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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Jan21

"Governo não tem interesse em resolver falta de oxigênio no Amazonas"

Talis Andrade

Mulheres choram abraçadas em cemitério durante enterro de parente que morreu de covid-19 em ManausManaus vive explosão de mortes causadas pela covid-19

 

O Amazonas enfrenta o pior momento da epidemia de covid-19, com uma explosão no número de casos, recorde de óbitos e um colapso da saúde pública em Manaus e em várias cidades do interior do estado, onde a falta de oxigênio em hospitais virou manchete no mundo todo.

Além do colapso sanitário, uma nova variante do coronavírus, aparentemente mais contagiosa, se espalhou pela região, piorando a situação. Especialistas suspeitam que essa cepa tem potencial para causar reinfecções.

"O problema no Amazonas é, e sempre foi, a má gestão da epidemia. Se não houver o controle da transmissão comunitária e investimentos na testagem em massa, na fiscalização para evitar aglomerações e numa política que dê condições à população de manter o distanciamento físico, o problema do oxigênio não será resolvido", avalia o pesquisador e epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia.

Em entrevista à DW Brasil, Orellana fala sobre a nova variante do coronavírus, a situação em Manaus e o papel do governo no colapso do sistema de saúde. Para o pesquisador, o governo de Jair Bolsonaro aproveita a falta de oxigênio na região para promover a expansão da BR-319, que liga o Amazonas a Rondônia. "Asfaltar essa rodovia significa destruir o que sobrou da Amazônia no sul do estado", ressalta.

Thomas Milz entrevista Jesem Orellana

DW Brasil: Como está a situação em Manaus e no Amazonas?

Jesem Orellana: Manaus e o interior estão vivendo uma experiência triste, uma tragédia sanitária e humanitária. Manaus, em particular, foi dura e duplamente castigada durante a primeira onda, em abril e maio, e agora enfrenta uma segunda onda ainda mais violenta e com traços mais desumanos, como essas mortes que aconteceram por asfixia nos hospitais, que historicamente são lugares para salvar vidas.

Temos relatos de casos semelhantes em outras cidades do interior do Amazonas, como Coari e Iranduba, e no interior do Pará. Infelizmente, grande parte destes problemas pode ser atribuída, sem nenhuma dúvida, à má gestão da epidemia, aos altos níveis de corrupção e à baixa adesão da população às medidas que visam diminuir a circulação do novo coronavírus.

E, por último, tivemos essa infelicidade de lidar com uma nova variante, que parece ter piorado um cenário que já era ruim desde o início da epidemia na região amazônica.

 

A falta de oxigênio nos hospitais chocou o mundo. Como resolver esse problema?

A questão do oxigênio é difícil de resolver, pois é uma demanda que nasce fora do hospital. Se não há controle da transmissão comunitária do coronavírus, o vírus continuará circulando livremente, e o número de infectados e pacientes graves aumentando, o que gera uma demanda maior de internação hospitalar e oxigênio.

O problema é, e sempre foi, a má gestão da epidemia. Se não houver o controle da transmissão comunitária e investimentos em testagem em massa, na fiscalização para evitar aglomerações e numa política que dê condições à população de manter o distanciamento físico, o problema do oxigênio não será resolvido.

Com a narrativa do oxigênio, o governo federal tenta dar a impressão de que o problema em Manaus e na região norte é a falta de oxigênio. Essa escassez é um dos problemas, talvez não o mais importante, mas é o mais dramático. Suprir Manaus com oxigênio não resolve a situação. Continuaremos tendo três, quatro, cinco ou seis vezes mais sepultamentos do que a média histórica. Continuaremos tendo filas de espera por leitos e continuaremos tendo uma quantidade muito grande de pessoas morrendo fora do hospital. 

 

Mas a falta de oxigênio é um problema. Como é possível resolvê-la?

A única maneira para resolver essa questão seria instalando e aumentando a capacidade de usinas em Manaus ou em cidades do interior. Mas o governo não tem interesse em resolver esse problema. O oxigênio poderia tranquilamente ser transportado em aviões cargueiros vindos de outras regiões do Brasil ou de outros países.

Mas o governo opta pela via terrestre justamente para reacender o debate de finalização e recuperação da BR que conecta o estado de Rondônia ao Amazonas. A ideia seria criar essa falsa sensação de que o problema da epidemia em Manaus é a falta de oxigênio, e que essa escassez só pode ser resolvida por via terrestre. Querem jogar essa responsabilidade na BR, e, com isso, conseguir as autorizações necessárias para descumprir a preservação da Amazônia. Asfaltar essa rodovia significa destruir o que sobrou da Amazônia no sul do Amazonas.

 

O que se sabe sobre a nova variante amazônica do vírus?

Essa nova variante, chamada P1, pode estar associada à uma maior infectividade. As evidências laboratoriais, especificamente as análises filogenéticas, mostram caraterísticas semelhantes com as das variantes encontradas no Reino Unido e na África do Sul. Ambas estão associadas à uma maior infectividade.

Quanto à letalidade, ainda é muito cedo para falar que essa cepa possa ser mais ou menos letal. Temos relatos de médicos chocados com a precariedade do quadro dos pacientes que chegam aos hospitais, inclusive dizendo que o perfil dos doentes agora é mais jovem do que na primeira onda. Mas nada disso foi comprovado até o momento.

Nossas análises em relação ao perfil demográfico, de idade, sexo e outras caraterísticas, desses pacientes que morreram em dezembro e janeiro mostram que o grupo é bastante semelhante ao primeira onda. Agora, porém, a quantidade de óbitos é muito maior, muito provavelmente pelo colapso da rede hospitalar pública e privada.

 

A vacinação é a solução para a pandemia no Brasil?

Temos uma extrema dificuldade de enfrentar a epidemia com medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, a higienização das mãos e evitando aglomerações. Por isso, a única solução para vencer a epidemia é a vacina. Infelizmente, é um mecanismo que está sendo desconstruído pelo próprio presidente, cuja uma série de ações acabou retardando a produção, a aquisição e a distribuição de imunizantes.

É muito preocupante ver o presidente com este tipo de comportamento, e seus seguidores de extrema direita fazendo a mesma coisa, pastores evangélicos pregando que essas vacinas têm um microchip, que podem causar câncer. Não temos muita esperança de ter um sucesso como historicamente tivemos em outras campanhas nacionais de vacinação. Os imunizantes são seguros e eficazes, mas infelizmente essas falácias acabam desconstruindo essa que pode ser a única solução para o Brasil sair dessa grave crise sanitária e humanitária.

