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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

11
Jan21

Ameaças de neonazistas a vereadoras negras e trans alarmam e expõem avanço do extremismo no Brasil

Talis Andrade

Primeira vereadora negra eleita na Câmara de Curitiba, Carol Dartora recebeu ameaças de morte por e-mailPrimeira vereadora negra eleita na Câmara de Curitiba, Carol Dartora recebeu ameaças de morte por e-mail

 

Ataques contra vereadoras de várias cidades ocorreram em dezembro e polícia ainda busca autores. Vítimas relatam rotina de medo especialistas alertam para escalada das ameaças no país, enquanto os EUA refletem sobre banalização dos discursos de ódio nas redes

 

por ISADORA RUPP /El País
 

Injúrias raciais, infelizmente, não são uma novidade para a professora Ana Carolina Dartora, 37 anos. Primeiro vereadora negra eleita nos 327 anos da Câmara Municipal de Curitiba, e a terceira mais votada na capital paranaense nas eleições 2020, sua campanha foi permeada por ataques, sobretudo nas redes sociais. Até então, Carol Dartora ―como é conhecida a vereadora filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT)― considerava as mensagens inofensivas. Mas no início de dezembro ―logo após uma entrevista do prefeito Rafael Greca (DEM) na qual o mandatário disse discordar da existência de racismo estrutural na cidade― ela recebeu por e-mail uma mensagem a ameaçando de morte, inclusive com menção ao seu endereço residencial.

No texto, o remetente chama a vereadora de “aberração”, “cabelo ninho de mafagafos”, e diz estar desempregado e com a esposa com câncer. “Eu juro que vou comprar uma pistola 9mm no Morro do Engenho e uma passagem só de ida para Curitiba e vou te matar.” A mensagem dizia ainda que não adiantava ela procurar a polícia, ou andar com seguranças. Embora Carol tenha ouvido de algumas pessoas que as ameaças eram apenas “coisas da Internet”, especialistas ouvidos pelo EL PAÍS ponderam que não se deve subestimar os discursos de ódio ―a exemplo de toda a discussão que permeiam os Estados Unidos desde a quarta-feira, 6 de janeiro, quando extremistas apoiadores de Donald Trump invadiram o Capitólio em protesto contra a derrota do presidente, provocando cinco mortes.

O e-mail, com texto igual, também foi enviado para Ana Lúcia Martins (PT), também a primeira mulher negra eleita para vereadora em Joinville (SC). As vereadoras trans Duda Salabert (PDT), de Belo Horizonte, e Benny Briolly (PSOL), de Niterói (RJ), também foram ameaçadas pelo mesmo remetente. Até aqui, as investigações policiais dão conta de que o ataque orquestrado partiu de uma célula neonazista que atua sobretudo nas profundezas da internet, a chamada deep web. O provedor do qual a mensagem foi enviada tem registro na Suécia, o que dificulta o rastreamento por parte das polícias civis e, no caso do Paraná, do Núcleo de Combate aos Cibercrimes.

“Fiquei olhando para a mensagem perplexa, sem conseguir processar muito. O espanto de outras pessoas do partido me deu o alerta”, contou Carol ao EL PAÍS. “A violência não é só objetiva. A violência política acompanha a minha trajetória e a das outras vereadoras ameaçadas, com barreiras que vão se criando para que a gente não tenha êxito. Nenhuma mulher deveria enfrentar tanta coisa para exercer um direito básico da democracia”, frisa.

