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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

17
Jun21

Comandante da Aeronáutica curte tuítes políticos de Bolsonaro e antiesquerda

Talis Andrade

Comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Baptista Junior

 

Post endossado pelo tenente-brigadeiro comparou medidas sanitárias contra a Covid ao comunismo. Acusou a esquerda de apoiar incestos e pedófilos

 

Depois do general Eduardo Pazuello discursar no comício da motociata no Rio de Janeiro, as manifestações políticas das altas patentes no Exército, Marinha, Aeronáutica e polícias militares passaram a ser costumeiras. E todas rezam ao pé do altar de Jair Messias Bolsonaro. 

Pelo andar do andor esse partidarismo promete virar uma zona, um cabaré, quando aparecer o primeiro lulista (que tem, tem) nas forças armadas, prometendo voto, ou pedindo "comida no prato" dos civis, dos sem terra, dos sem teto, dos sem nada. 

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Escrevem Guilherme Amado e Eduardo Barretto no Metrópoles: O comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, curtiu no Twitter um post de Jair Bolsonaro exaltando um protesto a seu favor. Em outra publicação endossada pelo comandante, medidas sanitárias contra a Covid foram comparadas ao comunismo e a esquerda foi acusada de permitir incestos.
 

“Que desistam todos os que querem ver o povo distante de mim, ou que esperam me ver distante do povo. Estou e estarei com ele até o fim. Boa noite a todos!”, escreveu Jair Bolsonaro, em 9 de maio, provocando mais uma aglomeração sem máscaras durante a pandemia. O comandante da Aeronáutica curtiu o post.

Comandante da Aeronáutica no Twitter

Em 10 de junho, o tenente-brigadeiro Baptista Junior deixou o like em um tuíte que acusou a esquerda de apoiar incestos e pedófilos, e comparou medidas sanitárias de controle da Covid ao comunismo.

“Já notaram que quem apoia a esquerda… acha usuário de drogas normal… pedófilos normais, incesto permitido, aborto normal, ladrão normal, corrupto normal, mas tacham que um único homem que não faz nada disso é ruim? Quem são essas pessoas?”, dizia a publicação do usuário Paulo Roberto, identificado como PauloRo96052381. Roberto emendou com uma imagem que trazia o símbolo comunista:Comandante da Aeronáutica no Twitter

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares que nega o racismo no país, recebeu curtidas do comandante em diversas ocasiões. Em 23 de abril, citou “pretos que se vitimizam, choram por bobagem e sempre culpam os brancos”. Em 9 de junho, Camargo acusou a esquerda de infligir aos negros um “loop infinito do sofrimento”.

Comandante da Aeronáutica no Twitter

 

Comandante da Aeronáutica no Twitter

Outros bolsonaristas, como Ernesto Araújo e Carla Zambelli, também tiveram publicações apoiadas pelo chefe da Força Aérea Brasileira. Em 24 de abril, o ex-chanceler acusou a política externa brasileira de corrupção na América Latina. Em 13 de maio, a deputada bolsonarista disse, sobre a pandemia, que “alguns preferem construir palanque sobre cadáveres, eu prefiro comemorar a esperança”.

Comandante da Aeronáutica no Twitter

Comandante da Aeronáutica no Twitter
 
Também sobrou para o STF. Em 4 de junho, o tenente-brigadeiro gostou de um post em que a deputada estadual paulista Janaina Paschoal dizia que o inquérito dos atos antidemocráticos “nem deveria ter sido instaurado!”. A investigação, que tramita no Supremo, atinge em cheio os aliados de Jair Bolsonaro.
 

Já em 9 de junho, o comandante curtiu uma publicação de Salim Mattar, ex-secretário de Paulo Guedes, que criticou uma declaração de Luís Roberto Barroso sobre o voto impresso. “Agora o STF tem que validar as leis aprovadas pelo Parlamento?”, ironizou.

Comandante da Aeronáutica no Twitter

Nesta sexta-feira, a deputada extremista Bia Kicis, presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, disse que o comandante teria votado na parlamentar e elogiado sua atuação. Uma semana antes, o Exército livrou o general Eduardo Pazuello de punição após dividir um palanque com Jair Bolsonaro.

A coluna questionou a Aeronáutica se a deputada dizia a verdade; se, em caso negativo, o comandante corrigiria a parlamentar; se algum processo disciplinar seria aberto para apurar o caso; e qual era o posicionamento da Força Aéra Brasileira sobre o episódio, mas não obteve resposta.

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06
Dez19

Satã, música e útero: o discurso do presidente da Funarte

Talis Andrade

pombinho baile funk paraiso polis.png

O novo presidente da Funarte – Fundação Nacional de Artes do governo Bolsonaro, Dante Mantovani, é olavista, maestro e youtuber. Quando veio à tona sua nomeação como novo responsável pelo cargo, um vídeo de seu canal com mais de 6 mil inscritos chocou a internet.