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28
Jan21

Bolsonaro joga país ao topo de lista dos piores do mundo no combate à Covid

Talis Andrade

 

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Condição de pária internacional é confirmada mais uma vez com estudo do think thank australiano ‘Lowy Institute’, que analisou a atuação de quase 100 países no enfrentamento do surto. Nova Zelândia foi considerada o país mais bem sucedido em frear a propagação do vírus após impor ‘lockdown’. No Brasil, especialistas traçam cenário ainda mais sombrio a partir do colapso de Amazonas e Pará e da circulação de novas variantes do vírus. Na quarta (28), o país ultrapassou 220 mil mortes e 9 milhões de casos

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Não basta que o Brasil tenha destruído sua imagem mundial por causa de incêndios criminosos na Amazônia e no Pantanal e pelos desastres  diplomáticos com parceiros da grandeza estratégica da China. A catástrofe sanitária causada pelo presidente Jair Bolsonaro é hoje o carro chefe da transformação do país, do emergente bola da vez nas eras Lula e Dilma, em pária internacional, selando de vez o isolamento brasileiro no exterior. Um dos mais importantes instituições da Austrália divulgou um levantamento confirmando o Brasil como o pior país do planeta no combate à pandemia do coronavírus.

O ‘Lowy Institute’, de Sidney, avaliou 98 países utilizando critérios como mortes por Covid-19, casos confirmados e testagens, entre outros. Na outra ponta do ranking, a Nova Zelândia foi considerada o país mais bem sucedido em frear a propagação do vírus após uma série de medidas rígidas como o ‘lockdown’ e um amplo sistema de testagem e rastreamento de casos.

Outros casos de maior eficácia no enfrentamento do vírus foram registrados em Taiwan, Vietnã, Tailândia, Chipre, Ruanda, Islândia, Letônia, Sri Lanka, além da própria Austrália. No fim da fila, México, Colômbia, Irã e Estados Unidos fazem companhia ao Brasil, com números trágicos.

“Alguns países administraram a pandemia melhor do que outros – mas a maioria dos países se superou apenas em graus de desempenho inferior”, aponta o relatório do instituto. Os pesquisadores observaram que países menores, em geral com população abaixo 10 milhões de pessoas, se saíram melhor.

“Em geral, os países com populações menores, sociedades coesas e instituições capazes têm uma vantagem comparativa ao lidar com uma crise global, como uma pandemia”, diz o relatório.

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Descontrole e colapso

Infelizmente, o Brasil entrou em uma nova fase de total descontrole da pandemia. Os indicadores das últimas semanas apontam para um aumento agudo de mortes e novos casos, isso em um cenário com novas variantes do vírus sendo ainda detectadas no país. Nesta quinta-feira (28), o país ultrapassou os 9 milhões de casos e 220 mil óbitos por causa da doença.

A média de mortes estacionou no alarmante platô de mais de mil mortes diárias, assim como a média de novas infecções, em mais de 50 mil por dia. Ainda é cedo para afirmar se as variantes irão determinar um agravamento ainda maior do surto. Mas especialistas traçam um horizonte sombrio a partir da análise de estados em colapso absoluto, como o Amazonas e o Pará.

“Começa a colapsar uma grande cidade como Manaus, mas nós estamos em uma corrida de dominó em que os colapsos serão mais rápidos que a nossa capacidade de dar conta desses pacientes, que não terão para onde ir”, alertou o professor, neurocientista e coordenador do Comitê  Científico do Consórcio Nordeste, Miguel Nicolelis, em entrevista ao canal de ‘CartaCapital’.

Ele advertiu que o colapso da rede hospitalar pode gerar outro efeito dominó, o colapso funerário, com consequências ainda imprevisíveis para a saúde pública.  “Se nós tivermos colapsos funerários em diferentes partes do país, como pode acontecer em Manaus e Porto Velho, nós podemos multiplicar essas perdas por três, quatro vezes a longo prazo”, apontou.

Mortes de profissionais de saúde

Além da trágica interrupção de histórias de vida, o país ainda tem de lidar com a perda dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente do combate à pandemia. O Brasil responde por cerca de um terço das vítimas fatais entre enfermeiras, técnicos e auxiliares de enfermagem.

Pelo menos 500 profissionais da linha de frente já morreram, 30 somente em 2021, de acordo com o Conselho Internacional de Enfermagem. “O fato de que o número de enfermeiros e enfermeiras mortos na pandemia seja similar aos que faleceram na I Guerra Mundial é chocante”, afirmou o chefe-executivo da entidade, Howard Catton, durante a divulgação do relatório, na primera semana deste ano.

Estado de guerra e ‘lockdown’

“Essa é a grande preocupação que nos motivou, no fim do ano passado, a sugerir que o Brasil deveria fazer um ‘lockdown’, como o Reino Unido”, insiste Nicolelis. “Evidentemente é a única maneira de fazer as taxas de transmissão caírem, ainda mais devido à existência de uma nova variante que, não tenho a menor dúvida,  já se espalhou pelo Brasil todo”.

Nicolelis também criticou o governo federal por não coordenar ações dentro de um país de dimensões continentais, e que está imerso em uma guerra. “As pessoas estão cansadas, as pessoas não têm meios de ficar em casa”, argumentou. “É neste momento que você precisa de estadistas, que entendam o que é liderar uma Nação, tirar uma Nação de um estado de guerra, porque as consequências a longo prazo da perda de centenas de milhares de vida… As pessoas não têm a menor ideia”, concluiu o cientista.

Da Redação do PT, com AFP Press, ‘CartaCapital’ e ‘ El País’ 

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25
Jan21

Vacinas: a negligência do governo e a da Big Pharma

Talis Andrade

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Se mantido o ritmo atual, serão precisos dez anos para imunizar todos os brasileiros contra a covid. Mas problema vai além do Brasil e mostra fracasso da lógica de atendimento à Saúde baseada na empresa privada e na lógica do lucro

 

por Raquel Torres /Outra Saúde

PAZUELLO NA MIRA

O procurador-geral da República, Agusto Aras, vinha sendo pressionado a tomar alguma medida que levasse à investigação da conduta do governo federal durante a pandemia. O clima começou a ficar insustentável na semana passada, depois da nota em que Aras dizia caber ao Congresso a apuração de crimes cometidos pelos chefes dos Poderes. Houve críticas por parte de procuradores, de ministros do STF, de conselheiros do Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) e da diretoria da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). “Está prevaricando, é caso para impeachment do próprio procurador-geral da República“, disse o jurista Walter Maierovitch ao UOL

No sábado, finalmente, Aras pediu ao STF a abertura de um inquérito contra o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para investigar sua omissão em relação à atual crise em Manaus. De acordo com ele, o pedido decorre de uma representação feita pelo partido Cidadania. O documento cita o cronograma das ações do Ministério na crise e sugere que, já de posse de informações sobre uma iminente falta de oxigênio, Pazuello distribuir hidroxicloroquina em vez de tomar alguma ação efetiva. No dia 14 de janeiro, dia que marcou o colapso, foram entregues 120 mil unidades da droga ineficaz. Quanto ao oxigênio, o general se limitou a visitar a fábrica da White Martins, fornecedora do insumo. Ainda no texto, Aras diz que a apuração é necessária para saber se a conduta “pode caracterizar omissão passível de responsabilização cível, administrativa e/ou criminal”.

