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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

01
Out21

Doentes atrapalham a economia

Talis Andrade

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por João Paulo Cunha

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Em meio a tantos absurdos que se somam a cada dia, foi revelado de forma quase natural a raiz de tanto horror no combate à pandemia pelo governo federal: doentes fazem mal à economia. 

Depois de uma sequência de inépcia, descaso, militarização, charlatanismo, falta de empatia, desprezo à ciência, crueldade, corrupção e outros crimes, a verdade final foi dita com todas as letras. Havia um pacto, uma aliança, uma estratégia ditada a partir da economia. Ou melhor, como foi explicitado, do Ministério da Economia. As digitais de Paulo Guedes não estão apenas nas planilhas dos péssimos números das finanças públicas, mas nas quase 600 mil vidas perdidas.

Todos devem se lembrar da antiga e insensata disputa apresentada entre a dimensão sanitária e econômica da pandemia. Parecia que havia se estabelecido um dilema entre sanitaristas e economistas, sobre a melhor forma de enfrentar a doença e suas consequências para a sociedade. Na falsa contraposição, um lado não se importava com as baixas para os negócios e empregos; o outro não tinha sensibilidade para a dor das famílias. O desprezo pelas ciências da vida se escorava numa preocupação com a vida material. Chegou-se a dizer que padeceríamos de mais mortes por desemprego e suicídio do que pelo vírus.

Na verdade, a divisão foi apresentada pelo governo federal como anistia para sua ação negacionista no combate à doença, que apostava na morte como saída biológica inevitável, travestida na ideia de imunidade coletiva ou de rebanho. Por isso não cabia investir em testes, vacinas, atendimentos e medidas não farmacológicas. Era só deixar a morte fazer seu trabalho saneador e suspirar um desumano: “e daí, todo mundo morre um dia”. Há um componente sadomasoquista no fascismo. De um lado, defende-se o extermínio dos fracos; de outro, submete-se ao poder como forma de se sentir próximo a ele. O fascista é antes de tudo um covarde.

O que vem sendo revelado nos últimos dias é mais grave e profundo. Não houve apenas uma abordagem equivocada em termos científicos, mas um plano traçado estrategicamente para que chegássemos aonde chegamos. As mortes por covid-19 não foram uma consequência, mas um instrumento utilizado com método. Além do Ministério da Saúde, foram convocados tanto alguns profissionais da área, como falsos profetas do tratamento precoce, como empresas e planos de saúde. A ordem foi dada: matem os brasileiros doentes porque eles fazem mal aos negócios. O comando foi assassino, mas travestido de liberalismo.

Progressão do terror

Frente a isso, a incompetência gerencial, a falta de uma política consequente e até os esquemas de corrupção traçados para a compra de vacinas, com toda sua gravidade, são ações de criminosos menores e até certo ponto medíocres. Há uma progressão de terror entre um burocrata, comerciante ou deputado que combina a compra de insumos com propina e um dirigente de plano de saúde que mata seus pacientes para fechar as contas e nutrir a falsa esperança de que está tudo bem e que já passou a hora de sair às ruas. No primeiro caso a morte é uma consequência hedionda, no segundo é o motivador da ação.

O que a CPI da covid revelou nos últimos dias, com os procedimentos experimentais que só encontram paralelo no nazismo, praticados pela Prevent Senior, além de estarrecedor é metódico. E coletivo, já que defendidos, entre outros, por Nise Yamaguchi e Paolo Zanotto (e até Anthony Wong, mártir da própria infâmia) e financiado por empresários como Luciano Hang. 

O que foi feito, às custas da vida de pessoas que pagaram para receber atenção, é exatamente o cumprimento do que foi chamado de “pacto”, a partir de uma demanda do Ministério da Economia. Vale tudo no campo sanitário para devolver a dinâmica dos negócios e fazer girar a roda da economia, dos tratamentos ineficazes à falsa sensação de segurança conferida por eles. De quebra, se abre uma franja de oportunidades para empresários inescrupulosos dispostos a lucrar com a pandemia.

No entanto, não se trata apenas de um projeto genocida para salvar a vida material, mas de um programa que visava também aumentar os ganhos da operadora disposta a levar esse alinhamento à frente. Um prêmio macabro pela subserviência ao poder e indigência ética na condução de seu negócio. Em outras palavras, além de contribuir para o propósito de criar uma impressão de normalidade para empurrar as pessoas para as ruas e o contágio, a Prevent Senior agia em nome de seus próprios interesses econômicos.

Em primeiro lugar, apresentando-se como opção de baixo custo para seus clientes. Em seguida, pela busca de protagonismo em protocolos que utilizavam tecnologias e medicamentos ineficazes e perigosos. Para isso, criou falsos procedimentos de pesquisa, deturpou dados e pretendia se lançar como alternativa assistencial reconhecida mundialmente. Para levar adiante esse projeto, usou pacientes como cobaias, encurtou tratamentos e tirou pacientes graves de respiradores. Há uma relação entre a morte e a liberação de leitos.

Não se sabe onde se localiza a maior desumanidade, se na obediência aos interesses de Guedes e do mercado ou na deturpação da assistência para garantir corte de custos. Nos dois casos, o imperativo da economia era apresentado como um valor e os doentes, sobretudo os mais graves, como um problema a ser retirado do horizonte. Valia tudo: falsear dados de pesquisas, retirar diagnósticos do prontuário, deslocar pacientes da UTI para unidades paliativas sem informação aos responsáveis, fornecer medicamentos inservíveis como alternativa para famílias desesperadas, ameaçar médicos e outros profissionais que não concordassem com a farsa. Falsificar atestados de óbito e praticar eutanásia.

Horror

Como relatou a advogada dos médicos da empresa, Bruna Morato, havia uma aliança direta entre os interesses do Ministério da Economia e a empresa, para que o país “não parasse”. Os profissionais que compuseram o gabinete paralelo, muitos deles com passagens pelo plano de saúde e sedentos de poder e cargos, garantiram que o plano para fazer a economia seguir sem percalços tinha respaldo em decisões técnicas, o que não era verdade e deixava a cada dia um rastro maior de mortes e sofrimento.

O alinhamento entre a economia e a política de saúde executada pelo governo federal, com contribuição criminosa de alguns profissionais ambiciosos e empresas deformadas moralmente, não tem outro nome: horror. Não é incompetência, ganância ou negacionismo. Vai além da política pública, sobrepuja a corrupção, está muito distante da mera ignorância. É um pacto com o mal, no sentido mais profundo da expressão. Não é possível ir mais baixo na escala humana.Image

O que pode acontecer com a Prevent Senior?

 
 
10
Ago21

Religião e terror

Talis Andrade

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O poder da religião vem de algo bem mais simples, de suas verdades inabaláveis

 

por Marilia Pacheco Fiorillo

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Se tomarmos o termo “imaginação” em sua acepção primeira – fantasia, originalidade – ele é quase sinônimo de poesia: daquela linguagem, mais que narrativa, na qual dúvidas, hesitações, incongruências e incoerências, oxímoros, enfim, são virtudes, mais que vícios.[i] A imaginação coloca em movimento, inesperado, imprevisível, o sujeito. Ela é inseparável do indivíduo, do singular, da criatura se afirmando, condensando seu potencial, cintilando, única, assertiva e inconfundível. Nesta perspectiva, a imaginação é um insulto às religiões.

Assim vistas, são praticamente antitéticas. Religiões podem ser fortemente emocionais, em seu apelo e ritos, mas a ênfase na emoção (pessoal ou coletiva, catártica ou silenciosamente íntima), para que esta corresponda aos rituais e padrões devocionais, e, sobretudo, aos dogmas e fundamentos, esta especifica emoção catalisada nas religiões não admite a intervenção anárquica da imaginação. Neste ensaio, desenvolveremos reflexões e recorreremos a exemplos históricos que possam ilustrar esta hipótese.

Defenderemos que a imaginação coabita muito mal com as religiões institucionalizadas, pois é outra a natureza da emoção que estas demandam, do sentimento tão frequentemente convocado, tão diligentemente insuflado nos corações e preces: a emoção vertiginosa que as religiões exigem e despertam é o medo. Seja para justificar os males do mundo, acomodando-os a uma qualquer teodiceia,[ii] seja para confortar, é no medo (como prudência, cautela extrema ou terror, puro e simples), que repousa o inabalável poder das religiões.

Nesse sentido, a imaginação é sua antítese, uma real abominação para a forma mentis religiosa; é, na melhor das hipóteses, sinônimo de heresia.[iii]

A fantasia mais comumente evocada nas religiões é a que recorre ao tremendum, resultado do numinoso[iv]: fenômeno que provoca assombro, temor, terror, o ‘sentimento de estado de criatura’ mencionado por Rudolf Otto, em que esta se abisma no próprio nada diante da terrível transcendência, da inacessibilidade absoluta da divindade, e se anula, esmagada, pulverizando-se aterrorizada perante o que está acima (do pó ao pó). Daí a verdadeira vocação da emoção religiosa: a de ser, não a promessa do maravilhamento, (a promessa de felicidade da arte[v]), mas o aviso recriminador, o alerta continuo e contínua vigilância, o trombetear sobre o final dos tempos – a escatologia é a emoção religiosa por excelência, e cumpre à perfeição seu papel, o de suscitar medo e assegurar-se da disciplina dos fiéis.

Inabalável poder

O poder da religião não está nos fundamentalismos (que tanto engajam) nem em seu considerável papel temporal. Não está na pompa e nepotismo dos papas da Renascença, aquele poder de cometer excessos que fez do pontífice Alexandre VI – pai de Cesare e Lucrezia Borgia – o político mais importante, e letal, de seu tempo. Nem nos feitos de Salâh Al Din Yusef ibn Ayyub, ou Saladino o Grande, líder muçulmano curdo (curiosamente, o maior herói do Islã não era árabe) cuja diplomacia, mesclada à arte da guerra, minou a empreitada das Cruzadas (outro típico exemplo da aliança pleonástica poder & religião). O poder da religião não está nas jihads ou guerras santas que ela patrocina, nos monumentos que ergue para se eternizar, pirâmides ou catedrais, nem nas fortunas que as Igrejas amealham ou dissipam, ou na capacidade que elas têm de transtornar o destino de povos inteiros, confortar as pessoas (com dádivas deste mundo e promessas para o outro, eventualmente negociando à vista indulgências) ou arruiná-las feio (hereges ao fogo).

O poder da religião vem de algo bem mais simples, em sua entranha – de suas verdades inabaláveis.

Todo o resto é mera consequência. Ouro, incenso e mirra, glória, magnificência, influencia, longevidade e também a habilidade de converter gente simples em fanáticos (ou, como disse o prêmio Nobel de física Steven Weinberg, de “fazer com que gente boa pratique más ações”) são o resultado desta altiva segurança de si, que não admite réplica e que está no fulcro mesmo das religiões. Em religiões que se prezam não cabem hesitações (divagações, digressões, oximoros), nem em suas doutrinas, nem da parte de seus seguidores.

O resto, isto é, a extraordinária potência política, financeira ou bélica, a autoridade moral, a capacidade de persuasão e, finalmente, a infinita resiliência das religiões – elas sobreviveram intatas ao ataque dos iluministas no século XVIII, à declaração apressada de Nietzsche (“Deus está morto”) na virada para o XX e à concorrência das religiões laicas de esquerda e direita, e seus profetas milenaristas Stalin e Hitler –, enfim, a perenidade e a incolumidade das religiões devem-se ao singelo motivo de que elas nunca precisam prestar contas.

Não está na natureza das religiões ter que se explicar. “Creio porque absurdo”, já dizia no século II um dos primeiros teólogos cristãos, o genial Tertuliano de Cartago.

