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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

06
Abr21

Brasil: um país sadomasoquista

Talis Andrade

 

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por Rubens R.R. Casara

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Pseudo-conservadorismo cristão

Em recente (e polêmica) declaração, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil é um país conservador e cristão, o que  explicaria os índices de aprovação do modo bolsonarista de conduzir a nação. Não é verdade.

Em um país marcado por índices de desigualdade, violência, exploração e insegurança elevadíssimos, “não há muito o que conservar”, diria um verdadeiro conservador. De igual sorte, os valores historicamente associados à imagem de Cristo, que segundo a narrativa bíblica foi um líder perseguido, torturado e morto pelos detentores do poder político, dificilmente se mostram hegemônicos em um país que aplaude e vota massivamente em defensores da tortura e da violência estatal.

Se o conservador autêntico defende o capitalismo, limitado por valores legais, éticos e religiosos, inclusive adotando algumas posturas anti-repressivas, recatadas e não necessariamente egoístas, o pseudo-conservador se caracteriza tanto pela apropriação fundamentalista dos valores hegemônicos da classe média (sejam democráticos ou não) quanto pela distorção dos valores liberais e religiosos, em clara adesão ao modelo neoliberal de capitalismo, que se caracteriza pela desconsideração de qualquer tipo de limite na busca por lucros ou vantagens pessoais. Mas, não é só.

O Cristo que aparece no discurso bolsonarista é uma figura limitada à concepção de religião como um contrato que visa negociar a fé na busca por bens materiais e vantagens pessoais. A religação entre o indivíduo e Deus adota a forma de um negócio que mira no lucro. E, esse mesmo Cristo, esvaziado de valores como a solidariedade e o amor ao outro, passa a ser usado como um instrumento de legitimação tanto de uma espécie de “vale-tudo” dos “verdadeiros cristãos” contra as forças demoníacas quanto da demonização do “comum”. Demoniza-se a esfera do inegociável e, em certo sentido, toda uma tradição cristã que parte da opção preferencial pelos pobres. Pode-se, portanto, falar na construção de um (anti)Cristo que torna o egoísmo uma virtude, defende a violência/tortura e faz da solidariedade uma fraqueza.

 

A terra da perversão? Gozar ao violar limites          

O bolsonarismo pode ser pensado como o efeito da aproximação de dois fenômenos: a dessimbolização capitalista e a tradição autoritária em que o brasileiro se encontra lançado. O empobrecimento da linguagem, o desaparecimento dos limites (éticos, jurídicos, estéticos, civilizacionais etc.), o anti-intectualismo e a crença tanto na hierarquização entre as pessoas quanto no uso da violência para resolver os mais variados problemas sociais compõem um quadro que aponta não só a ruptura do laço social (as pessoas não se relacionam mais com outras pessoas, mas apenas com objetos) como também um funcionamento perverso da sociedade e dos indivíduos. A violação dos limites torna-se um fenômeno naturalizado.

Por um lado, o capitalismo leva à percepção de que tudo e todos são objetos negociáveis (por vezes, descartáveis) em meio a cálculos de interesses na busca por lucro e vantagens pessoais. Instaura-se uma espécie de “vale-tudo”. No Brasil governado por Bolsonaro, não há, portanto, a defesa de valores tradicionais e percebidos como positivos, mas o desaparecimento de todo valor, princípio ou regra que possa ser tido como obstáculo aos interesses dos detentores do poder político e/ou econômico.

De outro, a ausência de rupturas democráticas fez com que práticas autoritárias tenham se tornado aceitáveis e percebidas como inevitáveis. No Brasil, fomos incapazes de elaborar satisfatoriamente fenômenos como a escravidão e a ditadura militar, o que faz com que se naturalize a hierarquização entre as pessoas e se idealize o regime militar instaurado em 1964, produzindo uma espécie de “retrotopia” (Bauman), na qual parcela da população deseja o retorno a um regime de segurança, tranquilidade e honestidade que nunca existiu.

Como em todo período autoritário, o governo de Bolsonaro busca uma aderência aos “valores” da classe média, percebida pelos ideólogos do governo como racista, sexista, preconceituosa e muito ignorante. “Valores” que acabam prestigiados, porque não só são inofensivos como também ajudam à manutenção do projeto neoliberal. Não por acaso, práticas discriminatórias, violências policiais e violações das normas de cuidado com o outro, que são objetos de aplausos de uma considerável parcela da população, passam a ser naturalizadas e até incentivadas pelos detentores do poder político. Ao mesmo tempo, o governo demonstra uma oposição a tudo o que é da esfera do criativo e sensível. Demoniza-se a compaixão e a empatia enquanto se percebe a preocupação em reforçar a dimensão domínio-submissão, ao afirmar desproporcionalmente os valores “força” e “dureza”.

É a junção entre a racionalidade neoliberal, um modo de pensar e atuar que se tornou hegemônico no atual estágio do capitalismo, e a natureza autoritária de ampla parcela da população brasileira que permite excluir a hipótese de que o Brasil é um país “conservador e cristão” e substituí-la pela constatação que ele se torna cada dia mais um país sadomasoquista (e nisso não há qualquer relação à curiosidade presidencial pela prática do “golden shower”).

Para considerável parcela da população brasileira, correlata à atitude submissa e acrítica diante daqueles a quem considera “superiores”, há uma tendência a posturas intolerantes e agressivas direcionadas contra todos aqueles a quem considera “inferiores” ou “diferentes”. São pessoas que foram formatadas para naturalizar e até sentir prazer com o sofrimento e a dor, tanto alheia quanto própria. Assim, aplaudem medidas que são flagrantemente contrárias aos seus interesses e direitos, bem como reproduzem condutas que identifica no “grupo moral” que o despreza e ao qual gostaria de pertencer.

O indivíduo sadomasoquista se submete acriticamente à autoridade idealizada e deseja um líder forte capaz de decidir por ele, limitando os riscos e desafios inerentes ao pleno exercício da liberdade.  Vale dizer que se trata de uma postura que ultrapassa o respeito realista e equilibrado relacionado à autoridade legítima, mas que se aproxima de uma necessidade pulsional de se submeter e, por vezes, se humilhar. Ao mesmo tempo, verifica-se em grande parte da população um desejo de sacrificar seus prazeres, seus direitos e suas garantias fundamentais se isso significar a vingança e a punição dos “inimigos” (ainda que imaginários) ou, ainda, a manutenção da distancia social em relação àqueles a que considera inferiores.

