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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Mar21

Brasil supera a marca das 3 mil mortes diárias por Covid

Talis Andrade

 

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247 - O Brasil ultrapassou a triste barreira das 3 mil mortes por dia de Covid-19 nesta quarta-feira (17). O relatório do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) divulgado às 18h registrou 3.149 mortes. 

O número conta com os 501 óbitos do Rio Grande do Sul que não haviam sido somados nesta segunda. “Na data de ontem (16/3), a Secretaria Estadual do Rio Grande do Sul não consolidou os dados dentro do horário limite para a atualização do painel pelo Conass. Com isso, não foram contabilizados 9.331 casos e 501 óbitos. Estes registros foram somados aos dados publicados hoje”, explicou o Conselho em nota.

Ontem, também até o fechamento do boletim, Minas Gerais havia contabilizado 28 mortes. Nesta quarta, o estado atualizou os dados, registrando 314 óbitos em 24 horas.

Ao todo, o Brasil conta desde o início da pandemia 284.775 mortes em decorrência do coronavírus.

Foram registrados também 99.634 nas últimas 24 horas, somando 11.693.838 pessoas infectadas. Veja mais detalhes no Painel do Conass.

Descontrolada, Covid-19 já matou mais do que doenças como Aids e tuberculose no Brasil

 
Desde 1996, morreram 281.278 de vítimas da Aids no Brasil.
 
O número de vítimas do novo coronavírus também é maior que os 208.975 mortos pela tuberculose, os 115.931 pela doença de Chagas, os 79.648 óbitos causados pela meningite e as 66.683 vítimas da hepatite viral.
 
No pior momento da pandemia, Bolsonanro trocou o comando do Ministério da Saúde. Caiu o general da ativa Eduardo Pazuello. 
 
Nesta quarta-feira (17), o novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, prometeu unificar tratamentos hospitalares para pacientes de Covid-19. Este é um dos diversos desafios que Queiroga terá adiante no Ministério da Saúde.
 
05
Jan21

O que a pandemia nos mostrou sobre Estado e amor

Talis Andrade

Eva Illouz, em entrevista ao Página/12, traduzida pelo IHU Online

Socióloga que refletiu sobre o nexo entre a produção capitalista e os afetos sustenta: exigência da Saúde, e do Público, desmoralizou discurso liberal; e confinamento expõe como a intimidade é ao mesmo tempo necessária e insuportável…

Nesta modernidade, ninguém havia pensado em que medida o contrato que nos liga ao Estado, e que liga o Estado com a economia liberal, está baseado na saúde. Somente no século XX o filósofo francês Michel Foucault teorizou a forma como, a partir do século XVII, “a vida se tornou um objeto de poder”. E a vida é a saúde. Esse “pacto sanitário” exposto pela pensadora franco-israelense Eva Illouz, nesta entrevista, nunca esteve tão evidente como hoje, ainda mais porque a sobrevivência de um sistema liberal que abusa do Estado, como também o questiona, depende de sua eficácia.

Illouz é a socióloga e pensadora que mais refletiu e escreveu sobre o capitalismo visto pelo ângulo da subjetividade, ou seja, do ponto de vista do amor e suas (nossas) relações com o sistema liberal. Seus ensaios são o testemunho de um pensamento baseado na ideia de que a modernidade pode ser compreendida através do amor. Não se trata tanto, em sua obra, do amor propriamente “sentimental”, mas, muito mais, da maneira como o capitalismo alterou os códigos emocionais e a estratégia com a qual a chamada economia moral das relações sociais institui intercâmbios econômicos, por meio das emoções (Capitalismo, consumo y autenticidad, Katz, Argentina, 2019).

Seus livros anteriores ou posteriores exploram com uma originalidade inquestionável toda a esfera dessa relação contaminante entre amor e capitalismo: Intimidades congeladas (Katz Editores, 2007), El consumo de la utopía romántica. El amor y las contradicciones culturales del capitalismo (Katz, 2009), La salvación del alma moderna. Terapia, emociones y la cultura de la autoayuda (Katz, 2010), Erotismo de autoayuda. Cincuenta sombras de Grey y el nuevo orden romántico (Katz, 2014), Por qué duele el amor. Una explicación sociológica (Katz, 2012), Futuro del Alma. La creación de estándares emocionales (Katz e Six Barral, 2014), Happycracia. Cómo la ciencia y la industria de la felicidad controlan nuestras vidas, junto com Edgar Cabanas (Paidós, 2019).

Seu último livro em francês, La Fin de l’amour. Enquête sur un désarroi contemporain (“O fim do amor. Pesquisa sobre uma desordem contemporânea”) adentra as formas mais modernas das relações amorosas, atravessadas pela liberdade de não se comprometer. Foi, paradoxalmente, uma das etapas mais dolorosas da pandemia: para proteger o outro, tivemos amor sem compromisso, ou seja, sem presença.

