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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

16
Fev21

Livro detalha participação do Brasil em golpe e repressão no Chile, inclusive contra brasileiros

Talis Andrade

Resultado de imagem para 'O Brasil contra a Democracia: A Ditadura, o Golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul'

 

Por Lúcia Müzell /RFI
 

Qual foi o papel do Brasil no golpe de Estado no Chile, em 1973, e na permanência no poder de uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina? De que maneira Brasília, que também vivia sob o comando militar, se esforçou para melhorar a imagem de Santiago no exterior? Uma página sombria da diplomacia brasileira é revelada no livro 'O Brasil contra a Democracia: A Ditadura, o Golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul', que o analista internacional Roberto Simon acaba de lançar, pela editora Companhia das Letras.

A pesquisa do autor, ex-jornalista, durou sete anos. Entre Brasil, Chile e Estados Unidos, onde reside, Simon teve acesso a milhares de documentos diplomáticos da época, dos quais muitos inéditos.

“O livro mostra como o Itamaraty era, na verdade, uma parte fundamental no aparato de repressão a brasileiros fora do Brasil”, resume o pesquisador.

"Esse episódio da história diplomática sempre foi contado de modo lateral. Mas, na realidade, o Itamaraty tinha agências de repressão internas – o Centro de Informações do Exterior (Ciex) e a Divisão de Segurança e Informação –, cuja missão era monitorar exilados, lutar contra a campanha de denúncia à tortura no Brasil. Em pelo menos uma ocasião, informações obtidas pelo Itamaraty através de informantes em Santiago levaram à morte de um exilado brasileiro, que foi capturado no aeroporto de Ezeiza, na Argentina”, destaca o autor.

 

Atuação para consolidar e normalizar o golpe de Pinochet

A obra revela o quanto Brasília se envolveu, desde o princípio, na desestabilização daquela que era a mais sólida democracia da América Latina. A vitória do socialista Salvador Allende, em 1970, não foi tolerada pelo regime militar brasileiro, sob as ordens do general Emílio Médici. Em plena “caça aos comunistas”, sob a tensão da Guerra Fria, o presidente via na ascensão do novo líder do Chile uma ameaça aos governos militares de direita, no poder em vários países da região.

"O Brasil desempenhou um papel importante tanto de oposição ao governo socialista de Salvador Allende, quanto no momento do golpe e, por fim, um certo protagonismo na ajuda à construção do regime militar chileno – com apoio político, diplomático, econômico e na repressão chilena”, assinala Simon. "Atuou para identificar militares chilenos que se opunham a Allende e poderiam liderar o golpe golpe, passou a apoiar grupos de extrema direita no Chile, como o Patria y Libertad, desempenhou uma campanha internacional para isolar o Chile, ajudou a treinar agentes da polícia política chilena e muito mais.”

Não que o golpe pudesse ter sido evitado sem a colaboração do Brasil – porém, naqueles anos de "milagre econômico brasileiro” e índices de crescimento extraordinários, o país desfrutava de um peso geopolítico importante na região. O apoio, portanto, foi determinante para a consolidação de Pinochet no poder.

“O Brasil foi o primeiro país a reconhecer a junta militar chilena e, um mês após o golpe, tínhamos agentes da ditadura brasileira atuando no Estádio Nacional, que se transformou numa prisão”, observa Simon. No exterior, o Itamaraty trabalhou para “normalizar" o que acontecia no Chile, inclusive a violenta repressão aos opositores do general Pinochet.

Contradições dos saudosos da ditadura

O Brasil contra a Democracia é lançado num momento em que saudosos da ditadura, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, tentam reescrever a história das ditaduras na América Latina. No contexto atual, a obra ganha uma dimensão diferente da que o autor previa ao iniciar as pesquisas, em 2013 – quando ainda era inimaginável um chefe de Estado vizinho saudar os anos de chumbo no Chile, como fez o presidente brasileiro.

Em setembro de 2019, Bolsonaro reagiu a um comentário de Michelle Bachelet, ex-presidente do país andino e então comissária da ONU para os Direitos Humanos, e afirmou que "se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 1973, entre eles o teu pai [torturado e morto pelo regime], hoje o Chile seria uma Cuba".