Ao contrário da ciência, cujo motor é a dúvida – perguntas, discórdia, desconfianças e rompimentos foram o oxigênio de Galileu, Newton e Einstein – a religião nasce, cresce, vive e se reproduz no dogma.[vi] E dogmas são incontestáveis exatamente na medida em que significam, literalmente, mistérios.

Mistérios não estão por aí para ser escarafunchados – como os átomos, o genoma humano, ou a superfície de Marte. Qualquer tentativa de analisá-los ou dar-lhes coerência seria uma ingerência indevida, além de tola e inútil, do ponto de vista religioso.

Pretender destrinchar o sentido de um dogma, ou mistério religioso, é sinal de total despreparo espiritual do intrometido. Um mistério só é mistério porque absolutamente impenetrável, imune a qualquer lógica, e, sobretudo, terreno proibido para questionamentos ou contestações. De que maneira se poderia discordar do inefável? Com qual argumento, se a fé, quando legítima, prescinde de frivolidades como justificativas ou arrazoados? Estamos precisamente na terra do “assim é, porque é assim”, palácio dos truísmos em que os curiosos ou muito inquietos não pisam. Aliás, sabe-se que quanto mais implausível, obscuro ou abstruso for o dogma, melhor.

Mistérios seduzem porque operam como os milagres: tanto mais poderosos quanto mais inacreditáveis e, acima de tudo, insondáveis (fato curioso no capítulo dos milagres é porque, em geral, eles nunca acontecem onde mais se precisa deles, como em Auschwitz ou na África de 2009, mas em Fátima, e seus beneficiados parecerem escolhidos meio randomicamente, além de seus benefícios soarem um tanto avoados; afinal, não haveria nada mais premente que fazer uma estátua chorar sangue?).[vii]

Há quem contradiga isso tudo, e defenda que o supremo poder da religião é o de elevar-nos às alturas, direto aos céus de pura beleza e transcendência: as epifanias emanadas da Paixão segundo São Mateus de Bach, do Réquiem de Mozart, da Pietá de Michelangelo, da Divina Comédia, dos azuis vaporosos e macios de Giotto ou do azul cobalto, desbotado, da capelinha esquecida numa estrada de terra. Mas este é tão somente o poder da arte, que está no mundo há tanto tempo quanto a religião, mas teve desde sempre outro endereço, o da promessa de felicidade aqui e agora. A arte, fruto da graça, nos é dada de graça, também. È celebração desinteressada.

Nada mais distante da imaginação artística, do ímpeto gracioso, que o rígido e calculado sistema de punição e recompensa, pecado e perdão, condenação e salvação, desta contabilidade impiedosa que está na base de todas as religiões.

A verdadeira vocação do poder religioso não é despertar o sublime, mas suscitar o inominável. Esta é a definição do “numinoso”,[viii] conceito-chave nos estudos da religião: mais um “oh!” aterrorizado que um “ah”! deliciado. Prova disso é que as verdades religiosas (cada credo com as respectivas), geralmente sisudas, não admitem ser contrariadas. No território dos mistérios inefáveis, ouve-se pouco a música dos anjos (como em Bach) e muito, muito mais, o clamor dos chamados de ordem e disciplina. Religiões não se deixam abalar por seus descontentes – livram-se deles, e pronto. Hesitações na fé só são admitidas como testes de resistência da fidelidade do fiel, acossado pela tentação da dúvida.

Veleidades de mudança – como a Reforma protestante, o nome já indica –, que seriam o sal da imaginação, na religião viram sedições. Empenhos de modernização, ou adequação aos novos tempos, acabam naquela história de um passo à frente, dois atrás (compare-se o neofundamentalismo de Bento XVI com o ecumenismo de João XXIII, Il Papa buono, O Papa bom, como era chamado[ix]). E diálogos interreligiosos, na prática, são quimeras. O propalado projeto de coexistência pacífica das religiões é, parafraseando Clausewitz, apenas a continuação da guerra entre as crenças, por outros meios.

Por quê? Simples, franciscanamente singelo, de novo: pela óbvia razão de que aderir a uma religião exige, liminarmente, excluir todas as outras. [x] Isso pode acontecer na marra, na violência, ou, se os deuses e seus respectivos representantes estiverem de bom humor, através de certo desprezo mascarado de condescendência. Os graus de intolerância variam, mas o dom da inclusão nunca foi o forte das Igrejas.

O exclusivismo sempre foi a virtude cardeal das religiões, ao menos das monoteístas _ que, paradoxalmente, são primas consanguíneas.

Outro assunto é descobrir qual a motivação (psicológica, ética, cultural ou inercial) que torna as pessoas tão apegadas às suas crenças e tão irritadas quando algum desavisado ousa contrabandear um “mas será mesmo?” no interior exíguo e ordenado de suas certezas. Há quem diga que o pendor humano por religiões, tão antigo, é uma decorrência mais da biologia que do sobrenatural[xi]. A propensão a crer seria um efeito indesejado, quase um dano colateral, de um outro hábito, este sim fruto de uma necessidade vital à sobrevivência da espécie: o hábito de obedecer, inculcado na infância.

Para que a criança saia ilesa da multidão de perigos que a cercam, tem de aprender desde cedo a aceitar sem protestar (ou protestando, mas cedendo) certas verdades elementares que lhe são transmitidas pelos pais. Por exemplo, que ela não pode se dependurar do terraço do 3@ andar senão cai, ou não deve colocar o dedo na tomada, ou precisa acreditar que a Terra é redonda. Não fosse assim, a cada geração reinventaríamos a roda. Imaginem se cada um de nós, aos 3 ou 13 anos, tivesse de testar pessoalmente, em vez de simplesmente acatar, o cabedal mais ou menos consensual do conhecimento disponível. Cada um teria que circunavegar o planeta com seu próprio bote para só então concordar que a Terra não é plana; ou jogar sua própria maçã, matutar um tempão e, eureka, chegar à lei da gravidade. Seria inviável, além de um tremendo desperdício.

É por isso que obedecer cegamente e acreditar piamente, na infância, é no geral vantajoso e sensato. Mas se este hábito se prolonga pela idade adulta, vira vício: o da credulidade sistemática. Assim, o que havia sido proveitoso aos 3 ou 13 anos, depois dos 30 torna-se pernicioso: um resíduo parasitário. Deste ponto de vista, a crença –porta de entrada das religiões – nada mais é senão a preguiçosa e confortável repetição de algo que já perdeu sua razão de ser, um talento (processar precocemente as informações transmitidas) que virou automatismo, uma mania obsessiva, girando no vácuo.[xii]

Ninguém ilustrou com tanto esmero e acuidade esta peculiar natureza do poder religioso – amor à obediência, horror à dúvida; adoração do dogma, desprezo pela imaginação – como Tertuliano de Cartago, o efervescente, feroz, e (malgrado ele mesmo) delirantemente imaginativo teólogo do Norte da África. Vale lembrar que, no século II, Alexandria, Antioquia e Cartago eram tão ou mais importantes que Roma, para o cristianismo nascente.[xiii]

Nascido na Tunísia em 150, numa família de prestígio na sociedade romana, Quintus Septimius Florens Tertullianus converteu-se tarde, por volta dos 40 anos, mas compensou os anos perdidos com sua combatividade. Foi o mais temido crítico dos dissidentes cristãos de então. Seu alvo não eram os pagãos, mas os colegas divergentes. Compôs por volta do ano 200 o mais famoso manual de detecção e combate aos heréticos, o clássico De Praescriptione haereticorum. [Prescrições contra os heréticos] que inaugurou uma nova arte de argumentar, sem rodeios. Sua verve e seu método fizeram escola, atravessando o tempo, as rixas dos inúmeros Concílios, o cisma entre Roma e Bizâncio e resistindo inclusive à sua própria excomunhão, pois Tertuliano foi punido no fim da vida por ser mais realista que o rei. Sua obra tem um aroma inconfundível, mescla de ironias, truísmos, dogmatismos, e veemência invejável. Deixou inúmeros imitadores. Seu estilo pode ser entrevisto no posterior debate entre católicos romanos e bizantinos no século XIII, tentativa imperfeita de copiar o mestre: os cristãos do ocidente tachavam os orientais de “fezes das fezes, indignos da luz do sol”, enquanto os orientais chamavam seus irmãos do ocidente de “filhos das trevas”, alusão ao fato de o sol nunca se por à Oeste.

Campeão das tautologias, uma de suas tiradas mais famosas é a de que tudo aquilo que estiver em conformidade com a Igreja é verdadeiro porque não poderia ser de outro modo; consequentemente, tudo que não vem da Igreja só pode ser falsificação. Tertuliano cimentava seu amor às certezas absolutas através de contrassensos. O melhor deles é sua frase mais famosa, a “Creio, porque absurdo”, argumento tão misteriosamente dogmático que se torna irrespondível. Diante dele, nem dá para começar o debate.

Os filósofos são um dos alvos prediletos da cólera de Tertuliano. Seu anti-intelectualismo é daqueles nascidos de um passado de vida intelectualizada; portanto, como costuma acontecer com acertos de contas auto infligidos, é especialmente virulento. Seu elogio do obscurantismo vem das vísceras: “O que Atenas tem a ver com Jerusalém, a Academia [platônica] com a Igreja, os heréticos com os cristãos? Nosso ensinamento provém do Pórtico de Salomão, que ensinou pessoalmente que os homens devem buscar Deus na simplicidade de seus corações”. Filósofos e cristãos de outros grupos o repugnam porque caem na tentação da curiosidade e imaginação. A presunção de conhecer, para Tertuliano, era mais que leviandade, era um insulto de lesa-majestade à verdadeira fé, que, para ser saudável, deveria se alimentar literalmente da pobreza de espírito.

“Fora com todas as tentativas de se produzir um cristianismo misto de composição estoica, platônica ou dialética. Não queremos nenhuma disputa curiosa depois de possuirmos Jesus Cristo, nenhum tipo de indagação após desfrutarmos do evangelho. Com a nossa fé, não desejamos outra crença”, escreveu. O combate travado por Tertuliano, porém, não é só contra os heréticos; é contra toda e qualquer iniciativa de colocar o cérebro (adversário da alma) para funcionar. Tertuliano queria extrair da mente o que ascetas como Santo Antão extraiam do corpo, isto é, mortificá-la e deixá-la à míngua. Um bom cristão deveria se abster de qualquer de exercício mental. Pensar é poluir a alma.

No afã de afastar o perigo do pensamento, nem os evangelhos são poupados. Até trechos canônicos ficam sob suspeição, pois, se matutados com muita frequência, podem desencaminhar o devoto. Ao tradicional “Busca, e acharás”, ele contrapõe um “Fora com aquele que busca onde jamais encontrará”! A vigilância não deve ceder nem diante de passagens da Bíblia, pois se estas forem passíveis de ambiguidades, isto é, de interpretação, com certeza envenenarão o espírito. Como quase tudo que se lê pode ser interpretado, até mesmo as mais inofensivas passagens são banidas. ‘Bate à porta e encontrarás’? Nada disso, diz Tertuliano: “Fora com aquele que está sempre batendo, pois jamais lhe será aberto, já que ele bate onde não há ninguém para abrir”. ‘Peça, e será atendido’? Nem pensar: “Fora com aquele que está sempre pedindo, pois jamais será ouvido, já que pede a quem não ouve”.

Pedir, perguntar ou esperar são uma quebra de decoro. Perguntar é o mais nefasto, pois sugere que há alguma dúvida no ar, algo a esclarecer, e dúvidas são a rota inequívoca para a perdição. Para que perguntar, se basta aceitar? “Indícios de uma disciplina mais rigorosa entre nós são uma comprovação adicional da verdade”. A dúvida pavimenta o caminho do inferno; a disciplina, a estrada do Paraíso.