Diante desse quadro, pode-se falar em uma perversão baseada em um modo de satisfação individual ligado ao sofrimento do outro ou ao que se origina do sujeito humilhado. Como já percebia Freud (1905), “o sádico é sempre e ao mesmo tempo um masoquista”. Tem-se, aqui, uma inter-relação de duas posições (componente sádico e componente masoquista) que se fazem presentes nos conflitos intersubjetivos (dominação-submissão) e na própria estruturação psíquica das pessoas.

Ao tomar o outro ou a si próprio como objeto, bem de acordo com a racionalidade neoliberal, o sujeito exprime uma agressividade prazerosa. A dor do outro e próprio fracasso passam a ser vistos como positividades, bem de acordo com a lógica das mercadorias que passa a reger a percepção de todos os fenômenos. Mais do que melhorar de vida, o indivíduo neoliberal-autoritário se contenta em ver os mais pobres fracassarem no projeto de reduzirem a distância social entre as classes. Mais do que o fim dos preconceitos que o atingem, o indivíduo neoliberal-autoritário deseja ver a manutenção dos poucos privilégios que mantém (por vezes, o “privilégio” de ser homem ou branco).

O que o presidente chama de “conservador e cristão”, saiba ele ou não, são indivíduos perversos que por medo da liberdade, por força da crença na violência, do ódio ao saber ou da manutenção dos preconceitos de gênero, de raça, de classe e de plasticidade apoiam (ou, ao menos, aceitam) o desmatamento criminoso da Amazônia, o aumento da violência doméstica, a redução dos direitos trabalhistas e previdenciários, a violência policial, o crescimento dos grupos paramilitares,  o desmonte da educação pública, as mortes evitáveis diante da pandemia em razão do Covid 19, dentre outras ações que causam sofrimento. Sem recorrer ao conceito de sadomasoquismo fica difícil explicar o Brasil.

soldadinhos de chumbo ou plástico ... tanto faz.

 

26
Mar21

"Sei que é um gesto bacana..."

Talis Andrade

 

genildo supremacia.jpg

Laura Sabino
Governo Bolsonaro: -Secretário recitando discurso nazista -Filipe Martins postando poema do manifesto do atirador da Nova Zelândia e fazendo símbolo supremacista -Paulo Guedes elogiando o ministro do Terceiro reich -Ex líder da KKK dizendo q Bolsonaro soa como eles 
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 𝐋𝐄𝐎 
@Leonardo_alcnt
a primeira imagem é do supremacista Brenton Tarrant, autor de massacre em duas mesquistas na Nova Zelândia, que deixou 49 muçulmanos mortos, e a outra é de Filipe Martins, assessor de Bolsonaro, durante sessão no Senado
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Reinaldo Azevedo
O gesto de Filipe Martins pode ser um aceno a extremistas? "Ah, isso é pura ilação. É só um vai tomar caracu". Bem, de todo modo, seria inaceitável, certo? Quanto à hipótese de Martins estar evocando o movimento supremacista, dizer o quê? Há, quando menos, coincidências que...
não podem ser ignoradas. Brenton Tarrant, o australiano que matou 51 pessoas em ataques a tiros a duas mesquitas na Nova Zelândia, no dia 14 de março de 2019, fez o gesto que Martins repetiu no Senado ao ser fotografado ao lado de dois policiais...
Análise: Reinaldo Azevedo - Pacheco tem de exigir a demissão de assessor. Ou começa a se desmoral...
Errarão todos aqueles que, em algum momento, apostarem que este governo e seus próceres já...
Blog do Noblat
Filipe Martins é uma fraude até quando se diz judeu. Só é judeu quem nasce de mãe judia. Meus filhos são, por exemplo, porque a mãe é, e a avó materna, e a bisavó, e por aí vai. A mãe de Filipe não é judia.
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247 - Um apoiador de Jair Bolsonaro foi tirar uma foto com ele e fez com a mão o gesto símbolo dos supremacistas bancos. Bolsonaro afirmou no ato: "sei que é um gesto bacana, mas não pega bem pra mim". Assista ao vídeo  seguir. Não há informação sobre a data do vídeo. Na quarta-feira (24), o Brasil ficou chocado com um gesto supremacista branco feito por Filipe Martins, assessor internacional da presidência da República, durante uma sessão no Senado

20
Fev21

Lava Jato, mídia e os 11 princípios de Joseph Goebbels

Talis Andrade

Operação Lava Jato vai virar série na Netflix

 

Os abusos que, na ditadura civil-militar, transitavam do general ao guarda da esquina, agora também transitam nos arroubos autoritários de juízes de piso atuando descontroladamente

por Carol Proner

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A Lava Jato não existiria sem uma aliança bem ajustada com setores da mídia para, por meio de notícias espetaculosas, comprometer a imagem de acusados antes mesmo da instauração de processos formais. Essa fórmula obedeceu o modelo importado das “forças-tarefa” dos Estados Unidos, conforme revelam informações sobre cursos de treinamento em cooperação internacional de procuradores e agentes da polícia federal.

O Papa Francisco, ao perceber o uso da mídia em processos de perseguição judicial na América Latina, passou a se insurgir publicamente contra o que considerou um grave problema da justiça penal. O Pontífice ensaiou uma explicação para o fenômeno: “O lawfare ocorre quando são imputadas acusações falsas contra dirigentes políticos, promovidas conjuntamente pelos meios de comunicação e órgãos judiciais colonizados” (...) “O sempre necessário combate à corrupção é instrumentalizado, por meio do lawfare, para combater governos indesejáveis, reduzir direitos sociais e promover um sentimento de antipolítica do qual se beneficiam os que aspiram a exercer o poder autoritário: a macro delinquência das corporações” 

O jurista argentino Eugenio Zaffaroni também abordou o tema do lawfare em entrevista na qual comentou a degradação política e institucional que ocorreu na Argentina. Tendo sido, até recentemente, juiz da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Zaffaroni toma como referência os 11 princípios de Joseph Goebbels para descrever o raciocínio ideológico por trás do fenômeno das guerras jurídicas. Segundo ele, “o lawfare de hoje usa as mesmas técnicas, embora com uma tecnologia mais refinada”.  Será que a comparação dos 11 princípios vale para o Brasil? 