A pertinência de seu pensamento aparece nesta entrevista, cujo fio condutor é o Estado e seu novo protagonismo total, a hipocrisia e o desmascaramento do liberalismo, o amor e a centralidade do pacto sanitário com os cidadãos. O debate entre um Estado que confina, cidadãos que obedecem e setores que o contestam circulou em todas as partes do mundo. Jamais com a grosseria, a mentira e a violência sinistra perpetrada pela direita das cavernas na Argentina. No entanto, Eva Illouz destaca que, no mundo, foi a social-democracia quem melhor assumiu a gestão da pandemia.

 

De repente, com a pandemia, em um piscar de olhos, a relação entre o Estado e a sociedade se transformou: o discurso liberal da liberdade, do estímulo à autonomia, a se realizar como um indivíduo emancipado, ficou neutralizado pela reentronização do Estado. Não somos mais responsáveis por nosso destino. O Estado assumiu todas as prerrogativas e se tornou o rei contra o discurso liberal da emancipação.

O Estado sempre atuou no cenário de fundo de nossa vida, mas nunca antes tínhamos sido testemunhas da potência fenomenal do Estado como agora, nem da uniformidade com a qual obedecemos às ordens do Estado. Houve, no entanto, exceções muito assombrosas. Penso, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a concepção de Estado é muito diferente. Vimos o Estado forte tanto nas democracias sociais, na Europa entre outros, como nos Estados autoritários. Mas o Estado federal estadunidense fracassou.

Existe algo de paradoxal nesta situação, caso observemos também o que aconteceu na Alemanha. Foram mais pessoas da extrema direita que desobedeceram ao Estado que da extrema esquerda. De alguma forma, fomos prisioneiros do Estado. No entanto, também compreendemos que o contrato que nos liga ao Estado é um contrato sanitário. O Estado tem todos os poderes quando assume a defesa de nossa segurança, tanto militar como sanitária.

É a primeira vez que, por razões sanitárias e não militares, o Estado conta com tantos poderes. Havia contado antes, mas por razões militares e, no caso das ditaduras, por causas políticas. Privou-se o indivíduo de seus direitos. Nunca antes havia ocorrido por razões sanitárias e menos ainda em escala planetária.

Quando se trata de escolher entre segurança, sobrevivência e liberdade, os cidadãos sempre escolherão a segurança. No contrato social da teoria liberal, sempre se prefere a segurança à liberdade. A segurança sempre será mais forte que a liberdade. O Estado atuou aí.

 

Também aconteceu uma espécie de convergência entre os Estados no mundo, diante da pandemia.

Houve uma homogeneidade na gestão da crise e foi a China que deu o exemplo, que mostrou o caminho sobre como administrar a crise. Com algumas exceções, todos os Estados imitaram a China e acabaram se imitando entre eles. A uniformização da gestão da pandemia também foi algo novo.

 

Você acredita que o Estado restaurou sua pertinência frente a um neoliberalismo que sempre buscou retirar poderes dele? As crises mundiais provaram o papel preponderante do Estado: a crise de 1919, a crise petroleira dos anos 1970, a bancária de 2008 e, agora, em 2020, a pandemia. O Estado foi, todas as vezes, o bombeiro do sistema.

O capitalismo foi periodicamente salvo pelos Estados. Penso que o neoliberalismo sempre teve uma relação ambígua com o Estado. O neoliberalismo impõe ao Estado a lógica do capitalismo e, ao mesmo tempo, o utiliza porque precisa dele. O mercado não pode sobreviver sem o Estado. Os lucros do sistema capitalista neoliberal são possíveis porque o Estado instala estruturas que beneficiam o capitalismo. O Estado constrói as infraestruturas, os trens, as estradas, os aeroportos e a eletricidade.

O Estado também assume a educação. Sem tudo isto as companhias não existiriam. O Estado se encarrega da capacitação, da educação. O mais irônico de tudo isto é que o Estado também financia a saúde, sem a qual, igualmente, as companhias não sobreviveriam. Há uma enorme má fé nesta situação porque, sem o Estado, o capitalismo não poderia existir.

Tudo o que o Estado financia e administra é essencial para a manutenção da mão de obra. Um Estado social forte é quase necessário para o capitalismo. Mas esta necessidade se vê muitas vezes negada pelos neoliberais. A crise da Covid-19 foi a evidente e inevitável prova de que o capitalismo precisa de um sistema de saúde muito forte. Quando esse sistema de saúde balançou, tudo parou. De alguma forma, isto foi como a hipótese oculta de todo o sistema.

 

Justamente, uma das dimensões escondidas desta tragédia está em que a saúde é uma das variáveis essenciais da governabilidade. Em uma escala social muito ampla, não se notava que a saúde regulava tudo.

O Estado moderno está ligado a seus cidadãos por meio de um pacto sanitário. Isto é muito interessante porque, por exemplo, nos Estados Unidos ficou demonstrado que sem esse pacto nada funcionava. As grandes manifestações de Black Lives Matter se desencadearam pela horrível morte de Geoge Floyd, mas também porque entre as populações negras e latinas ocorreram duas vezes mais mortes pela Covid do que entre as atendidas pelo sistema de saúde. Muito vastamente, esta população estava doente e sem atendimento médico.