Se perguntar é indecoroso, inventar é uma abominação. A grande diversidade interna dos grupos cristãos de sua época é ridicularizada por Tertuliano, que descreve seus opositores como arquitetos de cosmologias malucas (dada a liberdade com que cada grupo interpretava a mensagem cristã), nas quais os céus se sucederiam “como aposento empilhado sobre aposento, cada um designando a um deus por tantas escadarias quantas são as heresias: eis o universo transformado em quartos de aluguel!”. A imagem do universo como uma pilha de quartos de aluguel, além de sensacional (Tertuliano detestava a imaginação de seus adversários, mas não podia evitar a própria), é bastante pertinente. Os aposentos estão empilhados; isto indica que devem ser do mesmo tamanho ou de tamanho aproximado, e que oferecem igual comodidade; não há suíte imperial ou cobertura VIP, nenhum privilégio. Mais: nenhum dos moradores é proprietário, pois os quartos são alugados, e, se o hóspede estiver insatisfeito, basta se mudar. Este é um edifício anárquico, não aquilo que ele, Tertuliano, quer para a Casa do Senhor.

“Cada um deles – diz de seus adversários cristãos – como lhe aprouver o temperamento, muda as tradições que recebeu, assim como aquele que as transmitiu também as mudara ao moldá-las de acordo com o próprio arbítrio”. A mania de polemizar o atordoa. E o assusta esta contínua reinvenção da tradição, que deveria ser intocável. Tertuliano enumera os principais defeitos dos cristãos que não são de seu grupo: a plasticidade de idéias, o desprezo pela hierarquia; a clara preferência por cargos rotativos; a ausência de distinção entre clero e leigo; o tratamento igualitário dispensado a mulheres e homens, ou a veteranos e neófitos.

Estas características, diz, só podem levar à ruína: “Suas ordenações são negligentemente dispensadas, cheias de caprichos e mutáveis; num momento são os noviços que exercem as funções, noutro, são pessoas com empregos seculares… em lugar algum a promoção é mais fácil que entre os rebeldes… de modo que, hoje, um homem é bispo, e amanhã serão outros; aquele que hoje é diácono amanhã lerá as escrituras; quem for padre hoje será leigo amanhã, pois até sobre os leigos eles impõem as funções do sacerdócio”. E continua, em defesa da verdade única: “Não fica claro quem é catecúmeno e quem já se inclui entre os fiéis; todos são igualmente admitidos, todos ouvem igualmente, todos oram igualmente… compartilham o beijo da paz com todos que vierem, pois não se importam como cada um concebe os tópicos da fé, já que estão reunidos para investirem contra a cidadela daquela que é a única verdade”.

Na horda de seus oponentes cristãos, noviços oficiam como padres, padres agem como se fossem noviços; qualquer um pode ser bispo, nem que seja por um dia; todos participam do serviço e podem se encarregar do sermão do dia; padres e leigos se equivalem, e em nenhum lugar é tão fácil ser promovido, isto é, ser aceito em condições de igualdade. Tamanha insubordinação, tamanha ‘humanidade’, parece a Tertuliano uma degeneração no mais alto grau. “Como é frívolo, mundano, como é meramente humano, sem seriedade, sem autoridade, sem disciplina, como bem convém à fé deles!”. De todas as subversões, a que mais o horroriza é a emancipação das mulheres. Misógino até mesmo para os padrões patriarcais da época, Tertuliano chamava o sexo feminino de “portal do diabo”.

Marcion e Marcos, dois de seus concorrentes cristãos, haviam ordenado várias mulheres como padres e bispos, e o representante da seita dos cristãos gnósticos em Roma era uma mulher, Marcelina. Esta permissividade enfureceu Tertuliano. Mulheres, não contentes com a desordem que sua ancestral havia provocado no paraíso, continuavam a tumultuar a ordem terrena: “Essas mulheres hereges, como são atrevidas! Carecem de modéstia e têm a ousadia de ensinar, discutir, exorcizar, curar, e talvez, até, de batizar!” Elas fariam melhor se abandonassem jóias e ornamentos e, “conforme a lei de São Paulo, se cobrissem com véus”. Mas, justiça seja feita,Tertuliano também não foi muito liberal com o sexo forte: o ato de barbear-se, para ele, era ímpio, pois é um desacato ao Criador tentar melhorar o rosto concedido por Sua vontade. O Talibã teve um douto predecessor.

Tertuliano foi um autor prolífico, além de veemente – trinta e uma de suas obras sobreviveram. Escreveu sobre tudo que valia a pena, a monogamia, a virgindade, a pudicícia, a paciência e o paraíso. Sobre a diversão pública, o fervoroso africano avisava: “Tu que gostas de espetáculos, aguarda o maior de todos, o Juízo Final”. Sua missão é desqualificar seus concorrentes, mas isso não lhe tira o senso de humor. Quando os cristãos foram acusados do crime de não cultuar o imperador, ele respondeu que a acusação era esdrúxula: os cristãos não precisavam cultuar o imperador, pois já rezavam por ele.

Após anos de vigorosa militância na frente ortodoxa, por volta de 207 ele rompeu com os católicos e tornou-se um dos líderes do montanismo, um movimento apocalíptico da Ásia Menor. A adesão a uma heresia era o que menos se esperava do incansável caçador de heréticos. Mas a fronteira entre heresia e ortodoxia, como ele infelizmente pôde comprovar, é questão de quem fica para contar a história. No final da vida, o patrono do dogma voltou-se contra seu regimento. Tertuliano morreu combatendo os católicos, que havia defendido com garra a vida toda, acusando-os de ser a “Igreja de alguns poucos bispos”, estreita demais para ‘pessoas espirituais’, aqueles imaginativos como ele sempre o fora.

Simetria torta

Religiões são a melhor prova de que assimetrias estão na base, na vértebra, e inclusive na obrigatória superfície do que se chama civilização. Desde que o mundo é mundo, não houve civilização sem religião – como não existiu sociedade sem poder, ou ao menos um ensaio deste. E se excetuarmos os cultos greco-romanos, aquela luminosa religião de deuses beberrões, farristas, ciumentos, encrenqueiros mas também superlativamente generosos – o Olimpo totalmente simétrico ao nosso andar de baixo, espelhando o melhor de nosso vícios e virtudes –, batizada depois de paganismo, a história das religiões é a da vitória irrefutável, embora nem sempre inefável, das assimetrias. Vitória política, lógica, antropológica.

Antropológica: em qualquer delas, dos cultos de Vanuatu (na Melanésia), aos encorpados monoteísmos ou da dança para chamar chuva aos Diktats do Vaticano, a religião só funciona porque há uma radical assimetria entre aquele que pede e O que concede. Bobagem dizer que umas são superstições primitivas e as outras uma sublime busca de transcendência. São, todas, um convincente sistema de troca entre desiguais. Na batida do tambor ou na prece, no chocalho ou na vela, no talismã ou na elaborada liturgia de uma missa, é o pensamento mágico que está em ação, e para operar um conveniente comércio de dessemelhantes. Entre uma potência suprema e inescrutável, numa ponta, e nós, suplicantes, na outra.

Religião é a reposição contínua e continuada da heteronomia. Por isso que as religiões são o oposto do ideal clássico da filosofia, o da busca de autárkeia,[xiv] a tal autonomia com que nos acenava Sócrates quando sugeria que ouvíssemos o daimon interior, sem dar bola para a divindade da vez. Sócrates foi condenado a beber cicuta pelo crime de impiedade, por exortar a juventude a seguir os conselhos ditados pela voz interior (a virtude), nem sempre condizentes com os ditames dos deuses, e administradores, da pólis.

O toc-toc na madeira para afugentar o azar é um gesto é insofismavelmente religioso, tanto quanto a reza ou o mantra. Já que não batemos na madeira para tomar uma providência prática (do modo como batemos num prego para pregar um quadro), o ato é simbólico, a convocação de alguém, ou algo, para que resolva nossos problemas, fazendo nosso papel. Contrição, adoração ou súplica são ritos contratuais, e um contrato mais hobbesiano que rousseauista (contrato celebrado não entre nós, mas pelo qual cedemos tudo ao Leviatã).

Nesta curiosa operação de troca de agrados, pareceria que levamos vantagem, pois em geral pedimos o impossível, ou no mínimo o improvável, em troca de coisinhas pequenas como uma novena ou uma promessa. A sobrecarga e a labuta ficam a cargo do Onipotente; os dividendos, com o pedinte. Ilusão: nesta troca assimétrica, entre seres abissalmente assimétricos, o resultado final é que nos tornamos reféns crônicos. O descompasso se aprofundou.

Lógica: Não bastasse esta assimetria de princípio entre o Todo Poderoso e o que só pode pedir, a contabilidade espiritual das religiões tem também um venerável fundamento lógico. As mais famosas provas da existência de Deus, a ontológica e a cosmológica, ou do design inteligente, põem por terra qualquer veleidade de reduzirmos esta distância, esta polar assimetria. A prova do design, ou criacionismo, hoje em voga entre os neoconservadores inimigos de Darwin, postula que só mesmo um Ser perfeito para construir um universo tão bem equacionado, milimetricamente funcional, e ainda por cima explodindo de beleza no colorido das penas dos pássaros e na arquitetura das flores.

“Basta olhar pela janela!” diria o criacionista Leibniz. “Desde que o teto não tenha goteiras, e a longa contemplação não resulte num resfriado”, responderia o cético Hume[xv]. Já a tradicional prova ontológica da existência de Deus, inventada por Santo Anselmo, era mais simples e direta. Se Deus é perfeito, onisciente, onipresente e onipotente, se ele condensa tudo que houve, há e está por vir, então, já que possui todos os atributos, é claro que não lhe pode faltar… o elementar atributo da existência. Pascal foi menos rocambolesco e mais pragmático, e sua explicação desvela outra forma de assimetria, entre aquele que não tem nada a perder e nós, que arriscamos tudo se não fizermos a aposta certa.

Chama-se, aliás, a “aposta de Pascal”, e enuncia quatro possibilidades e suas combinatórias. Ou Deus existe ou não; ou cremos nele, ou não. Se ele não existe e não cremos, sem problemas. Se não existe e cremos, perda de tempo, mas sem maiores consequências. Se existe e acreditamos, sorte nossa, mas se existe e não cremos, o fogo do inferno. Na dúvida, pois, melhor acreditar.

Houve quem, como Epicuro, fez a pergunta óbvia: se Ele é bom e potente, de onde vem o mal? Pois o mal – guerra, sofrimento, doenças, injustiça – é inegável. Sua hipótese (e por isso Epicuro é filósofo, não teólogo), é que ou Deus é mesmo bom, mas não pode muito, ou pode tudo, mas não é assim tão bem-intencionado.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise que ganhou o prêmio Goethe de Literatura, tratou da assimetria inerente às religiões em ao menos três ensaios: Totem e tabu, em que escrutina o judaísmo (suas raízes), O futuro de uma ilusão, no qual passa em revista o cristianismo (a sociedade de seu tempo e ambiente), e O mal-estar da civilização, texto que poderia ter sido concebido no século XXI, tal sua atualidade.[xvi] A conclusão é a mesma: a religião foi indispensável para a construção do edifício civilizatório, seja com seus ritos (para aplacar nossas angústias) ou proibições (para manter nossas sociedades coesas, para evitar que nos canibalizássemos), mas deve, se o mundo seguir um curso melhor, ser substituída pela educação.

