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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

09
Jan22

Leila Diniz “um pouco por toda parte”

Talis Andrade

leila diniz.jpg

“Muita gente não tem ideia do que é viver sob uma ditadura"

 

por Cristina Serra

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O filme “Já que Ninguém Me Tira para Dançar”, da cineasta Ana Maria Magalhães, apresenta às gerações mais jovens a atriz Leila Diniz, personagem quase legendária que escancarou as portas para a revolução sexual em um Brasil falsamente moralista, nos anos 1960. Por isso mesmo, Leila incomodou a ditadura e foi perseguida pelos militares.

A chegada do filme para o público em janeiro, com acesso gratuito por meio do streaming do Itaú Cultural Play, coincide com os 50 anos da morte da atriz, em um desastre de avião, em junho de 1972, quando ela voltava de um festival de cinema na Austrália. Leila tinha 27 anos.

A proximidade das datas não foi intencional, já que o documentário começou a ser gravado em 1982, com pouco dinheiro e uma câmera emprestada. Uma primeira versão foi editada, mas nunca chegou aos cinemas e o material original quase se perdeu.

Em 2015, a diretora começou a restaurar as gravações, acrescentou depoimentos inéditos e, já em meio à pandemia, conseguiu concluir o trabalho. “É o mesmo filme, mas é um filme diferente”, reflete Ana Maria Magalhães, muito amiga de Leila. O longa foi exibido recentemente em sessões especiais dos festivais de cinema de Brasília e do Rio de Janeiro.

A passagem do tempo deu à cineasta o distanciamento para abordar a trajetória de Leila Diniz sob uma acentuada perspectiva política. “Eu percebi que o que aconteceu com a Leila não foi aleatório. Em 1969, ela já estava com dificuldade de conseguir emprego na TV, apesar de ser uma atriz muito popular. Nessa época, ela deu a entrevista para O Pasquim e a ditadura entrou pesado mesmo. No meu entendimento, houve uma trama contra a Leila, para quebrar a base econômica dela”, avalia a diretora.

45 anos de leila diniz no pasquim

A entrevista ao jornal alternativo enfureceu os militares. Nela, a atriz falou sobre amor, sexo, desejo, prazer e infidelidade, com muitos palavrões, todos substituídos por asteriscos na edição.

Leila chegou a ficar algum tempo escondida porque havia uma ordem de prisão contra ela. Esse período é reconstituído a partir do valioso depoimento do cunhado da atriz, Marcelo Cerqueira, ex-advogado de presos políticos. Ele considera que Leila foi vítima de “macarthismo” na televisão e fala em perseguição à carreira da atriz.

O advogado conseguiu que o então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, revogasse a ordem de prisão, mas Leila teve que assinar um termo de responsabilidade comprometendo-se a não falar palavrões em público. “Ela chegou em casa arrasada naquele dia porque assinar o termo foi uma autonegação dos valores dela, e a Leila era uma pessoa muito honesta”, conta a diretora.

Dois meses depois da entrevista, em janeiro de 1970, o ditador Emílio Médici publicou o Decreto-lei 1.077, que instituiu a censura prévia à imprensa e às editoras, sob a alegação de proteger a moral, os bons costumes e a família.

A norma ficou conhecida como “decreto Leila Diniz”. “Muita gente não tem ideia do que é viver sob uma ditadura, um Estado policial. Diante do que nós estamos vivendo no Brasil, é o momento de contar a história da Leila, de entender tudo o que aconteceu com ela, o que está acontecendo agora e que pode ser ainda pior se o atual presidente se reeleger e esse grupo político continuar no poder”, avalia Ana Maria Magalhães.

Leila, contudo, não era de levantar bandeiras, nem políticas nem comportamentais. “Ela era muito espontânea, independente, sempre trabalhou muito, tinha um compromisso com a verdade e a igualdade. Isso era muito forte na relação dela com as pessoas. Nas nossas conversas, ela sempre pregou a igualdade na relação entre homens e mulheres. Não tinha essa coisa ‘ele pode, eu não posso’. Isso não existia para a Leila”, observa Ana Maria Magalhães.

A imagem de Leila como mulher liberada e dona de si ficou cristalizada na fotografia em que ela aparece de biquíni, na ilha de Paquetá, grávida de seis meses de sua única filha, Janaína, com o cineasta Ruy Guerra. A foto também provocou críticas a Leila, mas com o tempo, inspirou outras mulheres, e as brasileiras passaram a exibir as barrigas de gravidez com total naturalidade nas praias.Biografia de Leila Diniz - eBiografia

Por meio de muitos depoimentos de amigos, amores, atores e diretores, e trechos de filmes em que Leila atuou, o longa realça a estatura e consistência de sua carreira. Traz ainda fatos desconhecidos, como uma situação de violência sexual da qual Leila conseguiu se livrar de forma inusitada.

