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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Mar21

Bolsonaro, as mentiras e o flerte com o golpe. Cadê Azevedo e Silva e Fux?

Talis Andrade

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por Reinaldo Azevedo

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Lula irrompeu elegível no cenário político, embora a questão ainda esteja pendente no Supremo, e obrigou Jair Bolsonaro a se apresentar como um defensor da vacina, o que ele nunca foi. No mesmo dia em que o petista fez o seu pronunciamento, o presidente apareceu de máscara numa solenidade. Pesquisas de opinião apontam queda contínua na sua popularidade. Há um esforço para vender a imagem de que se preocupa com a saúde dos brasileiros.

Ocorre que o homem tem uma natureza, como todos nós. E a sua não é boa. Nesta quinta, voltou a flertar com o golpismo e contou uma penca de mentiras em videoconferência organizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e naquela sua live que mistura estética Al Qaeda com o antigo Zorra Total. Mentiu, inclusive, sobre o Supremo. E já ouço daqui o silêncio eloquente de Luiz Fux, presidente do tribunal — a menos que me surpreenda.

É QUEM É. OU: POPULISMO DA MORTE

Nos humanos, o nome da natureza é cultura. Compreende o conjunto das coisas que a gente vai aprendendo ao longo da vida. A soma das nossas experiências, reflexões, leituras, etc. vai cultivando o nosso espírito. E Bolsonaro é quem é. A sua disposição para aprender e a sua capacidade de raciocinar com lógica já eram consideradas precárias por seus superiores no Exército. Um relatório que resume o seu perfil deixa claro que não falava coisa com coisa, embora tivesse a pretensão de ser um líder, demonstrando também ser ambicioso.

Passou 28 anos na Câmara dizendo coisas asquerosas, detestáveis, burras. A razia promovida no meio ambiente da política pela Lava Jato o alçou à condição de presidenciável viável. Faltava uma facada para elegê-lo à esteira do impeachment de Dilma. E chegamos à terra devastada.

Pode parecer incrível, mas está em curso no país o populismo da morte. Nem poderia ser diferente, convenham: Bolsonaro chegou à Presidência com a cultura que tinha, com a sabedoria que tinha, com a experiência que tinha. Seria obviamente incapaz de gerenciar um boteco. A falta de pensamento lógico inviabiliza a gestão de uma bodega. Sergio Moro e Deltan Dallagnol lhe deram um país. O desastre estava contratado ainda que vivêssemos tempos normais dentro da nossa miséria. E normais eles não são. 

LOCKDOWN

Na videoconferência do Sebrae, voltou a distorcer a decisão tomada pelo Supremo, sugerindo que o tribunal lhe retirou a responsabilidade sobre as medidas para conter a doença. É uma estupidez. O STF apenas reiterou o que está na Constituição. Os entes da Federação -- União, Estados e municípios -- devem agir em conjunto.

O presidente estava injuriado com o toque de recolher durante a madrugada, decretado pelos governos do Distrito Federal, São Paulo e Rio Grande do Sul. "O efeito colateral do combate ao vírus está sendo mais danoso que o próprio remédio". Afirmou que até a "desacreditada" Organização Mundial da Saúde rejeita o expediente.

Sua capacidade de mentir não encontra paralelo na política. O que está em curso no país não é lockdown. E é falso que a OMS rejeite a medida. O que a organização fez foi cobrar que os governos, ao aplicá-la, pensem no padecimento dos mais pobres e atuem para minorar seu sofrimento.

Na live, ele voltou ao assunto. Chamou as medidas de restrição de circulação, especialmente as do Distrito Federal, de "estado de sítio", o que é de uma estupidez rara até pelos seus padrões, afirmando que só ele teria competência para decretá-la. Revela ignorância específica dupla. Certamente desconhece o que a Constituição diz a respeito de estado de sítio e ignora o conteúdo da Lei 13.979, que ele mesmo sancionou, que autorautoriza as restrições de circulação.

GRIPEZINHA E VACINA

O presidente também disse na "live Al Qaeda" que jamais chamou a doença de gripezinha e que nunca foi contra a vacina. Bem, as barbaridades que andou dizendo estão em toda parte, registradas em vídeo. Eduardo Pazuello, seu ministro da Saúde, recusou a compra de 70 milhões de doses da Pfizer. O próprio Bolsonaro buscou sabotar os esforços do governo de São Paulo para desenvolver a Coronavac. Chegou a espalhar fake news sobre o imunizante e levantou suspeitas estapafúrdias sobre os efeitos colaterais da droga.