Desde então, o medo faz parte do cotidiano da vereadora de Curitiba. “Tô tentando ser mais discreta. Estou pensando até em mudar o meu cabelo. Isso é muito minimizado, desprezado. As pessoas pensam que é bullying, coisa de Internet. É muito nítida a questão de gênero, do sexismo aliado ao racismo.” Mas foi na Internet, por exemplo, que foi planejado, durante semanas, os ataques ao Capitólio dos EUA por grupos de extrema-direita que não aceitam a derrota de Trump para o democrata Joe Biden. (Continua)

06
Dez20

Prefeito de Curitiba, Rafael Greca, nega racismo estrutural e diz que cor da pele “não é diferencial” (vídeo)

Talis Andrade

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Carol X Greca

O prefeito reeleito de Curitiba, Rafael Greca (DEM), negou que exista racismo estrutural ao falar sobre a eleição da primeira vereadora negra da capital do Paraná, Carol Dartora (PT). A declaração foi feita em entrevista à Globonews neste sábado 5.

Rafa, Rafael que tem nojo de pobre, para se eleger escondeu os dados das mortes por coranovírus em Curitiba, e fez que não sabia dos negócios perigosos que a Prefeitura realiza com a família lá dele, a família Greca. 

“Eu discordo da vereadora que aqui haja um racismo estrutural. Eu cresci em uma casa onde a engenheira Enedina Marques era colega do meu pai e conosco estava sempre”, disse Greca. Enedina foi a primeira mulher e a primeira negra a se formar em engenharia no país.

Em seguida, Greca recuou levemente em sua posição. “Pode ser que isso exista. Mas eu desejo a ela toda felicidade do mundo. Ela é uma boa professora, está começando o mestrado em História, dei meu livro a ela de presente”, disse. Carol está começando o doutorado.

Ana Júlia
@najuliaribeiro
Absurdo! Rafael Greca não tem decência em fazer uma declaração mentirosa e sem escrúpulos dessa. #ExisteRacismoEmCuritibaSim 
 
Ana Júlia, 20, estudante de Filosofia e de Direito, líder estudantil desde os adolescentes anos colegiais, faz parte de um movimento de renonavação dos partidos de esquerda. 
Margarida Salomão
@JFMargarida
 
TOLERÂNCIA ZERO O ataque racista contra a vereadora do PT @caroldartora13, de Curitiba não pode ser tolerado. O responsável deve ser punido com todo rigor da lei, para dar um basta a essa escalada de violência racial. Minha solidariedade, companheira! bit.ly/2IkpKrb
 
Carol Dartora
@caroldartora13
Combinaram de nos matar, mas nós combinamos de ocupar todos os espaços, inclusive a Câmara Municipal de Curitiba! Estarei lutando firme e forte ao lado da população curitibana que depositou em nosso mandato toda a esperança de uma cidade mais igualitária, sem ódio e violência.
 

Em outra declaração polêmica, o prefeito que sente náusea, vontade de vomitar quando um pobre se aproxima, afirmou que “somos todos iguais” e que a cor da pele é apenas uma característica de quem cresce “mais perto do Equador, com mais sol”. “Espero que as pessoas sejam iguais pela sua esperança, pelo seu coração. Não que a cor da pele seja um diferencial. A cor da pele é apenas uma contingência de quem foi criado mais perto [da linha] do Equador, com mais sol. Quem foi criado mais longe do Equador foi criado com pele mais clara. Mas nós somos todos iguais”, afirmou.

Carol Dartora reagiu no Twitter, ao compartilhar um trecho do vídeo: “O Urbanista Historiador não sabe que o racismo existe. Eu conto ou vocês contam?”. E em nota neste domingo (6), ao rebater ameaças de morte e ataques racistas que recebeu, ela voltou a criticar duramente as declarações de Greca: “é inadmissível que falas como a do Prefeito Rafael Greca, pronunciadas ontem em entrevista a Globo News, sejam aceitas. Negar o racismo que permeia toda nossa sociedade chancela atitudes como essas, normaliza a violência e invisibiliza nossa luta”.

Acontece em Curitiba. Acontece em Joinville que também elegeu sua primeira vereadora negra no Sudeste racista. 