A imagem de Eduardo Pazuello, que já não andava das melhores, se desgastou ainda mais. No sábado à noite, horas depois do pedido da PGR, ele desembarcou em Manaus – segundo o Ministério da Saúde, “não tem voo de volta a Brasília” e “ficará no Amazonas o tempo que for necessário”. Ainda não se sabe direito o que ele pretende fazer por lá, além de marcar presença. A agenda oficial estava livre  e, segundo disse a assessoria da pasta ao Estadão, até ontem não havia nenhuma previsão de compromissos.

Em tempo: apesar de toda a expertise de Pazuello em logística, estão escancarados os problemas do Ministério nesta seara. Ele então convidou um novo nome para assessorar o Departamento de Logística em Saúde da Secretaria Executiva da pasta. Trata-se de mais um general: Ridauto Lúcio Fernandes, “militar da reserva e patriota da ativa, graças a Deus”, como se define no Twitter. Em abril do ano passado, ele foi ao Facebook para defender estado de sítio, estado de defesa e intervenção federal na pandemia. “Em maio, junto a uma foto com as cabeças de governadores como se fossem pinos de boliche, ele postou uma mensagem com um convite a Jair Bolsonaro: ‘Vamos intervir, Presidente?’”, conta o colunista d’O Globo Jauro Jardim.

E BOLSONARO?

A pressão sobre Augusto Aras não é apenas no sentido de que se apure a conduta de Eduardo Pazuello, mas também a de Jair Bolsonaro – e ao menos por ora o procurador-geral não fez nada que pudesse atingi-lo. Porém, é ao Congresso que se dirige uma palavra que voltou a crescer na boca do povo: ‘impeachment’. 

A mobilização vem por todos os lados. No sábado, movimentos de esquerda e partidos de oposição puxaram carreatas em dezenas de cidades do Brasil, incluindo Brasília, Rio, São Paulo, Recife e Curitiba. No domingo, novas carreatas se espalharam por São Paulo, Rio, Belo Horizonte e cidades do interior paulista, dessa vez convocadas por grupos de direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Movimento Vem pra Rua. A hashtag #DireitaQuerForaBolsonaro foi uma das mais comentadas no Twitter ontem. 

As eleições para a presidência da Câmara acontecem no próximo dia 1°; o candidato apoiado pela oposição, Baleia Rossi (MDB-SP), promete apenas analisar “com equilíbrio” os pedidos de impeachment que se acumulam na Casa. A demanda popular ainda não parece suficientemente forte para mobilizar os parlamentares: a pesquisa Atlas divulgada ontem mostrou que 53,6% dos entrevistados são contra a abertura de um processo de impeachment, e 41,5% a favor. Mas não é uma diferença tão grande, em especial quando se considera que o apoio ao presidente está, mais uma vez, em declínio. O Datafolha confirmou outros levantamentos mostrando que a reprovação ao governo Bolsonaro subiu (foi de 32% em dezembro para 40% agora, enquanto a aprovação caiu de 37% para 31%). 

BAIXA PRIORIDADE

No ano passado, o governo federal repassou em média R$ 110,72 por habitante do país, por meio do Fundo Nacional de Saúde, para o combate à pandemia. Mas a distribuição desses recursos foi imensamente desigual e, como mostra um levantamento da Repórter Brasil, Manaus foi a capital menos beneficiada pelos repasses: lá, foram apenas R$ 24,97 por pessoa – menos de um quarto da média nacional. Essa foi também a cidade da região Norte que menos recebeu recursos, seguida por Rio Branco (AC), com R$ 32 per capita, Tailândia (PA) com R$ 38, Marabá (PA) com R$ 41 e Porto Velho (RO) com R$ 45. As capitais que mais receberam verba foram Porto Alegre (R$ 229 por pessoa), Belo Horizonte (R$ 189) e Teresina (R$ 184). 

Dez dias depois de a crise eclodir, ontem chegaram a Manaus seis carretas transportando oxigênio, numa operação coordenada pelo governo federal. Mas o próprio Ministério da Saúde reconhece que os cilindros não resolvem o problema

A reportagem do El País fala do mercado de oxigênio para uso particular, em casa, diante da falta de disponibilidade nos hospitais. Uma recarga de R$ 400  na Carboxi, empresa familiar de gases industriais que começou a atender a esse público, deixa o paciente respirar por quatro horas. Atualmente, a promotoria estadual investiga mais de 50 mortes provocadas pela falta de oxigênio

Já em Rondônia, o prefeito de Porto Velho disse no sábado que o sistema de saúde da cidade colapsou: “Qualquer um aqui presente, se precisar de leito de internação, provavelmente não vai conseguir ser internado e, dependendo da gravidade, poderá sim vir a óbito. Hoje, todo mundo está acompanhando o que está acontecendo em Manaus. Estamos muito perto de viver aqui, na nossa cidade, de Porto Velho, e no nosso estado de Rondônia, uma tragédia humanitária“, afirmou Hildon Chaves (PSDB). O governador do estado, Marcos Rocha (PSL), anunciou um acordo com o governo federal para transferir pacientes que estão na fila de espera para outros estados. 

NOVO PLANO

O Ministério da Saúde publicou uma atualização do plano nacional de vacinação contra a covid-19 (veja aqui). Na primeira versão, havia 49,6 milhões de pessoas nos grupos prioritários. Agora o número é de 77,2 milhões nas três primeiras fases da vacinação.

No entanto, só a primeira etapa está detalhada, com as prioridades que já tinham sido anunciadas: ela envolve 2,8 milhões de brasileiros que receberão as duas doses da CoronaVac (trabalhadores da linha de frente contra a covid-19, indígenas, idosos residentes em instituições de longa permanência e pessoas com deficiência institucionalizados). O documento só diz que, depois, conforme houver mais doses, novos grupos serão incluídos… Ficam nesse bolo pessoas com mais de 60 anos, quilombolas, comunidades ribeirinhas, pessoas com comorbidades, trabalhadores da educação e da segurança, entre outros. 

O texto menciona agora o acordo com a Sinovac para a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac no primeiro semestre e outras 54 milhões até o fim do ano. Ao mesmo tempo, retira as doses da Pfizer e da Johnson & Johnson que apareciam no documento anterior.

ENGATINHANDO

A questão permanece sendo quando teremos doses suficientes para alcançar, se não a população toda, pelo menos o resto dos grupos prioritários. Na sexta-feira chegaram enfim as prometidas doses da vacina de Oxford/AstraZeneca importadas da Índia. No mesmo dia, a Anvisa deu aval para o uso de mais 4,8 milhões de doses da CoronaVac. Junto com as que já estavam sendo distribuídas, o Brasil soma 12,8 milhões de doses disponíveis nesse momento.