Na live, atacou ainda o governador João Doria, afirmando que este promovia um "pancadão" em sua casa enquanto medidas restritivas eram adotadas em São Paulo, o que também é mentira comprovada. Desferiu ataques a Lula, a quem chamou de "carniça":

"O carniça ontem falou que eu deveria procurar o Marcos Pontes, que é o nosso ministro da Ciência e Tecnologia, que esteve no espaço, para ele dizer para mim que a Terra é redonda. Olha a qualidade do meu ministro da Ciência e Tecnologia e a qualidade dos ministros do presidiário para depois a gente começar a discutir".

Bem, não sei se Pontes falou com o seu chefe. O fato é que, sobre a mesa a que estava sentado Bolsonaro, havia um globo terrestre. Parece que ao menos uma coisa Bolsonaro aprendeu: a Terra é redonda.

GOLPISMO

Bolsonaro voltou a se referir às Forças Armadas, sugerindo que elas poderiam obedecer a uma ordem sua para, bem..., o contexto deixa claro que ele estava se referindo a um golpe. Disse:

"Eu faço o que o povo quiser. Digo mais: eu sou o chefe supremo das Forças Armadas. As Forças Armadas acompanham o que está acontecendo. As críticas em cima de generais, não é o momento de fazer isso. Se um general errar, paciência. Vai pagar. Se errar, eu pago. Se alguém da Câmara dos Deputados errar, pague. Se alguém do Supremo errar, que pague. Agora, esta crítica de esculhambar todo mundo? Nós vivemos um momento de 1964 a 1985, você decida aí, pense, o que que tu achou daquele período. Não vou entrar em detalhe aqui".

E mais adiante:

"O meu exército, que eu tenho falado do tempo todo, é o povo. Eu sempre digo que eu devo lealdade absoluta ao povo brasileiro. E este povo está toda a sociedade, inclusive o Exército fardado. A vocês eu devo lealdade. Eu faço o que vocês quiserem, porque esta é a minha missão de chefe de Estado".

Como notou seu superior no Exército, ao tempo em que ainda era tenente, faltam lógica e coerência interna ao raciocínio. Mas a intenção é evidente. Se aquilo que ele considera "povo" quiser e se os militares toparem...

Sim, ele é o comandante supremo das Forças Armadas, segundo aquilo que dispõe e regula a Constituição. Não parece o suficiente para ele.

INCITAMENTO

De maneira ostensiva, o presidente incitou a sua turma a reagir às medidas restritivas impostas por prefeitos e governadores. E o faz quando o sistema de Saúde vive um colapso no país inteiro:

"Usam o vírus para te oprimir, para te humilhar, para tentar quebrar a economia. (...) Quanto mais atiram em mim, de forma covarde por parte de parte da sociedade, mais você está enfraquecendo quem pode resolver a situação. (...) Como é que eu posso resolver a situação? Eu tenho que ter apoio. Se eu levantar minha caneta BIC e falar 'shazam', vou ser ditador. Vou ficar sozinho nesta briga?"

CONSEQUÊNCIAS

A fala do presidente pede que o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, venha a público nesta sexta-feira para reiterar o compromisso das Forças Armadas com a legalidade e que o presidente do Supremo, Luiz Fux, relembre ao presidente o conteúdo da decisão tomada pelo tribunal quanto à atuação dos entes da Federação no combate à pandemia, rechaçando, adicionalmente, as ameaças feitas pelo presidente. 

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24
Jan21

PGR abre inquérito contra Pazuello. Parabéns, generais!

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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O Procurador Geral da República, Augusto Aras, não resistiu à pressão da corporação – e do que é seu dever, afinal – e pediu a abertura de inquérito sobre as responsabilidades do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na catástrofe de Manaus.

Vai ser um espetáculo de nudez na praça, onde se vão mesclar omissão, desídia, charlatanismo e todas as vergonhas que marcaram e marcam o arrogante e infeliz papel de um ministro que só tem como programa a obediência canina às loucuras de seu chefe, Jair Bolsonaro.

Acolhido o pedido pelo Supremo Tribunal Federal, o passo inicial será a devassa das operações do Ministério pela Polícia Federal – inclusive na “Missão Cloroquina” enviada à capital amazonense e sobre os avisos – formais e documentados – de que o desastre e as mortes de pacientes por sufocamento viriam.