Para ele, a religião nasce de uma assimetria psíquica arcaica, entre pai e filho, entre o detentor da lei e aquele que deve ser domesticado e domado, entre o superego judicioso e um inconsciente caótico e selvagem. Freud não tinha ilusões sobre a maioria dos homens: a comunidade humana é assimétrica, sim, e uma maioria precisou ser refreada por mandamentos altamente coercitivos, (leia-se, religiões) senão a civilização naufragaria num minuto. Mas Freud tinha também suas esperanças, a de que chegasse um tempo em que os homens, todos devidamente educados (isto é, autorreprimidos), pudessem dispensar a superstição (a dependência da tal assimetria externa, que, pelo medo, coíbe a selvageria), e passassem a pautar sua ação pela regra moral, pela simples satisfação em fazer o bem, e não pelo medo da punição.

A psicanálise não incensa Deus, mas aceita que religiões fizeram mais que narcotizar, foram mais que o “ópio do povo”. Os monoteísmos, com sua definitiva polarização entre o Protagonista do cosmos e nós, meros coadjuvantes, teria sido um avanço sobre os mais irrequietos e anárquicos politeísmo e panteísmo, nos quais a assimetria se dilui e praticamente desaparece na identificação entre natureza e Criador, gerando uma perigosa simetria entre pedra e flor, homem e bicho, uma arriscada insinuação de que de tudo emana um mesmo élan divino, uma divindade distribuída com equidade, portanto bastante perdulária.

Esta teria sido a grande aquisição levada a cabo pelos monoteísmos contra as simplórias e mais doces religiões que os precederam: a destruição da religiosidade de cunho individualista, seja a do animista, a do crente livre-atirador ou a do místico ensimesmado.

Mas a assimetria final, a “política”, é a que se consumou com o expurgo dos poetas de Deus pelos burocratas da fé. É a histórica perseguição, em todos os credos, contra os místicos, dissidentes, crentes livre-pensadores. Foi com a vitória política das Igrejas entronizadas que se consolidou a mais mundana das assimetrias religiosas, a dos cargos, das funções, dos papéis, e, sobretudo, das benesses (materiais). Foi só com a consolidação da religião como instituição que se abriu espaço para a Inquisição, o Index Librorum Prohibitorum, a Jihad, o extremismo tele-evangelista, enfim, para que os fundamentalismos de todos os matizes pudessem prosperar. Aqui, a assimetria atingiu sua culminância, tornando-se, paradoxalmente, seu contrário. Virou uma simetria torta: a luta de todos contra todos, a guerra santa em nome do Um que, olhando de perto, é o mesmo.

Notas


[i] Veja-se o cristalino e esclarecedor argumento de Suzanne Langer, discípula de Ernst Cassirer, em Philosophy in a New Key: A Study in the Symbolism of Reason, Rite, and Art, Havard University Press, 1957.

[ii] De Anselmo a Descartes a Leibniz, a Pasca l (prudência) a Kant, neste último a sofisticada solução da Razão Prática exigindo um Ser Supremo como fundamento da moralidade e do élan por virtude, felicidade e justiça.

[iii] Fiorillo, Marilia, O Deus exilado: breve história de uma heresia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2008.

[iv] Otto, Rudolf. O Sagrado. Edições 70, Lisboa, s/d.

[v] A ‘promesse de bonheur’ de que falava Stendhal.

[vi] Boyer, Pascal, Religion Explained, Basic Books, Perseus Books Group, 2001

[vii] Bertrand Russell faz uma reclamação desta natureza na passagem em que pergunta por que nos evangelhos, há tão pouca caridade e amor por bichos e plantas: os pobres porcos, possuídos, não são poupados do abismo, e a arvore é condenada a secar. (“Porque não sou Cristâo”. In: Ensaios, Ed Livraria Exposição do Livro, 1965).

[viii] Otto, Rudolf, idem

[ix] Arendt, Hannah: vale rever seu esplendido ensaio sobre “Il papa buono” em Men in dark times.

[x] Quem com mais concisão chega a esta definição é o dramaturgo norte americano Arthur Miller, autor, entre outras peças, de The Crucible, em que retoma o episódio histórico do julgamento e assassinato das supostas feiticeiras de Salem, magnífico estudo da neurose religiosa e suas nefandas implicações políticas.

[xi] Boyer, idem

[xii] Boyer não é o único a conectar religião e obsessão; a psicanálise, desde o mestre fundador S Freud, tradicionalmente associa a neurose obsessiva ao comportamento ritualístico religioso.

[xiii] Fiorillo, M. O deus exilado: breve história de uma heresia. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. As citações da sequência provêm do livro.

[xiv] Em Aristóteles, o homem feliz é o homem livre que participa da vida da cidade

[xv] Hume, D. Dialogues concerning natural religion. London: Dover Philosophical Classics, 2006.

[xvi] Freud, S. Obras completas, Editorial Biblioteca Nueva, 1981.

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29
Jul21

Bolsonaro veta remédios contra o câncer

Talis Andrade

 

por Altamiro Borges

O "capetão" segue com suas maldades contra os brasileiros. Partidário da necropolítica, Jair Bolsonaro acaba de vetar o projeto de lei 6.330 que ampliava o acesso a remédios orais no tratamento do câncer para usuários dos planos de saúde. O PL beneficiaria 50 mil pacientes, que poderiam tratar os tumores em casa, sem a necessidade de internação hospitalar. 

Na justificativa do veto, publicada no Diário Oficial da União desta terça-feira (27), o desalmado argumentou que a lei “comprometeria a sustentabilidade do mercado” e que “o alto custo dos antineoplásicos orais” prejudicaria os “planos privados de assistência à saúde” – que teriam que arcar com as despesas. Haja crueldade! 

Uma decisão "absurda e ilógica"

 
Para o autor do PL, o senador José Reguffe (Podemos-DF), a decisão é “absurda e ilógica”. “Absurda porque é um projeto que beneficia milhares de pacientes com câncer no Brasil inteiro. É muito mais confortável para esses pacientes tomar um comprimido em casa do que ter que se internar no hospital para o plano pagar a quimioterapia na veia. Ilógica porque a internação é mais cara do que o comprimido. Sem contar os custos com possíveis infecções decorrentes dela”. 

O senador, porém, está confiante de que a maldade do “capetão” será derrotada no Congresso Nacional. “Vamos derrubar o veto. Já há uma grande mobilização de oncologistas e de associações de pacientes da luta contra o câncer”, afirmou à Agência Senado. Entre os parlamentares, inclusive alguns governistas, a insatisfação é generalizada. 

"Ordinário! Pagará por cada morte causada"

“Quando a gente pensa que Bolsonaro já atingiu todos os níveis de crueldade, ele faz uma dessa. Temos um presidente que se preocupa mais com os planos de saúde do que com o povo”, tuitou o deputado federal José Airton Cirilo (PT-CE). “Nem as pessoas com câncer escapam das maldades do governo Bolsonaro. Mais uma vez o presidente prefere defender o mercado e não os mais vulneráveis”, disparou Henrique Fontana (PT-RS). 

Para a vice-líder da minoria na Câmara Federal, deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), o genocida agiu para defender os interesses privados. “Ele optou pelo mercado! Bolsonaro vetou o PL 6330 que garantia quimioterapia de uso oral aos segurados de planos de saúde. Vamos articular a derrubada do veto presidencial. Saúde em primeiro lugar”, postou. 
 
No mesmo rumo, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) usou as redes sociais para detonar o fascista: “Bolsonaro vetou a lei que facilitaria o acesso à remédios contra o câncer. Entre a vida dos brasileiros e o lucro dos planos de saúde, ele não teve dúvida: ficou com os tubarões dos planos. Ordinário! Pagará por cada morte causada”. 

Já o líder do PT no Senado, Paulo Rocha (PA), protestou: “Bolsonaro, para beneficiar as megaempresas de planos de saúde, vetou a obrigatoriedade do tratamento domiciliar com medicamentos orais, para pacientes com câncer. A justificativa: defender o mercado”. Para o senador, o presidente da República defende os interesses dos ricos!
12
Jul21

Radiografia ideológica do neofascismo bolsonarista

Talis Andrade

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por Eugênio Trivinho /Cult

 

Transpolítica e neofascismo bolsonarista

O primeiro artigo desta série sobre a transpolítica da ideologia evocou a regressão ideológica do Brasil pós-2018. A série, prevista em três esclarecimentos, cobre aspectos estruturais esquecidos do funcionamento material e subjetivo do capitalismo. O tamanho do estrago bolsonarista no país justifica o pressuposto da reflexão: a operação do absurdo macabro faz antigas noções cumprirem função crucial em tempos de ameaças espalhadas.

Do ponto de vista macroestrutural, o neofascismo brasileiro não altera, evidentemente, o modus operandi sociofenomenológico da transpolítica. Equivalendo a uma mudança artificial na ordem dos fatores, o retrocesso neofascista (dissecado no próximo tópico) concorre, ao contrário, para aprofundar a dissuasão em relação à conservação do modo de produção majoritário, com um detalhe de monta: essa necropolítica acaba por conceder considerável alívio a elites econômicas ao ofuscar, na espuma multimediática contínua, seus esquemas corporativo-estatais de corrupção endêmica. A cortina de fumaça representada pelo bolsonarismo (militar, policial, miliciano e civil), como ideologização discursiva e narrativa cabal, cauciona e nutre, por assim dizer, esse ímpeto de perpetuação estrutural. O sinistro neofascista se serve da sombra de injunções tradicionais secularmente instituídas para arquitetar reverberações multilaterais.

Aparentemente, extremismos de direita e de esquerda, seja como governos, seja como movimentos, transitam à vontade no arco da transpolítica. O rodamoinho necessário a ela convive com polarizações agudas: ao mesmo tempo que patenteiam o arco – como um escândalo de arromba –, não o abolem. O regime político do momento – a democracia formal, no caso – é empurrado contra a parede, não a dinâmica transpolítica do modo de produção.

Aliás, a história da alucinação do lucro como valor de status no capitalismo – lucro econômico-financeiro, lucro político-ideológico, lucro de ascensão social, lucro subjetivo e do corpo, enfim, a alucinação do lucro como gozo – é, majoritariamente, mais compatível com retrocessos políticos do que com saltos ideológicos progressistas. Ao fim e ao cabo, sobretudo em economias subdesenvolvidas, assoladas pela miséria e pelo analfabetismo – atrasos estruturais aos quais se somam as recentes barbarias –, o reconhecimento sistemático e expansivo de direitos humanos, políticos, civis, sociais, trabalhistas e previdenciários é sempre demonizado pelos setores economicamente elitizados: ao confrontar a lógica de exclusão e segregação vigente, desencadeia fobias alucinatórias que, na cabeça do abismo, “anteveem” o próprio modo de produção em risco de entropia.

Nesse contexto, um efeito colateral bizarro do neofascismo recobra registro, a título de ressalva. Somente uma ideologia tão rústica e reacionária como o bolsonarismo poderia, por mazelas infindas, escancarar, sem arranhões, o casulo operacional mais superficial da transpolítica, ao possibilitar que compareçam, facilmente, na mesa de discussão política, jornalística e acadêmica, parte dos nomes e faces de mandantes e executores implicados em mais de 500 mil mortes por Covid-19 no país. Como sói ocorrer, a superexposição excetua eternas eminências oclusas.

Bolsonarismo como regressão histórica estrutural

A propósito, adornando as injunções transpolíticas do capitalismo (aludidas no primeiro artigo da série), a regressão ideológica posterior a 2018 permite apreender um movimento de pêndulo histórico mais vultuoso. A colérica melancolia política de extrema direita sob antifacho bolsonarista equivale a uma regressão histórica estrutural e sem precedentes desde a promulgação da Constituição Federal de 1988.