Dante afirma que “o rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”. No twitter, ‘Funarte’ entrou para as primeiras posições do Trending Topics.

Confira algumas das reações:

Debora Diniz
@Debora_D_Diniz

Novo presidente da Funarte diz que "rock leva ao aborto e satanismo". Não deve haver riso na tolice.
Unir satã, música e útero é desvendar o quebra-cabeça do fanatismo patriarcal: religião é cristã, música é a que não movimenta o pecado do corpo, sexo é apenas para procriação

Lola Aronovich
@lolaescreva

Não se pode negar q Bolso, seus filhos e Olavão realmente escolhem os lunáticos q vão compor o governo a dedo http://archive.is/4FVLX 

Henrique Araújo
@OskarSays

Esse governo não resiste a um psicotécnico: https://oglobo.globo.com/cultura/rock-leva-ao-aborto-ao-satanismo-diz-novo-presidente-da-funarte-24112509?utm_source=aplicativoOGlobo&utm_medium=aplicativo&utm_campaign=compartilhar 

'Rock leva ao aborto e ao satanismo', diz novo presidente da Funarte

No YouTube, Dante Mantovani defende outras teorias da conspiração, como a de que soviéticos infiltrados na CIA distribuíram LSD em Woodstoc

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07
Jun19

Mourão diz que ‘Carluxo sumiu”. E o ‘pitfilho’ reagiu: “volta, papai”

Talis Andrade

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Quando um vice-presidente da República senta na cadeira do primeiro mandatário por algumas horas, manda o bom senso não usar muito a mão, assinando, nem a boca, falando.

Portanto, não foi por acaso que o general Hamilton Mourão  pediu para gravar a conversa com Guilheme Amado, da Época, onde disse que os “olavistas” tinham sido chamados ao bom comportamento e que o filho  pitbull de Twitter do presidente, Carlos Bolsonaro, havia “sumido”.

— Alguém chegou para essa turma (os olavistas) e disse: “Chega”. Acho que o próprio presidente pode ter feito isso. 
— Foi o presidente que fez isso?
-- Não sei. 
— O ministro Augusto Heleno?
— Não sei. 
— O vereador Carlos Bolsonaro parece ter sido controlado. Foi?
— O Carlos sumiu.

Sete e meia da manhã, o objetivo foi alcançado: “Carluxo” reapareceu e apelou novamente para o debate de questões morais, tuitando:

“Saudades do Presidente que é pró-armamento da população e contra o aborto. Volte logo Presidente de verdade!"

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Pronto, lá se foi a trégua de um dia desde que Joice Hasselman e o Major Olímpio se pegaram em pleno Congreso, diante das câmeras de televisão.

Bolsonaro até pode ouvir conselhos para ficar quieto, mas acho difícil que resista a defender o filho, notoriamente alguém que “se garante”, como ocorria quando éramos moleques de rua, no “papai” ferrabrás.

Para variar, promete-se outra lavagem de roupa imunda em público.

Na entrevista, sob a formalidade de repetições do “é Bolsonaro quem manda” e de um misterioso plano “only for your eyes” que entregou ao presidente, Mourão dá a entender que o chefe “se enquadrou” e que vai agir com equilíbrio, desde que lhes permitam desequilíbrios pontuais e a polêmica da estupidez, como no caso da cadeirinha de bebês nos automóveis:

— Ele pensa de maneira setorizada.

O que é o mesmo que dizer que Jair Bolsonaro não tem um conjunto de ideias capaz de compor um projeto para o país.

Ou que eles, militares, o têm, se o chefe não atrapalhar.

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30
Mai19

Bispo de BH estuprou fiel, obrigou a fazer aborto e comer material abortado

Talis Andrade

bispo Marcos Aurélio de Freitas estuprador ladrã

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A polícia civil prendeu o sádico estuprador Marco Aurélio de Freitas, 42 anos, bispo presidente da Igreja Internacional Plena Paz, com sede em Belo Horizonte. Conheça a operação batizada de Falso Profeta aqui

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Veja vídeo do predador sexual :

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Os prejuízos cometidos pela quadrilha estão em torno de R$ 1 milhão, podendo chegar a quase R$ 2 milhões.

As primeiras prisões foram feitas na sexta-feira passada. O bispo e a esposa estavam em Goiás, quando ficaram sabendo da ação da polícia. A dupla chegou a negociar uma apresentação espontânea do delegado. Mas fugiu para Brasília. Os dois foram presos com apoio da polícia civil do Distrito Federal e trazidos para Belo Horizonte nesta quarta-feira (29).

Entre os crimes, o grupo pode responder por estelionato. O bispo Marco Aurélio de Freitas ainda é investigado por estupro, estupro de vulnerável e aborto de mulheres e crianças que frequentavam a igreja. Até agora, são pelo menos dez vítimas.

De acordo com a Polícia Civil, outras vítimas devem ser ouvidas nos próximos dias.