Alguém diria, que exagero! Comparar o diabólico projeto de propaganda nazifascista ao raciocínio ideológico subjacente à Lava Jato, é um pouco demais.

Porém, lembro-me de extravagâncias marcantes na propaganda publicitária da megaoperação, como a preferência por “camisas negras” no vestuário de Sérgio Moro. O juiz nega a associação com os “camisas-negras” do fascismo de Mussolini, mas é inegável a violência real e simbólica de seus interrogatórios em audiências, os abusos às garantias do processo penal e outras “licenças” que disse ter trazido da influencia italiana da Operação Mani Pulite.  Isso sem contar a justificativa do “estado de necessidade”– combater a corrupção sistêmica transnacional –  alardeada com a ajuda da imprensa para justificar exceção ao devido processo, algo que aproxima a corrompida República de Weimar da República de Curitiba.

Delegados abraçam sede da PF em Porto Alegre em apoio à Lava Jato, março 2016

 

Efetivamente, os 11 princípios da propaganda nazista podem nem ser do conhecimento do bando de procuradores ou do próprio juiz. A camisa negra pode ser apenas mau gosto, mas há coincidências impressionantes e que sugerem que na Lava Jato nada acontece por acaso. 

Vejamos como se adaptam os princípios de Goebbels à Operação Lava Jato:

1º. Princípio da simplificação e do inimigo único. Apregoa a simplificação, e não a diversificação, na escolha de um inimigo único. Deve-se escolher um inimigo por vez: o Nine.  Deve-se ignorar o que os outros fazem e concentre-se em um até acabar com ele:  “Depois de ontem, precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1)” (...)“Vamos torcer pra esta semana as coisas se acalmarem e conseguirmos mais elementos contra o infeliz do Lula”.  

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2º. Princípio do método de contágio: Deve-se reunir diversos adversários em uma só categoria. Os adversários devem se constituir em uma soma individualizada, contagiada:  lulismo, petismo, lulopetismo, expressões amplamente difundidas pela imprensa como sinônimos de corrupção tanto no Mensalão como na Lava Jato.

3º. Princípio da Transposição. Deve-se transladar todos os males sociais a este inimigo e, se não puder negar más notícias, deve-se inventar outras que as distraiam. Este mandamento lembra muito a associação que a mídia fez com o PT como sendo a origem de todo o mal da corrupção no país, do Mensalão à Lava Jato. Apenas como exemplo, um editorial do Jornal O Globo de 2015 definiu como título: “O DNA da corrupção no lulopetismo”.

4º. Princípio da Exageração e desfiguração. Deve-se exagerar as más notícias até o ponto de desfigurá-las, transformando um delito pequeno ou menor em ameaça grave, em mil delitos, criando assim um clima de profunda insegurança e temor. O medo difuso da corrupção associado a capas de revista e cobertura da imprensa geraram um clima de agressividade e ódio contra o inimigo número 1. O auge do grotesco foi a capa da revista Veja – edição 2496 –  que trouxe um ataque violento contra o ex-presidente Lula. A agressão, que também foi um plágio da revista norte-americana Newsweek, trouxe a imagem da cabeça decapitada de Lula, com um fundo totalmente vermelho gerando um efeito similar a sangue escorrendo ou um líquido fluindo como se indicasse um derretimento. A mesma figura havia sido estampada na capa de uma edição da Newsweek de 2011, após a morte do presidente líbio Muammar Kadafi.Resultado de imagem para capas revista veja

5º. Princípio da Vulgarização. Toda a propaganda deve ser popular e adaptada ao nível mais elementar entre os destinatários. Quanto maior seja a massa a convencer, menor será o esforço mental a realizar. O objetivo do principio é transformar tudo numa coisa torpe e de má índole de modo que as ações do inimigo sejam compreendidas como vulgares, ordinárias, fáceis de descobrir. Aqui, o exemplo mais evidente é o uso do Power Point em rede nacional para apontar com flechas o inimigo número 1: “Não temos provas, temos convicção”

6º. Princípio da Orquestração. A propaganda deve limitar-se a um número pequeno de ideias que devem ser repetidas incansavelmente, apresentadas uma e outra vez desde diferentes perspectivas, mas sempre convergindo para um mesmo conceito, sem fissuras nem dúvidas. Deve-se fazer ressonar os boatos até se transformarem em notícias, sendo estas replicadas pela “imprensa oficial’. Aqui os exemplos são inúmeros, frases de efeito, símbolos associativos, pixulecos com roupa de presidiário, verdadeiras campanhas publicitárias para massacrar a imagem pública de Lula e do PT: “Lula ladrão. Basta de corrupção. Sua hora chegou corrupto” (pichação no muro do Instituto Lula em 2016). Cito também uma expressão atribuída ao jornalista Reinaldo Azevedo e que consagrou a ideia de petista como corrupto: petralha Resultado de imagem para insttuto lula pichacao

7º. Princípio da Renovação. Há sempre que se emitir informações e argumentos novos a um ritmo tal que, quando o adversário responda o público, este já está interessado noutra coisa. A respostas ao adversário nunca devem superar o nível crescente de acusações, um bombardeamento de notícias (sobre o inimigo escolhido) para que o receptor não tenha tempo de pensar, pois está sufocado por elas. Aqui também os exemplos são fartos e a chamada “narrativa da Lava Jato” prevaleceu muito tempo encobrindo os verdadeiros fatos. Nesta última leva de diálogos da Spoofing, há um trecho em que Sérgio Moro questiona os procuradores: “Não é muito tempo sem Operação?”

8º. Princípio do Verossímil. É necessário construir argumentos a partir de fontes diversas, a partir dos chamados globos sondas ou de informações fragmentadas para diversificar opiniões por meio de interpretações de especialistas, mas todas opiniões contra o inimigo escolhido. Aqui entra em jogo a máquina de propaganda da Lava Jato: de séries da Netflix a outdoors com a foto da Liga da Justiça contra a corrupção, incluindo quiosques em aeroportos com dinheiro de mentira para criar um clima de revolta seletiva . Articulistas em jornais de grande circulação desenvolveram a fundamentação e a justificativa que contribuiu para o clima de vale-tudo contra a corrupção.PREMIOS...Resultado de imagem para lava jato netflix

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9º. Princípio do Silêncio. Deve-se silenciar as informações sobre as quais não se têm argumentos e dissimular ou ocultar as notícias que favorecem o adversário. É importante ocultar toda a informação que não seja conveniente. O principal exemplo aqui é a tentativa de censurar todo o material que emergiu com os vazamentos tanto na Vaza Jato como na Spoofing, ao mesmo tempo em que também atua o corporativismo e a cumplicidade de todos os envolvidos na grande trama da Operação Lava Jato, incluindo os órgãos correcionais, que engavetaram procedimentos administrativos e judiciais, e a censura seletiva da mídia. 