Tal empuxe autoritário arrasta todos os setores sociais para décadas pregressas na escalada histórica da razão humanista como manancial ocidental dos direitos humanos, civis e sociais. Esta fonte greco-clássica, relida pelo movimento iluminista do final do século 18 e então legada ao presente, segue, mesmo aos farrapos, acolhida, nos fundamentos e na letra, por tratados internacionais e constituições republicanas e democráticas. A razão humanista sustenta, com amplo reconhecimento jurídico, político e ético, o que, para o bem e para o mal, se conhece como mundo civilizado – forma de organização sedentária da vida humana que, sob o estirão do capitalismo tardio, o eufemismo liberal conveniente e salvacionista pretexta como o “menos pior” dos horizontes históricos para as relações sociais, num contexto de superconcentração populacional no espaço geográfico.

Alega-o sem reconhecer papel decisivo às forças de resistência em favor da redução gradativa da jornada de trabalho e às lutas por direito ao tempo livre e ao lazer citadino, além das demais garantias de vida digna. (A horrenda história de impérios, totalitarismos e ditaduras sequer instiga a se imaginar quão mais brutal teria sido algo diverso do “menos pior” como “conquista” da razão ocidental e “imagem do progresso”.

Qualquer asserção eufemista não deixa de constituir logro, para além da própria linguagem que o demarca. No fundo, seria necessário questionar a natureza, o fundamento e as consequências de cada vetor em jogo: a razão e suas manifestações, o modelo humanista conservador e suas conivências, a civilização e seu processo de aculturação técnica etc. – em suma, tanto a história herdada, quanto o próprio capitalismo e sua futuridade, como reprodução ampliada do presente.)

Mal dourando a mencionada marcha a ré, um conjunto de tendências conhecidas, tão estapafúrdias quanto qualquer das regressões em jogo, vive progresso multilateral e simultâneo: o fardamento expansivo do Estado, a “milicianização” metropolitana e da vida cotidiana, a depredação grileira e garimpeira de zonas rurais e de conservação, o desmatamento pró-madeireiro indiscriminado etc. – setores que concentram poder repressivo e respondem pelo arruinamento sistemático do regime civil-democrático, por dentro do Estado e por fora dele. O rasto brasileiro da crescente pólvora ultradireitista cavou ninho alucinatório no ressentimento anticomunista para galvanizar saltos reacionários como valor histórico.

A propósito, a gravidade desse pendor merece enfoque ampliado. Pouco mais de um biênio de bolsonarização institucional do país como tema mediático e político prioritário, o arco estrutural das regressões históricas encontra-se, por setor social, na etapa avançada da maquete, com talhes inconstitucionais. Tudo o mais repercutirá aprofundamento, com expansão remodulada aqui e acolá. A lista, com itens conexos, é extensa, por incompleta que seja. Vale a pena, porém, revê-la. Além dos aspectos reportados, a radiografia do neofascismo bolsonarista como ideologia – das ruas aos parlamentos, dos bastidores às redes sociais – envolve:

 

  • destilação de ódio na política partidária, com perseguição vandálica online da oposição para esgarçamento de reputações e imposição de ostracismo (morte simbólica);
  • militarização no aparelho estatal e no sistema escolar (no estrato da infância e da adolescência);
  • liberação armamentista no âmbito da população civil, do campo à cidade, com incentivo à expansão metropolitana de grupos milicianos;
  • condecoração orgulhosa de defensores da ditadura militar e de seus porões, com inclinações pré-republicanas e vezos pró-escravistas;
  • nacionalismo messianista e populista na relação com o eleitorado, sob suposta superioridade a partidos políticos;
  • obsessão pelo “comunismo imaginário” como álibi de referência para decisões e investidas políticas, não raro veladas;
  • insultos, deboches e ameaças de morte na interação com imprensa e jornalistas, como gesticulação de asfixia a direitos civis, em especial à liberdade de expressão;
  • desinformação generalizada na comunicação institucional, com farta mobilização de bolhas de fake news em redes sociais;
  • estipulação de factoides multimediáticos, em episódios grotescos, objetivando fins dissuasórios e escamoteadores (principalmente para obnubilar tendências negativas ao governo e/ou à família miliciana no Palácio);
  • distorção na hermenêutica da Constituição Federal, como forma de interpretação desfiguradora do Estado de Direito;
  • afronta insolente a instituições e mecanismos democrático-republicanos, visando testagem intermitente dos limites do sistema de freios e contrapesos vigente;
  • neoliberalismo patrimonialista na governança, norteado pelo princípio do Estado mínimo e entremeado por recuos estratégicos e temporários ante a inaceitabilidade popular, parlamentar e/ou judicial de propostas enviadas ao Congresso Nacional;
  • nepotismo, fisiologismo e clientelismo na administração pública, com excesso de orçamentação secreta (para escambo entre emendas parlamentares e escora ao Palácio);
  • plutocracia e privatização indiscriminada na economia, com dilapidação financeirista do patrimônio nacional e dos recursos naturais;
  • omissão deliberada ante a gravidade da situação agrária no país, com estímulo oficioso à mineração e ao garimpo em territórios indígenas e quilombolas;
  • “oligarquização” no circuito público-privado, mediante destinação de verbas a empresas apoiadoras do governo;
  • constrição jurídica, política e administrativa no âmbito dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários;
  • aparelhamento, com instrumentalização política, nas Forças Armadas, no judiciário e na polícia (em todos os escalões), bem como nos esportes e em igrejas de vertentes diversas (especialmente pentecostais e evangélicas);
  • anticientificismo e reducionismo empirista no campo da razão e dos saberes, repercutindo em desinvestimento em pesquisa, tecnologia e inovação, desqualificação da inteligência especializada e suas recomendações, e precarização do potencial competitivo do país;
  • indiferença e insensibilidade genocidas em saúde pública, sob sanha de negócios igualmente privatista e desmanteladora do acesso universal ao Sistema Único de Saúde (SUS);
  • capitalização degradante no meio ambiente, marcada sobretudo pela destruição incendiária na Amazônia e pelo descaso doloso em relação a atividades econômicas ilegais, à criminalidade crescente e ao comprometimento da biodiversidade pela máfia ambiental na maior floresta e bioma tropicais do planeta;
  • “ideologização” intensa na educação (em todos os níveis), mediante engajamento de propostas ultraconservadoras (como o finado Programa “Escola sem Partido”, com discurso e movimento ativos) na “guerra cultural” em curso;
  • estigmatização das Universidades como lugar qualificado de contradito, mirando desidratação da diversidade de posições políticas por meio de cortes orçamentários paulatinos;
  • “direitização” e estetização nazi no universo da cultura e das artes – um rebaixamento civilizatório acentuado da criatividade e da diversidade nacionalmente assentadas;
  • ataques à doutrina dos direitos humanos e a seus defensores;
  • autoisolamento xenófobo em relações internacionais, com forte negligência quanto à depreciação global da imagem do país;
  • subserviência aduladora ao Estado norte-americano e ao seu programa de supremacia militar, política e cultural na América Latina; 
  • bairrismo quase absoluto na agenda de preocupações governamentais, com desprezo antiprotagonista pelo tratamento de temas globais e pelo reposicionamento nacional no radar das discussões dos países afluentes;
  • heterossexualismo patriarcal na esfera familiar, rechaçada a diversidade de matrizes socioafetivas emergentes;
  • exclusão e segregação no domínio da cidadania, com aberta promoção de repugnância escarnecedora da diferença – preconceito estimulador de eliminações sem remorso;
  • apagamento oficial de nomes, obras e interpretações alinhados ao espectro político de esquerda;
  • racismo nas interações sociais, com desinteresse total para as suas consequências;
  • machismo, homofobia e misoginia nas relações de gênero, igualmente na fronteira com o aniquilamento;
  • tendência à “queima de arquivo” na horda própria; e assim por diante.

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Esse conjunto de regressões, articulado por várias formas de violência (física, simbólica e invisível) e regado a mentira e vileza em matéria moral, catapulta o Brasil a escombros pré-modernos.

Como várias vozes já o notaram, o cúmulo do retrocesso bolsonarista como ideologia – característica que o gendarme do Palácio e sua malta negam; ideologia é só a do inimigo – é o semeio da extrema retalhação do país, através da instilação de guerra civil no plano simbólico (“guerra cultural”, em modalidade híbrida, por todos os lados e meios possíveis) e do incentivo oportunista ao caos. A fantasia é a da capitalização do resultado para bulício e soluços de golpe.

Sob tal necropolítica, longínqua até mesmo de uma mera social-democracia reformista e conservadora, o Brasil persegue o pior dos futuros, coincidente com nenhum. Em vez de um projeto de nação a longo prazo, o país se precipita num arremedo de devir sem redenção, sob o fantasma renovado de uma expansão dos quartéis para âmbitos civis –deslocamento que se supunha superado em 1988.

22
Mar21

Bolsonaro só. Pacheco vê negacionismo macabro e ataca outras teses do Mito

Talis Andrade

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por Reinaldo Azevedo

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Os políticos já estão, como posso falar numa linguagem que também bolsonarista entenda?, com o saco cheio do presidente. Há a percepção de que ele não vai mudar, de que o governo federal só atrapalha o combate à pandemia, de que o Ministério da Saúde é o centro da ineficiência, cercado de milicos por todos os lados, e de que a tarefa de combater a pandemia tem mesmo de ficar a cargo do Parlamento, dos governadores e prefeitos e até do Supremo — nesse caso, garantindo o cumprimento de direitos fundamentais assegurados pela Constituição.

Absurdo dos absurdos: neste momento, ainda há dois ministros da Saúde em Brasília. Eduardo Pazuello já foi demitido, mas ainda não saiu. Marcelo Queiroga já foi admitido, mas ainda não entrou. E, Santo Deus!, nem um nem outro fazem nada porque não se sabe quem manda. Ou se sabe: é Bolsonaro! Acontece que, como ministro da Saúde de fato, o negócio dele é pregar golpe. E a montanha de mortos vai crescendo.

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Na noite deste domingo, o moderadíssimo Rodrigo Pacheco (DEM-MG) concedeu uma entrevista ao programa Canal Livre, da Band. Pois é... Se Bolsonaro vai mesmo dar o golpe, como ameaçou nos jardins do Palácio da Alvorada, terá de prender também o presidente do Senado.

Indagado se é favorável a medidas de restrição de circulação, afirmou:

"O negacionismo, quando começou a pandemia, era uma tese ventilada por diversas pessoas. Mas, agora, o negacionismo se tornou uma brincadeira de mau gosto, macabra e medieval. Não podemos negar a pandemia, os cuidados necessários para evitar a contaminação, como o uso de máscaras, higienização das mãos, o distanciamento social, toda a responsabilidade do povo brasileiro... É fundamental que nós a tenhamos para enfrentar a pandemia. (...) Quanto às restrições: é evidente que, em cada município, em cada Estado, deve-se avaliar com responsabilidade a situação de leitos de UTI, de capacidade hospitalar, do aumento do índice de contaminações e tomar as providências, inclusive as restrições necessárias para evitar o agrupamento social".

Indagado se é favorável à instalação de uma CPI, Pacheco afirmou achar que, agora, uma comissão iria mais atrapalhar do que ajudar no enfrentamento da pandemia. Mas ponderou: "Há erros sucessivos, e os culpados serão apontados em algum momento". Vá lá: entendo quando ele diz que a prioridade, agora, é unir esforços para salvar vidas. Mas sabe que o Parlamento brasileiro, que deu ao Executivo todos os instrumentos necessários para enfrentar a pandemia, não pode abrir mão de fazer a investigação. É o Poder que representa, por excelência, o povo brasileiro, que hoje morre sufocado.