Por exemplo, como explicar que oxigênio não veio, mas chegaram 120 mil caixas de cloroquina e hidroxicloroquina para serem despejadas goela abaixo dos doentes.

E é inevitável, pela mobilização de meios que seria necessária das três Forças, que sejam os militares que se vejam arrastados para dentro deste episódio trágico por permitirem que Jair Bolsonaro se servisse de um general da ativa para impor às estruturas de Saúde do país alguém que estivesse disposto a seguir sua política genocida, pró-morte e charlatã.

Por falta de aviso não foi e, agora, estão todos metidos numa sinuca de bico.

Bolsonaro não pode trocar de ministro nem Pazuello pode passar à reserva sem que qualquer dos dois atos se configure como, antes mesmo de uma confissão de culpa, uma demonstração de covardia.

E os generais, que elevaram um louco, sedento de poder, à Presidência da República e que agarraram-se, como carrapatos, às oportunidades políticas que ganharam com isso.

Era mais que avisado e aqui mesmo se disse que Pazuello apodrecia na praça e levava o Exército com ele.

A omissão dos comandantes militares – afinal, o ministro é um general da ativa – e a apropriação das Forças Armadas como ferramenta de poder, mesmo que isso significasse deixar o país entregue aos delírios negacionistas e desumanos de um sujeito que, afinal, nem para tenente do Exército servia.

Ou será que, em lugar de adminitir as baixas que seu mau comando está causando, irão investir contra o poder civil, pela audácia de achar que um general está, como qualquer um, sujeito a leis e à Constituição?

Ou vão querer que o general que ignorou o sufocar agônico de brasileiros é bom demais para sentar num banco da polícia e dar explicações?

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09
Nov20

Até prevista posse de Biden, serão meses concedidos a um presidente ensandecido

Talis Andrade

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por Janio de Freitas

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Tirar Donald Trump da presidência com um impeachment veloz é o único meio de talvez evitar o que seria seu maior feito: aproximar ainda mais os Estados Unidos de uma convulsão. A tensão exibe nível muito alto para uma sociedade já levada, por longa elaboração, a condições potencialmente conflituosas e agora submetidas a estímulos descontrolantes.

Até a prevista posse de Joe Biden em 20 de janeiro, serão mais de dois meses concedidos a um presidente ensandecido, que acusa de roubo e corrupção o sistema eleitoral e avisa o país de que resistirá “até o fim”. Não expõe nem indícios do que acusa e não diz qual é “o fim” em sua disposição. É certo, porém, que conhece os perigos implícitos na atitude que incita o segmento da população armado, violento e numeroso —os seus seguidores extremados.

Com Trump ainda na presidência, serão dias em que dele, do seu desatino ambicioso, poderá projetar-se qualquer ato de uma mente transtornada e, apesar disso, poderosa.

Quem é capaz de fazer expulsar para o México centenas de crianças sem os pais, de várias nacionalidades e sem parentes no destino — fato anterior ao choque da derrota eleitoral e agora revelado pelo jornal The New York Times — ficaria muito bem entre os criminosos do nazismo. É capaz de tudo.

Há quase 70 anos, ou desde que iniciadas as reações do nosso tempo à discriminação dos negros, são periódicos os levantes contra a opressão racista e a liberdade combinada com impunidade para os crimes oficiosos contra não brancos.

Mas, como contemporâneo e profissional de atenção a esse período, não me consta fase alguma de extremismos tão difundidos nos Estados Unidos, como atestam as chamadas redes sociais. Nem de divisão da sociedade nas proporções atestadas pelas urnas recentes.

Observar que metade dos eleitores americanos, no maior comparecimento da sua história, deseje a permanência da mente de Trump na presidência da “América” é, com a melhor clareza, desmentir o caráter exemplar da democracia americana.

A propaganda fez o mundo adotar a ilusão. Com discriminação racial não seria construída uma democracia. Sobre essa deformação duradoura, o que se mostra nos Estados Unidos não é a diversidade democrática de opinião.

Amostra apressada, já na segunda noite da contagem eleitoral a polícia da Filadélfia recebeu a denúncia de que homens armados dirigiam-se ao centro de apurações. Pôde prender dois deles.