“O livro mostra como a gente lidou com essa mitologia em relação às ditaduras e o quanto elas são completamente bizarras. Por exemplo, hoje a gente sabe que o Pinochet foi uma das figuras mais corruptas da histórica do Chile – e isso quem descobriu não foi a esquerda, nem Cuba. Foi o Senado americano”, ressalta Simon. "Acharam contas offshore do Pinochet com milhões de dólares fora do Chile. Pinochet mandou uma pessoa cometer um atentado terrorista em Washington”, comenta o ex-repórter.Resultado de imagem para 'O Brasil contra a Democracia: A Ditadura, o Golpe no Chile e a Guerra Fria na América do Sul'

Pinochet corrupto

Simon avalia que, ao contrário do Brasil, o Chile acertou as suas contas com o passado ao promover comissões da verdade, levar dirigentes e colaboradores do regime à cadeia e retirar, relativamente rápido, o sigilo dos documentos diplomáticos e de segurança do período. Muitos foram perdidos ou destruídos – mas nada se compara ao desaparecimento do acervo no Brasil, em especial o militar.

"A 'transição lenta, gradual e segura' fez com que a gente nunca tenha lidado diretamente com essas questões. Fizemos um grande acordo à brasileira”, frisa o pesquisador. “Para a gente entender os caminhos do futuro, a gente tem que entender muito bem o passado.”

24
Jan21

História da ex-guerrilheira Maria Auxiliadora vira filme

Talis Andrade

Maria Auxiliadora Lara Barcelos

 

por Denise Assis

- - -

Aos 23 anos, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, entrou para a luta armada contra a ditadura. Foi presa, torturada, exilada no Chile e agora sua história virou filme, que estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e segue até 31 de janeiro

“Sou boi marcado, fui aprendiz de feiticeira… Eu era criança e idealista. Hoje sou adulta e materialista, mas continuo sonhando. Dentro da minha represa não tem lei nesse mundo que vai impedir o boi de voar.” A frase é da ex-guerrilheira citada no discurso de posse da ex-presidente Dilma Rousseff, juntamente com Carlos Alberto de Freitas, o Beto. Emocionada, Dilma os homenageou, dizendo que gostaria de tê-los ao seu lado naquele momento.

Para resgatar essa história pouco conhecida, a atriz e criadora Sara Antunes mergulhou na trajetória dessa aguerrida mineira, estudante de medicina e guerrilheira, criando o curta “De Dora, por Sara”, que estreou na Mostra de Cinema de Tiradentes e segue até 31 de janeiro disponível no link do festival. Sara montou também o espetáculo digital Dora, que estreia dia 5 de março, pela plataforma Vimeo.

Aos 23 anos, Maria Auxiliadora entrou para a luta armada contra a ditadura, como integrante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Foi presa no dia 21 de novembro de 1969, com Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier. Dora, ou Dodora – como era chamada -, e Chael foram vítimas de torturas severas. Ela passou por choques elétricos e palmatórias nos seios e Chael morreu, por conta dos pontapés e socos que levou, 24 horas após os maus tratos.

Por tudo isto, foi incluída na lista dos presos trocados – num total de 70 militantes de esquerda – aceitos pelo Chile, do presidente Salvador Allende. Com o golpe que levou Allende à morte e muitos exilados à prisão, conseguiu sair e viveu na Bélgica, França e, em 1974, fixou-se na Alemanha, onde viveu até 1976, quando atormentada pelos traumas do passado, se jogou nos trilhos do metrô, aos 31 anos.

Para realizar este trabalho, Sara conta que “a pesquisa é como um caleidoscópio fragmentado, mesclando trechos de cartas, imagens de arquivos e relatos autobiográficos da atriz”.

Angela Bicalho, mãe da cineasta, faz uma participação especial, traçando um paralelo entre a vida de Dora e a trajetória familiar da diretora. Dora, mineira como os pais de Sara, nasceu no mesmo ano em que sua mãe e se envolveu na resistência à ditadura, tendo sido presa e exilada, assim como aconteceu também com o pai da Sara, Inácio Bueno.

