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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

12
Mai19

“Bolsonaro é um destruidor em série”

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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A jornalista e premiada escritora Alexandra Lucas Coelho, no jornal Público, de Lisboa, publica intenso artigo sobre o que acontece e o que nos aguarda na educação, não só nos cortes, mas no rebrotar das manifestações da juventude que, daqui a três dias, se unificam num único protesto contra o massacre na educação. E como a rejeição a Bolsonaro atravessou oceanos e fronteiras e vai reunindo o que há de mais importante no mundo que não importa ao presidente brasileiro, o dos que pensam.

 

Bolsonaro inimigo do Brasil, inimigo do mundo

por Alexandra Lucas Coelho

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1. O pior inimigo do Brasil está sentado no palácio em Brasília. É o próprio presidente eleito. Escrevo esta crónica em Salvador, entre vir de Brasília e partir para São Paulo. E em menos de uma semana os crimes são tantos que fica difícil actualizar. Estamos a um ritmo mais do que diário. Bolsonaro é um criminoso horário. A cada hora, é mais chocante para o Brasil, e para o mundo, que esta criatura tenha sido eleita. Foi cúmplice quem contemporizou na campanha, ou não quis ver nem ouvir, apesar de tudo o que estava na cara, e no ouvido. Mas, pior, é cúmplice quem, depois de quatro meses e nove dias de destruição, continua a teimar, ou acena com a legitimidade democrática. Parceiros no crime de um destruidor em massa, serial.

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O presidente de Portugal, que tratou Bolsonaro como “irmão” na posse em Brasília, já se escapuliu entretanto de ser fotografado ao lado do infame Moro, na Faculdade de Direito de Lisboa, apesar de a sua presença ter sido anunciada. Imagino que hoje já não seria tão palmadinhas-nas-costas em Brasília. Ou em Lisboa. Mas já não se imagina Bolsonaro em Lisboa, não é? Ou alguém, fora eleitores dele, está tão equivocado que, sim, imagina?

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Gostaria de ver, ler perguntas, notícias, sobre como os governantes portugueses estão a encarar isto. O ministro Augusto Santos Silva foi questionado sobre aparecer amenamente ao lado de Moro, como se nada fosse? Alguém perguntou a Marcelo porque afinal não compareceu no encontro onde esteve Moro? Coisas que, à distância, neste périplo, pelo Brasil, gostava de saber.

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Chegamos a um ponto em que foi cruzada, sem retorno, uma linha da diplomacia. Para além dessa linha, a diplomacia normal, dos lugares comuns ditos em público, não se aplica, passa a ser cúmplice.

Alguns, cada vez mais, já perceberam isso. O mayor de Nova Iorque percebeu isso, e a sua clareza firme levou Bolsonaro a cancelar a visita. O mayor de Nova Iorque simplesmente declarou Bolsonaro persona non grata. É isso que o mundo tem de fazer. Porque o pior inimigo do Brasil, que está sentado no palácio presidencial, é inimigo do mundo.

 

2. E o mundo começou a fazer. Mais de onze mil intelectuais das mais reputadas universidades do planeta assinaram uma carta contra Bolsonaro. Concretamente contra o ataque inédito de Bolsonaro à educação, que na última semana se tornou guerra mesmo. Bolsonaro conseguiu, aliás, o prodígio de na mesma semana em que mais atacou a educação facilitar mais o uso de armas. Entre os assinantes do manifesto contra estão académicos de Harvard, Princeton, Yale, Oxford, Cambridge, Berkeley, além das grandes universidades brasileiras, como Universidade de São Paulo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de Brasília.

Pisei esta semana pela primeira vez a Universidade de Brasília, um campus incrível, verde, sem separação entre cidade e universidade, sem portão, sem muro, sem segurança. Sonho do antropólogo Darcy Ribeiro que — ao contrário do sonho principal de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, planeadores da cidade — está totalmente habitado. A Universidade de Brasília é sonho e é humana. É arquitectura e é gente. A cara de Paulo Freire, mestre de um sonho de educação a quem Bolsonaro também declarou guerra, recebeu-me num cartaz à entrada para o Instituto de Letras. Pelas paredes, cartazes em defesa das ciências humanas, devolvendo a “balbúrdia” a Bolsonaro. Porque uma das pérolas que veio deste governo brasileiro, durante a semana, foi a de que as universidades públicas são antros de balbúrdia, gente nua e marxismo cultural. Entre os cartazes e graffiti contra Bolsonaro, um cartaz com o título “A Queda do Céu”, livro já lendário do xamã ianomami Davi Kopenawa, cartazes em defesa dos povos indígenas, corredores e pátios fervilhando com muitos tons de pele: o Brasil.