Os Estados Unidos nos mostram que sem esse pacto sanitário não é possível governar os cidadãos. A Alemanha, por exemplo, foi o exemplo mais expressivo de uma social-democracia e da maneira como o Estado respeitava o pacto sanitário que o liga a seus cidadãos.

 

Foi dito em quase todas as partes que o mais arcaico, ou seja, um vírus, veio demolir a hipermodernidade tecnológica. No entanto, com um enfoque mais sutil, você sugere outra interpretação.

Foi justamente o contrário. Não acredito que o vírus tenha provocado um curto-circuito na modernidade, mas, ao contrário, penso que nos impulsionou para frente. O mundo distópico que nos aguarda é o mundo onde tudo se faz em casa: trabalhamos em casa, fazemos compras de casa, nos relacionamos com os outros de casa, buscamos relações sexuais de casa. É um mundo no qual as grandes empresas tecnológicas que o controlam e desenvolvem a tecnologia nos permitem navegar de nossa casa. O vírus, em apenas três meses, nos levou a adotar processos que necessitariam de 15 anos.

 

A expansão das máscaras como um antídoto contra a propagação do vírus é outro episódio globalizado e simbólico. Todos nós usamos máscaras ao mesmo tempo, conforme você afirmou, a crise sanitária desmascarou a impostura do liberalismo.

A impostura consistiu em dizer que o mercado pode se autorregular e que o mercado é o mecanismo mais poderoso e, por conseguinte, é ele quem pode regular a vida social. Também está presente essa ideia darwiniana que tudo aquilo que sobrevive, que funciona, está muito bem, e que tudo o que é ineficiente desaparecerá. Mas, como vimos com a saúde, o sistema sanitário não é um sistema capaz de funcionar com lógicas de rentabilidade. A impostura consistiu também em difundir a ilusão de que em primeiro lugar está o mercado e que o Estado é algo velho, desatualizado, que sua forma de refletir o bem comum não é eficaz e que sua lógica leva a gastar muito sem necessidade.

Vimos, agora, que sem um sistema de saúde forte e sem um Estado que possa exigir que sua população acredite em seus especialistas, a crise da pandemia não poderia ser administrada. Para mim, esta crise marca o triunfo do modelo social-democrata. Os países que melhor administraram a crise foram os países social-democratas. Os Estados Unidos, que não são uma social-democracia, equivocaram-se por completo. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, os dois países onde a ideologia liberal é a mais forte, são os países que pior administraram a crise.

 

Frente ao futuro que se projeta, você ressaltou a ética da responsabilidade. Como se interpreta essa necessidade?

Os campos da responsabilidade mudam amplamente. Comparemos isto com a crise da AIDS. A AIDS era transmitida por via sexual ou por transmissão sanguínea. Rapidamente, compreendeu-se que com um preservativo era possível limitar consideravelmente a difusão da AIDS. A Covid-19 coloca novas interrogações porque diz respeito a toda sociabilidade, vai muito além das relações sexuais.

A pergunta: “o que você me deve, o que devo a você e quais são os termos do nosso encontro?”, no momento, não conta com roteiro. Disto segue essa lógica da responsabilidade porque, a partir de agora, precisaremos contar com os outros para que não nos coloquem em perigo. Deparamo-nos confrontados com o amor por meio da negatividade.

Para proteger as pessoas que amamos, tivemos que deixá-las sozinhas. Costumamos pensar na ética a partir do ponto de vista da solidariedade, da ação, de ser solidários, tocar. Faltou-nos imaginação para pensar na responsabilidade em modo negativo, em um modo de distanciamento e de ausência de ação.

 

Aqui, entramos plenamente em sua obra, particularmente nesse extraordinário livro O Fim do amor. A pergunta é: por acaso esta crise pode restaurar a crença no amor, após o desencanto que você descreveu tão bem em seu ensaio?

Penso que a crise é mais difícil para as pessoas que estão acostumadas a ter várias relações ao mesmo tempo. Mas o que torna difícil a condição do amor é certa forma de individualismo, o fato de que a família se tornou opressora, o fato de que temos muitos discursos igualitários, mas nada de igualdade no casal, o fato de que a mudança, a realização de si mesmo é estimulada e, por conseguinte, as pessoas mudam muito frequentemente de gostos e de pontos de referência. São todas forças exteriores.

Uma crise como esta pode contribuir para uma reflexão diferente sobre o amor…? Tudo dependerá do que se coloca em questão globalmente. Muitas pessoas descobriram que a melhor forma de enfrentar tal crise era estar a dois, em um relacionamento sólido. Agora, por acaso, isso é o amor? Não sei. Talvez se trate apenas de uma relação de afetos, mas não realmente de amor.

Na China, os divórcios aumentaram após a crise. As pessoas descobriram que quando estavam o tempo todo juntas, era um inferno. A família e a casa moderna, ou seja, os apartamentos pequenos, repousavam sobre a hipótese de que as crianças permaneciam fora, durante o dia, e que os homens e as mulheres não se encontravam ao longo do dia. Esta crise forçou as famílias a entrar em um estado de implosão interior. A tendência inversa também é possível.