Veja vídeo da entrevista de Greca no portal 247

 
20
Nov20

Primeira mulher negra eleita vereadora em Curitiba, Carol Dartora (PT)

Talis Andrade

Carol Dartora (PT)

"Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação", diz Carol Dartora. Foto Joka Madruga

 

"A eleição de uma mulher negra parecia um muro intransponível". Carol Dartora fala sobre o racismo na cidade, o exemplo de Marielle e a necessidade de a esquerda abraçar lideranças negras e mulheres

 

Nascida e criada em Curitiba, a professora Carol Dartora, de 37 anos, sempre precisou responder a uma pergunta incômoda: de onde você veio? Entre praças e monumentos que homenageiam países europeus, suas tranças e turbantes afro faziam dela uma estrangeira em sua própria terra.

A sensação de não pertencimento serviu de combustível para Carol entrar na política e tentar, assim, construir uma cidade mais democrática. No último domingo (15/11), ela se tornou a primeira mulher negra eleita para a Câmara dos Vereadores de Curitiba, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foram mais de 8 mil votos, a terceira maior votação entre os vereadores eleitos na cidade.

Em entrevista à DW Brasil, ela fala sobre a decisão de ingressar na política, o exemplo da vereadora carioca assassinada Marielle Franco, o debate sobre racismo em sala de aula, o preconceito dentro do próprio campo progressista e questiona o mito do "Sul civilizado". Nesta quinta-feira, véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro morreu após ser espancado por seguranças de um supermercado no Rio Grande do Sul. Em Joinville (SC), a professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira mulher negra eleita na cidade, recebeu ameaças de morte nas redes sociais após a vitória nas urnas.

"O racismo está no Brasil inteiro, mas aqui em Curitiba realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa", diz ela, apontando que o fato de a cidade nunca ter elegido uma mulher negra parecia ser um "muro intransponível".

João Pedro Soares entrevista Carol DartoraCarol Dartora VOTE 13133 on Twitter: "Partiu beber a bera que cuida da  gente #SextaFeira13… "

DW: Como veio a decisão de entrar para a política?

Carol Dartora: Por ser historiadora, fui convidada para dar uma aula de história da mulher na política brasileira num curso de formação política para mulheres. Eu vim mostrando todas as ondas do feminismo, o quanto as mulheres foram galgando esses passos com muita dificuldade, por toda a dificuldade de gênero, chegando à questão racial, com as mulheres negras ainda mais excluídas desse processo. Eu falava especificamente de como as mulheres fazem muita política na base, sobretudo as negras, mas não são vistas como lideranças para ocupar esses cargo e têm dificuldade nos partidos, que também são atravessados pelo racismo e machismo estruturais. Essas disputas são feitas inclusive internamente, com muita dificuldade.

Falaram, então: "Nossa, Carol, você faz todos esses debates, atua há tanto tempo, e quantas vezes já se candidatou?" Aí foi o estopim: de que adianta ficar a vida inteira sem botar o pé na porta e sem falar "não, agora é nossa vez"? O coletivo político que eu integro entendeu também que era hora de fazer essa disputa.

 

Como primeira mulher negra eleita em Curitiba, você sente que o racismo é mais forte no Sul do Brasil?

O racismo está no Brasil inteiro, mas já estive no Rio de Janeiro e em São Paulo, e sinto que estas e outras capitais são mais democráticas, com menor hostilidade. Aqui em Curitiba, realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa. No meu cotidiano, indo para a escola dar aula, já começa quando você pisa na rua, e as pessoas vêm perguntar: "De onde você veio?" O mesmo acontece entre colegas de trabalho. Essa pergunta pressupõe a ideia de que, se você é negro, com certeza não deve ser daqui.

Acontece mesmo isso, e a cidade tem umas assimetrias muito grandes. Há bairros em que os índices de qualidade de vida se comparam aos da Europa, enquanto outros apresentam uma precariedade grande, com IDH super baixo. Curitiba tem essas desigualdades e tenta esconder isso, desde a forma como o território da cidade é ocupado.

