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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

O CORRESPONDENTE

12
Ago22

Campanha bolsonarista quer usar preconceito religioso contra Janja para atacar Lula

Talis Andrade

 

Com ataque a religiões de matriz africana, o objetivo é descredibilizar a imagem de Lula, por meio de sua esposa, mediante o eleitorado feminino e evangélico

 

247 - Os estrategistas da campanha pela reeleição de Jair Bolsonaro (PL) avaliam associar o preconceito contra religiões de matriz africana à socióloga Rosângela da Silva, a Janja, para atacar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com quem é casada. Um dos focos é influenciar o voto do eleitorado evangélico, mais especificamente o das mulheres.

De acordo com a coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a avaliação do núcleo da campanha bolsonarista é de que “todas as evidências da religiosidade do ex-presidente podem ser afetadas com a narrativa de que, apesar de suas reiteradas manifestações públicas ligadas ao universo cristão, a mulher, em casa, se dedica a rituais de ‘macumba’". 

A esposa de Lula é socióloga. Estuda as religiões indígenas, afro-brasileiras, a fantasia das três raças brasileiras. Escreve Orson Camargo:

"Na atualidade não existe nenhuma sociedade ou grupo social que não possua a mistura de etnias diferentes. Há exceções como pouquíssimos grupos indígenas que ainda vivem isolados na América Latina ou em algum outro lugar do planeta.

De modo geral, as sociedades contemporâneas são o resultado de um longo processo de miscigenação de suas populações, cuja intensidade variou ao longo do tempo e do espaço. O conceito 'miscigenação' pode ser definido como o processo resultante da mistura a partir de casamentos ou coabitação de um homem e uma mulher de etnias diferentes.

A miscigenação ocorre na união entre brancos e negros, brancos e amarelos e entre amarelos e negros. O senso comum divide a espécie humana entre brancos, negros e amarelos, que, popularmente, são tidos como 'raças' a partir de um traço peculiar – a cor da pele. Todavia, brancos, negros e amarelos não constituem raças no sentido biológico, mas grupos humanos de significado sociológico.

No Brasil, há o 'Mito das três raças', desenvolvido tanto pelo antropólogo Darcy Ribeiro como pelo senso comum, em que a cultura e a sociedade brasileiras foram constituídas a partir das influências culturais das 'três raças': europeia, africana e indígena.

Contudo, esse mito não é compartilhado por diversos críticos, pois minimiza a dominação violenta provocada pela colonização portuguesa sobre os povos indígenas e africanos, colocando a situação de colonização como um equilíbrio de forças entre os três povos, o que de fato não houve. Estudos antropológicos utilizaram, entre os séculos XVII e XX, o termo 'raça' para designar as várias classificações de grupos humanos; mas desde que surgiram os primeiros métodos genéticos para estudar biologicamente as populações humanas, o termo raça caiu em desuso.

Enfim, 'o mito das três raças' é criticado por ser considerado uma visão simplista e biologizante do processo colonizador brasileiro". 

A socióloga Rosângela da Silva tem na sua biblioteca livros sobre negros e indígenas, incluindo obras de arte do nosso folclore, nas mais diferentes manifestações artísticas, demonstrativas da riqueza cultural do povo em geral, isso sem preconceito religiso, ou racismo. 

Na terça-feira (9), a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, fez um ataque nesta direção ao compartilhar um vídeo em que Lula participa de um encontro com representantes de religiões afro-brasileiras afirmando que o petista "entregou sua alma para vencer essa eleição".  

Como uma pessoa pode acusar outra: de entregar a alma às trevas, ao demônio? Coisa do exorcismo católico da Idade Média, quando se queimava evangélicos e vice-versa. 

Após a publicação racista da primeira-dama contra às mães de santo da Bahia, que receberam Lula, na Assembléia Legislativa da Bahia, com um banho de pipoca, Janja foi às redes sociais e rebateu o preconceito de Michelle Bolsonaro. "Eu aprendi que Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, de paz e de respeito. Não importa qual a religião e qual o credo. A minha vida e a do meu marido sempre foram e sempre serão pautadas por esses princípios", postou no Twitter.  

Ainda segundo a reportagem, a ideia de usar o preconceito religioso teve como base uma foto das redes sociais em que “Janja aparece de branco ao lado de imagens como a de Xangô, um dos orixás da Umbanda e do Candomblé. Ao postar a imagem no Twitter, ela escreveu: 'Saudades de vestir branco e girar, girar, girar...'". A avaliação do QG da campanha bolsonarista é que “a imagem tem o potencial de desgastar Lula no eleitorado evangélico”. Por erroneamente confundir as religiões afro com feitiço, bruxaria, satanismo. 