 

21
Mar19

Dos cinco projetos aprovados em sessão extraordinária após assassinato de Marielle, apenas um foi implementado

Talis Andrade

 

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Por Mariana Pitasse Rio de Janeiro (RJ)

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Durante a curta carreira parlamentar, em pouco mais de um ano de mandato, Marielle Franco (PSOL) apresentou 16 projetos de lei na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, sendo oito individuais e oito assinados com outros vereadores. Cinco desses projetos foram aprovados em sessão extraordinária, em agosto do ano passado, cinco meses após seu assassinato. No entanto, mesmo após terem se tornado lei, a maioria dos projetos encontra barreiras em sua implementação e apenas um deles passou a valer na prática: a Lei 6389/2018, que institui o 25 de julho como o “Dia Tereza de Benguela e da Mulher Negra” no Rio de Janeiro.


Os outros quatro projetos encontram-se em diferentes situações. Dois deles estão em queda de braço com o prefeito Marcelo Crivella (PRB), tendo sido vetados com a justificativa de que criariam um aumento das despesas públicas. Em seguida, tiveram o veto derrubado pela Câmara dos Vereadores, o que os tornou leis, mas não foram efetivados enquanto políticas públicas. Um deles tem por objetivo a criação de um “Espaço Infantil Noturno” (ver abaixo) de acolhimento para crianças, no período em que pais estão no trabalho ou na escola, o outro visa dar continuidade ao processo de formação dos adolescentes que cumpriram medidas socioeducativas.

 

“Ou seja, a gente tem importantes leis aprovadas, mas que a prefeitura não implementa”, sintetiza o vereador e colega de partido de Marielle, Tarcísio Motta (PSOL). De acordo com a assessoria de comunicação da Prefeitura do Rio, o governo ainda está analisando as medidas que serão adotadas em relação às leis.


Aprovados e sancionados pelo prefeito do Rio, outros dois projetos ainda não foram efetivados na prática. São eles: a Lei 6394/2018, que cria o “Dossiê Mulher Carioca”, uma espécie de estatística periódica sobre as mulheres atendidas pelas políticas públicas no município, e também a Lei 6415/2018, que trata sobre a elaboração de uma campanha permanente de enfrentamento ao assédio em locais públicos da cidade.


“Ela batizou esse projeto de ‘Assédio não é passageiro’, e essa lei está valendo. A ideia é, por exemplo, que as empresas coloquem cartazes nos transportes públicos, anunciando a questão do assédio como crime. Também dizendo o número que a mulher assediada pode ligar, além de algumas mensagens educativas para os homens. Precisamos pressionar a prefeitura para implementar essas leis. É uma luta permanente”, acrescenta Motta.

 

A sessão extraordinária de agosto do ano passado foi precedida de uma reunião dos vereadores do campo progressista com os outros parlamentares para alinhar o parecer favorável à maioria dos projetos de Marielle. Na ocasião, os parlamentares também aprovaram a lei que passou a nomear o plenário do Palácio Pedro Ernesto com o nome de Marielle Franco. Segundo Tarcísio Motta, um dos articuladores da sessão extraordinária, houve resistência de parlamentares fundamentalistas aos projetos que tratavam de questões de gênero.


Projetos como o 72/2017 que pretende instituir o “Dia da luta contra a homofobia, lesbofobia, bifobia e transfobia” e o 82/2017 com o objetivo de criar o “Dia da visibilidade lésbica” tiveram votações adiadas por gerar polêmica entre os parlamentares. Já o projeto que trata sobre tratamento humanizado na rede pública de saúde em casos de aborto legal, não foi sequer discutido e está fora de pauta desde 2017.

 

“Mesmo assim não acredito que foi apenas uma aprovação simbólica. São as ideias dela concretizadas em projetos de lei que podem mudar a vida das pessoas. Mas não basta só aprovar, a prefeitura tem a responsabilidade de implementar esses projetos. Nossa luta agora é essa. Muitos precisam de um decreto da prefeitura regulamentando para que sejam implementados”, destacou Motta.


Projetos assinados por Marielle e outros vereadores, de forma coletiva, estão ainda sendo colocados em pauta para votação por parlamentares do PSOL. Um dos que está mais próximo do início da fila para ser votado, conforme informações disponibilizadas no site da Câmara dos Vereadores do Rio, é o PL 642/2017 que pretende instituir assistência técnica gratuita para habitações de interesse social, elaborado em parceria com o Tarcísio Motta.


Espaço Coruja

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Principais bandeiras de sua atuação, os projetos apresentados ao plenário da Casa legislativa logo na primeira semana de mandato foram os apelidados de “Espaço Coruja”, o PL 17/2017, e “Pra fazer valer o aborto legal”, PL 16/2017.
O primeiro, que se tornou lei, tem como objetivo criar um Espaço Infantil Noturno que prevê o uso de creches e outras estruturas infantis da rede municipal para receber e desenvolver atividades com crianças de seis meses a cinco anos com o objetivo de “atender à demanda de famílias que tenham suas atividades profissionais ou acadêmicas concentradas no horário noturno”, segundo o texto que descreve a iniciativa.