 

Você teorizou pela primeira vez o que chamou de “capitalismo sentimental” (também “capitalismo afetivo”). Ou seja, essa esfera onde os seres humanos eram absorvidos para produzir mais. Esse sistema tem futuro após a pandemia?

Não acredito que tenha uma incidência. O capitalismo sentimental faz com que as emoções sejam manipuladas, utilizadas, sublimadas dentro da esfera de trabalho capitalista para transformar o trabalhador e o lugar de trabalho em uma unidade onde se pode produzir mais. O que talvez mude é que o lugar de trabalho enfrentará mais ansiedade e medo. A pergunta é quem administrará todo este medo e ansiedade, ou seja, o não funcionamento.

 

O amor é, para você, uma forma de compreender a modernidade. Qual é a forma de nossa modernidade neste momento-amor preciso?

Podemos falar, em primeiro lugar, do individualismo afetivo. É um elemento central na história do indivíduo. O individualismo é a afirmação de que o indivíduo tem direitos novos contra os pais, as comunidades e o Estado. O amor desempenhou um papel central nessa afirmação moral do individualismo. Romeu e Julieta, por exemplo. Depois, vem a ideia da liberdade, a ideia de que o indivíduo tem direitos inalienáveis.

Isto foi elaborado na esfera política e, em seguida, foi projetado na esfera individual. É a ideia hegeliana de pensar na família e o matrimônio em função dos novos direitos e de um contrato que unirá a duas individualidades livres. Todo o modelo moderno das relações pressupõe a liberdade de cada um para entrar e sair. É uma ideia predominante no amor. No catolicismo, não é permitido se divorciar porque o matrimônio é uma instituição santa e, como tal, é mais forte que a vontade e o desejo dos indivíduos.

O amor coloca em jogo toda a questão do desejo. E o desejo se tornou o motor central da economia e da cultura de consumo. Esta cultura legitimou o desejo. Trata-se de um encontro, de uma convergência histórica, entre o desejo do objeto e o desejo sexual e romântico. Sendo assim, não se pode esquecer da revolução sexual, que foi muito importante. Sexual! Esta revolução diz respeito à vida privada, a sexualidade.

A revolução sexual colocou tudo em questão e foi um dos acontecimentos mais importantes do século XX, que mudou a estrutura. Sexualidade, desejo e a forma como as mulheres vão se compreender dentro de uma relação ocuparam um lugar determinante. É possível ler no amor processos econômicos, morais, políticos, jurídicos e sociais.

 

A tensão entre o desejo de liberdade e os fantasmas da submissão, entre a atração e a irritação, a autonomia e a independência. Com ou sem pandemia, o amor é uma dualidade difícil de conciliar.

Sim, absolutamente. Gosto da percepção de Freud de que o amor é essencialmente ambivalente, está atravessado por uma ambivalência estrutural. Durante o confinamento, a famosa frase de Jean-Paul Sartre, “o inferno é o outro”, resultou muito pertinente. Penso, também, que é dentro do amor que a frase de Sartre se plasma, nessa presença constante do outro, nessa intimidade permanente com ele.

O amor moderno se tornou algo parecido: uma espécie de veleidade de intimidade, de transparência, de simbioses e de fusão que faz com que a proximidade do outro seja simultaneamente mais imperiosa e mais insuportável.

31
Jan20

127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos

Talis Andrade

 “Entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual"

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A campanha pela abstinência sexual que Damares Alves pretende lançar durante a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, prevista para acontecer na primeira semana de fevereiro em parceria com o Ministério da Saúde, comandado pelo médico ortopedista Luiz Henrique Mandetta, vem colocando os dois ministros em lados opostos. O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dita ―ou tenta ditar― as diretrizes da ação, mas o custo de 3 milhões de reais será bancado pelo Ministério da Saúde. Em nota técnica obtida pelo jornal O Globo no último fim de semana, a pasta comandada pela pastora evangélica afirma que o início precoce da vida sexual leva a “comportamentos antissociais ou delinquentes” e “afastamento dos pais, escola e fé”, entre outros resultados.

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Já a pasta de Mandetta afirmou, em outra nota técnica, que a campanha deve reforçar a autonomia e o protagonismo do jovem sobre sua iniciação sexual, colocando à disposição os métodos contraceptivos. Ao jornal Folha de S. Paulo o ministro afirmou que a mensagem do “comportamento responsável é válida”, mas que “o problema é complexo” e “não se pode minimizar a discussão e dar ênfase só para isso". Ele também disse que questões religiosas não devem pautar a discussão e que tem "apostado muito muito em informar as consequências, porque acredito que esse seja um ponto essencial para a conscientização”.

Fora desse embate estão os números alarmantes de estupros cometidos em meninas menores 14 anos, uma das principais causas da gravidez precoce, segundo diversos especialistas e estudos. Os dados mais recentes constam no último relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entidade mostra que nos de 2017 e 2018 foram registrados um total de 127.585 estupros, dos quais 63,8% ocorreram em menores de 14 anos ―o que se configura como estupro de vulnerável. Além disso, 81,8% dos casos aconteceram em mulheres, 75,9% foram cometidos por alguém conhecido e em de 95% deles os autores pertencem ao sexo masculino. “É de se destacar que os crimes sexuais estão entre aqueles com as menores taxas de notificação à polícia, o que indica que os números aqui analisados são apenas a face mais visível de um enorme problema que vitima milhares de pessoas anualmente”, afirma o texto.