O Gabinete do Ódio do Palácio do Planalto esqueceu que o branco faz parte do rico guarda-roupa da primeira-dama:

Twitter suspende conta de Michelle Bolsonaro por espalhar intolerância  religiosa - Jornal OpçãoJair Bolsonaro/ primeira-dama Michelle Bolsonaro/programa Adote um Parque |  Agência BrasilEm busca do eleitorado feminino, Bolsonaro leva Michelle em viagens pelo  paísMichelle Bolsonaro agiu para ajudar amigos em empréstimos da Caixa, diz  revista - PontoPoder - Diário do NordesteMichele faz crítica velada a evento do PL para BolsonaroMichelle Bolsonaro faz tratamento para emagrecer com médico que secou  Marília MendonçaMichelle Bolsonaro diz que ex-ministro da Educação vai provar que é uma  'pessoa honesta' - Folha PE

 

Segundo o Datafolha, Lula possui 48% das intenções de voto do eleitorado evangélico masculino, contra 28% de Jair Bolsonaro. Já entre o eleitorado feminino deste segmento, a situação é de empate técnico, uma vez que Bolsonaro registra 29% e Lula 25%. Outras 34%, porém, ainda não definiram em quem irão votar no pleito de outubro. 

A pesquisa Datafolha foi realizada de forma presencial com 2.556 pessoas em 183 municípios entre os dias 27 e 28 de julho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de  95%. A pesquisa, encomendada pela Folha de S. Paulo, foi registrada  no TSE sob o número BR-01192/2022.

Ataques às religiões afro-brasileiras são uma vertente do fenômeno de racismo, analisa Hédio Silva Junior, coordenador-executivo do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro). O advogado explica que ataques e discursos de ódio contra as religiões de matriz africana fazem parte da perseguição a tudo que diz respeito ao patrimônio cultural decorrente do legado civilizatório africano no Brasil. Ele considera que constitui a faceta religiosa do mesmo racismo.

 

 

Quando você ouve falar na Santa Inquisição, logo você se lembra dos horrores cometidos pela Igreja Católica lá no "Velho Mundo", não é mesmo? Mas você sabia que a Inquisição atravessou o Oceano Atlântico e também dizimou pessoas aqui no Brasil? Bruxas ou não, você vai conhecer como funcionou o julgamento das mulheres por bruxaria em terras tupiniquins.
 
31
Jul22

Com quem estão os evangélicos?

Talis Andrade

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por Jair de Souza

Com a divulgação da enquete eleitoral do Datafolha ontem (28/07/2022), pudemos constatar que o ex-presidente Lula continua disparado em primeiro lugar na preferência dos eleitores brasileiros, estando com mais de 18 pontos percentuais à frente do candidato bolsonarista, que busca se reeleger.

É verdade que os números da pesquisa apenas revelam o desejo da imensa maioria de nossa população de sair do estado calamitoso em que o bolsonarismo lançou a nação. Portanto, nada mais natural do que Lula aparecer com a perspectiva de vencer a disputa já no primeiro turno, o que representaria uma grande vitória para as forças democráticas e populares de nosso país.

No entanto, o que, sim, deveria causar espanto é observar que dentre aqueles que persistem em manter-se fiel ao atual regime e aceitam sua reeleição está uma boa parcela dos cristãos evangélicos. Embora a identificação deste setor religioso com o bolsonarismo já não seja tão expressiva como outrora foi, os dados indicam que ainda há uma maioria de evangélicos que estaria propensa a aceitar a continuidade deste governo.

Se levarmos em consideração que a figura de Jesus está intrinsecamente associada aos interesses e à luta dos setores sociais mais carentes em sua busca por uma vida mais digna, mais justa e sem miséria, como é possível que haja gente autodenominada evangélica-cristã que ainda defende o bolsonarismo?

Não seria necessário grandes estudos ou esforços intelectuais para dar-se conta de que o bolsonarismo expressa visões diametralmente opostas a tudo o que Jesus sempre propugnou ao longo de toda sua vida. O que poderia haver de comum entre essa ideologia miliciano-fascista e as pregações de Jesus encontradas em seu legado de vida?

Todo cristão com um mínimo de leitura sabe que Jesus nunca se dispôs a acatar nada sem questionamento tão somente por estar presente nos livros do Velho Testamento. Tanto assim que, em várias situações dos relatos de sua vida, Jesus pode ser visto rejeitando, corrigindo ou retificando conceitos ou determinações até então tidos como de validade universal em escritos bíblicos pré-cristãos.

Nos textos que relatam os passos trilhados por Jesus no tempo em que ele conviveu entre nós como um ser humano comum, o que encontramos é sua profunda identificação com as aspirações e os sentimentos do povo mais humilde e nunca com os setores mais abastados da sociedade.

Em primeiro lugar, não podemos nos esquecer de que Jesus sempre foi reconhecido como um pacifista, um inimigo da violência armada, um defensor ardoroso da paz. É inadmissível que sua imagem possa ser relacionada à bandidagem miliciano-fascista que caracteriza o bolsonarismo e expressa toda a podridão humana contra a qual Jesus lutou a vida toda.

Nos evangelhos que tratam de sua vida, não há uma passagem sequer na qual Jesus apareça tomando o lado dos ricos em contra dos mais pobres. Nunca Jesus foi visto apregoando ou praticando discriminações racistas ou homofóbicas. Jamais o encontramos defendendo posturas egoístas e individualistas, sem se preocupar com o conjunto das necessidades de seu povo. Jesus combateu permanentemente o uso e a manipulação da fé que visasse ao enriquecimento dos poderosos em detrimento das maiorias trabalhadoras. Inexistem casos em que Jesus esteja empunhando armas e fazendo uso da violência para sobrepor seus interesses individuais aos da maioria de sua gente. Em outras palavras, Jesus nunca adotou como suas as maneiras de agir e pensar que são típicas dos bolsonaristas da atualidade.