10º. Princípio da Transferência.  A regra geral da propaganda opera sempre a partir de um substrato preexistente, ou seja, uma mitologia nacional, um complexo de ódios, de preconceitos tradicionais. Então aqui o que vale é difundir argumentos que possam arraigar em atitudes primitivas. Talvez este seja o mais perverso dos princípios, pois que potencializa o ódio fascista ressignificado nos preconceitos contra a esquerda, contra os negros e as cotas, contra o nordestino, contra o petista e tudo o que possa remeter ao projetos de inclusão social das últimas décadas. Conforme já referido nos exemplos anteriores, como as odiosas capas de revista, todo o jargão antipetista levou as pessoas ao ponto de pendurarem pixulecos de Lula enforcados nas janelas das casas, efetivamente arraigando atitudes primitivas e violentas.Resultado de imagem para pixulecos

11º. Princípio de Unanimidade. O último princípio funciona como amalgama aos demais, buscando a convergência em assuntos de interesse geral para apoderar-se do sentimento de clamor popular contra o inimigo escolhido. A sensação que se busca é a da unanimidade, a de que “todo mundo pensa assim”. Aqui atinge-se o senso comum que opera a licença para exercer a “exceção” contra o inimigo, o “estado de exceção”. Muitos exemplos poderiam ser lembrados, mas o que melhor ilustra é a própria ascensão de Jair Bolsonaro, consequência direta da propaganda lavajatista. Lembremos do discurso odioso que o Capitão proferiu logo após ser eleito em 2018, projetando um clima de ódio como jamais visto no país.

Muitas outras associações poderiam ser feitas, mas sem dúvida a chegada da extrema direita ao poder sintetiza o resultado da produção do sentimento fascista que é alicerce da Lava Jato. A extrema direita chegou ao poder no embalo do sentimento antipetista que promoveu a prisão política de Lula com a condescendência dos demais poderes e com a tutela militar de plantão para qualquer inconveniente. 

E a condescendência traz o efeito da normalização das condutas arbitrárias. Os abusos que, na ditadura civil-militar, transitavam do general ao guarda da esquina, agora também transitam nos arroubos autoritários de juízes de piso atuando descontroladamente (Recordemos o recente episódio do juiz substituto Waldemar Cláudio de Carvalho, da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, que decidiu simplesmente não cumprir a decisão do ministro Ricardo Lewandowski, de garantir ao ex-presidente Lula acesso a mensagens obtidas na Operação Spoofing). 

O juiz Waldemar Cláudio de Carvalho

Juiz Waldemar Cláudio de Carvalho 

06
Jan21

A porção perversa da alma do povo

Talis Andrade

 

Por Bepe Damasco

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As pessoas estão perdendo filhos, pais, mães, avós, tios, primos e amigos, vítimas de mortes evitáveis em muitos casos, se não estivéssemos sob um governo que cultua a morte.

Mas, estranhamente, a defesa do bem mais precioso de qualquer ser humano, a vida, não é motivo suficiente para uma revolta da vacina às avessas. 

E 200 mil mortos são três Maracanãs lotados.

Essa tragédia sem precedentes na história não é suficiente para que os brasileiros e brasileiras cerquem o Palácio do Planalto, pelo menos virtualmente, e exijam vacina imediatamente, além da saída do genocida que ocupa a cadeira presidencial.

Desnecessário entrar em detalhes acerca do papel nefasto da longa dominação de 520 anos da Casa Grande para o baixo nível de consciência política da nossa gente.

A exploração brutal dos mais humildes pela burguesia e a dificuldade de acesso à educação de qualidade também são fatores que ajudam a explicar o quadro de subcidadania.

Mas os pesquisadores do futuro certamente “queimarão a mufa” para decifrar um fenômeno de tamanha complexidade.

O próximo a morrer pode ser o filho, a esposa ou a mãe do sujeito, mas a iminência de uma perda irreparável é incapaz de impedir que ele ande sem máscara, que vá à praia, que se aglomere em festas e bares. E tem de tudo no desafio insano à Covid-19: do povão às classes média e alta.

Os que adotam esse comportamento egoísta revelam total falta de empatia e solidariedade para com o próximo, se transformando conscientemente em agentes da propagação do vírus, da doença e da morte.

Para não incorrer no erro crasso da generalização, cumpre registrar que não me refiro obviamente neste texto à totalidade do povo brasileiro, nem mesmo à maioria, mas sim à parcela expressiva dele.

Desta feita, nem a falta de informação serve como justificativa, dado o verdadeiro bombardeio dos veículos de comunicação acerca das medidas de proteção necessárias para conter a disseminação do vírus.

A ciência política, a sociologia e a antropologia são insuficientes para explicar e entender a alma do povo deste país. Causa perplexidade ver as pessoas se deixando matar bovinamente. 

Ah, mas esse mesmo povo elegeu Lula e Dilma em quatro eleições presidenciais consecutivas, dirão muitos. 

Sim, mas boa parte desse eleitorado nunca deixou de dar a impressão de que assim que passasse um cavalo encilhado que refletisse o racismo, a homofobia, a misoginia e o anticomunismo mais tosco presentes na sociedade estaria pronta para montar. Deu no que deu. 

Vastos setores da esquerda adotam um tom paternalista quando se trata de analisar a adesão popular a causas obscuras. Debitar tudo na conta das debilidades e erros da própria esquerda costuma ser o diagnóstico padrão.

Claro que é importante enfatizar que a elite escravocrata do país e seu ódio devotado aos negros e pobres, conforme apontado pelo professor Jessé de Souza, são elementos sólidos para a compreensão das nossas mazelas como nação.

Isto posto, penso que passar pano em posturas anticientíficas, egoístas e atentatórias à saúde pública não contribui para que possamos atravessar a tormenta e construir um país mais justo, igualitário, soberano e efetivamente democrático.