Enquanto a prefeitura não implementa a lei, milhares de mães e pais continuam sem amparo do poder público. É o caso de Nathalia Correa, de 27 anos, moradora de Irajá, na zona Norte do Rio de Janeiro. Para ela, o projeto é urgente. Nathalia é mãe de Arthur, de cinco anos, e estudante de pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ela é mãe solo, ou seja, assume todas as responsabilidades pela criança, sejam financeiras ou por disponibilidade de tempo.


“Eu faço faculdade no horário noturno e não tenho uma solução fixa para meu filho. Tem dias que deixo com a minha mãe, mas nem sempre ela pode. Tem dias que eu deixo de estar na faculdade para estar com ele ou às vezes o levo comigo, mas isso pode ser um problema porque tem professores que não aceitam”, explica.


Na avaliação de Natália, a lei pode beneficiar principalmente as mulheres, que ainda são as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos e correm o risco de perderem seus empregos ou terem que largar seus estudos por não terem condições de contratar alguém para cuidar deles.


É o que comprova uma pesquisa do Ministério da Educação feita em 2016. Segundo o levantamento, 18,1% das mulheres, entre 15 e 29 anos, indicaram a gravidez como motivo para largar os estudos. Já entre os homens da mesma faixa etária, somente 1,3% interrompem os estudos pela mesma razão.


Aborto legal

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O outro projeto apresentado por Marielle logo que assumiu o mandato foi pensado para garantir o direito de atendimento humanizado e sem violências às mulheres que estão em situação de aborto legal. No Brasil, o aborto é um direito garantido às mulheres em caso de anencefalia, risco de morte e gravidez decorrente de estupro. Apesar disso, muitas mulheres nessas situações esbarram no preconceito, com a falta de informação e até com maus tratos de profissionais da saúde que as atendem. Nesse sentido, a ideia do projeto é garantir o que já está previsto em lei, e assim, evitar mortes e tratamento inadequado para as mulheres que precisam de cuidados da rede pública de saúde.


Em 2014, quase 5% das mortes maternas no Brasil tiveram como causa o aborto, de acordo com levantamento feito pela campanha “Legal e Seguro", promovida pelas organizações Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), Observatório de Sexualidade e Política (SPW) e IPAS – Saúde, Acesso e Direitos.


Ainda segundo o levantamento, mulheres negras são as maiores vítimas de óbitos. Esse quadro se explica porque elas são levadas a buscar ajuda em situação limite, seja por medo de serem maltratadas ou mesmo por falta de acesso à informação qualificada. O projeto de Marielle trata justamente desses casos e não foi sequer colocado para votação na Câmara dos Vereadores do Rio.


“Não é um projeto que autoriza o aborto. Ele quer simplesmente garantir o que já estava previsto em lei: que a mulher que tem aborto espontâneo ou garantido por lei seja tratada humanamente dentro dos hospitais públicos. Mas a gente tem uma Câmara de Vereadores muito conservadora. Muito afinada com todo esse debate intransigente em relação ao aborto porque são fundamentalistas religiosos. Então trazem para o Estado, que é laico e que deveria legislar para todos, aqueles preceitos que eles acham que tem na Bíblia. Então isso foi um problema completo”, lembra a deputada estadual do Rio de Janeiro Renata Souza (PSOL), que foi chefe de gabinete de Marielle durante seu mandato.


Figura pública

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Mulher, negra e nascida na favela da Maré, na zona Norte do Rio de Janeiro, Marielle teve a luta pelos direitos humanos como seu objetivo de vida desde cedo. Mas foi na luta institucional que ela se tornou figura pública, reconhecida como liderança em ascensão no Rio de Janeiro e tornando-se a quinta vereadora mais votada nas eleições municipais de 2016, com mais de 46 mil votos.


Marielle era socióloga, com mestrado em Administração Pública. Antes de se tornar vereadora, já tinha atuação na política institucional, com mais de 10 anos como assessora parlamentar do então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), período em que integrou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).


“A candidatura de Marielle foi fruto de força e vontade coletivas. Um dia ela entrou em minha sala e disse para mim que seria candidata. Respondi que ela estava pronta para se candidatar. Falei para ela: ‘voa’. Mari estava no momento certo, amadurecida, preparada. Ela trabalhou comigo desde o meu primeiro dia na Alerj. Fomos nos transformando e amadurecendo juntos no parlamento”, conta Freixo.


Quando assumiu o mandato como parlamentar, Marielle continuou defendendo os direitos das mulheres e da população mais pobre, combatendo o preconceito e a violência na Câmara do Rio. Foi presidente da Comissão da Mulher da Câmara de Vereadores e também relatora de uma comissão composta por quatro parlamentares, que tinha como objetivo monitorar a intervenção militar no Rio de Janeiro.