A população pobre e negra é empurrada para as periferias e outras cidades da região metropolitana. A região norte é mais valorizada, então um imóvel é muito mais caro, embora não tenha o mesmo tamanho que outro da região sul. Curitiba é segregada racialmente. Aqui, todo mundo sabe em que lugares você encontra os negros e onde não encontra.

Quem vem de fora para fazer turismo na cidade fica com a impressão de que não tem negros e é uma cidade europeia. Na volta turística, a pessoa vai ver a Praça da Espanha, a Praça da Ucrânia e o Bosque Alemão, vai sair com essa impressão que a cidade causa e cria. Eu sinto arrepios quando ouço esse discurso de que Curitiba é "civilizada”. A gente sabe o que está por trás disso. É uma política higienista que se empreende aqui. Tentam esconder a população em situação de rua, e dizem que Curitiba é "limpa”. É uma cidade pesada mesmo nesse sentido.

Minha campanha foi trazendo todas essas denúncias da falta de direito à cidade, democratização dessa vida urbana tão complicada, da violência policial contra a juventude negra e o apagamento das expressões culturais.

O Carnaval em Curitiba sempre foi muito atacado. É uma festa com pouco aporte e muita organização popular, que sempre precisou resistir muito para existir. É pequeno perto das outras capitais, mas justamente por essa razão. Curitiba é tudo isso.

Foi fazendo essas denúncias que atingi tantas pessoas, e elas se sentiram representadas. Na campanha, usei a mensagem de que deveríamos ter uma vida urbana que nos faça sentir pertencentes e felizes. Esse sentimento é uma linguagem que a cidade constrói, é como ela se organiza e nos impõe esse sentimento de não sermos acolhidos pela cidade em que nascemos. Eu sou uma mulher preta curitibana, como vina (salsicha), falo "leitE quentE”, e espera-se que eu me sinta parte da cidade. Muitas pessoas se viram nessa construção — ou desconstrução, na verdade.

 

Como você leva essas questões para sala de aula?

Eu sempre fiz todos os debates que achava que tinha que fazer em sala de aula, e acredito totalmente no poder da educação. A minha principal proposta de campanha é promover a educação social. No fazer político, informando e politizando a sociedade, uso muito da prática que já tenho em sala de aula.

As pessoas me perguntam muito se é possível superar o racismo e o machismo. Pela minha experiência em sala de aula, eu digo que sim. Tive muitos alunos entrando em sala sem entender por que políticas de cotas e reparação são importantes. Construindo novas consciências e trazendo a realidade histórica, é possível mudar muita coisa. Tive a grata satisfação de ter visto isso nos meus alunos. Além de dar aula, palestras e formações que faço pela cidade em coletivos universitários e feministas.

Acredito muito mesmo no poder da educação e que o professor deve ter a perspectiva da superação e da esperança. Sem isso, a gente também não alcança nada. Não adianta você trabalhar sem achar que determinadas situações podem ser superadas. Se você não tiver essa perspectiva da superação, perde o sentido. Foi isso que me trouxe até aqui.

Eu fiz a denúncia de que Curitiba nunca tinha eleito uma mulher negra, um muro que parecia intransponível. Todo mundo que olhava para a campanha no início dela pensava: nossa, como fazer para superar essa barreira? Pensando que sou uma mulher do Partido dos Trabalhadores (PT), feminista, negra, e que Curitiba nunca elegeu uma mulher negra, pareciam barreiras intransponíveis.

Mas o que a gente tinha era a superação, sem perder a esperança, fazendo essa denúncia e construindo a possibilidade. Porque aí a gente falava: Curitiba nunca teve uma vereadora negra, vamos mudar essa história. E no fim da campanha, quando a gente sentiu que ela estava grande, crescendo, as pessoas me viam na rua e falavam: "Carol, vou votar em você, a gente vai fazer história".