24
Nov20

Pessoas negras são apenas 3% dos servidores de nível superior do Rio Grande do Sul

Talis Andrade

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A engenheira civil Josi Beatriz Viegas Cunha, servidora do Estado há vinte anos, hoje trabalha na Secretaria de Obras /Foto Ivan Pereira/Sintergs
 
 

Curitiba e Joinville elegeram suas primeiras vereadoras negras. No Rio de Janeiro a negra Benedita da Silva perdeu a eleição para prefeita. No Rio Grande do Sul 3 por cento dos servidores negros possuem nível superior

 

Jornal Já - Pesquisa realizada pela PUCRS com associados do Sindicato dos Servidores de Nível Superior do Rio Grande do Sul (Sintergs) mostra que apenas 3% dos funcionários públicos com graduação são pretos. Entre os 366 participantes, 5,7% são pardos e 0,3%, indígenas. Brancos chegam a 91%. Os dados fazem parte de estudo realizado em 2020 e serviram de base para a cartilha lançada pelo Sintergs em outubro.

A baixa representatividade de negros no serviço público, especialmente em cargos de nível superior, demonstra a dificuldade de acesso à educação de qualidade. Angela Antunes, diretora do Sintergs, frisa a  importância de questionar a desigualdade e assumir que há privilégios em ser branco, como primeiro passo para uma mudança.

“Entender a necessidade das cotas, da dívida histórica do Brasil com os afrodescendentes e indígenas e desmitificar a meritocracia, como se todos tivessem acesso às mesmas condições, é fundamental”, avalia Angela. Ela lembra que o Dia Nacional da Consciência Negra tem sua raiz em solo gaúcho, no Grupo Palmares, em Oliveira Silveira, Antonio Carlos Côrtes e outros militantes negros e negras. “Que o 20 de novembro conscientize também a branquitude”, apela.

Educação contra racismo

Abidemi significa “aquela que chegou antes”. O nome que rebatizou Josi Beatriz Viegas Cunha no batuque traduz o sentido que ela tem para sua comunidade. Mulher preta forte e pioneira, abriu caminhos para si pela educação. Mas revela que não cresceu sozinha – teve a força de sua ancestralidade e o apoio de pai, mãe e irmãs. As guias no pescoço e o dread nos cabelos há 21 anos são marcas de Josi. Mais do que mudar paradigmas, ela diz que carrega suas referências como forma de assumir seu estilo e sua crença na religião afrobrasileira.

Formada em Engenharia Civil pela PUCRS como aluna destaque da turma de 1993, é servidora estadual há 20 anos. Começou sua trajetória na Secretaria de Educação e hoje trabalha na Secretaria de Obras. Desde que ingressou no serviço público, ela tem consciência de seu papel para ajudar a melhorar a vida das pessoas. “O posto de saúde vai para a comunidade preta, a escola estadual vai para a comunidade preta”, conta, motivada pelo trabalho que realiza.

Na carreira, os desafios são grandes. “Minha posição não é de inferioridade, mas estou atrás até de quem entrou agora. Vejo que colegas brancas que fizeram faculdade já chegam em patamar superior, mesmo eu ganhando financeiramente mais, elas têm mais acesso. Tive de ser melhor do que homem branco e que mulher branca, ser a melhor das melhores, pois, além de ser mulher, sou preta”, explica.

“Às vezes, olham pra mim e dizem que as cotas não são necessárias: se tu conseguiste, outros também conseguem. Mas um dos meus anjos, homem preto que conseguiu meu primeiro estágio, não se formou. Faltou suporte familiar e econômico. Meus pais abriram mão de conquistas para eu me formar, eu abri mão. Meu pilar era de madeira, não era de concreto. Não havia estrutura, por isso a necessidade de reparação.”

22
Nov20

No Mês da Consciência Negra, AMEPE lança cartilha Racismo nas Palavras

Talis Andrade

Expressões racistas são rotineiramente repetidas sem que as pessoas se deem conta disso. Atenta a isso e pautada pelo compromisso social, a Associação de Magistrados de Pernambuco (AMEPE), por meio da sua Diretoria de Direitos Humanos, lança a cartilha "Racismo nas Palavras". A iniciativa faz parte das ações do Mês da Consciência Negra e tem como objetivo provocar reflexão, informar e contribuir para desconstruir atitudes racistas cotidianas.

BAIXE AQUI A CARTILHA

"A publicação dessa cartilha faz parte de uma gama de ações promovidas pela AMEPE voltadas contra o racismo. A ideia é pontuar o racismo no cotidiano e propor uma  nova perspectiva quanto ao uso das palavras de forma mais consciente e antirracista, rompendo com a perpetuação de expressões negativas associadas à população negra", explica a diretora de Direitos Humanos da AMEPE, juíza Luciana Tavares. A cartilha está disponível para download no site da AMEPE (www.amepe.com.br). 

Sobre a necessidade de promover o debate em relação ao racismo, a diretora-adjunta da pasta, juíza Ana Paula Costa de Almeida, lembra que, no Brasil, "os 300 anos de escravidão deixaram como legado uma dívida histórica com a população negra, que, até hoje, tem direitos básicos negados ou vilipendiados de forma sistemática. No Judiciário, observa-se o racismo institucional, onde poucas são as juízas e juízes negros, e menos ainda, dentre essa minoria, aqueles que exercem funções estratégicas e hierarquicamente superiores. Nesse contexto é que surge a cartilha acerca de expressões racistas que precisam ser excluídas de nosso vocabulário. Essa é mais uma iniciativa da entidade nesse sentido, assim como foi o curso 'Racismo e suas Percepções na Pandemia' promovido pela AMEPE no último mês de setembro em parceria com a Esmape", destacou a juíza Ana Paula.

O conteúdo e design da cartilha foram produzidos pela equipe da AMEPE, sem custo extra para a entidade. A iniciativa da AMEPE é inspirada na cartilha produzida pelo Ministério Público do Distrito Federal e o Governo do DF.