A ministra Damares também vem apontando para o aumento dos casos de doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis. Em julho do ano passado, a ONU apontou que o contágio do vírus da AIDS no Brasil cresceu 21% em oito anos, apesar das campanhas e tratamentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa tendência já vinha sendo observada por entidades e especialistas, que apontam para o nível de desconhecimento das novas gerações, que não vivenciaram o pânico gerado pelos primeiros contágios a partir da década de 1980. Seja como for, o Governo Bolsonaro foi criticado por ter transformado o órgão responsável pelo combate à doença em uma coordenadoria dentro do Ministério da Saúde —antes, era um departamento específico. Na prática, isso significou que a política de enfrentamento ao vírus, tida como referência no combate ao HIV em todo o mundo, perdeu relevância.

A ministra também abordou na entrevista alguns problemas reais e apelou para o senso comum: “A gravidez precoce está crescendo de uma forma absurda. E mais do que a gravidez precoce, as doenças sexualmente transmissíveis. Sabiam que estamos em epidemia de sífilis?

Em relatório de 2017, a Unicef aponta “entre 40% e 60% dos casos de gravidez na adolescência resultantes de violência sexual”..

Além disso, o estudo destaca que os abusos ocorridos repetidas vezes aconteceram em 45,6% dos casos de meninas de 10 a 14 anos e 25,7% das jovens de 15 a 19 anos. Entre as que ficaram grávidas em decorrência de estupro, em 72,8% (10 a 14 anos) e 44,1% (15 a 19 anos) dos casos a violação teve caráter repetitivo. Portanto, continua o estudo, “a gravidez na adolescência e as notificações de estupro podem estar associadas, evidenciada pela alta prevalência de violência de repetição, de ocorrência de estupro e outras vulnerabilidades”.

A ministra Damares Alves não nega esta realidade e diz que defende a educação sexual em escolas, desde que falada “de forma certa”. Coincidindo com movimentos feministas, afirmou ao Correio que “quem for falar para a criança de 3 anos sobre educação sexual deve fazê-lo inclusive para empoderar essa criança a se proteger”. Ela inclusive aproveitou para lembrar seu histórico pessoal de violação: "Vocês conhecem a história do meu abuso, daquele momento terrível da minha vida. Se eu soubesse o que era aquilo, eu teria gritado. Eu tinha 6 anos”. 

relatório da Unicef também aponta quatro “macrofatores” causais para o alto índice de gravidez precoce: além da violência sexual, aponta para o “descompasso entre o desejo sexual e o risco de gravidez, que pode resultar na gravidez não planejada (escapulida)”; a “vontade da maternidade, que resulta na gravidez desejada”; e a “necessidade de mudança de status social, que resulta na gravidez estratégica”.

Nesse contexto cabe também destacar o elevado número de uniões estáveis e casamentos entre adolescentes, uma realidade para 23,2% das meninas com de 10 a 14 anos, e 36,8% entre aquelas de 15 a 19 anos, lembra o Ministério da Saúde. “As dificuldades para resolver os vínculos de dependência do grupo familiar podem levar os jovens a buscar uma pseudoindependência, substituindo os laços com os pais pela dependência afetiva do casal. A adolescente que vive em um meio social desprovido de recursos materiais, financeiros e emocionais satisfatórios pode ver na gravidez uma expectativa de futuro melhor, embora ela possa se tornar mais vulnerável nessa situação”, explica. A Unicef coloca o Brasil como o país com mais casamentos precoces da América Latina e o quarto de todo o mundo.

[Transcrevi trechos de reportagem de FELIPE BETIM. Leia mais no jornal El País

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19
Set18

BOLSONARISTAS NEGAM HOLOCAUSTO, DESPREZAM MULHERES, INSULTAM MARIELLE E EXPÕEM ALMAS DOENTES

Talis Andrade

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por Mário Magalhães

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EM NOVEMBRO DE 1940, o democrata Franklin D. Roosevelt venceu o republicano Wendell Willkie com uma diferença de 5 milhões de votos e conquistou o terceiro mandato consecutivo na Casa Branca. O presidente viria a ser um dos condutores dos Aliados no triunfo sobre o nazifascismo. Isso é o que conta a história, porque no romance “Complô contra a América” Roosevelt foi abatido nas urnas de 1940 pelo aviador Charles Lindbergh.

 

O livro de Philip Roth lançado em 2004 narra as agruras, o medo e a resistência de famílias norte-americanas de origem judaica sob o imaginário governo do pioneiro da travessia aérea sem escalas do Atlântico. Na vida real, Lindbergh voava alinhado com esquadrilhas antissemitas e fascistoides. Havia sido condecorado pelo III Reich, confraternizava com mandachuvas alemães e defendia, para gáudio de Berlim, os Estados Unidos à margem da guerra que conflagrava a Europa.