É uma quantidade que serve para alcançar 40,3% da população prioritária – isso contando só os grupos incluídos na primeira etapa. A Fiocruz está negociando a importação de mais um lote de vacinas prontas, dada a demora em receber o Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para começar a produção nacional do imunizante de Oxford. Mas ainda não há nem data nem quantidade definidas

O ministro Eduardo Pazuello garante que “rapidamente” o Brasil vai conseguir imunizar oito milhões de pessoas (notem que isso significa usar 16 milhões de doses) e se tornar o país do Ocidente com o maior número de pessoas vacinadas no mundo. Considerando a imensa população brasileira, ter muita gente imunizada não seria nada mais que a obrigação. Mas até agora, uma semana após a aplicação das primeiras doses, só foram alcançadas cerca de 600 mil pessoas. É um ritmo mais rápido daquele que países como França, Itália e Espanha conseguiram nos seus primeiros dias, mas muito mais lento do que o necessário. Se fosse mantida a atual toada, com cerca de 85 mil doses aplicadas por dia, levaria dez anos até oferecermos as duas doses aos 160 milhões de brasileiros adultos…

A boa notícia é que cresceu o percentual de brasileiros dispostos a se vacinar. Em dezembro, o Datafolha mostrou que 73% tinham essa intenção; agora, são 79%.

A propósito: Uma solução temporária que já tinha sido aventada voltou à tona no fim de semana: o vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde da Fiocruz, Marco Krieger, reforçou em entrevista à GloboNews sua recomendação de que, por agora, seja dada apenas a primeira dose da vacina de Oxford/AstraZeneca. Assim, seriam alcançadas mais pessoas (o que lhes garantiria, em tese, algum grau de proteção), e a dose de reforço para todas elas viria depois, quando o país conseguir importar mais doses ou o IFA. A posição foi encampada pela Fiocruz em nota enviada ao Estadão. Os testes com a vacina foram feitos com um intervalo de 12 semanas (três meses) entre as doses, de modo que não convém demorar mais do que isso. O Ministério da Saúde discorda dessa estratégia, mas pelo menos o governo do Rio de Janeiro informou que avalia utilizá-la.

AO REDOR DO MUNDO

A tragédia brasileira é potencializada pela incompetência de quem nos governa, mas na verdade não há muitos países no mundo oferecendo ritmos confortáveis de vacinação. Entre os entraves estão problemas com os fabricantes. Na sexta, a AstraZeneca informou à União Europeia que vai entregar menos doses do que as previstas inicialmente – o corte é de nada menos que 60% no primeiro trimestre. Segundo a empresa, em algum momento a produção será aumentada, mas não há cronograma para isso. 

Uma semana antes, a Pfizer noticiou que sua entrega (para países que não os EUA) ficaria interrompida até a segunda semana de fevereiro porque faria mudanças em sua fábrica na Bélgica. Segundo a reportagem do Valor, os fornecedores também estão com problemas para obter determinadas matérias-primas. No caso da Pfizer e da Moderna, são necessários enzimas, nucleotidios e nanoparticulas lipídicas que até recentemente não eram produzidas em grande escala.

O país que já conseguiu vacinar o maior percentual da população até agora é Israel. Por lá, um quarto dos habitantes (2,5 milhões de pessoas) já receberam a primeira dose da vacina da Pfizer e 900 mil receberam a segunda. Adultos acima de 40 anos começaram a ser vacinados no sábado, e agora a campanha também vai adolescentes, mesmo que essa faixa etária não tenha feito parte dos ensaios clínicos. Segundo o Maccabi Healthcare Services, uma das organizações provedoras de serviços de saúde no país, as hospitalizações de pessoas com mais de 60 anos caíram 60% em três semanas. Apesar disso, os casos estão em alta. Ontem o governo decidiu restringir a quase zero os voos internacionais para evitar a entrada de infectados.

VERGONHOSA JUSTIFICATIVA

O Ministério da Saúde soltou uma nota no sábado para explicar por que recusou as tentativas da Pfizer e de vender suas vacinas desenvolvidas com a BioNTech contra a covid-19. Um dos principais motivos é que só seriam entregues 2 milhões de doses no primeiro trimestre deste ano, o que foi considerado insuficiente.

Sim, é o mesmo número das doses de Oxford/AstraZeneca que foram importadas da Índia. Além do mais, fora essas doses iniciais havia outras 68 milhões em negociação, para serem entregues no decorrer do ano. Segundo a pasta, a venda dessa vacina ao Brasil significaria apenas uma estretégia de “marketing, branding e growth” para a empresa. “Já para o Brasil, causaria frustração em todos os brasileiros, pois teríamos, com poucas doses, que escolher, num país continental com mais de 212 milhões de habitantes, quem seriam os eleitos a receberem a vacina”. 

O posicionamento vem depois de a CNN divulgar uma carta que a Pfizer mandou ao governo brasileiro em setembro, cobrando rapidez para decidir se fecharia negócio. Além da pouca quantidade de doses, o Ministério diz que o laboratório estabeleceu outras “cláusulas leoninas e abusivas”. Os pontos foram dissecados pelo professor do Insper Thomas Conti e quase poderiam fazer rir, se o caso não fosse tão sério. A cereja do bolo é a justificativa de que a Pfizer/BioNTech não disponibilizariam o “diluente para cada dose – que ficaria a cargo do comprador”.

Quem lê pensa que deve se tratar de algo muito complicado… Mas não: “Fui verificar no manual da vacina e o diluente da vacina é soro fisiológico comum!!!“, escreve o professor. Realmente, algo muito caro e que inviabilizaria qualquer estratégia com esse imunizante… Além do soro, o Brasil também reclamou que a Pfizer não faria a substituição do refil de gelo seco usado para preservar a vacina em baixa temperatura.

MAIS AINDA

Ontem foi realizada a segunda prova presencial do Enem, e a taxa de abstenção foi ainda maior que a da semana passada: 55,3%. “Esse número foi maior do que a gente estava esperando, mas gosto de olhar o copo meio cheio: é uma vitória para o Brasil conseguir entregar para o seu jovem essa oportunidade”, disse o presidente do Inep, Alexandre Lopes, que jamais reconhecerá o erro de não ter adiado o exame. 

20
Jan21

Ministros do STF reagem à nota de Aras e temem agravamento da crise política com atraso na vacinação

Talis Andrade
 

por Andréia Sadi 

Ministros do Supremo Tribunal Federal ouvidos pelo blog nesta quarta-feira (20) reagiram com preocupação e espanto à nota do procurador-geral da República, Augusto Aras, em que ele afirma que eventuais atos ilícitos cometidos por autoridades da "cúpula dos poderes da República" durante a pandemia — e que gerem responsabilidade — devem ser julgados pelo Legislativo.

A PGR diz também que, por causa da pandemia, foi declarado o estado de calamidade pública e argumenta que essa situação é a “antessala do estado de defesa”. Previsto na Constituição, o estado de defesa pode ser decretado pelo presidente da República quando há necessidade de restabelecer a "ordem púbica e a paz social" se estas são ameaçadas "por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por calamidades de grandes proporções na natureza".