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Esta semana, o homem sentado no Planalto cortou um terço ou mais dos orçamentos das universidades públicas e institutos federais, estrangulando ou exterminando à partida ensino e pesquisa no Brasil. E, quando a luta de estudantes e professores, pais e mães já saía às ruas, foi anunciado o corte das bolsas de mestrado e doutoramento em todas as áreas, ciências humanas e exactas, da Capes, principal fonte de bolsas no Brasil.

 

3. Entretanto, todos os anteriores ministros do Ambiente ainda vivos se juntaram, em alarme e protesto, numa frente, para além das diferenças políticas e ideológicas. Acusaram Bolsonaro de pôr “em prática, em pouco mais de quatro meses, uma ‘política sistemática, constante e deliberada de desconstrução e destruição das políticas meio ambientais’ implementadas desde o início dos anos de 1990, além do desmantelamento institucional dos organismos de protecção e fiscalizadores, como o Ibama e o ICMbio”, resumiu o “El Pais Brasil”. Acusam Bolsonaro e o ministro Ricardo Salles de reverterem todos as conquistas das últimas décadas, que “não são de um governo ou de um partido, mas de todo o povo brasileiro”. Marina Silva usou a expressão “exterminador do futuro”.

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4. Nessa altura, quarta-feira, já as ruas se tinham enchido, em defesa da educação, de Belo Horizonte a Salvador ao Rio de Janeiro. Secundaristas, muito jovens, defendendo os seus colégios públicos, como o histórico Pedro II, porque o corte não atinge só as universidades, mas sim todos os institutos federais. E universitários, e professores. Quero acreditar que estes quatro meses foram de choque e atordoamento, mas que as ruas que agora se enchem são o prenúncio de uma luta nova, de algo que recomeçou no Brasil.

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Em 2013, quando muitas lutas explodiram nas ruas, um Brasil ignorante, boçal, autoritário, nostálgico do esclavagismo e da ditadura, começou a capturar a energia do protesto e as redes sociais. Este ano de 2019 talvez seja o recomeço de 2013 no ponto em que 2013 se perdeu. Adolescentes erguendo livros contra gente armada.

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5. Mas os próximos tempos serão duríssimos, mesmo que a luta cresça e cresça. Educação, ciência, cultura já perderam, vão perder mais. Neste périplo que estou a fazer pelo Brasil, entre universidades e livrarias, só estar com livros, com debate, com quem estuda, já parece subversivo. Então, mesmo por entre as peripécias da geringonça, gostaria de saber se o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, tem alguma ideia nova para apoiar tantos professores, estudantes, pesquisadores brasileiros, ameaçados de novos perigos. Ou a ministra da Cultura, Graça Fonseca, num momento em que os apoios à cultura no Brasil estão a paralisar, uns atrás de outros.

 

6. Lembram-se de quem, a propósito do Brasil, do impeachment de Dilma, insistiu que não era golpe? Escrevo esta crónica por entre as imagens do golpista Temer entregando-se à polícia.

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Como o Fora Temer parece fazer parte de outra era. De perda de inocência em perda de inocência, ou inconsciência, estamos diante do horror. E os que são jovens agora, tão ou mais jovens que a jovem Greta Thunberg, como os secundaristas brasileiros que há anos já aprendem uma nova luta, cada vez mais sabem que não há outros, seremos nós a mudar isto, ou não haverá nós. Tal como não há planeta B.