Pacheco defendeu que os representantes de todos os Poderes e entes da República sentem para conversar — incluindo o presidente, os chefes dos outros dois Poderes e os governadores. É claro que ninguém pode se opor a isso. Mas é preciso saber se Bolsonaro o fará. Neste domingo, como vimos, ele preferiu ameaçar os brasileiros, de novo, com golpe de estado.

Destaque-se que o presidente do Senado fez a defesa enfática do direito que têm os governadores e prefeitos de adotar medidas de restrição de circulação, levando em conta os leitos disponíveis de UTI e a capacidade da rede hospitalar. É o que está em curso. Mas Bolsonaro recorreu ao Supremo para tentar lhes retirar essa competência.

Sim, o senador foi eleito para comandar a Casa com o apoio do governo. Vê-se que não é alguém disposto a confrontar o Executivo. Mas não é menos verdade que estabeleceu uma linha divisória muito clara: não só repudia o negacionismo de Bolsonaro como o considera "uma brincadeira de mau gosto, macabra e medieval".

Para emplacar sua tese, pelo visto, não bastaria a Bolsonaro dar um golpe e intervir nos Estados. Também teria de fechar o Congresso.

Não creio que vá acontecer. Sua queda também é pouco provável. Mas ainda é mais possível do que seu golpe.

É claro que a impotência de Bolsonaro para se impor como tirano também não salva vidas. Mas impede que se eleve demais a atual escala do assassinato em massa de brasileiros.

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26
Fev21

Com a palavra o MP e o Supremo

Talis Andrade

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por Antônio Carlos de Almeida Castro /PRERRÔ

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“Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois, ressoando violentamente pelos corredores e paredes e pátios desta própria casa que eu sou.
Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa que desfaz e refaz um homem…”

Herberto Helder, poemas completos.

Um dos grandes riscos que corremos nesta sociedade midiática é o da banalização do absurdo. Com a proliferação de notícias, discussões feitas por whatsapp, a substituição da leitura de livros por textos com, no máximo, um número tal de caracteres, a tendência é que as análises acabem ficando na superfície, dignas de uma reunião ministerial do atual governo.

É quase humanamente impossível, especialmente para quem tem uma vida intensa e plena, acompanhar, por exemplo, os vazamentos das mensagens com pencas de possíveis crimes e de abusos da chamada “gangue de Curitiba”. Ao que parece do que foi revelado, é uma espécie de crimes em série, como se fosse um serial killer, mas com raro requinte de crueldade. Ficamos meio que anestesiados com a quantidade de informações que brotam como se tivessem vida própria.

Difícil acreditar do que a mente humana é capaz quando deturpada e corrompida pelo poder, como o que estamos vivenciando com esse grupo que foi coordenado pelo ex-juiz Sérgio Moro. A mais absoluta falta de limites e de vergonha mesmo, como o próprio Dallagnol confessa nas mensagens. São tantos e tamanhos os absurdos que parece realmente um grande romance de mau gosto. Uma lástima que seja real. Eles prostituíram de tal maneira a realidade que, às vezes, preferimos imaginar uma peça de realismo fantástico. Mas, infelizmente, até pela mediocridade reinante no bando, o que existe é mesmo uma realidade manipulada, deturpada, falsa, canalha. Valho-me de Carlos Drumond, no poema Os ombros suportam o mundo:

“Chega um tempo em que não se diz mais: Meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.

E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Ficas-te sozinho,
A luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza,
Já não sabes sofrer.

….

Teus ombros suportam o mundo
E ele não pesa mais do que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue
E nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
Preferiram (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação. ”

É necessário entender que o excesso de poder e, principalmente, a expectativa de um poder ainda maior fizeram com que o bando perdesse a noção do risco, do perigo, da dignidade mínima dos cargos que ocupam e ocupavam. Ao instrumentalizarem o Poder Judiciário e o Ministério Público, eles deram um tapa na cara de milhares de juízes e procuradores sérios do Brasil afora. Jactavam-se donos da verdade e vestais da moralidade. Neste momento de tristeza e recolhimento, com a falta de ar e a angústia que nos acomete a todos, a sociedade ainda tem que conviver com esse verdadeiro ataque ao sistema de justiça e, por consequência, ao estado democrático de direito, promovido por esse bando.

O projeto de poder do ex-juiz e dos procuradores, seus liderados, teve uma primeira vitória ao eleger o atual presidente negacionista. Boa parte dos 250 mil mortos e da dor dos familiares e amigos ronda e assusta esses siderados pela responsabilidade evidente do bando. Agiram sem limites, embriagados pelo poder. E ainda induziram em erro os Tribunais Superiores, os quais recebem os processos com a prova encartada e não analisam, processualmente falando, a origem das provas. É claro que o princípio que norteia o Judiciário é o da boa-fé. Não se podia imaginar que os processos continham tantos vícios de inconstitucionalidade, de ilegalidade, incontáveis abusos de poder, quebras de imparcialidade. É hora do desnudamento pleno dessas manipulações, abusos e falsidades.

Com a quantidade de hipotéticos crimes diários possivelmente cometidos pela República de Curitiba, revelados pela mídia, e estando o país parado sem uma política de combate ao vírus, o que se imaginava seria um arrefecimento do filme de terror que é estrelado por esse bando. Sempre tem um lavajatista disposto a discutir e encontrar desculpas para tudo. Insinuam que não há crime no relacionamento de subserviência entre procurador e juiz, ou no prejulgamento dos réus, ou nos vazamentos criminosos, enfim, tentam encontrar desculpas para todos os fatos claramente ilegais.

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Mas agora surge um dado constrangedor na relação possivelmente criminosa do bando. Não satisfeitos em promover uma verdadeira destruição de alguns setores, de banalizar a preventiva, de estuprar o instituto da Delação, de pregar a necessidade de prisão antes do trânsito em julgado, logo após o julgamento em segunda instância, eles agora querem acabar de vez com a credibilidade do sistema: ficou constatado que a Delegada de confiança do ex-juiz e dos procuradores simplesmente forjava depoimento que nunca existiu. E a falsidade era de pleno conhecimento do bando, conforme as mensagens demonstram, mas deixaram para lá, omitiram-se em seu dever ético, moral e legal de apontar o crime e cuidar de investigá-lo. Não fizeram, para satisfazer interesse pessoal. Prevaricaram?

Opa! Vamos repetir, é isso mesmo, pelo teor dos diálogos, a delegada de estimação do bando fazia, criava, inventava depoimentos para ajudar e agradar aos chefes da operação. Dá uma profunda decepção, desalento mesmo, ao perceber que esse grupo vivia em um submundo com suas trevas, ocultando ações que destroem a credibilidade do sistema de justiça.

É inimaginável e indefensável que procuradores da República mantenham o seguinte diálogo:

Dallagnol (25/01/2016): “Como expõe a Erika: ela entendeu que era pedido nosso e lavrou termo de depoimento como se tivesse ouvido o cara, com escrivão e tudo, quando não ouviu nada… dá no mínimo uma falsidade… DPFs são facilmente expostos a problemas administrativos”.

Orlando Martello: “Podemos combinar com ela de ela nos provocar diante das notícias do jornal para reinquiri-lo ou algo parecido. Podemos conversar com ela e ver qual estratégia ela prefere. Talvez até, diante da notícia, reinquiri-lo de tudo. Se não fizermos algo, cairemos em descrédito. O mesmo ocorreu com padilha e outros. Temos q chamar esse pessoal aqui e reinquiri-los. Já disse, a culpa maior é nossa. Fomos displicentes!!! Todos nós, onde me incluo. Era uma coisa óbvia q não vimos. Confiamos nos advs e nos colaboradores. Erramos mesmo!”

Dá nojo de ver o grau que chegou a manipulação em busca de um projeto de poder!

São inúmeras as ações que devem ser investigadas. Uma leitura rápida da troca de mensagens nos deixa a impressão que ocorreram outros depoimentos forjados, falsos. Há que se apurar se esses depoimentos falsos foram usados em condenações. Imagine o que significa fabricar um depoimento, “com escrivão” e tudo, e depois usar esse depoimento como prova para condenar! E a menção da “confiança” que os procuradores depositavam nos advogados e delatores, o que significa? Os advogados e delatores sabiam, ajudavam a produzir tais documentos? Isso tem que ser investigado. Quem são os advogados, quem são os delatores?

Há anos sou um crítico ferrenho do que a República de Curitiba fez com o instituto da delação. Sempre com a ressalva que se trata de um importante instituto para o enfrentamento do crime organizado, eu apontei dezenas e vezes a verdadeira prostituição da delação. Sempre alertei da necessidade de se apurar possíveis prisões para forçar delação, acordos sem base legal, quebra da espontaneidade, venda de segurança, coação, extorsão, ameaça, conluios. Uma verdadeira usina de mercancia das delações. Servia para proteger criminosos e atingir inimigos. Sim, como o grupo tinha propósitos políticos, eles, os membros, escolhiam inimigos e instrumentalizavam o sistema de justiça contra esses “inimigos”. Um escárnio! Lembro-me de Manuel Bandeira, em Noite Morta:

“Noite morta.
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.
O córrego chora
A voz da noite….
– Não desta noite
Mas de outra maior-.”

E é como sempre afirmo, ao final, não só os juízes e os procuradores devem ser responsabilizados, mas também os delatores de ocasião e de aluguel e os advogados que se prestaram a essa farsa. Agora, com a notícia de que podem ter forjado depoimentos e os procuradores podem ter prevaricado e protegido, sem investigar, urge que se entenda o que isso realmente significa. Qual a extensão da manipulação dos processos por esse bando. Constata-se que induziram os Tribunais Superiores, até mesmo o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça, em erro. Provas inventadas chegaram aos Tribunais como se válidas fossem. Uma ousadia que abalou a confiança do cidadão no Poder Judiciário.

Com o apoio da pesada estrutura de marketing, esse grupo subverteu todas as garantias que representam um sistema de justiça digno desse nome. E esbofetearam a grande maioria dos juízes e procuradores que são sérios e probos. Cabe ao Poder Judiciário e ao Ministério Público uma resposta à nação e ao povo brasileiro. A manipulação tem que ser desmascarada. Com a palavra, o Procurador-Geral e o Supremo Tribunal Federal.

Em um momento de gravidade ímpar no qual o país, à deriva, vê inacreditáveis 250 mil mortos pelo vírus, milhões de famílias entregues à dor da perda ou a angústia da falta de perspectiva, nosso único foco deveria ser a vacina. O Supremo Tribunal não tem faltado ao brasileiro no enfrentamento da urgência do combate à pandemia. Mas essas revelações não podem ser tragadas pela tragédia da crise sanitária. No seu tempo, têm que ser enfrentadas.

A instrumentalização do sistema de justiça é como a falta de ar para o infectado. A prisão injusta usada como projeto de poder significa a retirada do ar que alimenta a dignidade da pessoa.  Sem o ar as pessoas morrem sufocadas pelo vírus, sem a dignidade o homem morre pela falta de capacidade de acreditar na justiça. O mal que esse bando fez é como um vírus que foi inoculado, dolosamente, e corroeu a crença em um Judiciário justo e imparcial.

Uma pesada nuvem, densa e tóxica, de desesperança desceu sobre as pessoas e obstruiu a visão, calou a voz, sufocou pela angustiante falta de ar e aniquilou o espírito com a revolta das injustiças perpetradas. A vacina é uma investigação profunda e a responsabilização desses verdadeiros vírus, que ousaram subverter, em nome de um poder a ser alcançado a qualquer custo, todo o nosso sistema de justiça. Recorro-me ao eterno Miguel Torga, no livro Penas do Purgatório no poema Reminiscência:

“Prossegue o pesadelo
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens está outra vida
Da recordação.
E são inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!
Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais.
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes.”