“Infelizmente, Marielle só se tornou esse símbolo por causa de seu assassinato. Para nós que convivemos com ela, sempre foi uma potência, sempre teve capacidade de representar mulheres, negras e faveladas. Mas seu aparecimento como símbolo ocorre, infelizmente, após sua morte. Aí deixo a minha crítica. Por que o Brasil ou o mundo não conheceram Marielle antes? Acho que no fundo, essa comoção com seu assassinato, passa por um desejo frustrado, uma dor de quem não pode ter conhecido essa mulher incrível quando ela estava viva”, conclui o deputado.

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11
Dez18

Damares não é só fanática, é uma mulher má

Talis Andrade

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por Fernando Brito

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Está escrito em O Globo, com todas as letras: “A futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, defendeu nesta terça-feira a aprovação de um projeto que torna o aborto um crime hediondo, aumenta as penas e ainda prevê uma espécie de “bolsa estupro”.

 

Mulheres que forem denunciadas por fazer aborto, pelo projeto apoiado por Damares, ficarão sujeitas a penas entre quatro a dez anos, e em regime de reclusão, iniciadas em regime fechado.

 

Hoje, é de um a quatro anos, o que permite a conversão em penas alternativas.

 

Ainda assim, a criminalização do aborto, independente de considerações filosóficas ou religiosas, é uma bobagem.

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Em um país onde se estima que o número de abortos chegue a meio milhão por ano, que acarretam mais de 200 mil internações hospitalares por complicações decorrentes de procedimentos clandestinos, o número de processos contra gestantes que abortam variam, dependendo da fonte, de 100 a 300 por ano.

 

Ou seja, menos de 0,05% dos casos vira processo criminal, ou um em cada 2000, embora mesmo estes poucos sejam absolutamente cruéis.

 

A maioria destas pobres coitadas é denunciada, pasme, por profissionais médicos. Segundo a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, 65% foram originadas de profissionais médicos que, antieticamente, as acusaram à polícia.

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Algumas, como registra a BBC, são interrogadas ainda sangrando nos hospitais.

 

Se a lei atual, por ser apenas uma “satisfação” à hipocrisia com que tudo isso é tratado, não “cola”, imagine a “Lei Damares”, que joga a pobre infeliz direto num presídio?

 

Aliás, Deus nos livre de que tal lei “pegue”, porque significaria encarcerar perto de meio milhão de brasileiras…

 

A D. Damares, porém, não quer saber. Está mais preocupada com os “likes” que vai ganhar em sua campanha medieval.

 

Sua sede de fazer o mal a quem já está machucada por um trauma – não, o aborto não é uma “brincadeirinha agradável” para mulher alguma – é coisa de gente má, pervertida, cruel.

 

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14
Jun18

Adolescentes queimados vivos

Talis Andrade

 

Frei Marcos Sassatelli

 

No final da manhã de sexta-feira, 25 de maio de 2018, no Centro de Internação Provisória (CIP) para menores do 7º Batalhão da Polícia Militar, no Jardim Europa em Goiânia, 9 adolescentes morreram queimados vivos e 1 ficou gravemente ferido com 90% do corpo queimado. A notícia foi amplamente divulgada nos meios de comunicação e chocou a todos e a todas nós.

 

Fernanda da Silva Rodrigues Fernandes, Coordenadora do Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública, afirmou que a situação do CIP é “calamitosa” e que, em qualquer momento, uma tragédia estava prestes a acontecer. A Defensora Pública destaca: “o centro de detenção para menores infratores está localizado em um local que por si só é inadequado e inconstitucional: um Batalhão da Polícia Militar. O que aconteceu lá foi uma omissão do Estado em relação à condição dos menores”.

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Tiago Gregório Fernandes, Defensor Público e Coordenador do Núcleo da Defensoria de Infância e Juventude, afirmou que a estrutura do CIP é inadequada e deficitária e que, dos nove adolescentes que morreram, somente um estava em situação provisória. O Defensor Público declara: “o fato é lamentável e compadecemos em relação aos adolescentes e suas famílias”. E ainda: “falta projeto pedagógico e ações de aprendiza-gem. Os adolescentes têm direito a 15 minutos de banho de sol, enquanto adultos em regime fechado tem direito a duas horas”.

 

Segundo a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO), a Defensoria Pública entrou em 2013 com ação civil pública, determinando que, no CIP, as vagas para internos fossem limitadas. O Poder Público não acatou a determinação e a superlotação continuou (e continua até hoje). A capacidade máxima daquele Centro - em condições muito precárias - é para 50 internos e, nos últimos dias, esse número chegou a quase 100.

 

Conforme disse Bárbara Cruvinel, presidente da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB-GO, a morte dos adolescentes, foi “uma tragédia anunciada”; e - acrescento eu - foi um crime bárbaro que clama a Deus por justiça. Os menores estavam sob a tutela do Estado e o responsável por esse crime bárbaro é o Estado. Os adolescentes infratores e os presos em geral são tratados como lixo humano. O CIP e o Presídio são depósitos desse tipo de lixo. Que vergonha para Goiás!