O que vemos claramente nos Evangelhos é um Jesus constantemente atuando em sintonia com as aspirações dos trabalhadores e combatendo a exploração a que são submetidos. Jesus aparece condenando a avareza e o egoísmo; Jesus é visto recriminando a hipocrisia dos falsos moralistas; Jesus se mostra resoluto na determinação de impedir a exploração da fé para enriquecimento de religiosos falastrões e oportunistas.

De tudo o que vimos mais acima, ficamos com a convicção de que há uma profunda contradição entre ser evangélico de verdade e ser apoiador do bolsonarismo. O bolsonarismo é uma ideologia nefasta, antipopular, racista e discriminadora em geral. Ou seja, o bolsonarismo contém muito mais características que se chocam com aquilo que a figura de Jesus pode representar. Portanto, não há como justificar uma defesa dessa ideologia e a manutenção de sua gestão de governo dentro de uma perspectiva de um seguidor de Jesus.

O bolsonarismo é fragrantemente contrário aos interesses das maiorias trabalhadoras do Brasil e, consequentemente, nada pode ter a ver com os ensinamentos ministrados por Jesus em sua vida. É dever moral de todos os que se considerem cristãos de verdade, independentemente de sua religião específica, cobrar daqueles que se considerem seguidores de Jesus uma postura que corresponda à luta e aos desejos por ele demonstrados quando por aqui esteve. E, decididamente, o bolsonarismo está do lado oposto disto.

As relações entre Edir Macedo e Bolsonaro

 
 
25
Jul22

O bolo da matança

Talis Andrade

O bolo da matançaFoto: Reprodução/Redes Sociais

 

por Moisés Mendes /Extra Classe

O gesto mais forte, mais incisivo, mais afirmativo de uma posição, depois do assassinato do guarda municipal Marcelo Arruda em Foz do Iguaçu, não veio de instituições, da OAB, da Igreja, de políticos ou de celebridades que dizem frases de combate à brutalização do país.

O gesto de maior impacto, que mereceu as capas dos jornais, veio de onde sempre vem a reação a esse tipo de episódio. Partiu da própria extrema direita.

Foi o gesto de Eduardo Bolsonaro ao apresentar um bolo com uma arma dentro, no dia do seu aniversário. Uma ideia pronta para quem fez 38 anos: é só mostrar um revólver calibre 38 como decoração.

Um gesto simbólico que os democratas não conseguem ter, mas a extrema direita sempre apresenta nos momentos em que parece acuada.

Depois da festa de aniversário interrompida por um extremista com uma arma, outra festa de aniversário com um bolo e uma arma.

A alegoria do garoto quase quarentão é a resposta do fascismo ao crime em Foz. Com mais deboche, agressividade, mais armas e mais incitação à matança.

Não há nada equivalente do lado dos democratas ou dos chamados genericamente de progressistas e/ou de esquerda.

Eduardo Bolsonaro produziu o gesto de impacto que sempre falta aos que tentam conter a fúria da extrema direita. E sem muito esforço.

O fascismo transmite mensagens que alcançam o seu público sem volteios. É tudo direto, sem a necessidade de frases explicativas.

A extrema direita passa hoje, com meia dúzia de palavras e alguns objetos, principalmente armas, recados destruidores dos esforços humanistas.

E as esquerdas brasileiras há muito tempo não têm como passar nenhuma síntese do que desejam e do que combatem, mesmo que tenham sido vitoriosas em eleições em países da vizinhança.

Perderam força os slogans libertários que vieram dos anos 60 e as mensagens do século passado com pombas da paz.

Uma pomba da paz hoje não significa nada mais para os que vieram do século 20 e tampouco para os jovens do século 21.

Nenhuma palavra de ordem das esquerdas funciona mais ou funciona pouco. É proibido proibir. Abaixo a ditadura. Tortura nunca mais. Sejam realistas, exijam o impossível. A política está nas ruas, não nas urnas. Democracia já.

Democracia, diferenças, liberdades, direitos humanos. Quase nada funciona. Nem as ruas funcionam mais no Brasil. Nem o apelo ambientalista sensibiliza, mesmo que a Amazônia seja nossa.

Enquanto isso, a extrema direita vai se divertindo com a descoberta de que as pessoas assimilam com mais facilidade mensagens que transmitam ódio, violência, desavença, ruptura e morte.

Um dia depois do assassinato em Foz do Iguaçu, quem conseguiu produzir a mensagem mais poderosa foi o filho mais bélico de Bolsonaro, porque tem poder de síntese para falar com os 30% que apoiam seu pai e o fascismo.

Ninguém sabe o que disseram a Igreja, a OAB, as autoridades, os líderes da oposição, nem mesmo o que Lula disse. As mensagens de condenação do assassinato são levadas por qualquer vento.