 

24
Abr19

Moro, “o ministro dos gangsters como combatente da justiça”

Talis Andrade

A Faculdade de Direito de Lisboa será durante três dias, a partir desta segunda-feira (22), palco do VII Fórum Jurídico sobre Justiça e Segurança, organizado em parceria com o Instituto Brasiliense de Direito Público e Fundação Getúlio Vargas. Para esta edição, nomes de peso da política e da justiça do Brasil estão presentes na capital portuguesa, como o Ministro da Justiça, Sérgio Moro, o presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia, o senador Antônio Anastasia, e os ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

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Adriana Niemeyer,

correspondente da RFI em Lisboa

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O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que deveria abrir o evento, não compareceu. Muitas postagens nas redes sociais condenavam a presença das autoridades brasileiras no país, e principalmente a de Moro.

A conhecida escritora e jornalista portuguesa, Alexandra Lucas Coelho, mostrou-se indignada com o patrocínio da Presidência da República e da Universidade Pública de Portugal ao Fórum que tem como orador principal “o ministro dos gangsters como combatente da justiça”, segundo classificou Alexandra Coelho, sobre a intervenção de Sérgio Moro.

 

Criminalidade : grande disparidade entre Brasil e Portugal

 

O ministro brasileiro veio apresentar o seu projeto de lei anticrime, apesar das grandes diferenças das realidades do Brasil e Portugal. “Eu vim a convite da faculdade de direito de Lisboa para expor sobre o projeto anticrime. É sempre importante poder convencer as pessoas porque aqui vão estar autoridades brasileiras de grande relevância mas também autoridades portuguesas. E a gente sempre teve essa ótima relação com Portugal. As realidades são muito diferentes: a nossa taxa de homicídio no Brasil é em torno de 30 por 100 mil habitantes, enquanto que aqui é um pouco mais do que um. A disparidade é muito grande e o contexto é diferente para explicar as ideias, mas claro que eles vão entender a necessidade que nós vamos tomar algumas medidas duras para reduzir a nossa taxa de criminalidade”, afirmou Moro aos jornalistas.

Entre as diferenças, o Moro exemplificou algumas situações semelhantes sobre as dificuldades institucionais que dificultam e obstruem a Justiça em casos como a Operação Marques, que envolveu o ex-premiê José Socrates em Portugal, e a Lava-Jato no Brasil.

 

"Perseguição" ao STF

 

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, um dos organizadores do encontro, afirmou à RFI que o Supremo Tribunal Federal vem sofrendo ataques constantes.

Gilmar defendeu o ministro José Antonio Dias Toffoli no caso sobre a ordem do STF de retirar da internet reportagens que vinculavam o presidente da corte com o empresário Marcelo Odebrecht, detido em prisão domiciliar por corrupção.

A decisão foi adotadao no âmbito de investigações por supostas ofensas e notícias falsas contra juízes.

Gilmar Mendes defende a necessidade de se fazer uma investigação para saber de "onde esses ataques partem, quais são os interesses, quem os subsidia". “Essa avaliação é apoiada por colegas do Tribunal”, acrescentou.

Ele condenou fortemente o vazamento de informações sigilosas, classificando o ato como “crime”. “Todos sabem que o Tribunal vem sendo alvo de ataques sistemáticos nas redes sociais, e o ministro Toffoli achou que era a momento de ter uma resposta institucional para esses ataques", declarou Gilmar Mendes.

Questionado sobre o caso, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, preferiu não se pronunciar.

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24
Abr19

O pior presidente do mundo (numa democracia)

Talis Andrade

É para gente como Bolsonaro, violadores em série da Constituição e dos Direitos Humanos, que deviam existir impeachments e prisões

a divina e trágica comédia brasileira flavio tav

Ilustração Flávio Tavares: A divina e trágica comédia brasileira

 

A opinião de Alexandra Lucas Coelho

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1. Bolsonaro é um crime ambulante. Crime de quem o elegeu como presidente, crime contra o Brasil, crime no mundo. Não é anedota, não é loucura, é crime.

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Depois de amanhã faz um ano que o ex-presidente Lula da Silva está preso em Curitiba. Em Agosto estive lá, em frente e no interior da Polícia Federal. O homem que continua trancado no topo desse edifício, envelhecido, doente, viúvo, melhorou a vida de milhões de pessoas. Fez erros, más escolhas, foi casmurro, continuava a ser naqueles dias de corrida eleitoral, mas levantou todo um Brasil, com o génio de poucos. Para acabar condenado a 13 anos de prisão, numa história mal amanhada de um apartamento, por um juiz que hoje é ministro da Justiça do seu ex-rival.