Nos anos Trump, a preferência por fuzis, entre os militantes armados, foi substituída pela compra de metralhadoras. Armas de ataque, metralhadoras de todos os tipos, motivando a criação de lojas especializadas. As milícias políticas de brancos proliferam nos últimos anos como nunca, com campos de treinamento também para mulheres e mesmo crianças.

Do desafio de Trump às instituições do país que preside até à nova saturação das humilhações não brancas, os prenúncios transbordam. Não é vazio o temor que jornais e televisões noticiam com avareza, com seu velho pretexto das razões de Estado. A elevação de Trump já era sinal suficiente de degeneração. Ele agiu para confirmar o sinal e age para levar a degeneração até o fim.

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02
Ago19

Moro, o ídolo de pés de barro perde a máscara e desmorona

Talis Andrade

Um ambicioso juiz de primeira instância que, para chegar ao poder, não hesitou em destruir vidas, atropelar leis e violar a Constituição, prejudicando milhares de pessoas

 

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por Ribamar Fonseca

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Qual é o primeiro pensamento de qualquer pessoa que se sente injustiçada, caluniada, injuriada, prejudicada? Bater às portas do Judiciário em busca de justiça. “Vou recorrer à Justiça!”, dizem. Ou “Vou processá-lo!” No Brasil de hoje, porém, depois da era Moro, ninguém mais acredita ou confia na Justiça, que perdeu a credibilidade em função do comportamento criminoso do ex-juiz. Além de fazer um grande mal ao Brasil, fechando empresas, desempregando milhares de trabalhadores, destruindo reputações,  acabando vidas e interferindo nas últimas eleições presidenciais,  Moro também fez muito mal à Justiça brasileira. Usando o combate à corrupção como pretexto, uma farsa que escondeu dos olhos da população  seus  verdadeiros objetivos políticos,  o então juiz de primeira instância conquistou a simpatia e o apoio de todos, especialmente da mídia que, satisfeita com o atendimento dos seus interesses na criminalização do PT e de Lula, lhe deu fama, transformando-o em super-herói. E ele ganhou o respeito e a admiração de todo mundo, passando a encarnar o sonho de jovens estudantes de Direito e exemplo para  magistrados de todas as instâncias, que também passaram a perseguir a fama imitando suas atitudes. Agora, no entanto, com a revelação das suas ações ilegais nos bastidores da Lava-Jato, a sua máscara de bom moço, de juiz exemplar, de paladino no combate à corrupção caiu estrepitosamente e o ídolo de pés de barro desmorona, para decepção de quantos  acreditaram em suas intenções.

Hoje ministro da Justiça, cargo para o qual foi nomeado como recompensa por sua valiosa contribuição para a vitória de Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais – a condenação e prisão de Lula, mesmo sem provas,  foi determinante para a vitória do capitão – Moro, depois das reportagens do site The Intercept, passou a ser visto como realmente é: um ambicioso juiz de primeira instância que, para chegar ao poder, não hesitou em destruir vidas, atropelar leis e violar a Constituição, prejudicando milhares de pessoas. E, com atitudes ditatoriais, ainda sonha em conquistar a Presidência da República, de preferência como ditador. Para prender Lula e retirá-lo da vida pública, o seu principal objetivo na Lava-Jato, ele não se importou em prender e destruir a vida de outras pessoas, para simular imparcialidade. Hoje só engana meia dúzia de imbecis  movidos pelo ódio, que fazem questão de ignorar seus métodos, pois entendem que os fins justificam os meios. Felizmente, porém, a esmagadoras maioria dos magistrados não se deixou influenciar por Moro, mantendo sua integridade como juízes, mas uma parte do Judiciário sofreu a influência maléfica do ex-juiz e tenta imitar o seu exemplo, com graves prejuízos para a Justiça. Diante disso, conclui-se pela necessidade do Judiciário cortar na própria carne, extirpando dos seus quadros a parte pôdre,  para impedir que essa parte necrosada comprometa a saúde do corpo da Justiça.  