O que fica é o bolo do sujeito que já havia produzido a mais lembrada imagem do golpe, a de que um cabo e um soldado, mesmo sem jipe, podem fechar o Supremo.

É a realidade. A democracia não tem força para criar algo com o impacto de um bolo com uma arma e com uma vela sendo assoprada por uma criança.

É aterrador, mas é o que temos para o momento. E com o apoio de um terço da população brasileira. A mensagem da matança está vencendo.

Editorial - Bangue-Bangue bolsonarista: indicações e primeiras baixas -  Jovens Cronistas

28
Mai22

Presença de Bolsonaro esvaziou a Marcha para Jesus em Curitiba

Talis Andrade

Presença Bolsonaro esvaziou Marcha Jesus Curitiba

Marcha para Jesus em 21/05/2022 (Imagem: Clauber Cleber Caetano | PR)

 

O discurso que deveria ter sido na praça, acabou sendo em uma rua oposta, onde as árvores camuflavam a falta de público. Foi preciso malabarismo dos fotógrafos oficiais para encontrar um ângulo que ajudasse a não mostrar o fiasco

 

Guilherme Mikami /Pragmatismo Político

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Até que ponto a fé e a política podem se misturar?

Essa é uma dúvida que vem crescendo no coração e na mente de uma parcela cada vez maior de evangélicos no Brasil, especialmente a partir das mudanças sentidas nos últimos anos em muitas igrejas e comunidades, nas quais os princípios básicos do cristianismo, como o amor e a solidariedade, foram perdendo espaço para a intolerância e o ódio implantados com objetivos políticos-econômicos-eleitorais (questões bastante mundanas, por sinal).

Os brasileiros viram surgir um tipo de “evangelho do ódio”, a partir de discursos acalorados vindos de lideranças que, em vez de pregar o amor de Cristo, passaram a disseminar rancor e raiva contra tudo aquilo considerado ‘diferente’.

Não é de hoje que eles sabem que as pessoas reagem mais pelo sentimento do que pela racionalidade. Só que eles descobriram que, entre os sentimentos, as pessoas reagem mais fortemente ao medo.

O objetivo dos pregadores do “evangelho do ódio” é espalhar medo. Em excesso, medo vira paranoia. Em grande escala, se transforma em paranoia coletiva, que é o que eles espalham nas igrejas brasileiras ao disseminar mentiras de cunho político.

É aí que as coisas se misturaram de forma perversa e passaram a corroer o tecido social de comunidades inteiras que antes se reuniam para compartilhar atos de amor, esperança, fé e solidariedade.

Em grande escala, isso criou uma nova geração de pessoas “desigrejadas”, que deixaram de frequentar cultos, células e outros espaços de convivência porque sofreram com a intolerância de “irmãos” e “irmãs” (que é a forma como se identificam as pessoas na igreja) ou porque se desapontaram ao ver lideranças envolvidas em uma política de baixo nível, disseminando a discórdia a partir de mentiras e conteúdos extremistas.

Tudo isso vem gerando, mais recentemente, uma forte angústia em parcela significativa das comunidades evangélicas. Cada vez mais, as pessoas estão sentindo que essa entrada da política oportunista no meio evangélico está destruindo relações humanas e sociais.

Essa pode ser uma das explicações para o gigantesco fracasso da chamada “Marcha para Jesus”, que aconteceu no dia 21 de maio em Curitiba.

 

Bolsonaro esvaziou a marcha

 

Há quem diga que Bolsonaro se tornar presidente foi um acaso na política brasileira. Eu discordo.

Apesar de seus atos não demonstrarem nenhuma identificação com a fé cristã ao longo de sua vida política, o presidente da República, Jair Bolsonaro, veio construindo uma imagem para confundir a população nos últimos anos. Mesmo sendo católico, ele identificou que os votos de eleitores evangélicos poderiam estar entre os mais facilmente influenciados por lideranças religiosas.

Junto com algumas dessas lideranças, ele construiu uma narrativa para se infiltrar no meio evangélico, incluindo vários “batismos nas águas” e até o casamento ministrado por um pastor.

De certa forma, funcionou. Com isso, fizeram com que milhões de pessoas passassem a acreditar que ele é evangélico.

Depois, em sua campanha, adotou slogans e expressões que funcionam como gatilhos mentais para evangélicos, usando de forma bastante genérica palavras-chave como “família”, “fé” e o próprio nome de Deus (em vão).

Tudo isso para criar a falsa impressão de que “ele é um de nós”. É fake, mas continua servindo para enganar pessoas.

Para reforçar essa imagem, ele passou a frequentar eventos voltados ao público evangélico. Daí vieram as contraditórias cenas de “arminha com os dedos” em locais onde a vida deveria ser valorizada.

Quando anunciaram que Bolsonaro participaria da chamada Marcha para Jesus, em Curitiba, os organizadores disseram a jornais da capital paranaense que esperavam entre 200 e 300 mil pessoas. Apesar do exagero, a expectativa era atrair mais participantes do que nas edições anteriores, que chegaram a contar com mais de 100 mil pessoas antes da pandemia de Covid-19 (segundo os mesmos organizadores).