De posse de um material histórico inédito, confiado pelos familiares à atriz e cineasta, Sara traça um percurso de registro de memória e afirmação das trajetórias femininas na política.  “Neste projeto, não pretendo mitificar heróis, também não se trata de uma homenagem, mas acho importante debruçar sobre a história do país do ponto de vista de quem participou dela. Principalmente, as mulheres”, afirma.

Sara detalha que “em seus dias na prisão Dora foi exposta a diferentes tipos de violações, sobretudo de cunho desmoralizante frente à sua condição de mulher. Entre ser colocada em exposição como objeto para visitação de militares curiosos e degradação moral diante dos companheiros. Dora denunciou as violências sofridas na ocasião de seu julgamento, na Justiça Militar”.

Sobre a importância de trazer Dora à cena, explica: “ao reconstruirmos a subjetividade de períodos traumáticos que deixaram marcas profundas na história deste país, confrontamos a política da amnésia com que se pretende, reiteradamente, apagar um passado incômodo para criar campos de ignorância histórica que, novamente, convocam abertamente forças repressoras. Dora é um projeto importante de reparação histórica, de pretensão multidisciplinar em que as lutas femininas do Brasil estão em foco”, resume Sara.

Conteúdos confiados à Sara, pela família, geraram diferentes obrasMaria Auxiliadora Lara Barcelos

Desde que tomou conhecimento da história de Dora que Sara vem gestando a ideia de um espetáculo, com estreia prevista para 2020. Com a pandemia o projeto ganhou novas possibilidades e nasceu o curta “De Dora por Sara”, filmado e dirigido em parceria com Henrique Landulfo, que estreou na mostra de Tiradentes (em janeiro de 2021). Para Sara, trata-se de um projeto transmídia. “Ele não foi pensando assim, mas se transformou pela necessidade do momento. Nasceu como cinema, será apresentado como teatro no formato on-line e, futuramente, quando for possível, pretendo levar para o teatro presencial. São obras distintas, mas complementares”, detalha.

Esse projeto é a continuação de uma pesquisa que a atriz vem fazendo sobre história e representação das mulheres no Brasil como nas criações: “Hysteria”, “Hygiene”, “Negrinha”, “Guerrilheiras”, ou “Para a Terra Não há Desaparecidos” e “Leopoldina, Independência e Morte”.

“Em um momento como o que vivemos, de negação da história, trazer o documento real, o arquivo e os fatos, é de suma importância. Temos aqui o registro e compartilhamento em grande escala, e a chance de fazermos o ato teatral se transformar em ativação de memória social, ponte entre tempos, potencializando o corpo feminino em luta. É uma oportunidade imensa de registrarmos outro olhar para as mulheres da história brasileira e promover um encontro que nos foi negado e segue sendo”, conclui.

 

 

 

12
Set20

As cobaias do coronavírus

Talis Andrade

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por Urariano Mota

- - -

Neste 11 de setembro, sei que deveria falar do 11 de setembro de 1973, quando houve o golpe militar contra Salvador Allende. Deveria rever a imagem do presidente Allende resistindo de capacete em último recurso, com alguns fiéis militantes às portas do palácio La Moneda. Com a foto de Allende, falaria de um socialista democrata que pela força das urnas julgou ter o poder, e foi derrotado com a eloquência maior de bombas e crimes. Também poderia falar das imagens que correram o mundo nesse golpe, as fogueiras de livros destruídos por soldados do exército nas ruas do Chile.

Mas neste 11 de setembro de 2020 minha atenção vai para novos bárbaros. Começo pelo alerta contra as trevas, que o cientista Miguel Nicolelis esclareceu numa entrevista à BBC Brasil: 

“O negacionismo se propagou rapidamente nos Estados Unidos nos últimos anos, e como sempre nós importamos tudo aquilo que não presta para o Brasil. E agora está assustador porque tem um movimento contra uma vacina que nem existe ainda. Curiosamente, a gente ouviu nos últimos dias o inominável presidente alegar que vacinar é uma coisa espontânea, decisão pessoal se vacinar ou não, isso quando estamos no meio de uma pandemia que daqui a pouco vai matar um milhão de pessoas no mundo.