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As revelações do The Intercept, que Bolsonaro e Moro tentam calar com medidas improvisadas de exceção e ameaças de prisão ao jornalista Glenn Greenwald, estão não apenas expondo as ações ilegais do ex-juiz mas, também,  suas ligações clandestinas com magistrados de instâncias superiores, o que de certo modo explicaria  a sua impunidade e o endosso de suas decisões, mesmo injustas.  Sabe-se hoje, por exemplo, graças à divulgação dos diálogos secretos da Lava-Jato, que o ministro Luiz Fux, o mesmo que impediu Lula de dar entrevistas antes das eleições,  manteve reuniões clandestinas com banqueiros e integrantes da força-tarefa antes do pleito. Não é muito difícil adivinhar o motivo da reunião, até porque Fux era o presidente do Tribunal Superior Eleitoral. O ministro Roberto Barroso, do STF, também mantinha relações estreitas e clandestinas com Moro e o pessoal da Lava-Jato, tendo inclusive oferecido um jantar reservado a eles.

Quantos outros ministros de tribunais superiores teriam lugar cativo no coração da Lava-Jato? E os desembargadores do Tribunal Regional  Federal da 4ª. Região, que confirmaram todas as sentenças  do juiz da 13ª Vara de Curitiba e até aumentaram a pena de Lula, pena depois reduzida pelo STJ por ter sido exagerada? Todo mundo já conhece os laços afetivos entre o hoje ministro da Justiça e o desembargador Gebran Neto, por exemplo,  relator da Lava-Jato naquela Corte, cujo presidente à época, desembargador Thompson Flores,  considerou a sentença de Moro “irretocável” e manobrou para impedir a libertação do ex-presidente. Alguma dúvida sobre o sentimento deles em relação a Moro e Lula?

Em agosto que se inicia o Supremo Tribunal Federal deverá julgar o habeas corpus de Lula e a suspeição de Moro, julgamento já adiado algumas vezes pelo presidente da Corte, ministro Dias Tóffoli. Se a Corte Suprema recompor-se efetivamente em sua missão de fazer justiça, como todos esperam,  o ex-juiz deve ser declarado suspeito, o ex-presidente libertado  e a sentença que o  condenou  anulada.  Essa é a única maneira da Justiça brasileira recuperar a confiança e o respeito do povo, que tem assistido, estarrecido e indignado, decisões nitidamente injustas, para atender interesses políticos ou sentimentos pessoais. Até porque o judiciário, um dos pilares da democracia,  precisa reocupar seu espaço entre os poderes da República, depois de humilhado pelo governo do presidente Bolsonaro, cujo filho, logo no inicio do seu mandato, ameaçou fechar a Suprema Corte apenas com um cabo e um soldado. 

Afinal, é inadmissível que depois das revelações do The Intercept, em parceria com a Veja e a Folha de São Paulo, sobre os atos criminosos do então juiz Sergio Moro, que interferiu até nas últimas eleições presidenciais, ele permaneça impune. Hoje ele e o seu chefe, o presidente Bolsonaro, classificam de crime a suposta invasão dos seus celulares por hackers, mas o crime maior foi praticado pelo próprio Moro ao grampear o telefone da presidenta Dilma Roussef e divulgar  o seu conteúdo, esse sim um crime previsto pela Constituição, sem que tenha sido punido por isso.  Chegou a hora de dar um basta no reinado de Moro, que tanto mal  causou ao Brasil e ao seu povo, e finalmente fazer-se justiça.   

 

28
Jul19

Deltan já foi derrubado e Moro também cairá

Talis Andrade

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01
Nov18

Le Monde denuncia as "ambiguidades de Sérgio Moro" com a extrema-direita

Talis Andrade

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Le Monde aponta as ambiguidades do juiz Sérgio Moro Reprodução Le Monde

 

RFI - O jornal francês Le Monde que chegou às bancas nesta quarta-feira (31) traz uma reportagem sobre as “ambiguidades de Sérgio Moro”. O diário afirma que a inexperiência política do responsável pela prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um fator que não deve ser ignorado

 

“Seu escritório de Curitiba, no sul do Brasil, está perto da célula onde o ex-chefe de Estado Luiz Inácio Lula da Silva cumpre sua pena de 12 anos de prisão. O ‘troféu de Moro’, dizem na região”, começa a reportagem de Claire Gatinois. “Será que foi por ter emprisionado o líder da esquerda brasileira que o magistrado será recompensado por Jair Bolsonaro?”

 

A matéria lembra que Moro era apenas um personagem menor para a história nacional até se tornar o chefe da Operação Lava Jato que, desde 2014, tem sacudido o mundo político do país. “Na segunda-feira, 29 de outubro, dia seguinte à sua eleição, Jair Bolsonaro disse que ofereceria ao juiz de primeira instância um cargo na Corte Suprema ou o posto de ministro da Justiça”.