O ministro Marco Aurélio Mello disse ao blog nesta quarta-feira “não ver com bons olhos” o movimento de quem precisa ser visto como fiscal da lei, referindo-se ao Ministério Público. Em meio à crise de saúde, lembrou uma declaração que deu em 2017. Na ocasião, ele afirmou que, se o então deputado federal Jair Bolsonaro fosse eleito, “temia” pelo Brasil.

“Onde há fumaça há fogo. Crise de saúde, crise econômica, crise social e agora crise, aparentemente, política. Não vejo com bons olhos esse movimento de quem precisa ser visto como fiscal maior da lei. Receio pelo Estado de Direito. Volto à palestra que fiz no encerramento de Curso de Verão na Universidade de Coimbrã, em julho de 2017. Disse que, ante a possível eleição, como Presidente da República, do então Deputado Federal Jair Bolsonaro, temia, esse foi o vocábulo, pelo Brasil. Premonição? Certamente não”.

Outro ministro ouvido pelo blog, reservadamente, afirma que se surpreendeu com a nota de Aras. Ele avalia que o PGR “respondeu a uma pergunta que não foi feita”, a respeito do estado de defesa e que, ao contrário do que diz, cabe sim ao PGR a responsabilidade de uma eventual investigação criminal, tanto do presidente da República como do ministro da Saúde.

Na avaliação desse magistrado, o STF sempre trabalhou para regular e evitar situações excepcionais durante a pandemia- como o estado de sítio ou de defesa. E afirma que, no começo de 2020, havia estudos entre militares para decretar o estado de sítio. Uma das hipóteses nos bastidores é a de que Aras teria sinalizado com anuência para uma eventual medida nesse sentido por parte do Executivo - o que é rechaçado pelo STF.

“Se você autoriza, como volta depois? É uma aventura tola se for ideia para sinalizar a Bolsonaro. O STF referendou medidas restritivas sem lançar mão do estado de sítio. Isso militarizaria toda a temática e o governo começaria a operar dentro de poderes excepcionais. O que temos é o presidente fazendo uma grande confusão com as medidas de combate à pandemia”, afirmou um ministro ao blog nesta quarta.

A nota da PGR não menciona diretamente a hipótese de impeachment, mas a Constituição estabelece que cabe ao Congresso julgar casos de crime de responsabilidade cometidos por autoridades.

Questionada pela TV Globo, a assessoria da PGR informou que o texto é uma resposta a cobranças por uma atuação pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Esse movimento cresceu nos últimos dias nas redes sociais e em setores da oposição após o agravamento da crise da saúde pública no Amazonas, em decorrência da qual pacientes internados com Covid-19 morreram asfixiados devido à falta de oxigênio nos hospitais.

 

19
Jan21

Cidade no Pará entra em colapso e 6 pessoas da mesma família morrem por falta de oxigênio

Talis Andrade

Divulgação / SSPAM

Morreram nas últimas 24 horas por asfixia

 

O Liberal - A realidade no município é de colapso com a falta de oxigênio para os pacientes em tratamento da covid-19. O município fica na divisa com o estado do Amazonas. A situação também atinge as cidades vizinhas de Terra Santa, também no Pará e Nhamundá, no Amazonas.

O prefeito Paulo Carvalho conseguiu comprar 20 balas de oxigênio na cidade de Santarém, além suprimentos em Manaus. "Ambas as cidades estão em crise. A demanda é maior que a quantidade, porque a produção está comprometida", diz Carvalho, referindo-se à crise na empresa White Martins, fornecedora de oxigênio hospitalar na região oeste do Pará.

Segundo o médico da Unidade Básica de Saúde de Faro Yordanes Peres, o oxigênio recebido hoje garante apenas dois dias de tratamento dos pacientes internados. "Nós estamos vivendo uma crise, na contramão para tentar salvar vidas. Estamos trabalhando 24 horas para isso", explicou.

O Governo do Pará proibiu a circulação de embarcações vindas do estado do Amazonas em território paraense. O fechamento da fronteira segundo o governador Helder Barbalho foi uma medida preventiva para evitar o contágio pela covid-19.

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) informou que no Pará duas empresas são responsáveis pelo fornecimento de oxigênio, White Martins e Air Liquide. Somente a empresa White Martins produz atualmente 58 mil m3 por dia, quantidade suficiente para o abastecimento de todo o estado. A Sespa esclarece, ainda, que é responsabilidade das secretarias municipais de Saúde a manutenção de contratos e a aquisição do produto para abastecimento local.

19
Jan21

‘Homicídio por omissão imprópria’ afirma advogada sobre a crise do oxigênio no AM

Talis Andrade

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A medida alternativa encontrada pelas famílias foi recorrer a empresas particulares, na luta pela vida dos familiares 

 

A Secretaria de Saúde do Amazonas sabia, pelo menos desde o dia 23 de novembro de 2020, que a quantidade de oxigênio seria insuficiente para atender a alta na demanda da Covid no Estado

por Estadão / Diario 24 AM

Manaus – A falta de oxigênio hospitalar para tratar pacientes internados com a Covid-19 em Manaus, capital do Amazonas, que levou pacientes à morte por asfixia na semana passada, acendeu as discussões sobre a responsabilização de governos e gestores pelo saldo de vidas perdidas em razão da escassez do insumo.

Quatro dias após o sistema de saúde da cidade entrar em colapso, o procurador-geral da República, Augusto Aras, pediu ao Ministério da Saúde a abertura de um “inquérito epidemiológico e sanitário” para apurar causas e responsabilidades pelos estoques, que chegaram a ficar zerados em alguns hospitais.

Em outra frente, o chefe do Ministério Público Federal solicitou informações ao titular da pasta, Eduardo Pazuello, antes de decidir se investiga o general por prevaricação e improbidade administrativa, como pede o Cidadania. Um inquérito em curso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) também teve o escopo alargado, por determinação de Aras, para apurar se houve omissão dos governos estadual e municipal no caso.

Como mostrou o Estadão, a Secretaria de Saúde do Amazonas sabia, pelo menos desde o dia 23 de novembro de 2020, que a quantidade de oxigênio hospitalar disponível seria insuficiente para atender a alta na demanda provocada pela nova escalada da pandemia no Estado. A informação consta de projeto básico, que foi elaborado pela própria pasta, para a última compra extra do insumo, realizada no fim do ano passado. Principal fornecedora do Estado, a White Martins informou que, se o contrato tivesse previsto um pedido maior na oportunidade, a empresa teria conseguido atendê-lo.

Ao Supremo Tribunal Federal, a Advocacia-Geral da União (AGU), que representa os interesses do Planalto em ações judiciais, informou que o Ministério da Saúde ficou sabendo da “crítica situação do esvaziamento de estoque de oxigênio em Manaus” no dia 8 de janeiro, seis dias antes do insumo se esgotar em vários hospitais da capital amazonense. No documento, o governo Jair Bolsonaro alega que o colapso do estoque de oxigênio “foi informado de maneira tardia” aos órgãos federais.