 

Pensemos na angústia e na dor das mães desses adolescentes mortos, queimados vivos. Quanta insensibilidade! Quanta irresponsabilidade! Apesar de muitos cristãos e cristãs terem manifestado sua indignação profética pela morte dos adolescentes queimados vivos (a Igreja somos todos os cristãos e cristãs), é com muita dor no coração que - enquanto ser humano e homem de fé - reconheço (e de minha parte, como membro dessa Instituição, peço perdão): a Arquidiocese de Goiânia não fez nenhuma Nota Oficial - para ser lida nas Comunidades e Paróquias - denunciando a irresponsabilidade do Poder Público, que trata os menores infratores como lixo humano e manifestando sua solidariedade às famílias dos adolescentes mortos, queimados vivos: uma verdadeira barbárie.

 

Infelizmente, a Arquidiocese de Goiânia (já foi bem diferente e - em breve - se Deus quiser voltará a sê-lo) é hoje uma Igreja que - para não ficar de mal com os poderosos, que são opressores do povo, mas que, para a sociedade capitalista e, às vezes, até para a Igreja, são “pessoas de bem” e fazem “leituras” nas Missas - lava as mãos (como Pilatos) e trai Jesus nos “adolescentes infratores”, nos pobres e nos descartados da sociedade (como Judas). Os responsáveis por esse pecado de omissão terão que prestar conta a Deus!

 

A vida precisa ser defendida não somente antes do nascimento, sendo contra os abortos “biológicos” (embora sabendo entender - sem condenar - as situações dramáticas nas quais muitas vezes o aborto acontece), mas também depois do nascimento, sendo contra os abortos “sociais”.

 

Quantas crianças de 0 a 5 anos de idade - por falta de mínimas condições de vida - são vítimas do aborto “social”, institucionalizado e legalizado pelo “sistema econômico iníquo” no qual vivemos (uma sociedade perversa que sistematicamente aborta suas crianças)? Quantas pessoas - adolescentes e idosos - são vítimas do aborto “social”, excluídas e descartadas como lixo humano por esse mesmo sistema?

 

Pergunto: será que nós, pela nossa omissão (que sempre procuramos justificar) não somos também - às vezes - coniventes com essa situação de injustiça e de pecado social?

 

Defender a vida antes do nascimento e não defendê-la também depois do nascimento é hipocrisia, é farisaísmo.

 

Faço, mais uma vez, um apelo aos advogados e às advogadas da Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP) de Goiás para que - num trabalho de voluntariado - deem assistência jurídica às famílias dos adolescentes mortos, vítimas do descaso do Poder Público, para que o Estado seja obrigado a pagar uma indenização às famílias dos adolescentes queimados vivos. A indenização não os trará de volta ao convívio familiar, mas é o mínimo que pode ser feito. Transcrevi trechos

 

P.S. deste Correspondente: Em junho de 2017, em Lagoa Seca, Paraíba, cinco adolescentes foram queimados vivos de dentro de cela, e dois espancados até a morte.

 

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24
Nov17

A marca de Caim, a maldição dos negros transformada em lei

Talis Andrade

 

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Ilustração Jean Franois Rochez 

 

Segundo a Bíblia, Caim um dos primeiros homem nascido de gravidez normal na terra, resultado das relações sexuais de Adão e Eva. Gênesis 4:1 esclarece: "O homem conheceu a Eva, sua mulher; ela concebeu e, dando à luz a Caim, disse: Adquiri um homem com o auxílio de Jeová."

 

Caim matou Abel por inveja do amor de Jeová. O motivo mais humano o de Jeová ter dado a irmã que Caim amava para Abel. 

 

No Velho Testamento, lemos que após Caim matar seu Irmão foi amaldiçoado pelo Senhor, que colocou sobre ele uma marca (Gên 4:11-15; Moisés 5). O Senhor então diz a Caim que "fugitivo e vagabundo" ele seria.


Há várias especulações sobre qual seria a marca de Caim. Segundo textos mórmons, esta marca estaria relacionada à cor da pele (relatado em Pérola de Grande Valor), e que tenha sido Caim o pai da raça negra africana.

 

A crença que o sinal em Caim era uma pele escura - que Deus mudou a cor da pele branca para preta a fim de identificá-lo.

 

Já que Caim também recebeu uma maldição, a crença de que a marca era a pele negra levou muitos a acreditar que as pessoas de pele escura eram amaldiçoadas.

 

Esse ensinamento da "marca de Caim" como justificativa para o comércio africano de escravos e a discriminação contra as pessoas de pele preta/escura.

 

As contradições marcam as histórias contadas nos livros santos das três religiões do deserto. Caim o fundador da primeira cidade. O cristianismo foi, incialmente, uma religião de escravos, e pregado na África, tendo a Igreja Católica embranquecido os primeiros mártires, tanto que só restou de negro Santo Expedito. E cristão o secretário que transcreveu para o Alcorão as revelações de Maomé.