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14
Nov20

Não há palavra para descrever a maldade e a irresponsabilidade de Bolsonaro

Talis Andrade

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O presidente Bolsonaro é inclassificável. Não há, na verdade, palavra que o defina, como presidente da República ou como pessoa, quando o assunto é falta de educação, crueldade, desrespeito e irresponsabilidade pública. Dia após dia, ele abastece o noticiário e preenche a paciência dos brasileiros com fatos constrangedores, muitos inacreditáveis por se tratar de um chefe de Estado. Mesmo que esse chefe de Estado atenda pelo nome de Jair Messias Bolsonaro, proclamado “mito” por uma legião de irascíveis seguidores que lhe imitam a imagem e semelhança. E que o perdoam e o justificam por tudo.

O absurdo do dia beira o inacreditável. Ele comemorou a morte de um dos testadores da vacina Coronavac, contra a Covid-19, no momento em experimentação por 10 mil voluntários, em São Paulo. Simplesmente para alimentar uma guerra política contra o governador João Dória (PSDB), Bolsonaro mandou a Anvisa – outrora uma instituição respeitável que agia sob os ditames da ciência e não aparelhada pelo governo da hora – suspender os testes da vacina da chinesa Sinovac, num momento dramático em que o País vai chegando aos seis milhões de casos da doença e que o número de mortos chega aos 162 mil. Segundo a agência reguladora, a suspensão foi “técnica” ocorreu por “evento adverso grave”, a morte de um voluntário. Quando o que aconteceu foi a tragédia de um suicídio, nada tendo a ver com a vacina ou sua testagem.

Bolsonaro, como é do seu feitio, aproveitou o episódio para barbarizar. Foi à TV e expeliu mais uma de suas frases animalescas. “Mais uma vez Jair Bolsonaro venceu”, jactou-se como se uma morte fosse motivo de euforia, desde que justificasse a perseguição política a um adversário. Se ele “venceu” por causa de uma morte, imagina o quanto ele se acha diante de todos os mortos da Covid-19 no Brasil, até agora. Até porque, pela maioria dessas mortes, o descaso, o negacionismo e a ojeriza à Humanidade que ele demonstra todos os dias têm uma parcela importante de responsabilidade. Desde quando dá o mau exemplo ao repudiar o uso de máscara até quando boicota, levianamente, os testes de uma vacina que irá beneficiar a todos.

Bolsonaro achou pouco a comemoração da morte do voluntário de São Paulo. Horas depois, em vídeo que circulou fartamente pela internet, ele foi taxativo ao reclamar que “tudo hoje é pandemia”, ao decretar que “tem que acabar com esse negócio”, para no final vaticinar que o Brasil não pode ser “um país de maricas”. E fechou o dia superando a si mesmo em insensibilidade, ignorância, prepotência e desdém com o próximo. Onde vai parar esse tipo de comportamento, ninguém sabe. A verdade é que mais dois anos será um castigo muito duro de suportar. Aguentaremos?

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13
Nov20

Bolsonaro pretende eleger prefeitos trampolins para sua reeleição em 2022

Talis Andrade

 

Jair Bolsonaro obteve mais de 57,7 milhões de votos e foi o preferido entre os eleitores de todos os Estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste e no Distrito Federal.

Mapa

Bolsonaro quer repetir o feito no Sul e Sudeste nestas eleições municipais de domingo. Perde apenas no Rio Grande do Sul.

Bolsonaro vence em Florianópolis com Gean Loureiro (Dem), em Curitiba com Rafael Greca (Dem), no Rio de Janeiro com Eduardo Paes (Dem), com Kalil em Belo Horizonte (PSD), Pazolini (Republicanos) ou Gandini (Cidadania) em Vitória.

Rafael Greca desafeto de Lula

 

O que é o Centrão vitorioso domingo próximo? 

Responde a jornalista Fernanda Galgaro, G1:

É um bloco informal na Câmara que reúne partidos de centro e centro-direita, que, dependendo da matéria, se articulam para votar da mesma maneira sobre determinado projeto.Entre esses partidos, estão PP (40 deputados), PL (39), Republicanos (31), Solidariedade (14) e PTB (12). O PSD (36), o MDB (34) e o DEM (28) também costumam estar alinhados com o grupo, assim como partidos menores, incluindo PROS (10), PSC (9), Avante (7) e Patriota (6). 

Bolsonaro nem considera derrota a reeleição de Covas, que o PSDB, num segundo turno, entre Bolsonaro versus esquerda, ficaria como sempre com a direita volver.

O Brasil e as eleições municipais

por Elaine Tavares /Palavras Insurgentes

As eleições municipais acontecem agora em novembro e, salvo algum evento cósmico, os candidatos ligados ao atraso e à morte podem levar as prefeituras em grande parte dos mais de cinco mil municípios do país. Também pode ser que as Câmaras de Vereadores fiquem recheadas de moralistas e negacionistas. Uma vertiginosa queda ao fundo do poço. Isso porque, passados quase dois anos de governo de Jair Bolsonaro, a população ainda não conseguiu avaliar de maneira clara o tamanho do buraco no qual estamos metidos. Desde o primeiro dia, a lógica foi a da destruição. Não se tratava do “mudar tudo isso que taí”, mas sim “destruir tudo o que há”. E foi por isso que cada nome para os ministérios foi seguindo a bizarra lógica do seu antagonista. Ou seja, para o ministério da Agricultura, alguém que apoia o agronegócio. Para o meio ambiente, quem quer destruí-lo, para a fazenda, um Chicago boy privatista e entreguista, para a Saúde, um militar sem formação e assim por diante.  

Quando a pandemia se abateu sobre o país, a partir de março, o que se viu foi um festival de absurdos, com o completo abandono da população. O governo federal não apresentou um plano nacional de combate ao vírus e de proteção das gentes. Pelo contrário. Minimizou a doença e atuou através de mentiras e opiniões sem base científica, receitando cloroquina e ivermectina, como prevenção. Um completo fracasso que já nos cobrou quase 200 mil vidas. A saída política foi jogar a culpa das mortes sobre os governadores e prefeitos e é justamente por isso que agora, nas eleições, estamos vendo nas propagandas dos chamados “bolsonaristas” a “denúncia” de que prefeitos e governadores “comunistas” foram os responsáveis pelo desastre econômico e pela perda das vidas. Ou seja, quem procurou proteger a população é atacado como responsável pelas perdas econômicas e humanas. Uma inversão completa dos fatos, mas muito bem amarrado via o gabinete do ódio e a máquina de mentiras dos aliados do presidente. O marquetim tem sido eficaz.  

A eleição nos Estados Unidos unificou de maneira organizada esse grupo que compõe a base de apoio de Bolsonaro. As pessoas passaram o último mês em intensa campanha, trazendo para a realidade local os temas que comandaram as eleições no país do norte. Segundo eles, o próprio deus estava atuando no sentido de eleger Donald Trump, homem eleito pelo divino para salvar o planeta dos pedófilos, comunistas e ladrões de crianças. Como eles colocam nessa turma os adversários políticos de Bolsonaro, a campanha nos EUA serviu para alavancar o debate na campanha eleitoral local. Vencer os candidatos “comunistas” é ponto de honra para esse grupo.  

A derrota de Trump nos Estados Unidos deixou a militância bolsonarista perplexa. Mas foi por pouco tempo. No mesmo dia em que se anunciou Biden como o novo presidente começaram a circular as informações de que tudo isso faz parte do “plano” de Trump para retornar com ainda mais poder. Então, a mensagem da semana é: reforçar as campanhas dos candidatos do presidente para fortalecer o cinturão de proteção em torno de Trump, pois ele vai virar o jogo. E toda hora circulam fotos de novas cédulas de votação encontradas ali e aqui que darão a vitória ao amado do senhor: Donald.  

Não bastasse isso, o presidente do Brasil continua atuando no sentido de desacreditar qualquer vacina contra o coronavírus que venha do “eixo do mal”: Rússia, China ou Cuba. Entre seus apoiadores as informações que circulam é de que essas vacinas transformarão as pessoas em autômatos comunistas, portanto, ninguém deve tomar. Hoje, depois que a Anvisa suspendeu a pesquisa que vinha sendo tocada pelo Instituto Butantan, com base em informações falsas de que uma pessoa voluntária do teste havia morrido por conta da vacina, os grupos estão em polvorosa. “Estamos salvos dos comunistas”, “Graças ao bom deus não haverá vacina chinesa”, “nos livramos da vacina do Dória”. E mesmo que a informação correta já tenha sido anunciada, de que o homem morto se suicidou e que não há ligação com o teste em si, nada muda. A mentira já pegou. Afinal, se a mais importante agência de vigilância sanitária do país veio à público suspender a vacina, é porque alguma coisa há. Navegar nesses grupos é verdadeiramente desafiar a sanidade.  

E assim vamos seguindo para as eleições, em meio a toda essa ideologização da morte. Bolsonaro politizou o trabalho de combate ao coronavírus e agora segue politizando a busca pela vacina. Se ela não vier dos Estados Unidos, ele não vai comprar. Dane-se a população. Chegou ao ápice da estupidez ao comemorar a morte do voluntário da vacina, divulgando nas redes sociais que “Bolsonaro ganhou mais uma”. Sim, ele tem essa estranha mania de se referenciar na terceira pessoa, como se fosse o avatar de si mesmo. O “ganhar”, no caso, é desacreditar a ciência, o Instituto Butantan e, por tabela, seu agora adversário, João Dória, que por descolar-se da sua política durante a pandemia virou milagrosamente “comunista”.  

A vertiginosa queda do país nas mãos desses tipos segue, aparentemente sem freio. Ao que parece, os brasileiros precisarão de mais tempo para perceber toda a perversidade que se esconde por trás das políticas negacionistas do governo federal. E enquanto o grupo de apoio do presidente se movimenta alucinadamente à base das teorias conspiratórias e com a espada de Javé nas mãos, a corrupção familiar segue a todo vapor, o judiciário faz vistas grossas, os deputados se enrolam em alianças fisiológicas e a classe dominante vai acumulando sem se sujar. O sistema, que Bolsonaro dizia que ia destruir, segue azeitado e forte, alicerçado por ele e seus seguidores.

Por fim, ainda que possa uma que outra prefeitura ser conquistada pelos partidos de centro-esquerda, provavelmente o nosso “day after”, o pós-eleição, se converterá em um festival de horrores.  

Há uma longa jornada ainda para se cumprir.  

 

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05
Ago20

A cloroquina e a fé do rebanho

Talis Andrade

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por Wilson Gomes/ Cult

- - -

Bolsonaro não consegue ter um titular no ministério da Saúde na fase mais grave da pandemia. Bolsonaro sequer consegue usar os recursos que o Congresso lhe autorizou a empregar para salvar vidas durante esta interminável crise de saúde pública, ao ponto de ter sido solicitado a dar explicações ao TCU por tão espantosa atitude. O presidente não conseguiu nem mesmo manter-se em isolamento social, para dar exemplo ao país, nas semanas em esteve infectado com o Sars-Cov-2. Tantas fez o moço que assim o descreveu a jornalista Vera Magalhães: “O presidente passeou de moto e sem máscara, cumprimentou garis e mostrou caixa de hidroxicloroquina para as emas do Alvorada. Pode parecer uma piada, mas não: esse foi o dia do presidente em isolamento”. Rá!