Eu já promovi reeducação social na campanha. Acredito totalmente no poder da educação. Sou professora e sempre defendi a educação pública. Estudei em escola pública, fiz faculdade e mestrado em universidade pública, e agora sou doutoranda. É este o poder do professor, da palavra, o poder de ensinar. São estes os nossos mecanismos, nossos canais.

 

Para o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, o debate de ideias deve ficar de fora da sala de aula, que deve ser um espaço livre de "doutrinação". Como você reage a isso?

Com esse tipo de coisa, a gente não conversa. Como conversar com o ódio? Tem que haver minimamente uma abertura para estabelecer um diálogo. Não tem como dialogar com esse tipo de postura, de alguém que está fechado para aprender. Tem uma coisa maravilhosa que vejo na infância e juventude, que é o lugar de semear a transformação, por conta da mente aberta para a possibilidade de aprender novas coisas. Quando você tem uma criatura fechada para qualquer coisa, não adianta insistir.

E acho que o Bolsonaro tem sido pedagógico, ele também ensina. Por incrível que pareça, muitas pessoas vieram falar comigo na rua dizendo que iam votar em mim, mas tinham votado no Bolsonaro. Elas diziam ter consciência do erro que cometeram, sem saber o que estavam fazendo, por estarem cansadas da política. Não foram nem uma, nem duas pessoas que falaram isso, dizendo ter percebido a importância de olhar para o projeto político da pessoa.

Tudo aquilo do Bolsonaro parecia brincadeira, mas não existe nada da boca pra fora, né? As pessoas se iludiam pensando que era assim. Tanto não era, que ele está empreendendo essa política de morte, de deixar morrer e não fazer nada. Vimos isso na pandemia. A gente está batendo números altíssimos de desemprego e voltando para o Mapa da Fome, com a juventude negra sendo exterminada. E ele falando que não está nem aí, tem que matar mesmo, armar a população.

As pessoas estão vendo, então ele é pedagógico. É claro que ele deu voz a esses discursos de ódio, mas a gente está nesse momento de conflito social e de valores na sociedade brasileira. Temos esses discursos e contra-discursos postos na sociedade. É um momento de transformação, e por isso vemos coisas como Curitiba me elegendo a primeira vereadora negra da cidade, ao mesmo tempo que reelege o prefeito que representa tudo o que estou tentando desconstruir. O conflito está posto, e sem ele a gente não avança.

As eleições municipais já mostraram uma maior compreensão das pessoas quanto à necessidade de superar algumas exclusões, tanto que tivemos mulheres, inclusive trans, eleitas pela primeira vez em várias cidades. Foi um show, e acredito que isso vá avançar para as eleições presidenciais.

 

Após essa onda de mulheres negras eleitas, como é possível aumentar a capilaridade de novas candidaturas? No Rio de Marielle Franco, apenas duas mulheres negras foram eleitas.

Acho que esse movimento tende a se fortalecer. A partir do momento que se quebram algumas barreiras, as próximas mulheres não vão ter que quebrar esse muro tão grande que eu enfrentei, por exemplo, essa pecha de que nunca teve alguém antes. É uma porta que já foi aberta. O movimento tende a crescer, mas ainda encontra muita resistência.

A professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita em Joinville, já sofreu uma série de ameaças e ataques racistas. Como já falei, a gente tem esse conflito social, essa crise de valores no Brasil. Porém, precisamos avançar. Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação, tantas pessoas excluídas desse processo. Isso não é democracia. Se a gente tem como perspectiva buscar a igualdade no país, com cidades melhores para todos viverem, vamos ter que superar essa barreira.

Acho uma pena que o Rio não tenha eleito mais que uma mulher. É possível que a violência policial e o medo do crime político contra a Marielle desestimule candidaturas.

 

Nesse contexto, você sente medo?

Eu sou muito otimista e corajosa, e já estou recebendo mensagens para eu parar de falar o que estou falando devido a esse caso de Joinville. Eu falei: não quero nem pensar nisso, porque não me passa pela cabeça que alguma coisa ruim vá acontecer, e espero que não.