Apostaram alto. E perderam feio.

Em vez de aumentar, o evento deste ano encolheu. E muito.

Quando Bolsonaro discursou em frente a um teatro na capital, não havia mais do que 3 mil pessoas. Isso equivale a 1% do público esperado.

Dezenas de milhares de pessoas, que teriam participado se a marcha tivesse sido realmente para Jesus, preferiram ficar em casa depois que descobriram que era uma “marcha para Bolsonaro”.

O discurso que deveria ter sido na praça, acabou sendo em uma rua oposta, onde as árvores camuflavam a falta de público. Haja malabarismo dos fotógrafos oficiais para encontrar um ângulo que ajudasse a não mostrar o fiasco.

E mesmo depois, com os trios elétricos se movimentando, dando um tempinho para que os correligionários conseguissem mais público, ainda assim não chegou nem perto das edições anteriores.

Fotos de drone? Nem pensar. Estimativa de participantes segundo a polícia? Silêncio total. Muito provavelmente, prevaleceu alguma ordem para que todos ficassem bem quietinhos. No dia anterior, o governador paranaense, Ratinho Jr, havia afirmado que apoiaria Bolsonaro. E como o comando da PM é subordinado ao governo…

 

Quem pagou foi a população

 

Todo o aparato do Estado que precisou ser deslocado para esse evento por causa da presença do presidente, ainda acabou prejudicando os curitibanos, já que faltaram viaturas de polícia e ambulâncias para dar conta das ocorrências no restante do dia.

No final da tarde, quando voltava para casa com minha família, uma criança foi atropelada pouco à frente. Corremos para ajudar e ligamos para o Resgate. Fomos informados de que não havia viaturas disponíveis. Mesma coisa com o Siate. Uma pessoa ao lado me contou que tinha acabado de ligar para um amigo policial para pegar orientações e recebeu, como resposta, que grande parte do pessoal teve que trocar de turno por causa do evento ocorrido de manhã.

A criança continuava no chão, ferida e reclamando de muita dor. Dezenas de pessoas em volta. Comoção geral, raiva pela demora no atendimento, e muitas ligações de cidadãos para saber quando chegaria alguma viatura. A ambulância chegou 17 minutos depois. Obviamente, a culpa não era dos bombeiros socorristas, que estavam visivelmente sobrecarregados. Foi do evento minúsculo voltado a um político igualmente minúsculo na manhã daquele dia.

* Guilherme Mikami é jornalista, cientista político, diretor da agência de comunicação sindical Abridor de Latas, e participa da Frente de Evangélicos pelo Estado Democrático de Direito.

 
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21
Mai22

Mercado do ódio. O amor é um desafio político

Talis Andrade

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por Marcia Tiburi

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Muitas pessoas acreditam que os afetos, emoções e sentimentos são naturais, pelo simples fato de os sentirem. Contudo, natural é apenas a capacidade de senti-los. Os afetos propriamente ditos, são culturais. Isso quer dizer que são criados, estimulados e, até mesmo, manipulados. 

Quando o antropólogo Levi-Strauss disse que os povos indígenas com os quais ele entrou em contato tinham uma “abertura ao outro” ele resumia a capacidade para o respeito, a generosidade, a curiosidade, coisas que implicam o que, genericamente, chamamos de amor. Ao falar assim, ele não sugeriu que a abertura ao outro fosse algo natural, mas fruto de organizações sociais, de formas de viver e de visões de mundo que compõem o todo a que chamamos cultura. 

Estar aberto ao outro pode ser uma característica de um povo apenas quando muita coisa aconteceu no mundo da linguagem, dos valores e das práticas para que assim seja. 

Ora, na contramão da abertura para o outro que veio a constituir uma característica cultural de alguns povos, está o ódio. Esse afeto disruptivo e destrutivo pode ser definido como incapacidade de abertura ao outro. Essa incapacidade não é natural, mas forjada em relações intersubjetivas, institucionais e linguísticas que sempre podem ser modificadas, alteradas e, como dito acima, manipuladas. 
 

Sistemas econômico-políticos movem diversos afetos para a sua sustentação. O ódio sempre foi um afeto fundamental na tomada do poder e na sua manutenção. 

O ódio é a energia que move o sistema econômico da desigualdade e da exploração do trabalho, do tempo e da vida dos corpos abusados pelos poderosos, que é o capitalismo. Como se trata de um afeto narcisicamente compensatório, ou seja, que faz os odiadores se sentirem superiores aos odiados, ele passa a ser desejado por muita gente. O ódio é um afeto contra o mundo, contra a humanidade e gerador de guerras. Na era das redes sociais digitais, ele gera engajamento e comunidades inteiras unidas pelo ódio. Sobretudo, ele gera dinheiro nas monetizações das propagandas de ódio. 

Valendo muito como energia política, não seria possível construir o inimigo (o “comunista”, a “feminazi”, o “petralha”) sem o ódio. Assim, os populismos de extrema-direita são movidos pelo ódio que virou, ele mesmo, uma mercadoria que pode ser vendida e comprada. O ódio é o método que permite tratar tudo como mera coisa em um mundo em que não deve haver abertura ao outro para que a violência possa estar sempre garantida e, com ela, a submissão e a desigualdade. 