O presidente afirmou já ter feito a sua parte. Segundo ele, foram enviados recursos e outros meios ao Amazonas para o enfrentamento da covid-19. O vice-presidente, Hamilton Mourão, também saiu em defesa do governo federal, dizendo que não era possível prever a situação na capital e que estão fazendo “além do que podem”. Em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 18, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse que a falta do insumo foi uma “surpresa” e que foi causada pelo aumento exponencial do volume de internações.

A reportagem ouviu especialistas para entender quem pode ser responsabilizado no caso e como funcionaria um eventual processo para apurar as condutas dos agentes públicos. Na avaliação dos advogados criminalistas e constitucionalistas, as investigações precisam demonstrar que os envolvidos sabiam do risco de esvaziamento dos estoques de oxigênio e não agiram para evitar ou minimizar as mortes.

“Em tese, é possível que advenha responsabilização criminal pelas mortes. Se os administradores do hospital ou agentes públicos sabiam que o oxigênio não era suficiente e, podendo agir para evitar a tragédia verificada, não o fizeram, poderão responder pela prática do crime de homicídio por omissão”, explica o advogado criminalista e doutor em direito penal pela Universidade de São Paulo (USP), Conrado Gontijo. “Contudo, para que isso ocorra, as investigações precisarão demonstrar que eles sabiam do risco, tinham condições concretas de evitar a falta dos equipamentos, e, mesmo assim, deixaram de agir, omitindo-se ilegalmente”, acrescenta.

Na mesma linha, Claudio Bidino, mestre em Criminologia e Justiça Criminal pela Universidade de Oxford, explica que a responsabilização na esfera penal, por omissão, não é simples. “É preciso que se comprove desde logo que algum responsável por zelar pela saúde da população previu ou deveria ter previsto a situação de calamidade que acabou por se instalar naquele Estado Além disso, é necessário que se demonstre que esse mesmo alguém tinha condições de agir para evitar ou minimizar essas mortes decorrentes da falta de oxigênio e, ainda assim, por dolo ou culpa, nada fez para isso”, afirma.

O advogado constitucionalista Almino Afonso Fernandes explica que existem duas hipóteses para a responsabilização pelas mortes: ao Estado, que responde civilmente pelos danos que seus agentes causarem a terceiros no desempenho de suas atribuições, e aos próprios agentes públicos, caso fique comprovada a culpa, tanto civil quanto criminalmente.

“A responsabilidade do Estado (União, Estados e Municípios) é objetiva, pois decorre da comprovação do dano causado a terceiros, ficando, nesta hipótese, obrigado a indenizar a vítima pelos prejuízos causados. O agente causador do dano somente responderá, repressivamente, pelo prejuízo causado a terceiros, quando houver demonstração de que ele agiu com culpa ou dolo”, afirma. “Todavia, a responsabilidade civil do Estado e de seu agente não exclui a responsabilização criminal dos agentes de Estado, sejam eles meros servidores públicos, ministros de Estado e, até mesmo, o presidente da República que agirem, de forma criminosa, como parece ter ocorrido na situação vivenciada no Estado do Amazonas”.

Na avaliação do advogado criminalista Daniel Bialski, que é mestre em Processo Penal pela PUC-SP, neste primeiro momento é preciso abrir um inquérito para apurar e individualizar a conduta de políticos e funcionários públicos no caso.

Em uma análise preliminar, a criminalista Bruna Luppi Moraes vê indícios do delito de “homicídio por omissão imprópria”. “A omissão é penalmente relevante quando o agente tinha o dever de agir (e poderia fazê-lo para evitar o resultado) por imposição legal, por ter assumido a responsabilidade de impedir o evento danoso e, também, por ter criado o risco da ocorrência do resultado com seu comportamento anterior. Isso, claro, sem prejuízo de apuração, também, de eventual crime de responsabilidade”, afirma.

 

18
Jan21

Falta de oxigênio pode afetar outros estados

Talis Andrade

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Por Altamiro Borges

As cenas chocantes do Amazonas - com as mortes por asfixia devido à falta de oxigênio nos hospitais - podem se repetir em outros estados brasileiros. Vários estudiosos da Covid-19, como o cientista Miguel Nicolelis, já alertaram para o risco iminente de colapso no sistema de saúde.

O jornal O Globo confirma os piores temores. "A falta de oxigênio nos hospitais em Manaus com a escalada de casos de coronavírus é um alerta para o restante do país, na avaliação de especialistas. Para eles, há risco de novas falhas no abastecimento, em especial na Região Norte".

Segundo a matéria, o drama amazonense reflete "a combinação da falta de ação planejada com a indústria - que agora se desdobra para elevar a produção - e uma complexa estrutura de escoamento que pode levar dias para entregar um produto que precisa ser reposto em caráter imediato".

Falta de planejamento público

Com o aumento do número de infectados e hospitalizados, a demanda explode rapidamente. Na primeira onda de Covid-19, no ano passado, o consumo de oxigênio era de 30 mil metros cúbicos em Manaus, patamar muito acima do registrado antes da pandemia. Agora, a demanda já chegou a 70 mil metros cúbicos diários.

A mesma explosão de demanda pode ocorrer em outros estados da federação, que abrandaram as regras de isolamento social nas festanças do final de ano. Além disso, a maioria não se preparou para o pior. Para Vinícius Picanço, professor de Gestão de Cadeia de Suprimento do Insper, faltou planejamento público:

“Não dá para dizer que era imprevisível a escassez. Por mais que a demanda tenha comportamento exponencial, existem modelos matemáticos para isso. A questão envolve logística e previsão de estoque. Houve tempo de posicionar estoques adequadamente, de armazenar insumos em regiões estratégicas".

Incompetência ou genocídio premeditado?

Para o especialista entrevistado pelo jornal O Globo, "o que está acontecendo em Manaus, com a nova cepa, pode se repetir em outras localidades com limitações na infraestrutura de transportes, em parte do Nordeste e no interior, o que evidencia a importância do planejamento".

Diante da falta de planejamento, que asfixia brasileiros em hospitais sem oxigênio, fica a dúvida: é incompetência ou genocídio deliberado? Nos dois casos, já dá para condenar o negacionista Jair Bolsonaro e o incompetente Eduardo Pazuello. No segundo caso, da necropolítica, a pena seria bem maior.

*****

Sobre a questão da condenação da dupla de criminosos, vale a leitura do contundente artigo de Cristina Serra publicado na Folha nesta sexta-feira (15):

Bolsonaro merece um tribunal de Nuremberg

Depoimentos de médicos e enfermeiros em redes sociais, imagens de desespero nos hospitais, documentos, ordens para aplicar cloroquina ou "tratamento precoce" contra o vírus, testemunhos de parentes das vítimas. 