 

Qual seria a cor da pele dos apóstolos ou a de Jesus? Escondem que um negro ajudou Jesus a carregar a cruz na caminhada para a morte.

 

Todas as possibilidades de maldades que possam ser escudadas em malandras e satânicas interpretações de textos religiosos são hoje adotadas no Brasil do atraso e dos golpismos.

 

Usando textos religiosos os deputados explicam a escravocrata reforma trabalhista, o fim de todos os direitos das mulheres e a descriminalização do incesto. 

  

Qual a cor da pele desses deputados?

 

Escreve Eliane Brum:

 

O que a religião tem a ver com isso?

 

Se você olhar para quem são os 18, vai perceber que eles estão ligados a alguma religião. Em geral, no caso da católica, ao movimento da Renovação Carismática; no caso das evangélicas, às pentecostais e neopentecostais. Estão ligados também a comportamentos e declarações que vale a pena dar uma olhada mais de perto.

 

Mas o alerta que me parece importante fazer é que estes odiadores de mulheres – e neste caso eles são 18, mas no Congresso são dezenas – usam a religião para se legitimar. Por isso chamar de “bancada religiosa” ou “bancada evangélica” ou ainda “bancada da Bíblia” pode beneficiar mais a seus interesses escusos do que refletir um real compromisso com valores de fato cristãos.

 

Um equívoco frequente é acreditar que tais deputados representam o pensamento de milhões de fiéis no Brasil. Ele refletem seus próprios interesses e crenças, assim como os de lideranças de suas igrejas ou movimentos dentro de suas igrejas. Não representam o pensamento majoritário dos fiéis, são apenas a parte mais barulhenta do cada vez mais complexo panorama religioso do Brasil.

 

É necessário fazer uma distinção entre o que pensam as lideranças e o que pensam os fiéis, estes que não estão a serviço das barganhas daquele que é possivelmente o Congresso mais corrupto da história recente e que vivem o cotidiano cada vez mais afogado de um trabalhador e de uma trabalhadora no país.

 

Mas, quando os atos oportunistas da “bancada religiosa” ou da “bancada evangélica” ou da “bancada da Bíblia” são denunciados, por mais verdades que essas denúncias contenham, os brasileiros que são religiosos, especialmente evangélicos, e aqueles que pautam suas ações pelos preceitos bíblicos sentem-se de imediato ofendidos. Neste caso, o reflexo é se aliar a tais deputados, na lógica do “nós contra eles”, mesmo que, se vissem de perto os atos de tais personagens, ficassem horrorizados.

 

Essa é outra esperteza política desses representantes que se legitimam com o nome daquilo que seus atos desmentem que praticam. E buscam travestir seus interesses em ganhos privados com a aura de uma “guerra santa” – ou de uma “guerra moral”.

 

É surpreendente que denominações religiosas e fiéis que testemunham tanta sacanagem ser feita em nome de Deus não tenham uma resposta responsável diante dos vendilhões

 

Neste sentido, é surpreendente que denominações religiosas e fiéis que têm testemunhado a religião ser usurpada e tanta sacanagem ser feita em nome de Deus não tenham uma resposta mais forte e mais responsável diante desses vendilhões. É surpreendente esse silêncio especialmente com relação a denominações evangélicas sérias, com atuação consistente, que têm presenciado o nome dos evangélicos ser enxovalhado no Congresso. Até agora as reações são tímidas demais diante do que tem sido feito em seu nome.

 

Quem faz o que os 18 fizeram está claramente bem pouco preocupado com valores cristãos ou com a vida real da população. Mas, ao se ligarem à religião, se revestem de uma aura que os legitima num Brasil de população massivamente religiosa.

 

Dizer e viver o que se diz são categorias diversas, como se sabe. As eleições de 2018 podem ser um momento importante para, usando uma expressão da Bíblia, separar o joio do trigo. Para quem acha crucial votar em uma pessoa religiosa, não basta saber a religião a que o candidato diz pertencer, é preciso prestar atenção aos seus atos concretos.

 

O que a escravidão tem a ver com isso?

 

 

Com a marca racial da desigualdade brasileira, os direitos só serão ampliados quando existirem mais negros nos espaços de poder, e principalmente mulheres negras. Porque são elas as mais afetadas pela falta de políticas públicas, em especial de saúde, educação e mobilidade, assim como pela acelerada corrosão dos direitos do Brasil atual. São elas que não conseguem “resolver de outro jeito” e portanto precisam do acesso aos equipamentos públicos para garantir seus direitos.

 

Assim, os 18 e seu grupo riem, batem palmas e comemoram não apenas terem aprovado em comissão uma sacanagem com as mulheres no geral, mas uma sacanagem principalmente com as mulheres negras. É também um jeito de continuarem a botar uma mão violenta sobre o corpo delas, uma prática em vigor no Brasil desde a escravidão.