 

Na ficção, sua administração perseguiu e intimidou os judeus. O personagem repugnante bolado por Roth não ousou sugerir que se pesassem seres humanos em arrobas. Pareceria inverossímil, tamanha a perversidade, a despeito do racismo do protagonista. “Complô contra a América” não me sai da cabeça. Não ao fabular um passado distópico, mas ao matutar sobre o porvir. Próximo, não distante. Do Brasil, e não da “América”.

 

Duas semanas atrás, 26.791 dias depois da morte de Adolf Hitler, a embaixada em Brasília da República Federal da Alemanha publicou no Facebook um vídeo de 67 segundos sobre o nazismo. Virou alvo da artilharia dos negacionistas do Holocausto da Segunda Guerra, os mesmos que em nossos trópicos negam ter vigorado uma ditadura a partir de 1964.

 

É entre bolsonaristas que tais sandices germinam

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“Farsa”, zurrou um mentecapto com nome iniciado com agá (copiei o comentário, mas não promoverei seu autor). Tal cretinice recebeu 944 curtidas. Um certo L. repudiou a caracterização do hitlerismo como de direita. Ignorância faz mal. Arrogância, também. Misturadas, resultam em indigência intelectual diabólica. H. e L. empenham-se, constata-se em seus perfis, na campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

 

Nem todo bolsonarista apregoa a inexistência do genocídio ou pinta como esquerdista o regime nazista. Mas é entre bolsonaristas que tais sandices germinam.

 

“Nunca tinha visto na Alemanha essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda”, disse à Deutsche Welle o cientista político Kai Michael Kenke. “Lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma porrada.”

 

‘Fábricas de desajustados’

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Em meados do mês, completou meio ano a impunidade dos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Em reação à cobrança sobre quem os matou e quem mandou matá-los, W. relinchou no Twitter: “Pergunta lá na Maré, o tiro veio do traficante revoltado com a piranhagem dela, ciúme puro”. “Já foi tarde”, sibilou L. Talvez, ululou A., “uma fechada no trânsito pode ter causado a morte” da vereadora e do motorista.

 

Um dos três animais hidrófobos é robô, mas expressa o ódio de um ser humano de alma putrefata. O pior robô é o existencial. Adivinhe quem é o candidato preferido de W., L. e A. Ele mesmo, o indivíduo chamado de “Coiso” ou “Mito”, a depender da cachola e do coração de cada um. L. reverenciou ontem o vice de Bolsonaro: “Parabéns, general! Família tem que ter pai (macho), mãe (fêmea) e filhos!!!! É a base de uma sociedade harmônica e estável!”

 

Hamilton Mourão voltara, na véspera, ao estropício filosófico. Sua doutrina doentia pressupõe que famílias “sem pai e avô, mas com mãe e avó” são “fábricas de desajustados”, fornecedoras de mão de obra para o tráfico de drogas. O general se referia a famílias pobres. Em 2007, Sérgio Cabral afirmara que a Rocinha é uma “fábrica de produzir marginais”. O pensador militar acentuou, com o componente de gênero, o preconceito de classe do governador gatuno.

 

É compreensível a aversão maior a Bolsonaro entre o eleitorado feminino (49% de rejeição entre as mulheres, 38% entre os homens, conforme o Datafolha). As mulheres, incluindo mães e avós, chefiam 40% dos lares brasileiros. São 11 milhões os lares formados somente por mulheres e seus filhos. O capitão, o general e sua turma se incomodam com o mulherio. Com mais de 2,5 milhões de participantes, o grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” foi retirado do ar no fim de semana, depois de um ataque cibernético no Facebook. Mourão declarou que o grupo era “fake”. Não era.

 

Também encrencam com a orientação sexual alheia. Empolgam hordas desatinadas. No domingo, no clássico mineiro, um grupo de torcedores do Atlético bramiu: “Ô, cruzeirense! Toma cuidado! O Bolsonaro vai matar veado!” O clube rechaçou as “manifestações homofóbicas” e os “gestos de preconceito” e “incitação à violência”.

 

 

HIV: ‘Problema deles’

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Um vídeo com entrevista de Bolsonaro em 2010 documenta uma das mais desapiedadas abordagens de políticas públicas para cuidar de pessoas que vivem com o vírus HIV. O deputado condenou “dinheiro do povo para tratar essa gente depois que contrai a doença com esses atos”. Associou a contaminação à “vida mundana”.

 

A entrevistadora Monica Iozzi ironizou: “Então dinheiro público vai para quem tem câncer, para quem tem tuberculose. Para quem tem Aids, a pessoa que foi culpada por pegar, ela que se vire…”. O atual candidato a presidente emendou: “Concordo contigo”. Monica esclareceu: “Eu não acho isso”. Bolsonaro: “Se for na sacanagem…”. Monica: “Se não se cuidou…”. Bolsonaro: “Problema deles”. Monica: “Que morra…”. Bolsonaro: “Problema deles!”