Não há amor no capitalismo. O fascismo é todo uma capitalização do ódio. O amor e a compaixão e a generosidade que eles geram é o desafio afetivo de nossa época. Portanto, devemos no perguntar sobre o amor de que somos capazes contra o capitalismo? Da capacidade de dar resposta a essa pergunta depende o nosso futuro. 

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20
Mai22

Escolha o amor!

Talis Andrade

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por Julimar Roberto

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Há tempos, o Brasil vem sendo assolado por uma polarização nunca antes vista no país. De um lado, cidadãos guiados pelo amor, pela preocupação com o próximo, pela ânsia por dignidade e pelo desejo de construir uma sociedade sem oprimidos e opressores. Do outro, os chamados "cidadãos de bem", alimentados pelo ódio, pela amargura, pela segregação e pela gana de ter sempre mais ─ mesmo que isso signifique deixar outras pessoas sem nada.  

Historicamente, a divergência de ideologias sempre existiu, principalmente em anos eleitorais. É comum que os dois candidatos mais fortes ─ geralmente com ideais opostos ─ puxem a disputa e o debate. Levando em consideração o conceito de democracia, essas diversidade de ideias, desde que haja respeito entre as partes, é até saudável para manutenção do Estado Democrático de Direito. 

Entretanto, o que se tem visto nos últimos anos vai muito além da divergência política. É uma briga entre o amor e o ódio, que foi intensificada com a chegada do capitão reformado do exército à Presidência. 

Mesmo no decorrer da campanha eleitoral de 2018, seu discurso já tinha como base o ódio. "Vamos fuzilar a petralhada", disse certa vez, durante evento no Acre. O símbolo que representa a sua pessoa é uma arma de fogo. Arma essa que é produzida com a finalidade de tirar a vida. É bastante comum que em seus eventos as pessoas levantem os dedos indicador e polegar imitando o empunhar de uma pistola. Até mesmo crianças são jogadas no universo do ódio. 

Suas falas segregam. Pretos, pobres, mulheres, periféricos, LGBTQIA+ não têm espaço em seu palanque, muito menos na construção de suas políticas. É tudo sobre fragmentar, alimentar a atmosfera de polarização. Nunca nada sobre unir. 

Enquanto isso, viajando pelo país, Lula tem seu discurso focado basicamente na reconstrução da nação e na junção de forças pelo fim do ódio de classe. Como representante da classe trabalhadora, ele conhece exatamente os anseios do povo brasileiro. Sabe que, nesse momento, a fome assola os lares e o desemprego, a carestia e a ausência de políticas de assistência social empurram o Brasil ladeira abaixo. 

Compreende também que, para tirar o povo brasileiro das mãos do capitão, é preciso união. E, para que haja união, é preciso amor. Entende que reconstruir o Brasil não é, e jamais será, uma tarefa fácil. Mas, sobretudo, será um ato de amor.  

O novo Brasil que queremos ─ e que construiremos - não tem espaço para o ódio e muito menos para aqueles que hoje estão no poder. É um país guiado pelo amor, pela empatia, sem preconceitos e sem qualquer tipo de discriminação. É uma pátria com igualdade de direitos, com emprego, renda e oportunidades para todas e todos. 

Que, em outubro, escolhamos o amor! 

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bolsonaro-ensina-crianca-a-fazer-sinal-de-arma.jpgPorte de arma no Brasil: - OitoMeia

Charge Erasmo Spadotto – Posse de Arma - Portal Piracicaba Hoje

Carlos Morel on Twitter: "Charge de Jaguar, Folha de SP 25/1/2019: Idade  mínima para porte de arma! https://t.co/xB1U9OyPos" / Twitter

JÁ VIVEMOS NUM PAÍS DE HORRORES… – Contra o Vento

03
Set21

CNBB na Semana da Pátria reprova “quem agride a democracia e os Poderes Legislativo e Judiciário”

Talis Andrade

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou sua mensagem para o Dia da Pátria, 7 de Setembro, pedindo aos brasileiros que “não se deixe convencer por quem agride os Poderes Legislativo e Judiciário”.

“A existência de três poderes impede totalitarismos, fortalecendo a liberdade de cada pessoa”.

“Independentemente de suas convicções político-partidárias, não aceite agressões às instituições que sustentam a democracia. Agredir, eliminar, hostilizar ou excluir são ideias que não combinam com a democracia”, disse o arcebispo dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB.

“Neste 7 de setembro, quando muitas manifestações prometem ocupar as ruas de cidades brasileiras, faço o pedido: respeite a vida e a liberdade de seus semelhantes. Aquele com quem você não concorda é também amado, tem uma família que aguarda o seu retorno com segurança. É seu irmão, parte de uma grande família humana”, continuou.

“As desavenças não podem justificar a violência. A intolerância nos distancia da Justiça e da paz, afasta-nos de Deus. Somos todos irmãos”.