 

Nenhum outro ser humano foi mais afetado pelo controle dos corpos do que as mulheres negras, que por séculos foram reprodutoras de força de trabalho, foram “mães de leite” de sinhozinhos, foram estupradas e torturadas continuamente por senhores e seus filhos e foram exploradas também por mulheres brancas a quem eram colocadas a serviço.

 

Essa situação não mudou de forma significativa com a “abolição” da escravatura de 1888, como se sabe. Mas continuou na instituição da “empregada doméstica” e seu quarto-senzala nos fundos da casa ou apartamento. Até bem pouco tempo atrás era prática corriqueira, e em alguns lugares ainda persiste, que os filhos dos patrões tivessem a iniciação sexual com a jovem empregada da casa, em geral negra. E quando isso resultava numa gravidez, elas simplesmente eram expulsas como “vagabundas”, com a cumplicidade, quando não crueldade explícita, da dona de casa branca.

 

São também essas mulheres, a maioria delas negras, que cuidam dos filhos dos patrões brancos sacrificando o cuidado com seus próprios filhos, crianças e adolescentes que vivem em casas precárias, em lugares sem saneamento básico, e sem acesso a creches e escolas de qualidade. Isso quando não morrem de bala “perdida” da Polícia Militar, como tem acontecido com tantas crianças nas comunidades periféricas do país, em especial no Rio de Janeiro.

 

A escravidão negra, por nunca ter de fato terminado, segue se reproduzindo em formas cada vez mais criativas no Brasil

 

Desde a política falida da chamada “Guerra às Drogas” são também essas mulheres negras que têm seus filhos assassinados. E também são elas que são encarceradas com a justificativa de “tráfico”, seguidamente sem julgamento. A escravidão, por nunca ter de fato terminado, segue se reproduzindo em formas cada vez mais criativas no Brasil.

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Assim, o que os 18 fizeram não se constitui apenas numa tremenda sacanagem com as mulheres, mas é também uma ação racista, porque são as negras que compõem a maioria afetada se o projeto for adiante. Como os velhos senhores, eles continuam querendo controlar os corpos do que consideram propriedade sua para gozar com seu sofrimento e seu jugo.

 

É disso que se trata, mesmo que muitos prefiram não enxergar, para não se arriscar à imagem que os encara do espelho.

 

Leia mais. Conheça os nomes dos 18 

 

 

 

 

24
Nov17

Os 18 do forte retrocesso contra os direitos das mulheres

Talis Andrade

 


Como o Congresso brasileiro se tornou o melhor lugar para homens que odeiam as mulheres, especialmente as negras

 

OS 18 VENDILHÕES

 

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Os 18 e seu grupo ficaram eufóricos em 8 de novembro porque eles não tinham feito uma sacanagem só: tinham feito duas.

Estes são os 18 que, com seu voto, permitiram a comemoração: Gilberto Nascimento (PSC), Leonardo Quintão (PMDB), Givaldo Carimbão (PHS), Mauro Pereira (PMDB), Alan Rick (DEM), Sóstenes Cavalcante (DEM), Jorge Tadeu Mudalen (DEM), Marcos Soares (DEM), Pastor Eurico (PHS), Antônio Jácome (PODE), João Campos (PRB), Paulo Freire (PR), Jefferson Campos (PSD), Joaquim Passarinho (PSD), Eros Biondini (PROS), Flavinho (PSB), Evandro Gussi (PV) e Diego Garcia (PHS).

 

Para saber as safadezas que os três poderes promovem contra o Brasil e o povo em geral, temos que ler a imprensa estrangeira. Prisões de ex-governadores são despitamentos, o me engana que eu gosto, que logo todos estarão soltos no gozo de uma vida de luxo e luxúria. De um texto de Eliane Brum, transcrevo as frases destacadas pelo jornal espanhol El País:

 

As mulheres não terão mais o direito de abortar em caso de estupro, risco de morte e feto anencéfalo.

Numa canetada só, os 18 adiaram a ampliação da licença-maternidade em casos de prematuros e ameaçaram conquistas da sociedade do tempo das avós.

Os odiadores de mulheres usam a religião para se legitimar enquanto traem os valores de fato cristãos.

Para achar possível obrigar alguém a ter um filho do estuprador é necessário gozar com o sofrimento das mulheres.

Como, “em nome da vida”, os 18 podem tirar o direito de uma mulher escolher não morrer?

Como uma pessoa humana pode condenar uma mulher a viver uma gestação em que ao final terá um caixão e não um berço?

A armadilha é óbvia: a luta das mulheres deixou de ser pela ampliação de direitos e passou a ser para não perder direitos.

Hipocrisia à brasileira: há um país que pode fazer aborto e outro, muito maior, que morre ao tentar fazê-lo.

No Brasil, os direitos só serão ampliados quando existirem mais mulheres negras ocupando espaços de poder.

A escravidão negra, por nunca ter de fato terminado, segue se reproduzindo em formas cada vez mais criativas no Brasil.

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