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Entretanto, esse ex-rival, agora presidente do Brasil, homenageia a ditadura, celebra a tortura de milhares, elogia milícias assassinas, extorsionárias, ensina crianças a atirar, e anda à solta pelo mundo a dizer que o nazismo era de esquerda.

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Dilma foi derrubada por um golpe disfarçado de impeachment. Lula foi preso por um dos golpistas. Mas é para gente como Bolsonaro, violadores em série da Constituição e dos Direitos Humanos, que deviam existir impeachments e prisões. O mundo ao contrário.

 

 

2. Testemunho de um pai: “Sônia Maria Lopes de Moraes, minha filha, teve seu nome mudado após o seu casamento com Stuart Edgar Angel Jones, para Sônia Maria de Moraes Angel Jones. Ambos foram torturados e assassinados por agentes da repressão política, ele em 1971 e ela em 1973. Minha filha foi morta nas dependências do Exército Brasileiro, enquanto seu marido Stuart Edgar Angel Jones foi morto nas dependências da Aeronáutica do Brasil. Tenho conhecimento de que, nas dependências do DOI-CODI do I Exército, minha filha foi torturada durante 48 horas, culminando estas torturas com a introdução de um cassetete da Polícia do Exército em seus órgãos genitais, que provocou hemorragia interna.

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Após estas torturas, minha filha foi conduzida para as dependências do DOI-CODI do II Exército, local em que novas torturas lhe foram aplicadas, inclusive com arrancamento de seus seios. Seu corpo ficou mutilado de tal forma, a ponto de um general em São Paulo ter ficado tão revoltado, tendo arrancado suas insígnias e as atirado sobre a mesa do Comandante do II Exército, tendo sido punido por esse ato.”

24
Abr19

Brasil: amamos e não deixamos

Talis Andrade
Já há redes de voluntários em Portugal a defender o que está em perigo no Brasil. Mas é essencial que poderes e instituições em Portugal também se envolvam. Bolsas, fundos, parcerias, acolhimentos, todo o tipo de apoios
Brasil: amamos e não deixamos

 

1. País-irmão? Quantas vezes em Portugal esta expressão foi gasta a falar do Brasil? E o carnaval, o Jorge Amado, o Caetano, o Chico? Quantos coliseus na vida de tantos portugueses? Quantas cidades maravilhosas? Quantas amazónias? Tudo isso faz parte do que está em perigo no Brasil. Começando pela vida, literalmente.


País-irmão não existe, faz-se todos os dias. Muitos voluntários em Portugal estão já a organizar-se em grupos de trabalho, porque amam o Brasil, e não o vão deixar à mercê de um fascismo indigente. Mas é essencial que vários tipos de poder em Portugal também se envolvam, governo, parlamento, câmaras, fundações, universidades, instituições culturais, media, empresas. Todo o apoio será pouco; para quem está no Brasil, e para quem vai sair.

 

 

2. Cada um pode ajudar no que melhor conhece. Vou focar-me aqui em três áreas, cultura, educação e media. Diariamente, chegam sinais de ataques em todas elas.


Começando pela cultura, já há listas de artistas a abater, por não apoiarem o poder eleito. Não só a ideia é acabar com o Ministério da Cultura, como interferir nos SESC, uma rede de centros que formam públicos e dão trabalho a artistas por todo o Brasil. Os anos de Gilberto Gil/Juca Ferreira à frente do ministério são um legado incrível, que chegou a milhões nunca antes envolvidos. A este apoio público à arte, o novo poder chama “mamatas” e repete que vai acabar com elas. Acresce que o Brasil está numa crise económica bárbara, haverá ainda menos dinheiro para ir ao cinema, ao teatro, comprar livros. Livrarias como a Saraiva ou a Cultura estão a fechar. As editoras, em recuo. Portanto, mais do que nunca os criadores brasileiros precisarão de apoio internacional. De encomendas, convites, bolsas, residências, parcerias, concursos, fundos, toda a espécie de incentivos financeiros ou logísticos que lhes permitam continuar a trabalhar, a criar, no Brasil e fora. E a resistir a pressões, à censura que já se declara.