Um dos momentos mais arrebatadores do documentário é a sequência em que Leila e Ana, muito jovens, dançam para a gravação de um filme, “As Bandidas”, que não chegou a ser concluído. A alegria transborda da tela.

A caminho da Austrália, de onde nunca voltou, Leila mandou um cartão postal para Ana, ao fazer uma escala no Taiti. Como endereço do remetente, escreveu a expressão em francês “un peu partout” —um pouco por toda parte.

Ao mostrar a coragem com que Leila enfrentou a vida, quebrou tabus e influenciou tantas mulheres, o filme transmite exatamente essa sensação: Leia Diniz continua aí, “um pouco por toda parte” e um pouco em todas nós.

26
Dez21

1973: as crianças abusadas e mortas da era Médici

Talis Andrade

Ana Lídia Braga, sete anos (esquerda); Araceli Cabrera Sánchez Crespo, oito anos (Centro); e Carlos Ramires da Costa, de 10 anos (esquerda). Pelo menos dois dos casos tiveram interferência direta Ditadura Militar, sob o comando do General Médici (topo), na presidência para livrar apoiadores do regime

Ana Lídia Braga, sete anos (esquerda); Araceli Cabrera Sánchez Crespo, oito anos (Centro); e Carlos Ramires da Costa, de 10 anos (direita). Pelo menos dois dos casos tiveram interferência direta da Ditadura Militar, sob o comando do General Médici (topo), na presidência para livrar apoiadores do regime. Fotos: Reproduções/arquivos pessoais e jornais de época

 
Três histórias de sequestro, abuso sexual infantil, assassinato e impunidade durante os anos de chumbo da Ditadura Civil-Militar inspiraram o Maio Laranja
 
 
Por Márcia Anita /Extra Classe
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O governo do general Emílio Garrastazu Médici, entre os anos 1969/1974, é considerado o de maior repressão na ditadura civil/militar no Brasil (1964/1985). O ano de 1973 foi marcado especialmente por sequestros, violências, abuso sexual e assassinatos de três crianças. Foram episódios que abalaram o país e até hoje não têm solução e os envolvidos permanecem impunes.

O primeiro caso foi o de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, que tinha oito anos quando seu corpo foi encontrado, em 18 de maio, com marcas de violência e abuso sexual, no Espírito Santo. Quatro meses mais tarde, Ana Lídia Braga, sete anos, foi morta em situação semelhante, em Brasília. Era o dia 11 de setembro, mesmo dia em que ocorria o golpe militar no Chile que destituiu o presidente eleito Salvador Allende. Entre os casos das duas meninas ocorreu o sequestro e desaparecimento de Carlos Ramires da Costa, em 2 de agosto, no Rio de Janeiro, aos 10 anos.

Em 2000, o Congresso Nacional instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes. É 18 de maio, em homenagem a Araceli, que perdeu a vida nesta data de 1973 e hoje inspira o Maio Laranja. Data que ironicamente é promovida pela ministra Damares Alves, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) sem tocar muito nos porquês. Afinal, a pastora faz parte de um governo de militares, saudosos dos tempos da Ditadura.

 

A rede de impunidade servia aos interesses da Ditadura

Nos episódios envolvendo as duas meninas, os suspeitos pertenciam a famílias ricas, influentes e ligadas à rede de apoio civil e econômico ao regime militar.

Ana Lídia morava com a família (pais e irmão mais velho) na jovem capital do Brasil. Foi deixada na porta da escola (nunca entrou) e seu corpo foi encontrado dias mais tarde, marcado por cigarros. Havia sido torturada, estuprada, asfixiada e seu cabelo cortado rente ao couro.

Álvaro Henrique Braga (alto à esquerda), irmão da vítima, Alfredo Buzaid Júnior (alto à direita), filho do Ministro da Justiça; com Eduardo Ribeiro Resende, o Resendinho, (abaixo e à esquerda), filho de senador Eduardo Resende; e o traficante da alta roda Raimundo Duque (abaixo e à direita)

Álvaro Henrique Braga (alto à esquerda), irmão da vítima; Alfredo Buzaid Júnior (alto à direita), filho do Ministro da Justiça; Eduardo Ribeiro Resende, o Resendinho (abaixo e à esquerda), filho de senador Eurico Resende; e o traficante da alta roda Raimundo Duque (abaixo e à direita). Fotos: Reproduções

 

Na época, os militares culparam grupos de oposição, chamados de subversivos, que estariam lançando acusações falsas sobre o envolvimento de gente atrelada ao governo. Mas o fato é que os suspeitos eram filhos de políticos ligados à Ditadura.

Investigadores apuraram que o irmão de Ana Lídia a teria levado, junto com sua namorada, para o sítio de lazer do então vice-líder da legenda governista, Arena (Aliança Renovadora Nacional) no Senado, Eurico Resende. À noite, o casal foi embora deixando a menina com Alfredo Buzaid Júnior, o Buzaidinho (filho do então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid). Também no local estavam Eduardo Ribeiro Resende, filho do senador, e um traficante de drogas, Raimundo Duque. Este é o cenário da última vez em que a criança foi vista com vida.