 

Moro, descrito como “ambicioso” por seus aliados, se disse “honrado” com a proposta, mas revelou que precisava de tempo para refletir. “Mais do que honrado, o magistrado estaria já atraído pela proposta. Sérgio Moro cultiva uma admiração secreta pelo presidente eleito, se esquecendo do pouco respeito do militar às instituições e seu desprezo pelos direitos humanos”, continua a repórter. A ocupação de um dos altos cargos da jurisdição por um juiz de primeira instância seria inédita, aponta o texto.

 

Show midiático

 

A matéria do Monde retraça a história do juiz que, investigando “um caso banal” de lavagem de dinheiro, acabou revelando um dos maiores casos de corrupção do país. “A operação envolve quase todos os partidos, mas a Justiça e Sérgio Moro têm um cuidado todo especial em relação ao Partido dos Trabalhadores”, diz a reportagem.

 

“Inovador e ambicioso”, Moro soube mexer com a população brasileira, já cansada dos inúmeros casos de corrupção, “multiplicando as detenções preventivas”. “Em 2016, ele ‘deixou escapar’ uma conversa telefônica constrangedora, mas ilegal, entre a então presidente Dilma Roussef e Lula, alguns meses antes do impeachment”.

 

Ainda mais constrangedor, segundo o Monde, é a rapidez com que Lula foi julgado, num país onde a Justiça anda a passos lentos, semanas antes da oficialização das candidaturas para as eleições de 2018. De acordo com a análise do jornal, se Moro aceitar um dos dois cargos, isso só corroborará o argumento de que ele sempre foi um juiz “seletivo”.  

 

27
Out18

AS RAÍZES DO RACISMO E DA HOMOFOBIA. Como vai votar a cidade da infância e adolescência de Bolsonaro?

Talis Andrade

 

Uma visita à cidade onde o candidato de extrema-direita cresceu e a uma colônia próxima fundada por descendentes de escravos reflete a enorme divisão racial e social

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O preferido das muitas raças, menos dos pretos

 

 

Eldorado Paulista / São Paulo 
 
 
A praça central de Eldorado, uma cidade rural de 15.000 habitantes, se pode ver a escola de paredes descascadas onde Jair Messias Bolsonaro fez o Ensino Médio. E as ruas, cheias de pequenos negócios de letreiros pintados à mão hoje desbotados, em que brincou. O populista de extrema-direita que, se as pesquisas se confirmarem, presidirá o Brasil depois da eleição de domingo, continua presente em Eldorado, a 190 quilômetros ao sul de São Paulo, mas de outra maneira. Muitos carros têm adesivos com seu retrato. E seu nome é ouvido repetidamente na boca dos que cresceram com ele, que competem para ver quem o canoniza primeiro. (...) Mas é uma imagem enganosa.
 
 

Tirço, um corpulento empregado negro de um dos dois postos de gasolina de Eldorado, avisa: “Daqui para lá, ninguém vai te dizer nada de ruim sobre Bolsonaro”, apontando para o centro. “Mas de lá para cá, ninguém vai te dizer nada de bom”, indicando outro bairro, muito mais precário e distante, Vila Nova Esperança, de maioria negra.

 

Nesse país tão desigual e multirracial (8% dos brasileiros se declaram pretos e 45%, pardos), o apoio a um ou outro candidato varia consideravelmente em função da raça em que o eleitor se enquadra. Bolsonaro vence entre os brancos; o candidato do PT, Fernando Haddad, entre os pretos. À medida que a pele do eleitor escurece, o militar reformado perde apoio. (...)

 

Jair  Bolsonaro é denunciado pelo crime de racism

 

 

Em Eldorado, onde havia clubes sociais apenas para brancos até quase o final da década de sessenta, uma moradora diz abertamente que “os negros são vagabundos dependentes das ajudas do Estado”. Há também outra condição: aqui havia muitos escravos até o século XIX e agora existem dezenas de quilombos, comunidades que estes fundaram depois terem sido libertados. São assentamentos muito pobres no meio do mato que recebem discretas subvenções do Governo e seus moradores se dedicam a cultivos artesanais; também são a obsessão da cultura racista brasileira, que não vê sua utilidade. Depois de visitar um em 2017, Bolsonaro disse que “o afrodescendente mais magro” pesava sete arrobas” e “nem para procriar servia mais”.