Jair Bolsonaro está convocando seus apoiadores para manifestações em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro para dar um “ultimato” em dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos contra Bolsonaro, e Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Para a CNBB, “o Brasil está sendo contaminado por um sentimento de raiva e de intolerância”.

“Muitos, em nome de ideologias, dedicam-se a agressões e ofensas, chegando ao absurdo de defender o armamento da população. Ora, quem se diz cristão ou cristã deve ser agente da paz, e a paz não se constrói com armas”.

A fala antagoniza com Jair Bolsonaro, que voltou a defender o armamento da população nas últimas semanas. Ele chegou a chamar de “idiota” quem diz que é preciso comprar feijão e não fuzil.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também mostrou preocupação com o avanço da miséria no país. É preciso “cuidado com os que sofrem. A fome é realidade de quase 20 milhões de brasileiros. Não podemos ficar indiferentes a essa realidade que mistura o desemprego e a alta inflação, acentuando gravemente exclusões sociais”, apontou.

“São urgentes políticas públicas para a retomada da economia e a inclusão dos mais pobres no mercado de trabalho”.

Ainda na mensagem para o 7 de Setembro, a CNBB ressaltou a luta dos “indígenas, povos originários” pela demarcação de terras, que hoje passa pela discussão no STF sobre o Marco Temporal. “A nossa Pátria não começa com a colonização européia. Nossas raízes estão nas matas e nas florestas”, afirma a entidade.

O bispo Walmor Oliveira pediu ainda orações “para que o Brasil encontre um caminho novo para superar as suas crises e, junto com o mundo, vença essa pandemia. Rezemos especialmente pelas vítimas da Covid-19, que ainda nos ameaça e que vamos superar com fundamental apoio da Ciência”.

“Por isso, é importante que cada pessoa procure se vacinar e respeitar as medidas de segurança, fundamentais para se evitar a propagação da doença. Vacinar-se é, ao mesmo tempo, cuidar de si e do outro, evitando a circulação da Covid-19. É um compromisso ético, uma tarefa cristã”, completou.

03
Jul21

Relação entre vizinhos se intensifica durante a pandemia de Covid

Talis Andrade

 

 

 
Como é a convivência com os seus vizinhos? Quem nunca precisou bater na porta ao lado para pedir café, açúcar ou alguma ajuda? Globo Repórter mostra histórias de pessoas que moram perto e que passaram a conviver com mais intensidade durante a pandemia de Covid.
 
Já imaginou ter um vizinho violento, agressor e bolsonarista e policial do governador Ratinho Júnior? 
 
“A gente tinha uma convivência interessante, um frequentava a casa do outro raramente, mas frequentava. Ele é pai de duas crianças pequenas que tinham uma relação muito boa com a minha neta, que vive conosco. Mas devido à questão ideológica, essa relação foi se deteriorando”, conta o velho professor.
“No domingo da agressão, o que aconteceu foi que ele entrou no condomínio, me viu na janela e começou a soltar beijinhos e a me chamar de bicha. Eu simplesmente fiquei ouvindo aquilo e deixei.
(...)Eu saí pela porta e ele já veio me xingando e me agredindo. Ele é bem maior que eu e é um policial, achei que podia até estar armado. A única coisa que eu fiz foi tentar me defender. Ele me bateu muito"
Leia reportagem Plural, Curitiba, aqui.
 
Nos meus tempos de criança, em Limoeiro, Pernambuco, havia um mendigo que agradecia as esmolas com a seguinte rogação: "Deus lhe dê um bom vizinho". 
 
Na reportagem d'O Globo: 

O piano da discórdia. Morador de um condomínio na Zona Sul do Rio, o empresário Guilherme resolveu colocar o instrumento em seu apartamento, que tem 29 m². A psicóloga Nilma, a vizinha de cima, tem atendido em casa por causa da pandemia e precisou conviver com o som. Os dois descobriram uma amizade.

Hoje em dia somos mais do que vizinhos, somos amigos”, afirma Guilherme.

O barulho é mesmo um dos principais causadores de conflitos entre vizinhos. Se esses sons são constantes e resultantes de obras então... Mas o ator Felipe resolveu encarar esses sons desagradáveis de forma mais leve, com bom humor. Ele começou a dançar ao som dos barulhos das obras e a gravar suas performances. O resultado foi um sucesso: um de seus vídeos foi visualizado por mais de 700 mil pessoas.

E quando é você o causador do conflito? Segundo o IBGE, quase 8 milhões de brasileiros passaram a trabalhar de casa desde o início da pandemia. Douglas é um deles. O influenciador digital – que tem um personagem, o Rato Borrachudo — participa de jogos online e o barulho provocou a fúria dos vizinhos. Para continuar com seu trabalho, ele teve que fazer um quarto com uma acústica poderosa.