Tudo o que puder ser usado como prova de crime contra a saúde pública deve ser guardado pelos cidadãos. Há de chegar o dia em que os responsáveis por essa tragédia brasileira irão sentar-se no banco dos réus. 

Se as nossas instituições parecem sedadas, quem sabe organismos multilaterais, como o Tribunal Penal Internacional (que já examina uma ação contra Bolsonaro anterior à pandemia) ou o Conselho de Direitos Humanos da ONU, atentem para a gravidade do que acontece aqui. 

Bolsonaro e sua gangue precisam ser levados a um tribunal de Nuremberg da pandemia. Só uma investigação com a mesma amplitude será capaz de explicar o mal em grande escala praticado contra a população brasileira. Isso terá que ser exposto, em caráter pedagógico, para ser conhecido pelas próximas gerações e evitar que se repita. Como Nuremberg fez com os crimes de guerra dos nazistas.

Há vários níveis de responsabilidade no morticínio brasileiro. É preciso assinalar que, no caso do Amazonas, o governador Wilson Lima também terá que responder pelas mortes por falta de oxigênio em Manaus. 

Eleito na carona do bolsonarismo, revelou-se incompetente e covarde ao ceder às pressões contra o lock down, mesmo com inúmeros alertas de cientistas sobre uma segunda onda. No meio do ano, Lima chegou a ser alvo de buscas da PF, em investigação de desvios na compra de respiradores. 

Outras cidades estão na rota do colapso. O Brasil governado por criminosos não é um perigo mortal apenas para os brasileiros. Países já nos fecham as portas. O Brasil tornou-se um pária sanitário. Quem permite que essa situação continue por tempo indefinido também tem as mãos sujas de sangue. Seremos julgados, no futuro, por nossas ações e omissões.
 
17
Jan21

Manaus fica sem ar na luta contra coronavírus

Talis Andrade

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[Vídeo] Pacientes morrendo em casa, familiares bloqueiam ruas para pedir por mais oxigênio em hospitais e falta de leitos em UTIs fazem parte da realidade da pandemia em Manaus.

Avisados por familiares, agentes de saúde têm recolhido corpos de pessoas que morreram em casa vítimas do coronavírus. Nesta semana, autoridades estaduais do Amazonas informaram que a ocupação hospitalar para casos de coronavírus era superior a 90%. Em meio ao aumento de infecções, houve falta de oxigênio em hospitais da cidade. Familiares bloquearam ruas nesta quinta-feira (15/01) em frente a um dos maiores hospitais da cidade, exigindo respostas sobre a falta de oxigênio. 

Ainda na quinta-feira, dois aviões da Força Aérea Brasileira decolaram de São Paulo com destino ao Amazonas levando mais de 18 toneladas de cilindros de oxigênio. Somente nos 12 primeiros dias de janeiro, 2.221 pessoas foram internadas com covid-19 na cidade.

Por que Manaus ficou sem oxigênio?

Por que Manaus ficou sem oxigênio?
O aumento de internações por covid-19 em Manaus provocou um novo colapso no sistema de saúde. A tragédia é resultado da falta de planejamento além do descumprimento de medidas de proteção —estimulados pelo negacionismo do vírus.

Falta de planejamento e negacionismo: por que Manaus ficou sem oxigênio? A pedido do UOL, médicos sanitaristas analisaram a crise no Amazonas e concluíram: a nova onda em Manaus era "previsível" e os gestores poderiam ter se antecipado. Segue a thread
 
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Recuo do governo do AM sobre restrição Alertado sobre a possibilidade de as festas de fim de ano gerarem colapso na saúde local, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), determinou o fechamento de serviços não essenciais por 15 dias no final de 2020, mas voltou atrás. 1/2

16
Jan21

Sem oxigênio, governo do Amazonas sugeriu abrir valas no interior

Talis Andrade
Paciente é levado em maca em hospital de Manaus

Sistema de saúde do Amazonas colapsou em meio à explosão de casos de covid-19

 

Orientação foi feita à prefeitura de Itacoatiara por não haver previsão para envio de oxigênio ao interior. Justiça obriga estado a fornecer gás ao município

O governo do Amazonas orientou a prefeitura de Itacoatiara, a cerca de 270 quilômetros de Manaus, a abrir valas para enterrar seus mortos já que não havia qualquer previsão para o fornecimento de cilindros de oxigênio hospitalar para cidades do interior amazonense.

A orientação do governo estadual à prefeitura foi mencionada em uma ação civil pública apresentada neste sábado (16/01) pelo Ministério Público estadual (MP-AM). A ação, que visava obrigar o estado a enviar oxigênio para Itacoatiara, já foi aceita pela Justiça.

"Se o estado não enviar o oxigênio ao hospital local de Itacoatiara-AM em quantidade suficiente, como já comprovado, teremos a morte de pelo menos 77 pessoas simultaneamente por insuficiência respiratória, devido à falta do material", disse o juiz Rafael Almeida Cró Brito, citado pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela imprensa do Amazonas.

O governo estadual tem 12 horas para cumprir a medida, estando sujeito a uma multa de 20 mil reais por hora de descumprimento.

O Ministério Público denunciou que a orientação de abrir valas foi feita pelo secretário de Interior da Secretaria de Saúde do estado, Cássio Espírito Santo, ao prefeito de Itacoatiara, Mario Jorge Abrahim. Espírito Santo chegou a oferecer câmaras frigoríficas ao município, justificando que não havia previsão para o envio de oxigênio para cidades do interior.

O interior do Amazonas depende fortemente do sistema de saúde da capital, Manaus, que é a única cidade do estado com leitos de unidades de terapia intensiva (UTI). Dos 62 municípios amazonenses, apenas 11 têm hospitais. Os demais possuem apenas postos de saúde.

Assim como Manaus, várias cidades do interior do estado enfrentam escassez de oxigênio nos hospitais. Em Parintins, a cerca de 470 quilômetros da capital, a prefeitura comprou equipamentos da Alemanha para montar uma usina de oxigênio, que terá capacidade para atender até 80 leitos. A estrutura será montada no único hospital público da cidade, Jofre Cohen.

"Infeliz coincidência"

Em meio a uma explosão de casos e internações por covid-19 e o colapso de seu sistema de saúde, a crise no Amazonas ganhou projeção nacional nesta semana, com o fim do estoque de oxigênio em alguns hospitais de Manaus e pacientes morrendo sem conseguir respirar.

Autoridades municipais, estaduais e nacionais foram acusadas de negligência e de ignorarem repetidos alertas de que a crise de oxigênio estava por vir. Na quinta-feira, a Justiça intimou o governo do Amazonas e o governo federal a se manifestarem sobre o caos no estado.

Em resposta à intimação, a Procuradoria Geral do estado argumentou à Justiça que a segunda onda de infecções que resultou no colapso de seu sistema de saúde foi uma "infeliz coincidência", culpando uma nova variante do coronavírus originária no estado.