Na verdade não só parece como é uma piada. É tudo uma piada de mau gosto. Por pavor do PT e desprezo à política, os brasileiros resolveram eleger e empossar uma piada como presidente da República. Devem ter achado que estariam punindo alguém, os políticos em geral e o PT em particular, mas finalmente se revela que estavam gostosamente pregando uma peça em si mesmos e infligindo-se uma autopunição. 

Antes disso, correu o mundo uma foto do mandatário maior da República, segurando com as duas mãos uma caixa de cloroquina sobre a cabeça, diante de seguidores devotos e compungidos no que parecia uma missa campal no gramado do Palácio do Planalto. Quem está acostumado à missa católica, sabe que o gesto copiou o momento do ritual litúrgico, depois da consagração do corpo de Cristo, em que a hóstia é mostrada aos fiéis enquanto o sacerdote profere solenemente “eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”. Pois “eis a cloroquina divina, que tira a Covid do mundo”, repetiu o grão sacerdote do bolsonarismo, para a adoração da sua igreja. 

Claro, se você é um sujeito razoável e sensato, não estará entendendo por que a qualquer pergunta sobre o que fazer durante a pandemia se obtém de Bolsonaro uma única resposta: tomem cloroquina. E, o que é pior, vai considerar incrível como tem gente que acredita em cloroquina, ivermectina e hodroxicloriquina como soluções mágica para a Covid-19, contra a OMS e toda a ciência médica disponível. Mas, meus caros, as pessoas acreditam em alma imortal, reencarnação e em inferno, por que não acreditariam em pseudofármacos só porque a ciência os nega?

Mas, professor, o que tem a ver religião com cloroquina? A fé, meus amigos, a crença. O bolsonarista radical é hoje um sujeito com tamanha fé no seu líder que é capaz de acreditar no que ele diz mesmo que o conteúdo da sua crença seja absurdo e até por isso mesmo. Credo quia absurdum, já dizia a máxima de Tertuliano. Se Bolsonaro trocasse cloroquina por creolina ou jujubas, a crença dos seus seguidores mais radicais mudaria automaticamente de conteúdo, mas o suicídio intelectual e o fervor dos crentes seriam o mesmo.

E como em toda seita, há o pastor do rebanho, há os que compartilham com ele o sacerdócio e há os seus profetas. Alexandre Garcia, um ex-jornalista convertido de primeira hora ao bolsonarismo, estreou na CNN Brasil esta semana, declarando ser Bolsonaro a comprovação científica de que a cloroquina funciona e que “seus colegas repórteres” só falam mal da droga santificada porque alguém lhes manda dizer isso. 

Alexandre Garcia gosta de dar-se ares de um homem logicamente refinado e culto, quando a sua principal habilidade consiste em torcer ou esculpir os dados até que eles pareçam se encaixar com plausibilidades nas suas opiniões preconcebidas. O “raciocínio lógico” usado por Garcia para “provar cientificamente” que a cloroquina é a cura da Covid-19 que os pagãos do mundo não querem que seja do conhecimento de todos, é o fato de Bolsonaro ter tomado o remédio e sobrevivido. Só que isso que ele chama de lógica é geralmente refutado no primeiro dia de aula de Falácias Argumentativas. É uma falácia descarada, para dizer o mínimo. É como dizer que uma vez que quando o galo canta, o sol nasce, é o canto do galo que faz o sol nascer. É ridículo. 

A estatística, que não costuma fazer escolhas políticas, diz que a taxa de letalidade do Sars-Cov-2 no mundo é de cerca de 2% em média. Quer dizer que se todos os infectados tomarem água de coco gelada com abará é provável que 98% se recuperarão, mas se trocarem o delicioso medicamento por caldo de cana e pastel de feira o milagre será exatamente o mesmo. No caso do Brasil, a taxa de letalidade, uma das mais altas do mundo, está em torno de 7%.  A notícia deveria ser, então, que pelo menos 5% dessas mortes poderiam ter sido evitadas, se quem governa o país tivesse adotado as políticas públicas testadas e comprovadas como eficazes em toda parte. Mas não, no estilo Garcia de jornalismo tribal teríamos o seguinte comentário: “A prova científica da competência do Ministério da Saúde de Bolsonaro é que estamos curando 93% dos infectados pela Covid-19”.

O mundo está tão louco que a posição ideológica das pessoas passou a orientar decisões com relação a que remédio tomar, se usamos ou não máscara em público, se vacino ou não os meus filhos. A modernidade consistiu exatamente em vetar que a religião pudesse exorbitar, quer dizer, sair do ambiente onde os crentes precisamos dela, a saber, na nossa relação com o sobrenatural, com a morte e com o sentido da existência. Para as demais necessidades da vida temos outros recursos, como a ciência, a política e a economia. A extrema-direita, entretanto, transformou-se em uma nova religião civil: o seu sumo sacerdote é considerado infalível em matéria de política, economia e, vejam só, medicina e saúde pública. Deus se apiede de nós.

 

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02
Ago20

A Constituição Federal, as Forças Armadas e o absurdo

Talis Andrade

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Por Diógenes de Brito Tavares / ConJur

- - - 

Busco no dicionário o verbete "absurdo" porquanto o tempo presente me faz vacilar sobre o seu significado. Ali encontro o adjetivo buscado e seu conteúdo significante: "contrário à razão, ao bom senso". Para maior afirmação, outro dicionário — o de sinônimos — oferece equivalência significante aos verbetes "disparatado", "despropositado", "ilógico", "incongruente".

Persigo ainda compreensão à denominada "filosofia do absurdo", desenvolvida por Albert Camus. O raciocínio absurdo proposto pelo escritor e filósofo franco-argelino é condição sem a qual não é possível verificar se existe ou não uma lógica que conduza o indivíduo até o suicídio, identificado por ele como o único problema filosófico realmente sério. Um dos conteúdos significantes atribuídos por Camus ao absurdo — talvez o mais evidente deles — consiste em identificá-lo como algo impossível ou contraditório, o que equivale aos conteúdos acima mencionados extraídos do léxico. Em sua exemplificação, se imputarmos um delito a um homem sabidamente inocente, ou se acusarmos um indivíduo virtuoso de desejar (sexualmente) sua própria irmã, ambos tenderão a afirmar que tais sugestões são absurdas: impossível ao inocente, no primeiro caso; contraditória em relação aos princípios cultivados pelo irmão virtuoso, no segundo ("O mito de Sísifo". 17. ed. Rio de Janeiro: Record, 2019).

Nesse sentido, precisamente, é que se impõe afirmar a absurdidade do tempo presente.

Em nota oficial de propósito indisfarçadamente ameaçador, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência República "alertou" para consequências imprevisíveis à estabilidade nacional na hipótese de ordem judicial que determinasse a apreensão do telefone celular do chefe do Poder Executivo no âmbito de inquérito relatado pelo Ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, que se destina a apurar notícia-crime suscitada pelo ex-Ministro da Justiça. Seguidamente, desvelou-se em vídeo e áudio o conteúdo de reunião havida no Palácio do Planalto, mais semelhante a um convescote de camarata, na qual o Ministro de Estado da Educação (sic) exortava, em tom de bravata, a prisão dos "vagabundos todos, começando pelo STF"; a Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos esgrimia a prisão de prefeitos e governadores; e o Ministro do Meio Ambiente propunha que alterações à legislação ambiental fossem aprovadas com o oportunismo necessário, tangenciando a atenção da imprensa, concentrada na cobertura das mortes e internações decorrentes da Covid-19.

A engrossar o já denso caldo político, manifestações civis assomam ecoando proposições claramente antidemocráticas, como o "fechamento" do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, a agressão física a veículos de imprensa, a intervenção militar e mesmo a reedição do nefasto e abjeto Ato Institucional nº 05.

O negacionismo da história é manifestação do absurdo. Não menos absurdo é o suprematismo que se pretende atribuir ao presidente da República. Ambos são impossíveis e contraditórios, no sentido mais raso que a absurdidade sugere.

Norberto Bobbio afirmou, com extrema felicidade, que "a democracia é não tanto uma sociedade de livres e iguais (porque, como disse, tal sociedade é apenas um ideal-limite), mas uma sociedade regulada de tal modo que os indivíduos que a compõem são mais livres e mais iguais do que em qualquer outra forma de convivência" ("Igualdade e liberdade". 3. ed. Rio de Janeiro: Ediouro). O jusfilósofo italiano arremata: "Onde a liberdade é a regra, sua limitação deve ser justificada".

Não há qualquer dúvida de que a Constituição Federal de 1988 preconizou tal ideal de democracia, recorrendo à liberdade e à igualdade como valores que lhe servem de fundamento. Assim sendo, não parece absurdamente contraditório que uma ordem jurídica assim erigida seja eclipsada por um substitutivo no qual o autoritarismo seja a regra, e a liberdade exceção? O retrocesso, em tema de liberdades, não é em si contraditório? Recordemos que o malsinado ato institucional, para além do recesso das Casas Legislativas e das intervenções em Estados e municípios, também permitia ao presidente da República suspender os direitos políticos de qualquer cidadão, o que incluía a submissão a "medidas de segurança" como liberdade vigiada, proibição de frequentar determinados lugares e imposição de domicílio determinado.

O arbítrio só distingue o poder. Com o poder ideológico e o poder político encerrados em uma única figura — o chefe do Poder Executivo —, e com o poder econômico enfeixado nas mãos de uns poucos privilegiados, todo o resto tende a não ser distinguido pelo arbítrio (isso inclui a gigantesca maioria daqueles que lerem e dos que não lerem essas linhas).

Tamanha é a preocupação com a manutenção do arranjo democrático dos poderes constituídos e das instituições pátrias que foram recentemente submetidas ao Supremo Tribunal Federal duas ações vocacionadas a delimitar o âmbito de atuação das Forças Armadas.

No Mandado de Injunção nº 7311/DF, o ministro relator, Luís Roberto Barroso, afirmou a inexistência de um poder moderador de perfil hegemônico exercitável pelas Forças Armadas, assim como registrou que a Constituição não submete, em nenhuma hipótese, o poder civil ao poder militar, inexistindo tutores nas democracias. Na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 6457/DF, o ministro relator, Luiz Fux, concedeu em parte a medida cautelar pleiteada, estabelecendo balizas de interpretação a dispositivos da Lei Complementar nº 97/99, cumprindo destacar: I) a autoridade do presidente da República é suprema em relação às autoridades militares, não em relação aos demais poderes constituídos na forma da ordem constitucional, de sorte que deve ser exercida com observância das competências privativas estabelecidas no artigo 84 da Constituição; II) os poderes do presidente da República em relação às Forças Armadas não são absolutos, existindo mecanismos de controle no texto constitucional; III) não se admite qualquer interpretação ao artigo 142 da Constituição de que resulte o emprego das Forças Armadas para a defesa de um poder contra outro e; IV) as Forças Armadas se qualificam enquanto órgãos de Estado, não de governo.

Assoma absurda, porquanto contrária à lógica constitucional, a cogitação de que o presidente da República se revestisse de autoridade para colocar em marcha as Forças Armadas contra os demais poderes constituídos do Estado. Nesse particular, só existe uma supremacia: a da Constituição.

Parece, por fim, que a absurdidade assim sustentada ainda se manifesta como um ranço daqueles que insistem em ver, equivocadamente, a personalização do poder na figura do chefe do Executivo. Desde há muito, o poder restou institucionalizado na figura do Estado, exatamente para que os homens não mais se submetessem ao arbítrio de nenhum outro homem.

Contra o absurdo, façamos coro a Drummond: não nos afastemos muito, não distribuamos entorpecentes; tomemos o tempo presente como nossa matéria e sigamos de mãos dadas ("Mãos dadas". Antologia poética. 60. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008).

 

 

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