O lançamento desta Cartilha e de Seminário sobre racismo provocaram revolta na Apepe por uma minoria de juízes suprematistas. Leia o asqueroso e odiento manifesto

 

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20
Nov20

Primeira mulher negra eleita vereadora em Curitiba, Carol Dartora (PT)

Talis Andrade

Carol Dartora (PT)

"Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação", diz Carol Dartora. Foto Joka Madruga

 

"A eleição de uma mulher negra parecia um muro intransponível". Carol Dartora fala sobre o racismo na cidade, o exemplo de Marielle e a necessidade de a esquerda abraçar lideranças negras e mulheres

 

Nascida e criada em Curitiba, a professora Carol Dartora, de 37 anos, sempre precisou responder a uma pergunta incômoda: de onde você veio? Entre praças e monumentos que homenageiam países europeus, suas tranças e turbantes afro faziam dela uma estrangeira em sua própria terra.

A sensação de não pertencimento serviu de combustível para Carol entrar na política e tentar, assim, construir uma cidade mais democrática. No último domingo (15/11), ela se tornou a primeira mulher negra eleita para a Câmara dos Vereadores de Curitiba, pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Foram mais de 8 mil votos, a terceira maior votação entre os vereadores eleitos na cidade.

Em entrevista à DW Brasil, ela fala sobre a decisão de ingressar na política, o exemplo da vereadora carioca assassinada Marielle Franco, o debate sobre racismo em sala de aula, o preconceito dentro do próprio campo progressista e questiona o mito do "Sul civilizado". Nesta quinta-feira, véspera do Dia da Consciência Negra, um homem negro morreu após ser espancado por seguranças de um supermercado no Rio Grande do Sul. Em Joinville (SC), a professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira mulher negra eleita na cidade, recebeu ameaças de morte nas redes sociais após a vitória nas urnas.

"O racismo está no Brasil inteiro, mas aqui em Curitiba realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa", diz ela, apontando que o fato de a cidade nunca ter elegido uma mulher negra parecia ser um "muro intransponível".

João Pedro Soares entrevista Carol DartoraCarol Dartora VOTE 13133 on Twitter: "Partiu beber a bera que cuida da  gente #SextaFeira13… "

DW: Como veio a decisão de entrar para a política?

Carol Dartora: Por ser historiadora, fui convidada para dar uma aula de história da mulher na política brasileira num curso de formação política para mulheres. Eu vim mostrando todas as ondas do feminismo, o quanto as mulheres foram galgando esses passos com muita dificuldade, por toda a dificuldade de gênero, chegando à questão racial, com as mulheres negras ainda mais excluídas desse processo. Eu falava especificamente de como as mulheres fazem muita política na base, sobretudo as negras, mas não são vistas como lideranças para ocupar esses cargo e têm dificuldade nos partidos, que também são atravessados pelo racismo e machismo estruturais. Essas disputas são feitas inclusive internamente, com muita dificuldade.

Falaram, então: "Nossa, Carol, você faz todos esses debates, atua há tanto tempo, e quantas vezes já se candidatou?" Aí foi o estopim: de que adianta ficar a vida inteira sem botar o pé na porta e sem falar "não, agora é nossa vez"? O coletivo político que eu integro entendeu também que era hora de fazer essa disputa.

 

Como primeira mulher negra eleita em Curitiba, você sente que o racismo é mais forte no Sul do Brasil?

O racismo está no Brasil inteiro, mas já estive no Rio de Janeiro e em São Paulo, e sinto que estas e outras capitais são mais democráticas, com menor hostilidade. Aqui em Curitiba, realmente é muito pesado. Sou uma mulher preta que nasceu e viveu boa parte da vida aqui, com quase toda a minha família. A cidade te expulsa. No meu cotidiano, indo para a escola dar aula, já começa quando você pisa na rua, e as pessoas vêm perguntar: "De onde você veio?" O mesmo acontece entre colegas de trabalho. Essa pergunta pressupõe a ideia de que, se você é negro, com certeza não deve ser daqui.

Acontece mesmo isso, e a cidade tem umas assimetrias muito grandes. Há bairros em que os índices de qualidade de vida se comparam aos da Europa, enquanto outros apresentam uma precariedade grande, com IDH super baixo. Curitiba tem essas desigualdades e tenta esconder isso, desde a forma como o território da cidade é ocupado.

A população pobre e negra é empurrada para as periferias e outras cidades da região metropolitana. A região norte é mais valorizada, então um imóvel é muito mais caro, embora não tenha o mesmo tamanho que outro da região sul. Curitiba é segregada racialmente. Aqui, todo mundo sabe em que lugares você encontra os negros e onde não encontra.

Quem vem de fora para fazer turismo na cidade fica com a impressão de que não tem negros e é uma cidade europeia. Na volta turística, a pessoa vai ver a Praça da Espanha, a Praça da Ucrânia e o Bosque Alemão, vai sair com essa impressão que a cidade causa e cria. Eu sinto arrepios quando ouço esse discurso de que Curitiba é "civilizada”. A gente sabe o que está por trás disso. É uma política higienista que se empreende aqui. Tentam esconder a população em situação de rua, e dizem que Curitiba é "limpa”. É uma cidade pesada mesmo nesse sentido.

Minha campanha foi trazendo todas essas denúncias da falta de direito à cidade, democratização dessa vida urbana tão complicada, da violência policial contra a juventude negra e o apagamento das expressões culturais.

O Carnaval em Curitiba sempre foi muito atacado. É uma festa com pouco aporte e muita organização popular, que sempre precisou resistir muito para existir. É pequeno perto das outras capitais, mas justamente por essa razão. Curitiba é tudo isso.

Foi fazendo essas denúncias que atingi tantas pessoas, e elas se sentiram representadas. Na campanha, usei a mensagem de que deveríamos ter uma vida urbana que nos faça sentir pertencentes e felizes. Esse sentimento é uma linguagem que a cidade constrói, é como ela se organiza e nos impõe esse sentimento de não sermos acolhidos pela cidade em que nascemos. Eu sou uma mulher preta curitibana, como vina (salsicha), falo "leitE quentE”, e espera-se que eu me sinta parte da cidade. Muitas pessoas se viram nessa construção — ou desconstrução, na verdade.

 

Como você leva essas questões para sala de aula?

Eu sempre fiz todos os debates que achava que tinha que fazer em sala de aula, e acredito totalmente no poder da educação. A minha principal proposta de campanha é promover a educação social. No fazer político, informando e politizando a sociedade, uso muito da prática que já tenho em sala de aula.