 

A ameaça Bolsonaro é mais aterrorizante do que o país devaneado pelo gênio de Philip Roth. Lá o espectro era ficção; aqui, é desgraçadamente real

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Quem veiculou a entrevista no Youtube não foi um detrator, mas Carlos Bolsonaro, orgulhoso do pai. O vereador do Rio aplaudiu:“Os hipócritas dizem que quando o vagabundo faz besteira cabe ao Estado zelar por sua irresponsabilidade. O deputado federal Bolsonaro diz a verdade e dispara: ‘O Estado deve tratar de doentes infortúnios [sic] e não de vagabundos que se drogam ou adquirem aids por vadiagem’. Muitos não vão gostar, mas concordo”.

 

Em alguns círculos, o jornalismo que o diga, a banalização das crueldades bolsonaristas persistiu enquanto o deputado e seus partidários serviram a propósitos como a deposição de Dilma Rousseff. Regrediu, porém ressurge na desonestidade de igualar Bolsonaro a adversários que rejeitam selvagerias.

 

Autores de não ficção costumam ser questionados sobre o motivo de não escrever histórias ficcionais. Respondem que, diante de matéria-prima cotidiana tão rica, para que inventar? A criatividade e a arte se expressam na maneira de contar.

 

A ameaça Bolsonaro é mais aterrorizante do que o país lindberghiano devaneado pelo gênio de Philip Roth. Embora nos Estados Unidos o fascista tivesse virado presidente, e no Brasil a eleição seja futuro. Mas lá o espectro era ficção; aqui, é desgraçadamente real.

 

 

Bolsonaro seria fortíssimo no 2º turno

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O Ibope divulgado ontem flagrou Bolsonaro com 28 pontos (+2), Haddad com 19 (+11), Ciro Gomes com 11 (igual), Geraldo Alckmin com 7 (-2) e Marina Silva com 6 (-3). Em uma semana, o candidato de Lula avançou 11 pontos, e sua diferença para o líder diminuiu nove. Já é razoável especular: quando, ainda no primeiro turno, ele ultrapassará o postulante da extrema direita?

 

A pesquisa não foi ruim para Bolsonaro. Nas simulações de segundo turno, ele vence Marina (41% a 36%) e empata com Haddad (40% a 40%), Ciro (40% a 39%, com vantagem numérica do pedetista) e Alckmin (38% a 38%). O capitão é muito competitivo.

 

Ele já questiona preventivamente o placar eleitoral. Internado na unidade semi-intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein, fez uma transmissão ao vivo pela internet. Sem provas, disse que “o PT descobriu o caminho para o poder, o voto eletrônico”. Programas poderiam inserir na moita 40 votos por urna, de acordo com o concorrente do PSL.

 

O general Mourão propôs uma nova Constituição, mas não elaborada por constituintes escolhidos por sufrágio universal. E sim obra de um conselho de notáveis. Mais tarde, a Carta seria submetida a plebiscito.

 

Uma vez golpistas, sempre golpistas.

 

27
Jul17

Doenças Sexualmente Transmissíveis na Adultez Tardia

Talis Andrade

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                                                                           THINKSTOCK

 

 

por Karina Cerqueira de Aranha Marinho de Andrade Lima

 

 

Os avanços nas ciências, principalmente na medicina, e tecnologias proporcionam melhor qualidade de vida e aumento da longevidade. A população acima dos 60 anos tem crescido. Segundo Harper (2014), o número de pessoas com idade acima de 65 anos irá aumentar de 23.7 milhões (em 2010) para 152.6 milhões em 2050. Os idosos maiores de 80 anos constituirão cerca de 12% da população. Triplicando a sua dimensão em 40 anos, no período de 2010 e 2050. Esta faixa da população está descobrindo novas experiências, inclusive pelo prolongamento da vida sexual possibilitado pela reposição hormonal, medicamentos para impotência e outros.

 

O que antes era um enorme tabu e desconhecido, hoje, as informações estão acessíveis a qualquer pessoa de qualquer idade. Cada vez mais estuda-se os benefícios que a sexualidade, nessa etapa da vida, traz para a saúde, para o bem--estar e para a satisfação geral.

 

Os idosos estão cada vez mais conscientes de seus direitos e necessidades. A sexualidade deixou de ser apenas uma forma de reprodução para torna-se uma forma de encontro, relação, comunicação ou expressão dos afetos (BUTLER; LEWIS, 1985).

 

Mesmo com o aumento da informação, ainda existe muito preconceito e pressão cultural. A sociedade, os profissionais de saúde, inclusive o próprio idoso, negam que exista vida sexual na velhice. Até pouco tempo atrás, nem se cogitava falar sobre sexo abertamente. Por isso, existe, ainda, muito receio e vergonha em se falar de preservativos, e principalmente, em comprá-los. A ocorrência de práticas sexuais inseguras contribui para que essa população se torne mais vulnerável às infecções pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST), como a sífilis e a clamídia.

 

Em todo o mundo tem crescido os casos de DST e VIH nos idosos. Devido a escassez de estudos epidemiológicos, e de campanhas de prevenção exclusivas para maiores de 60 anos, somados à ampliação do período sexual ativo, processos fisiológicos do envelhecimento e aspectos comportamentais.