Dias depois, onde encontraram seu corpo havia marcas de pneus de moto e preservativos, pistas que ajudariam na investigação. Mas não foi o que ocorreu e o caso foi abafado por envolver playboys, filhos de políticos. A imprensa foi censurada: “De ordem superior, fica terminantemente proibida a divulgação, através de meios de comunicação social escrito, falado, televisado, comentários, transcrição, referência e outras matérias sobre os casos Ana Lídia e Rosana. Polícia Federal”.

Rosana? Ninguém sabia nada referente a esse nome, citado apenas no comunicado assinado pela PF. Ironicamente, jornalistas e investigadores tomaram conhecimento sobre uma nova possível vítima por intermédio de uma nota de censura expedida pela Polícia Federal. E nunca mais se soube absolutamente nada sobre quem seria Rosana.

 

Algozes de Araceli eram muito influentes no regime militar

Paulo Helal (esquerda), Dante Michelini (centro) e Dantinho (direita)

Dantinho (esquerda), Dante Michelini (centro) e Paulo Helal (direita) foram condenados em 1980. Depois de anulado o julgamento e com as provas destruídas, foram inocentados em 1991 em novo julgamento. Foto: Reprodução/Wikipedia

 

Assim como Ana Lídia, a morte de Araceli, encontrada morta meses antes, também envolve pessoas da chamada “alta roda”.

Os suspeitos, denunciados em agosto de 1977, eram Dante Brito Michelini, o Dantinho, seu pai, Dante de Barros Michelini e Paulo Helal, filho de Constanteen Helal. As famílias Michelini e Helal, ligadas ao ramo imobiliário e ao latifúndio, exerciam muita influência junto ao Regime Militar.

Araceli costumava aguardar o ônibus que a levaria da escola para casa em um ponto próximo a um bar de propriedade da família Michelini. Uma testemunha viu a criança brincando com um gato neste bar. Depois nunca mais se soube dela.

Mais tarde foi comprovado que Araceli permaneceu em cárcere privado por dois dias no porão do estabelecimento. Ao ser encontrado, seu corpo estava desfigurado por ácido, com sinais de abuso sexual e marcas de mordidas.

Dantinho, o pai, Dante, e Paulo Helal foram acusados e usaram de sua influência junto ao Regime Militar e à polícia para que as investigações não fossem adiante. Além de contratarem 12 caros advogados, os suspeitos conseguiram com que provas fossem destruídas. Depois de condenados, em 1980, o julgamento foi anulado. Em novo julgamento, ocorrido em 1991 todos os réus foram absolvidos por “falta de provas”.

 

Jornalista ameaçado e censurado e 14 pessoas foram mortas

Livro de José Louzeiro foi censurado

Livro de José Louzeiro foi censurado. Foto: Reprodução

 

As investigações foram dificultadas por ameaças a testemunhas e a quem trabalhava na apuração. Pelo menos 14 pessoas morreram, entre possíveis testemunhas, até pessoas interessadas em desvendar o crime.  O jornalista José Louzeiro, autor de Araceli, meu amor (1976) foi ameaçado de morte, precisou se esconder e seu livro foi censurado a pedido dos advogados dos acusados.

 

Caso Carlinhos sensibilizou o país

Sem relação direta com o regime militar, outro caso intrigante e que durante anos ocupou as manchetes da imprensa no Brasil foi o sequestro e desaparecimento de Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos. Reconhecido como um dos maiores mistérios da crônica policial brasileira, virou livro e filme.

O menino de 10 anos, cabelos louros e cacheados, tinha a aparência de um anjo. Ele estava em casa à noite, junto a sua mãe e quatro dos seis irmãos. Foi arrancado dali por um sequestrador, que exigiu resgate, mas a família não tinha dinheiro.

Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos

Carlos Ramires da Costa, o Carlinhos. Foto: Reprodução/Acervo familiar

 

Como o crime chocou e tomou conta do país, muitas pessoas contribuíram com doações para que o resgate fosse pago e o menino voltasse salvo para casa. O Inquérito Policial foi aberto apenas sete meses após o ocorrido, em março de 1977.

As suspeitas recaíram sobre os pais, endividados e em vias de separação. Acusado por um detetive particular, o pai do menino foi detido e estuprado na prisão. Apanhou, foi humilhado.

Apesar da acusação, ele seguiu procurando o filho, que nunca foi encontrado. Na ânsia de encontrar Carlinhos, ao longo dos anos, crianças e até adultos apareceram ou foram apresentados como o menino desaparecido. Nunca houve um resultado positivo.

Mistérios que duram 48 anos. Deixaram marcas e o amargo sentimento de injustiça. Os crimes ficaram impunes. Que pelo menos não sejam esquecidos.

*Com colaboração de César Fraga

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Mais de 6 mil denúncias de abuso sexual contra crianças foram registradas de janeiro a maio de 2021

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