 

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Ernesto (nome fictício), um vizinho que acusa ao pai de Jair Bolsonaro de ser racista. VICTOR MORIYAMA
 

Ditão, de 63 anos, grisalho de olhos cinzentos por causa da catarata, líder do maior quilombo da região, o de Ivaporunduva, está em seu bananal com sandálias Havaianas bem afundadas no barro. “Eldorado segue a mentalidade colonial: você manda, eu obedeço”. Muitos acreditam que as pessoas dos quilombos não conseguem pensar, não conseguem administrar um negócio, não conseguem entrar na política. Nós só existimos para obedecer. Ouvir e obedecer.

 

A fratura racial é menos brutal em uma cidade como São Paulo. E um passeio por um shopping center em um bairro misto mostra que a rejeição a Bolsonaro diminui entre os mestiços que prosperaram. Celia Reis, de 72 anos, e sua filha votarão nele para expulsar o Partido dos Trabalhadores de Lula. Os temores que a provável presidência de Bolsonaro desperta são diferentes em função da raça, como mostram a assessora jurídica de direitos humanos Flávia Julião, de 39 anos, e sua amiga. O maior medo da ativista, negra, é “um retorno a 64, à ditadura”. A professora Patricia Alonso, de 40 anos, branca, aponta para outra época: “O meu, de voltar a Collor (Fernando Collor de Mello)”, ou seja, à hiperinflação.

 

 

A advogada Julião está convencida de que o enorme apoio a Bolsonaro se deve, embora não se explicite, a uma rejeição às conquistas esquerdistas dos últimos anos para reduzir a abismal desigualdade. “Votam nele não porque gostem de Bolsonaro, mas para deter essa melhora ou até mesmo revertê-la”, diz. Elisana Santos é uma amostra de como milhões de brasileiros não-brancos prosperaram nos últimos anos. Filha de uma empregada doméstica e de um ferreiro, aos 19 anos acaba de terminar o Ensino Médio. Quer ir para a universidade, então está olhando os cursos enquanto faz orçamentos. Provavelmente ela poderá se beneficiar das cotas que Bolsonaro tanto detesta, mas, enfatiza, “para essas vagas também existe muita competição”. Ela está entre as três pessoas que mais estudaram em sua família.

 

Mas a universidade e São Paulo estão muito longe de Ditão e de sua plantação de bananas, onde vive com preocupação pelo futuro do país. Ele não tem a menor dúvida de que com Bolsonaro a ditadura voltará de uma forma ou de outra, implícita ou explicitamente. “Liberdade é que quando um policial bate seu carro no carro de um negro, a culpa é do policial; ditadura é quando a mesma coisa acontece e o negro acaba na cadeia”, sentencia. “E esse é um problema que não queremos que volte". Transcrevi trechos

 

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Ditão, em sua plantação de bananas no 'quilombo' de Ivaporunduva, ao lado de Eldorado. VICTOR MORIYAMA
 

Vida e ascensão do capitão Bolsonaro

 

 

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Saído de Eldorado, interior paulista, aos 18 anos, o deputado que está a um passo de ser presidente foi um lobo solitário que navegou na insatisfação exposta pelas jornadas de 2013, e foi se ajustando para sua corrida ao Planalto

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Ambicioso, ultradireitista, misógino e nostálgico da ditadura. O capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro é o candidato com mais probabilidade de se tornar o futuro presidente do Brasil após o segundo turno eleitoral, no dia 28 de outubro. Uma equipe do EL PAÍS investigou a trajetória do aspirante: onde se criou, como entrou no Exército e no mundo da política, como começou do nada e foi, pouco a pouco, tecendo apoios dos principais setores.

 

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A INFÂNCIA

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Dona Narcisa, de 63 anos, aponta a escola de paredes azuis. “Foi aí”, conta. “Estávamos todos os alunos aí quando de repente: pum, pum, pum.” Era 8 de maio de 1970. Carlos Lamarca, um guerrilheiro que lutava contra a ditadura brasileira (1964-1985), refugiou-se nesta cidade de 15.000 habitantes, a 180 quilômetros ao sul de São Paulo. Houve um tiroteio. Um policial morto. Estradas fechadas pela polícia, revistas generalizadas. Ao final, o guerrilheiro conseguiu fugir e levou sua luta para outro lugar. Mas aquela sexta-feira ficou na memória dos habitantes da cidade como um dos mais emocionantes na história de Eldorado Paulista. Impressionou a todos seus habitantes, sobretudo as crianças. Mais do que a ninguém, a um adolescente teimoso, ambicioso e desengonçado chamado Jair Bolsonaro.