 

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (VIH)

 

 

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Não se conhece a origem do vírus. Sabe-se que existe semelhança com a família de retrovírus relacionada a primatas não-humanos (macacos verdes africanos), que vivem na África sub-Sahariana, chamada de vírus da imunodeficiência símia (SIV). Esta hipótese de introdução do SIV em humanos foi proposta por um antropologista que estudou a tribo Igjiwi oriunda do Zaire. Que observou, em rituais religiosos, o homem sacrificava o animal, fazendo a ingestão do seu sangue. Assim, o vírus SIV pode ter sido transmitido ao homem, sofrido mutação e atacado a espécie humana. Por isso, supõe-se que o VIH tenha origem no continente africano (Kuby, 2003).

 

VIH é a sigla do Vírus da Imunodeficiência Humana. Causador da SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida), atacando as células linfócitas T CD4+ responsáveis, em parte, pelo controlo do sistema imunológico. O vírus altera o DNA destes linfócitos fazendo cópias de si mesmo. Depois de se multiplicar, o VIH rompe os linfócitos em busca de outros para continuar a infecção. Como todo paradita, o VIH se replica dentro das células hospedeiras (Weiss, 2001). Existe o VIH-1 e o VIH-2.

 

Ter o VIH não é o mesmo que ter SIDA. A pessoa pode ter o VIH incubado e não apresentar os sintomas. Já a SIDA é o estágio mais avançado da doença por atacar as defesas do organismo, deixa-o mais vulnerável a diversas doenças. Quer seja um simples resfriado, e infecções mais graves como tuberculose ou cancro.

 

Não existe cura. Mas, possível ser soropositivo e viver com qualidade de vida, tomando os medicamentos indicados, e seguir corretamente as recomendações médicas.

 

O VIH é transmitido por várias formas, e principalmente, pelas relações sexuais desprotegidas, inclusive a anal e oral.

 

O primeiro caso de VIH foi identificado, em 1981, nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, rapidamente, a doença tornou-se uma epidemia. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da UNAIDS (Joint United Nations Program on HIV/SIDA), cerca de 40 milhões de pessoas no mundo vivem com VIH/SIDA, dentre as quais 2,8 milhões têm 50 anos ou mais.

 

Segundo Maschio, Mottin, Balbino, Souza, Ribeiro, & Puchalski (2011), no Brasil, de 1980 até junho de 2009, foram diagnosticados 13.665 casos de VIH em pessoas com 60 anos ou mais. Destes, 8.959 em homens, e 4.696 em mulheres. O Ministério da Saúde do Brasil contabilizou 18.712 casos na faixa etária de 60 anos ou mais, no período de 1980 a junho de 2012.

 

No Reino Unido, a incidência dobrou no período compreendido entre os anos de 1996 e 2003, sendo que 11% dos casos de SIDA foram diagnosticados em pessoas com mais de 50 anos.

 

Nos Estados Unidos, embora em 1982 somente 7,5% dos diagnósticos de SIDA eram em pessoas com mais de 50 anos, em 2006, essa população representou 15,5% dos novos diagnósticos de VIH, 25% das pessoas vivendo com VIH, 20,5% dos diagnósticos de SIDA, 32% das pessoas vivendo com SIDA e 39% de todas as mortes provocadas pelo VIH/SIDA.

 

Na Austrália, o National Notifiable DiseasesSurveillance System revelou que de um total de 30.486 casos diagnosticados de infecção por VIH até 2011, 10% foram de pessoas com mais de 50 anos.

 

As estatísticas comprovam que o adulto tardio não tem prevenido ou não tem prevenido corretamente. No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, onde criaram um ambulatório exclusivo para pacientes da 3ª idade com VIH, foi realizada uma pesquisa com os pacientes do sexo masculino, e segundo o Dr Gorinchteyn (2011), 100% dos pacientes sabidamente soropositivos usavam preservativo. Num segundo momento, foi dada uma prótese peniana para que colocassem um preservativo, e 80% dos participantes erraram.

 

No caso das mulheres, nesta faixa etária, por estarem na menopausa e não poderem engravidar, têm a falsa impressão da inutilidade do preservativo.

 

Questões sociais e políticas também agravam a incidência. A sexualidade na adultez tardia é negada pela sociedade. Até nas consultas médicas este assunto muitas vezes é ignorado ou evitado. Há uma falta de identificação do idoso com as campanhas de prevenção do VIH e DSTs que, nos anos 80, tinha como “grupo de risco” quem fosse usuário de droga, homossexual e/ou tivesse muitos parceiros sexuais. Atualmente, as campanhas têm sempre como foco o jovem. E por isto, muitos idosos, ainda hoje, não se consideram como um doente em potencial.

 

Diagnosticar pacientes soropositivos nessa faixa etária um desafio, por apresentarem, muitas vezes, mais de um diagnóstico para um grupo já exposto a múltiplas patologias, o que reflete em diagnósticos tardios. [Continua]

 

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                                             Preservativo gigante colocado em um obelisco em Hyde Park, centro de Sydney

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