 

 

3. Censura e cortes na educação, também. O novo poder já anunciou intenção de interferir no conteúdo do próximo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Vai tirar financiamento público às universidades. Desconfia da pesquisa na área das humanidades. Defende que “o Brasil é um país conservador”, que não deve ter “ideologia de género” nem “comunistas” no ensino. Um país onde há apelos para os alunos vigiarem os professores, quem não apoia o poder é inimigo, e Deus está acima de tudo. Até o slogan da ditadura foi recuperado: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Tudo parece empurrar para duas hipóteses, estar com o poder ou ir embora. Os estudantes e professores brasileiros precisarão, pois, de apoio internacional extra para estudo, graduação, pós-graduação, trabalho.

Há um mês, entre o primeiro e o segundo turno da eleição brasileira, estive num congresso nos EUA com 200 académicos que estudam literaturas de língua portuguesa, muitos deles autores brasileiros. E já se debatia uma rede de ajuda académica. Antes mesmo de ficar confirmada a eleição de Bolsonaro a ideia já era: temos de nos preparar para todos aqueles que vão vir, criar oportunidades, ajudas.
 

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4. Finalmente, os media. Jornalistas estão a ser despedidos em catadupa no Brasil. Órgãos de comunicação vão adaptar-se ao novo poder, já estão a mudar. Dentro da grande imprensa tradicional brasileira há alguns bons jornalistas que continuam a lutar contra a corrente. Outros meios, muito diferentes entre si (“El Pais Brasil”, Agência Pública, Mídia Ninja), também quebram a hegemonia. Mas o clima de sufoco vai adensar-se, somado ao estado da economia. E as redacções em Portugal debatem-se com os seus próprios problemas, óptimos jornalistas estão sub-empregados ou desempregados, não será fácil dar emprego a uma leva de jornalistas brasileiros. É preciso construir outras soluções. Se as redacções estão à beira de um esgotamento, continua a faltar um jornal mais à esquerda em Portugal. Há regiões que não estão preenchidas, espaços por fazer, sites por criar. O online pode reforçar a democracia, com gente preparada para os assuntos, de facto, não tem de ser o abismo. E aqui entram também fundações, instituições culturais, cursos de comunicação, mecenato, para formação e apoios. A Gulbenkian, que criou recentemente uma bolsa para trabalhos de jornalismo de investigação, teria meios para isso, um apoio específico a projectos que incluíssem também brasileiros, ou o Brasil.

 

 

5. Mas na cultura, na educação ou nos media, o ponto decisivo é que todo o tipo de poderes em Portugal encarem esta emergência como também sua, por tudo o que o Brasil representa para Portugal, e por um compromisso básico com a liberdade.


Entre as redes de voluntários que se articularam para apoiar brasileiros há uma consciência clara de que tudo isto se liga à ascensão internacional de uma extrema-direita, e que será preciso uma frente ampla para lidar com ela. Era bom que em Portugal quem tem poder, político ou outro, e se considera democrata, lesse os acontecimentos no Brasil como parte de um risco muito mais alargado, e em curso.

 

 

6. A terminar, dois pontos em relação à comunidade brasileira em Portugal que votou por larga maioria no novo poder.


Primeiro, não pode haver qualquer retaliação seja em relação a quem for. Todas as sugestões de deportação, ou de “vai para a tua terra” se transformam em xenofobia, mesmo quando o que as move inicialmente é uma indignação anti-xenófoba.


Segundo, pelas mesmas razões, não deve ser tolerada a esta comunidade qualquer manifestação homofóbica, misógina ou discriminatória. Tudo isso é crime, tem de ser punido, e é bom que os brasileiros residentes em Portugal o saibam, já que muitos parecem detestar socialistas, comunistas e esse outro papão que é a “ideologia de género”. Na verdade, alguns parecem nem saber que a democracia onde se instalaram tem um governo viabilizado por socialistas e comunistas, e legalizou o casamento gay há anos.

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