As autoridades amazonenses alegaram ainda que a crise sanitária não tinha como ser prevista e omitiram a flexibilização das medidas restritivas no estado no fim do ano passado.

Em dezembro, o governador Wilson Lima chegou a impor restrições ao funcionamento de estabelecimentos comerciais, mas acabou recuando em sua decisão após protestos de empresários contrários às medidas de lockdown.

Segundo o jornal O Globo, o despacho enviado à Justiça Federal menciona apenas a imposição das restrições em 23 de dezembro, omitindo assim o recuo do governador dias depois.

Reportagens da imprensa brasileira, contudo, apontam que o governo estadual previu a crise iminente de oxigênio. Segundo apurou o jornal Folha de S. Paulo, membros do governo amazonense chegaram a avisar o governo do presidente Jair Bolsonaro, que também teria ignorado os alertas.

De acordo com a Folha, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, teria sido avisado previamente sobre a situação não só pelo governo amazonense, mas também pela empresa que fornece o oxigênio para o Amazonas e até por uma cunhada dele, que tinha um familiar "sem oxigênio para passar o dia".

Envio de oxigênio

Em meio à crise dramática e após uma série de mortes, o Amazonas começou a receber cilindros de oxigênio de fora do estado. O Ministério da Saúde anunciou o envio de 80 cilindros neste sábado, a bordo de um avião que seria enviado para a Índia para buscar doses de vacinas contra a covid, mas acabou não partindo após fracasso nas negociações do governo com o país asiático.

Manaus recebeu ainda, na madrugada deste sábado, uma carga de 70 mil metros cúbicos de oxigênio por meio de balsas a partir de Belém (PA). O governo amazonense informou que a nova remessa deve garantir a "retomada do equilíbrio do abastecimento da rede de saúde do estado para os próximos dias".

Aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) também voaram para a capital do Amazonas entre sexta-feira e sábado levando tanques de oxigênio hospitalar.

Manaus fica sem ar na luta contra coronavírus

 

Assista vídeo

 

15
Jan21

Bolsonaro colocou vida de brasileiros em risco, diz Human Rights Watch

Talis Andrade

 

Texto por RFI
 

O novo relatório mundial da ONG Human Rights Watch (HRW) de 2021 acusa o presidente Jair Bolsonaro de tentar sabotar os esforços para retardar a disseminação da Covid-19 no Brasil e investir em políticas que prejudicam os direitos humanos no país. Segundo o documento, a Suprema Corte brasileira e outras instituições democráticas têm sido frequentemente forçadas a intervir para proteger esses direitos, por causa da ingerência de Bolsonaro, especialmente durante a crise sanitária. O documento foi publicado nesta quarta-feira (13).

Para a Human Rights Watch, o governo Bolsonaro também promoveu políticas contrárias aos direitos de mulheres e das pessoas com deficiência, atacou repórteres e grupos da sociedade civil, e enfraqueceu a aplicação da lei ambiental, "abrindo caminho para que redes criminosas que se engajam no desmatamento ilegal na Amazônia ameacem e ataquem os defensores da floresta".

“O presidente Bolsonaro colocou a vida e a saúde dos brasileiros em grande risco ao tentar sabotar os esforços de proteção contra a disseminação da Covid-19”, disse Anna Livia Arida, diretora para o Brasil da Human Rights Watch. “O Supremo Tribunal Federal e outras instituições ajudaram a proteger os brasileiros e a bloquear muitas, embora senão todas, as políticas anti-direitos de Bolsonaro. Eles precisam permanecer vigilantes”, completou Arida.

No documento de 761 páginas, que chega à sua 31ª edição, a Human Rights Watch analisa as práticas de direitos humanos em mais de 100 países. Em seu ensaio introdutório, o diretor-executivo Kenneth Roth argumenta que a próxima administração dos Estados Unidos deve "incorporar o respeito aos direitos humanos em sua política interna e externa, de uma forma que tenha mais probabilidade de sobreviver a futuras administrações dos EUA que possam estar menos comprometidas com os direitos humanos".

Roth enfatiza que, embora a administração Trump tenha abandonado em grande parte a proteção dos direitos humanos, outros governos avançaram para defender os direitos. O governo Biden deve buscar aderir, e não suplantar, esse novo esforço coletivo.

Para a Human Rights Watch, o governo Bolsonaro também promoveu políticas contrárias aos direitos de mulheres e das pessoas com deficiência, atacou repórteres e grupos da sociedade civil, e enfraqueceu a aplicação da lei ambiental, "abrindo caminho para que redes criminosas que se engajam no desmatamento ilegal na Amazônia ameacem e ataquem os defensores da floresta".

“O presidente Bolsonaro colocou a vida e a saúde dos brasileiros em grande risco ao tentar sabotar os esforços de proteção contra a disseminação da Covid-19”, disse Anna Livia Arida, diretora para o Brasil da Human Rights Watch. “O Supremo Tribunal Federal e outras instituições ajudaram a proteger os brasileiros e a bloquear muitas, embora senão todas, as políticas anti-direitos de Bolsonaro. Eles precisam permanecer vigilantes”, completou Arida.

No documento de 761 páginas, que chega à sua 31ª edição, a Human Rights Watch analisa as práticas de direitos humanos em mais de 100 países. Em seu ensaio introdutório, o diretor-executivo Kenneth Roth argumenta que a próxima administração dos Estados Unidos deve "incorporar o respeito aos direitos humanos em sua política interna e externa, de uma forma que tenha mais probabilidade de sobreviver a futuras administrações dos EUA que possam estar menos comprometidas com os direitos humanos".

Roth enfatiza que, embora a administração Trump tenha abandonado em grande parte a proteção dos direitos humanos, outros governos avançaram para defender os direitos. O governo Biden deve buscar aderir, e não suplantar, esse novo esforço coletivo.

Segundo a HRW, as instituições democráticas brasileiras não conseguiram conter as políticas e retóricas anti-ambientais do presidente Bolsonaro, "que contribuíram para a destruição, de agosto de 2019 a julho de 2020, de cerca de 11.000 quilômetros quadrados de floresta amazônica, a maior taxa em 12 anos". "O número de incêndios na Amazônia aumentou 16% em 2020. A fumaça causa níveis prejudiciais de poluição do ar, que afetam milhões de residente", continua o texto.

A organização denuncia no documento que os incêndios na Amazônia "são intencionalmente feitos para limpar terras, em grande parte ilegalmente". “As políticas do presidente Bolsonaro têm sido um desastre para a floresta amazônica e para as pessoas que a defendem”, disse a diretora para o Brasil da Human Rights Watch. “Ele culpa índios, organizações não governamentais e moradores locais pela destruição ambiental, ao invés de agir contra as redes criminosas que são a força motriz da ilegalidade na Amazônia”, conclui Anna Livia Arida.

 

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