 

A Marielle foi uma inspiração para você entrar na política?

A Marielle é um exemplo em muitos sentidos. Começa pelo fato de que eu não sabia quem era ela. Foi um sinal para mim ela ser a potência que era, quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, e eu só ficar sabendo quando ela foi assassinada. É a amostra de tudo o que a gente diz sobre a invisibilidade da nossa atuação, das mulheres negras e tudo o que a gente constrói.

O primeiro sinal foi este: como eu não sabia dessa mulher e fico sabendo só agora, com este crime horrível? Ela também foi um fator de indignação. Então, quando a gente consegue chegar lá, com muito esforço, a gente tem que ser apagada e, nossa voz, silenciada, para não falar o que precisa ser dito.

Para todas as mulheres negras e todos que, no mundo, têm esse entendimento, causou muita indignação. Nesse sentido, a gente se uniu, conseguimos fazer conexões e criar uma rede para sustentar essas candidaturas de mulheres que estão se colocando em um espaço tão violento que é a política.

Aqui em Curitiba, a gente tem um movimento de mulheres negras, e todo mês de julho a gente faz debates a respeito do que é a vida da mulher negra, do quanto a gente é sub-representado e precisa estar nesses espaços. É uma construção que vem sendo feita há quatro anos e, depois da morte da Marielle, intensificou-se mais ainda. Sem dúvidas, ela é um exemplo e tem uma influência em vários sentidos. Essa ligação mal explicada do governo Bolsonaro com a morte da Marielle causa muita indignação e nos coloca em movimento.

 

Você foi a candidata mais votada do PT e puxou outros dois nomes do partido. Apesar desse desempenho, você recebeu a menor verba de campanha entre os três. Como você sente o racismo dentro do campo progressista?

Eu tenho dito que o campo progressista tem que abraçar a pauta racial e as lideranças negras. O machismo e o racismo também passam pelo interior dos partidos. É claro que a minha candidatura não era tida como a mais viável, e não fui vista como a aposta. Por isso que minha verba era menor e não era acreditada por todas as dificuldades que apresentei aqui. Foi preciso muita estratégia para construir minha campanha. E a esquerda vai ter que entender que, se a gente não falar daquilo que toca a vida das pessoas e não oferecer a elas o que as pessoas querem, colocando legitimidade em nosso discurso, a esquerda vai morrer. É preciso abraçar as lideranças negras e mulheres. Somos nós que estamos na base.

Eu falo na importância da legitimidade, porque quantos anos mais a esquerda vai ficar falando na boca de um homem branco, com mais de 45 anos, que é preciso superar o racismo e o machismo? É diferente eu falar que a gente tem que superar o racismo, construir políticas antirracistas, superar desigualdades. O discurso fica mais forte, ganha legitimidade. O anseio das pessoas é este, ver a transformação acontecendo. É o que acontece quando elas me veem nesse lugar.

Se a esquerda quiser continuar com seus caciques históricos, sem nunca se mover, querendo falar de desigualdade, sem promover de fato a transformação, para que as pessoas possam ver isso esteticamente, fica complicado. Esses 8 mil votos na terra da Lava Jato mostram que eu consegui superar o antipetismo e não tive voto só de pessoas que se declaram de esquerda. É a transformação que as pessoas querem ver.

 

Você está sempre sorridente. É possível encontrar leveza em meio a tantas lutas?

A luta é para ser feliz. É muito simples. A luta é para se sentir bem, e é isso que venho trazendo em minha trajetória. O meu sentimento de infelicidade, de não pertencimento a essa cidade, foi me levando em busca de ser feliz, me sentir bem, e política serve para isso, promover o bem-estar das pessoas. Se não é este o objetivo, qual é? Política é muito simples, é basicamente isso.