O amor mora ao lado.

história de amor de Mariana e Antônio foi amor à primeira vista. E pelo olho mágico da porta. Tudo começou quando Antônio estava se mudando para o prédio onde ela morava com os pais em Belém. Com um barulho vindo do corredor, ela encontrou uma paixão. E foi atrás. Leia aquiRepórter Lilia Teles e equipe do Globo Repórter gravam no Rio — Foto: Globo Repórter/ ReproduçãoRepórter Lilia Teles e equipe do Globo Repórter gravam no Rio — Foto: Globo Repórter/ Reprodução

 
 
 
09
Abr21

Igreja aberta durante pandemia fere princípio do amor ao próximo, a base da religião, afirma CONIC

Talis Andrade

Romi Bencke é secretária-geral do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC)

Romi Bencke é secretária-geral do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC)

O Supremo Tribunal Federal do Brasil discute nessa quarta-feira (7) a polêmica questão da abertura das igrejas e outros templos durante a pandemia, após uma série de declarações contraditórias sobre o fechamento obrigatório dos locais de culto no país. O Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), que preconiza as atividades online desde o início do surto em 2020, critica a dimensão política do episódio e lembra que ao desrespeitar as regras sanitárias, se fere um dos princípios de base de qualquer religião: a preservação da vida e o amor ao próximo.  

“Desde o início da pandemia, em março do ano passado, a nossa decisão foi orientar pela não realização de celebrações presenciais”, explica Romi Bencke, secretária-geral do CONIC. “As igrejas membros do Conselho se organizaram e a maioria das atividades tem sido feita de forma online. A opção, quando há atividades presenciais, é fazer de forma híbrida: a celebração é transmitida via youtube, por exemplo, e a participação [no templo] é limitada”, detalha.

Mas isso não quer dizer que todos os líderes religiosos respeitem a regra e a situação varia de uma comunidade para outra. “As igrejas, como a sociedade, também têm as suas polarizações internas. Existem lideranças religiosas que não aceitam o fato de não poder ir até a igreja fazer a sua celebração”, comenta a pastora da Igreja evangélica de confissão luterana no Brasil.

Ela explica que, quando esse tipo de divergência ocorre, o CONIC não pode intervir e se restringe a lembrar as preconizações e aconselhar os líderes religiosos. “Tem comunidades que não aceitam não se reunir. Nesses casos, o que se tem feito é estabelecer um limite de número de pessoas, a utilização de máscaras, e fazer atividades em ambientes bem arejados”.

Igreja como curral eleitoral

igrejas abertas.jpg

 

 

Mas para Romi Bencke o debate sobre a abertura ou não dos locais de culto é também político, com igrejas que fazem lobby junto às instituições governamentais. “Isso é grave pois muitas vezes se cede a essas pressões por causa de questões relacionadas a voto”, alerta a secretária-geral do CONIC. “Muitas igrejas têm se tornado o que a gente chama de curral eleitoral. E isso é o pano de fundo dessa discussão atual no Brasil, pois no ano que vem tem eleição e parte dessas pressões tem muito a ver com negociação para apoio eleitoral no futuro”, denuncia.

No entanto, ela insiste que a partir do momento em que há qualquer forma de pressão para manter uma atividade presencial nas igrejas e templos, muito além da questão política, trata-se de um desrespeito dos fundamentos da religião. “Está se ferindo um dos principais mandamentos da nossa tradição religiosa, que é o amor ao próximo e o cuidado com a vida”.

“O Brasil, daqui poucas semanas, pode alcançar a marca de 400 mil mortes”, insiste a pastora, “E a gente sabe que a aglomeração, dentro ou fora da igreja, é um dos desencadeadores da Covid-19. Então a nossa responsabilidade maior agora precisa ser evitar as aglomerações, em coerência com o mandato religioso de cada comunidade de fé”, finaliza.

 

10
Out20

Papa liga para Pe. Lancellotti e manifesta seu amor pela população de rua

Talis Andrade

Julio-Lancellotti-apoio-Nando-Motta.jpg

 

“O Papa disse que nos acompanha com carinho, sabe das dificuldades que vivemos e para que não desanimemos e tenhamos coragem, como Jesus, estando sempre junto dos pobres”, contou o sacerdote.

 

O Papa Francisco telefonou ao Padre Julio Renato Lancellotti, Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, na tarde deste sábado (10/10) para manifestar sua proximidade à população em situação de rua nesse período de pandemia.

Em entrevista ao jornal O SÃO PAULO, Padre Julio relatou que, às 14h15, recebeu um telefonema de um número não identificado e, quando atendeu, o Pontífice se apresentou: “Sou o Papa Francisco”, perguntando-lhe se desejava falar em espanhol ou italiano.

Em seguida, o Santo Padre informou que viu as fotos do atendimento realizado para a população de rua durante a pandemia, que lhes foram enviadas recentemente por intermédio da Rádio Vaticano/Vatican News.

“O Papa disse que nos acompanha com carinho, sabe das dificuldades que vivemos e para que não desanimemos e tenhamos coragem, como Jesus, estando sempre junto dos pobres”, contou o sacerdote. Francisco também pediu ao Padre Julio que transmitisse à população de rua que ele os ama muito, os abençoou, pedindo-lhes também suas orações por ele.

“O Papa foi muito simples e próximo, como se conversássemos todos os dias”, destacou o Vigário Episcopal, que ficou emocionado e surpreso com o telefonema. “Eu levei um susto. Quanto ele disse que era o Papa Francisco, fiquei incrédulo no primeiro momento”, disse.

 

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