As pessoas me perguntam muito se é possível superar o racismo e o machismo. Pela minha experiência em sala de aula, eu digo que sim. Tive muitos alunos entrando em sala sem entender por que políticas de cotas e reparação são importantes. Construindo novas consciências e trazendo a realidade histórica, é possível mudar muita coisa. Tive a grata satisfação de ter visto isso nos meus alunos. Além de dar aula, palestras e formações que faço pela cidade em coletivos universitários e feministas.

Acredito muito mesmo no poder da educação e que o professor deve ter a perspectiva da superação e da esperança. Sem isso, a gente também não alcança nada. Não adianta você trabalhar sem achar que determinadas situações podem ser superadas. Se você não tiver essa perspectiva da superação, perde o sentido. Foi isso que me trouxe até aqui.

Eu fiz a denúncia de que Curitiba nunca tinha eleito uma mulher negra, um muro que parecia intransponível. Todo mundo que olhava para a campanha no início dela pensava: nossa, como fazer para superar essa barreira? Pensando que sou uma mulher do Partido dos Trabalhadores (PT), feminista, negra, e que Curitiba nunca elegeu uma mulher negra, pareciam barreiras intransponíveis.

Mas o que a gente tinha era a superação, sem perder a esperança, fazendo essa denúncia e construindo a possibilidade. Porque aí a gente falava: Curitiba nunca teve uma vereadora negra, vamos mudar essa história. E no fim da campanha, quando a gente sentiu que ela estava grande, crescendo, as pessoas me viam na rua e falavam: "Carol, vou votar em você, a gente vai fazer história".

Eu já promovi reeducação social na campanha. Acredito totalmente no poder da educação. Sou professora e sempre defendi a educação pública. Estudei em escola pública, fiz faculdade e mestrado em universidade pública, e agora sou doutoranda. É este o poder do professor, da palavra, o poder de ensinar. São estes os nossos mecanismos, nossos canais.

 

Para o presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores, o debate de ideias deve ficar de fora da sala de aula, que deve ser um espaço livre de "doutrinação". Como você reage a isso?

Com esse tipo de coisa, a gente não conversa. Como conversar com o ódio? Tem que haver minimamente uma abertura para estabelecer um diálogo. Não tem como dialogar com esse tipo de postura, de alguém que está fechado para aprender. Tem uma coisa maravilhosa que vejo na infância e juventude, que é o lugar de semear a transformação, por conta da mente aberta para a possibilidade de aprender novas coisas. Quando você tem uma criatura fechada para qualquer coisa, não adianta insistir.

E acho que o Bolsonaro tem sido pedagógico, ele também ensina. Por incrível que pareça, muitas pessoas vieram falar comigo na rua dizendo que iam votar em mim, mas tinham votado no Bolsonaro. Elas diziam ter consciência do erro que cometeram, sem saber o que estavam fazendo, por estarem cansadas da política. Não foram nem uma, nem duas pessoas que falaram isso, dizendo ter percebido a importância de olhar para o projeto político da pessoa.

Tudo aquilo do Bolsonaro parecia brincadeira, mas não existe nada da boca pra fora, né? As pessoas se iludiam pensando que era assim. Tanto não era, que ele está empreendendo essa política de morte, de deixar morrer e não fazer nada. Vimos isso na pandemia. A gente está batendo números altíssimos de desemprego e voltando para o Mapa da Fome, com a juventude negra sendo exterminada. E ele falando que não está nem aí, tem que matar mesmo, armar a população.

As pessoas estão vendo, então ele é pedagógico. É claro que ele deu voz a esses discursos de ódio, mas a gente está nesse momento de conflito social e de valores na sociedade brasileira. Temos esses discursos e contra-discursos postos na sociedade. É um momento de transformação, e por isso vemos coisas como Curitiba me elegendo a primeira vereadora negra da cidade, ao mesmo tempo que reelege o prefeito que representa tudo o que estou tentando desconstruir. O conflito está posto, e sem ele a gente não avança.

As eleições municipais já mostraram uma maior compreensão das pessoas quanto à necessidade de superar algumas exclusões, tanto que tivemos mulheres, inclusive trans, eleitas pela primeira vez em várias cidades. Foi um show, e acredito que isso vá avançar para as eleições presidenciais.

 

Após essa onda de mulheres negras eleitas, como é possível aumentar a capilaridade de novas candidaturas? No Rio de Marielle Franco, apenas duas mulheres negras foram eleitas.

Acho que esse movimento tende a se fortalecer. A partir do momento que se quebram algumas barreiras, as próximas mulheres não vão ter que quebrar esse muro tão grande que eu enfrentei, por exemplo, essa pecha de que nunca teve alguém antes. É uma porta que já foi aberta. O movimento tende a crescer, mas ainda encontra muita resistência.

A professora Ana Lúcia Martins (PT), primeira vereadora negra eleita em Joinville, já sofreu uma série de ameaças e ataques racistas. Como já falei, a gente tem esse conflito social, essa crise de valores no Brasil. Porém, precisamos avançar. Não vai dar mais pra falar em democracia com tanta sub-representação, tantas pessoas excluídas desse processo. Isso não é democracia. Se a gente tem como perspectiva buscar a igualdade no país, com cidades melhores para todos viverem, vamos ter que superar essa barreira.

Acho uma pena que o Rio não tenha eleito mais que uma mulher. É possível que a violência policial e o medo do crime político contra a Marielle desestimule candidaturas.

 

Nesse contexto, você sente medo?

Eu sou muito otimista e corajosa, e já estou recebendo mensagens para eu parar de falar o que estou falando devido a esse caso de Joinville. Eu falei: não quero nem pensar nisso, porque não me passa pela cabeça que alguma coisa ruim vá acontecer, e espero que não.

 

A Marielle foi uma inspiração para você entrar na política?

A Marielle é um exemplo em muitos sentidos. Começa pelo fato de que eu não sabia quem era ela. Foi um sinal para mim ela ser a potência que era, quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, e eu só ficar sabendo quando ela foi assassinada. É a amostra de tudo o que a gente diz sobre a invisibilidade da nossa atuação, das mulheres negras e tudo o que a gente constrói.

O primeiro sinal foi este: como eu não sabia dessa mulher e fico sabendo só agora, com este crime horrível? Ela também foi um fator de indignação. Então, quando a gente consegue chegar lá, com muito esforço, a gente tem que ser apagada e, nossa voz, silenciada, para não falar o que precisa ser dito.