É assustador, e não se trata só do presidente falando isso, hoje tem até secretário de Saúde, não do governo federal, tem médico falando um absurdo desses”.

cloroquina 7 set desfile militar.jpg

 

E, de fato, no mais recente 7 de setembro, tão à vontade a manada se acha em seus atos e pregação, que afirmaram esta máxima: “ só a cloroquina salva”. (Depois da Bíblia como obra máxima da medicina, é claro). O desenvolvimento da antieducação do caos fascista no Brasil passou do limite do imaginável. É tamanho que pode até não merecer crédito. Falam até em “o lado obscuro das vacinas”, e plantam fake news do gênero “as vacinas, antes de serem injetadas nos pacientes, não são testadas”. Não informo o link no Face da sua escabrosidade para não lhes atrair mais propaganda. Mas acreditem, nada do que passo a contar a seguir é invenção ou fantasia doente de ficcionista. Preparem-se. Segurem o vômito da repulsa ao desconhecimento, porque chegam a divulgar isto com ar de seriedade: 

“Vemos que há um pico em muitos países nos casos de Corona, e isso ocorre porque mais pessoas estão fazendo teste” ( !!!!!!!!) Percebam o primor da lógica. Os antivacinas querem dizer que se há febre é porque um termômetro acusa o grau de calor num paciente. E se há câncer, a culpa é do médico que o diagnosticou. E se alguém chama de racista o espancamento e prisão de pessoas negras, a culpa é dos negros que acham de comprar em ambientes que não deviam. E se são mortos é porque entram na zona de tiro. Mais ainda: se  a humanidade do Brasil ousa chamar o presidente de nazista, a culpa é de quem chama assim um indivíduo de  atos e princípios democráticos. 

“Vacinas causam reações!”, gritam. 

Percebem o grau de fanatismo medieval? Depois que tornaram a Terra uma esfera retangular, ou uma ex-fera plana, agora avançam em hordas com a mais despudorada e agressiva ignorância que já houve na história. Escrevo ignorância, mas tenho que corrigir. A ignorância é uma fase do conhecimento. O ignorante não sabe ainda a sabedoria que há no mundo, desconhece a herança deixada pelos sábios e bravos. Mas não, estes novos bárbaros recuam o conhecimento sabido e universal para o reino do desconhecimento, antes que Deus fizesse a luz. Isso quer dizer, num grito: rasguem, queimem todos os livros e avanços científicos de todos os tempos! Nós não os queremos mais. Derrubem-se as leis científicas e todas as teorias e práticas desses depravados comunistas nas artes, na cultura e na ciência. Queremos caminhar sob a proteção de Deus dos séculos anteriores a Cristo. Ali, sim, teremos de volta o mundo plano, retilíneo, retinho e certinho na fase prévia aos Dez Mandamentos de Moisés.  

O fato é que o “ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina”, da boca do presidente, se harmonizou como um estímulo nos grupos de antivacina. E um gado imenso, seguidor do líder no Planalto, espalha a desinformação. 

É o que mostra uma recente análise da União Pró-Vacina, grupo formado por instituições ligadas à USP Ribeirão Preto que atua no combate à desinformação sobre vacinas.

O que parecia ser mais uma fala estúpida do presidente recebeu o reforço, no dia seguinte, de peças da Secretaria Especial de Comunicação da Presidência. Nos principais grupos antivacina do Facebook no Brasil, a repercussão foi instantânea. A análise da União Pró-Vacina mostrou que entre o dia 31 de agosto e as 23h59 do dia 2 de setembro 14 publicações já reverberavam a declaração e as peças de comunicação, totalizando 773 interações, sendo 426 reações, 264 comentários e 83 compartilhamentos.

Por fim, pelo adiantado da hora, ou melhor, pelo atraso da hora, peço desculpas no mesmo passo em que explico o cacófato do título destas linhas. Em “As Cobaias” acima o som é de Asco + Baias. Asco, de repugnância. Baia, de gado. 

 

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