jair Bolsonaro em 2018. Com um presidente que, desde janeiro, governa a partir da administração do ódio, não dá sinais de arrefecer. Pelo contrário. A percepção é de crescimento do número de pessoas que se dizem “doentes”, sem saber como buscar a cura.

Vou insistir, mais uma vez, neste espaço, que precisamos chamar as coisas pelo nome. Não apenas porque é o mais correto a fazer, mas porque essa é uma forma de resistir ao adoecimento. Não é do “jogo democrático” ter um homem como Jair Bolsonaro na presidência. Tanto como não havia “normalidade” alguma em ter Adolf Hitler no comando da Alemanha. Não dá para tratar o que vivemos como algo que pode ser apenas gerido, porque não há como gerir a perversão. Ou o que mais precisa ser feito ou dito por Bolsonaro para perceber que não há gestão possível de um perverso no poder? Bolsonaro não é “autêntico”. Bolsonaro é um mentiroso. [Continua]

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