O problema é que a gente tem a não promoção do bem viver, do bem-estar. Isso é a antipolítica, a necropolítica, a política do deixar morrer. Eu quero ser feliz e compreendi que essa minha busca por felicidade é a de várias outras pessoas. Porém, temos que construir instrumentos e mecanismos, como a administração pública. Foi isso que eu compreendi e tento mostrar para as outras pessoas.

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19
Nov20

Primeira vereadora negra eleita em Joinville é vítima de racismo e ameaças de morte

Talis Andrade

Ana Lúcia Martins é a primeira vereadora negra eleita em Joinville

 

Professora e vereadora eleita Ana Lúcia Martins (PT) tem sofrido ameaças nas redes sociais de grupo ligado à Juventude Hitlerista. "A gente mata ela e entra o suplente, que é branco”

 

por Igor Carvalho /Brasil de Fato 

Depois de tornar-se a primeira vereadora negra eleita da história de Joinville, a maior cidade de Santa Catarina, no último domingo (15), a professora Ana Lúcia Martins tem sofrido ameaças nas redes sociais. Em uma das mensagens, uma pessoa afirma: “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco (sic)".

“Sabia que não seria fácil. Estava ciente de que enfrentaria uma certa resistência em uma cidade que elegeu apenas na segunda década do século 21 a primeira mulher negra. Só não esperava ataques tão violentos”, afirmou Martins, em suas redes sociais.

“Por meio de um perfil fake, recebi, por duas vezes, ameaças de morte, evidenciando que o problema central era eu ser a primeira mulher negra eleita da cidade. Esse perfil fake destila no Twitter todos os tipos de preconceitos e discriminações possíveis e, em diversas situações, deixa claro estar organizado com outras pessoas de Santa Catarina, em uma denominada ‘Juventude Hitlerista’”, denuncia Martins.

Ainda de acordo com a vereadora eleita, na noite de domingo (15), após a divulgação do resultado, suas redes sociais foram invadidas. Mais tarde, sua equipe recuperou as contas de Martins.

No texto em que ameaça a petista de morte, um fanático afirma, também, que "não há como comemorar uma petista no poder novamente em Joinville" e que o "PT não deveria existir mais". 

Histórico

Com 3.126 votos, a professora e servidora pública aposentada Ana Lúcia Martins foi eleita a primeira vereadora negra da história de Joinville. A eleição de Ana Lúcia também marca o retorno do PT de Joinville à Câmara de Vereadores, que não havia eleito parlamentares nas eleições municipais de 2016.

Ela foi a única vereadora eleita pelo PT na cidade. O partido disputou também a eleição majoritária com o candidato Francisco de Assis, que fez 10.495 votos. A cidade terá segundo turno, disputado entre o deputado federal Darci de Matos (PSD) e o empresário Adriano Silva (Novo).

CuritibaImage

Nota deste correspondente: Curitiba também elegeu sua primeira vereadora negra, a historiadora e ativista Ana Carolina Dartora, do PT. A candidata foi a terceira mais bem votada na capital do Paraná.

 

16
Nov20

Carol Dartora, do PT, a primeira vereadora negra da história de Curitiba

Talis Andrade

Image

A historiadora e ativista Ana Carolina Dartora, do PT, a primeira mulher negra vereadora da história de Curitiba. A candidata foi a terceira mais bem votada na capital do Paraná.

Carol Dartora VOTE 13133
@caroldartora13
Elegemos a primeira vereadora negra em Curitiba, uma cidade que rejeita sua negritude e que agora irá escurecer sua Câmara!
 
Carol Dartora VOTE 13133
@caroldartora13
Fizemos história! Sou muito grata por cada um e cada uma que acreditaram nessa campanha e vamos transformar uma Curitiba de todas e todos
Mídia NINJA
@MidiaNINJA
 
Com mais de 300 anos da Câmara Municipal de Curitiba, a cidade elege sua primeira vereadora mulher negra. Professora e historiadora, @caroldartora13 foi candidata pelo PT e fez história nas eleições de 2020. Parabéns, Carol!

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