Para todas as mulheres negras e todos que, no mundo, têm esse entendimento, causou muita indignação. Nesse sentido, a gente se uniu, conseguimos fazer conexões e criar uma rede para sustentar essas candidaturas de mulheres que estão se colocando em um espaço tão violento que é a política.

Aqui em Curitiba, a gente tem um movimento de mulheres negras, e todo mês de julho a gente faz debates a respeito do que é a vida da mulher negra, do quanto a gente é sub-representado e precisa estar nesses espaços. É uma construção que vem sendo feita há quatro anos e, depois da morte da Marielle, intensificou-se mais ainda. Sem dúvidas, ela é um exemplo e tem uma influência em vários sentidos. Essa ligação mal explicada do governo Bolsonaro com a morte da Marielle causa muita indignação e nos coloca em movimento.

 

Você foi a candidata mais votada do PT e puxou outros dois nomes do partido. Apesar desse desempenho, você recebeu a menor verba de campanha entre os três. Como você sente o racismo dentro do campo progressista?

Eu tenho dito que o campo progressista tem que abraçar a pauta racial e as lideranças negras. O machismo e o racismo também passam pelo interior dos partidos. É claro que a minha candidatura não era tida como a mais viável, e não fui vista como a aposta. Por isso que minha verba era menor e não era acreditada por todas as dificuldades que apresentei aqui. Foi preciso muita estratégia para construir minha campanha. E a esquerda vai ter que entender que, se a gente não falar daquilo que toca a vida das pessoas e não oferecer a elas o que as pessoas querem, colocando legitimidade em nosso discurso, a esquerda vai morrer. É preciso abraçar as lideranças negras e mulheres. Somos nós que estamos na base.

Eu falo na importância da legitimidade, porque quantos anos mais a esquerda vai ficar falando na boca de um homem branco, com mais de 45 anos, que é preciso superar o racismo e o machismo? É diferente eu falar que a gente tem que superar o racismo, construir políticas antirracistas, superar desigualdades. O discurso fica mais forte, ganha legitimidade. O anseio das pessoas é este, ver a transformação acontecendo. É o que acontece quando elas me veem nesse lugar.

Se a esquerda quiser continuar com seus caciques históricos, sem nunca se mover, querendo falar de desigualdade, sem promover de fato a transformação, para que as pessoas possam ver isso esteticamente, fica complicado. Esses 8 mil votos na terra da Lava Jato mostram que eu consegui superar o antipetismo e não tive voto só de pessoas que se declaram de esquerda. É a transformação que as pessoas querem ver.

 

Você está sempre sorridente. É possível encontrar leveza em meio a tantas lutas?

A luta é para ser feliz. É muito simples. A luta é para se sentir bem, e é isso que venho trazendo em minha trajetória. O meu sentimento de infelicidade, de não pertencimento a essa cidade, foi me levando em busca de ser feliz, me sentir bem, e política serve para isso, promover o bem-estar das pessoas. Se não é este o objetivo, qual é? Política é muito simples, é basicamente isso.

O problema é que a gente tem a não promoção do bem viver, do bem-estar. Isso é a antipolítica, a necropolítica, a política do deixar morrer. Eu quero ser feliz e compreendi que essa minha busca por felicidade é a de várias outras pessoas. Porém, temos que construir instrumentos e mecanismos, como a administração pública. Foi isso que eu compreendi e tento mostrar para as outras pessoas.

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20
Nov20

Juízes para Democracia repudiam ataque racista contra primeira vereadora negra em Joinville

Talis Andrade

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A Associação Juízes para a Democracia divulgou nota em que repudia os ataques racistas sofridos pela primeira negra eleita vereadora em Joinville, Ana Lúcia Martins (PT). 

Desde domingo (15) ela recebeu ataques em redes sociais e ameaças de morte.

Associação Juízes pela Democracia

Núcleo Lédio Rosa da Associação Juízes para a Democracia vem manifestar solidariedade à Ana Lúcia Martins, primeira vereadora negra eleita na cidade de Joinville que, desde a publicação dos resultados das eleições, sofreu e vem sofrendo ataques racistas.

Inicialmente, sofreu uma reação violenta por parte de um radialista da imprensa local. Posteriormente, passou a sofrer ataques nas redes sociais e até mesmo ameaças de morte.

Tais ataques, por materializarem expressões de ódio racial, merecem o mais veemente repúdio, pois não se limitam a ofender a dignidade pessoal da vereadora, o que já seria suficientemente grave, mas atingem toda a coletividade e, em especial, as pessoas negras, na dimensão do igual respeito a seus direitos humanos e às garantias constitucionais de que são titulares. Não é por outra razão que a prática do racismo é considerada como crime inafiançável e imprescritível pelo texto Constitucional e igualmente reprovada por Tratados Internacionais de Direitos Humanos.

Cabe ainda registrar a importância que a eleição de mulheres negras assume no contexto brasileiro, em que apesar de 27% da população feminina se declarar negra, mulheres negras representam apenas 2% do Congresso Nacional e menos de 1% na Câmara dos Deputados. Sabe-se de todos os obstáculos e entraves à plena participação política de mulheres negras, não apenas em razão de situações de discriminação direta, mas igualmente, dos efeitos e impactos discriminatórios decorrentes de racismo estrutural que está na base do Estado brasileiro.

A eleição de mulheres negras, nesse sentido, representa passo decisivo no tardio processo de reparação histórica de nosso passado escravocrata, além de necessário mecanismo de promoção da democracia e do pluralismo nos espaços políticos de tomada de decisão.

Dessa forma, a participação política das mulheres negras deve ser celebrada, estimulada e reconhecida pela sociedade e pelas instituições. A violência contra as mulheres negras na política vai na contramão desses avanços e deve merecer repúdio por todos os segmentos da sociedade civil, além da aplicação das sanções legais cabíveis, observado o devido processo legal, por parte das instituições do sistema de justiça, encarregadas que são de proteger sua vida, sua integridade física e seu mandato.

Assim, a Associação Juízes para a Democracia, por sua NúcleA Lédio Rosa, se une aos vários movimentos de apoio à Vereadora Ana Lúcia. Ao tempo em que repudia os ataques racistas à sua pessoa, manifesta solidariedade e votos de que cumpra seu mandato, outorgado pelas urnas, em clima de respeito e paz.

NUCLEA LÉDIO ROSA DE ANDRADE DA ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA – AJD

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