 

Até esse dia, Bolsonaro, que tinha então 15 anos, destacava-se na cidadezinha por ser turrão e astuto. (...) 

 

Para cumprir sua obsessão e entrar no Exército, o jovem Bolsonaro necessitava de duas coisas que não possuía na época: dinheiro e estudos. Para o primeiro, contava com um sócio: seu melhor amigo, Gilmar Alves. “Compramos uma vara e fomos pescar para vender: todo dia a gente ia para o rio, com frio ou calor”, recorda Alves, hoje com o cabelo completamente grisalho, sentado num bar de Registro, cidade próxima a Eldorado, onde vive.

 

“E enquanto isso, estudávamos. Precisávamos nos esforçar muito porque naquela época Eldorado não tinha bons professores: o de História dava aulas de Química, sem saber muito”, afirma. “Mas o Jair é uma das pessoas mais obstinadas que conheci. Estudava 24 horas por dia. Todo mundo ia aos bailes dos clubes e nós ficávamos estudando. Ele me dizia para que eu fosse para o Exército com ele, porque os presidentes eram todos militares e ele iria ser presidente”.

 

O plano deu certo. Gilmar chegou a estudar Agronomia em Curitiba, e Jair entrou no Exército. Durante anos, os dois amigos mantiveram o contato. “Ele me ligava de vez em quando para pedir minha opinião”, lembra. “Escuta Gilmar, o que achamos da prostituição?’ ‘Olha Jair, é a profissão mais antiga do mundo e é preciso apoiar as trabalhadoras. É preciso repudiar os que exploram a mulher’. ‘Tá, tá. Mas é que eu estou me aproximando dos evangélicos e isso não fica bem”.

 

A amizade acabou se rompendo. Em abril de 2015, cada vez mais convencido de que poderia se tornar presidente, durante uma entrevista televisionada, Bolsonaro falou de seu amigo de infância, de seu companheiro de pesca. Após décadas falando bobagens homofóbicas e racistas, talvez para contrastar, dessa vez disse algo diferente: “Eu tenho um amigo gay, Gilmar, que vive em Registro”. Gilmar ficou atônito ao escutá-lo. “Eu não sou gay”, diz. A suposta revelação teve como consequência uma campanha de assédio: por WhatsApp, nos bares, na rua. “Não importa onde, alguém se aproximava e me dizia com um sorriso: ‘Como você escondeu bem isso, frutinha’, e: ‘Bom, onde tem fumaça, tem fogo”. “Eu telefonei para ele para que me desse explicações”, lembra Alves. “E ele me respondeu: ‘Mas eu não te chamei de gay”. Gilmar sabe muito bem como definir seu antigo amigo: “É um desequilibrado, que não pensa antes de falar. Primeiro faz e depois conserta, se puder. É assim que quer chegar à presidência, mas não de um sindicato e sim de um país. Revelou um caráter que eu não conhecia. O de um mentiroso”.

 

A aparência de Eldorado mudou desde os anos setenta. Onde existiam casas de barro e madeira, agora se erguem casas de concreto e tijolo. Surgiram parabólicas sobre os telhados. Mas continua sendo um pequeno pedaço de urbe no meio da mata. A rotina é a mesma: trabalhar, o bar, a casa. E os problemas também: um deles, como no restante do Brasil, é a desigualdade. O dono do maior restaurante do local é partidário de Bolsonaro; as duas funcionárias de sua cozinha (negras), não.

 

“Se esse homem vencer, os primeiros a sentir seremos nós”, diz Ditão, um homem gigante, negro, de óculos de metal. Está na plantação de bananas que é seu ganha-pão. “Nós pobres somos os mais expostos à opressão militar. Eu tinha nove anos quando a ditadura começou em 1964; um dia a polícia prendeu meu pai sem nenhum motivo. Nenhum. Sabe por que ele não foi liberado? Porque não era o dono da terra em que trabalhava. O branco”. Transcrevi trechos. Informação elaborada por Afonso Benites, Felipe Betim, Fernanda Becker, Regiane Oliveira, Talita Bedinelli e Tom C. Avendaño/ El País

 

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