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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

02
Nov18

Sexologia política: sobre Bolsonaro, Frota, Jean Wyllys e Pabllo Vittar

Talis Andrade

  1. Marcia Tiburi
Sexologia política: sobre Bolsonaro, Frota, Jean Wyllys e Pabllo Vittar
(Arte Revista CULT)
 

 

Entre os discurso de ódio que andam por aí e os discursos de resistência, precisamos investir em compreensões que possam nos acordar e criar condições para desmontar o avanço do fascismo entre nós e, assim, nos demais países do mundo. O autoritarismo é uma forma perversa de exercício de poder e, quando se torna política de Estado, além de fator cultural, após ter sido legitimado pelo voto, por mais que devesse ter sido repudiado eticamente por ele, torna-se uma questão ainda maior.

 

Por isso, peço a paciência do leitor e da leitora para as colocações que vêm a seguir. Elas podem parecer longas, mas são apenas um começo de conversa que pode nos ajudar a entender o que se passa agora e o futuro que vem a galope empunhando uma bandeira com suástica ou coisa parecida. Cada vez mais devemos nos acostumar a conversas longas e, inclusive, sempre que possível, voltar a elas.

 

Nesse momento, permanecemos em um pesadelo. Venceu o voto dos autoritários. Dos que apoiam os torturadores e assassinos e, nesse ato, se igualam a eles. Inclusive dos que são a favor do estupro que, como bem lembrou Luiz Eduardo Soares, sempre fez parte da tortura. Nesse contexto, surge a esperança de pessoas que parecem “inocentes”. Elas acreditam que o novo presidente não vá cumprir o que prometeu. A quantidade impressionante de brasileiros que vota em um político esperando que ele não cumpra o que promete é de estarrecer. É incompreensível. Mas será mesmo? Será que as pessoas esperam por isso mesmo? Serão realmente inocentes quanto ao que aprovam?

 

Votar em quem não vai realizar o que promete, quando sempre votamos – ou nos pareceu lógico votar – em quem tem as melhores propostas, realmente é de dar um nó na cabeça de quem faz análises lógicas. O eleitor não está, nesse momento, apenas desmoronando a lógica e a racionalidade e sendo ilógico ou irracional. Há muito mais por trás disso. Vamos analisar apenas um aspecto altamente esclarecedor.

 

Há tempos sabemos que é preciso estudar mais a sexualidade.

 

O que acontece no Brasil de hoje é efeito de uma manobra envolvendo a sexualidade da população a partir da sexualidade do parlamento. Não considerem essa hipótese um exagero. Nossos hábitos mentais preferem subestimar o poder do sexo, o que faz com que ele se mantenha em um nível inconsciente e, justamente por isso, livre de culpa ou responsabilidade. Eu gostaria de sinalizar sobre sua validade, já que se trata de introduzir no contexto uma nova ciência, a sexologia política. E essa ciência nos obriga a lidar justamente com as culpas e os jogos de poder envolvendo a armadilha do sexo.

 

Por sexualidade entendemos o conjunto dos discursos e práticas, a compreensão e o fenômeno, o imaginário e o simbólico, o consciente e o inconsciente que regem a vida sexual da população. Quanto ao inconsciente, talvez não haja uma categoria tão atual para descortinar a realidade brasileira.

 

Consciente ou inconsciente: sobre escolher o pior

 

Antes de seguirmos, vamos nos colocar a questão da relação entre consciente e inconsciente para entender por que o povo escolheu o pior nesta última eleição e o que está em jogo nessa escolha. A maioria dos eleitores escolheu um presidente que só prometeu matar e destruir. Ele prometeu o horror.

 

Quem considerava o PT ruim, preferiu algo pior. Não parece muito lógico, mas é. De uma complicada lógica dialética. Trata-se de uma escolha consciente e inconsciente ao mesmo tempo. Consciente e inconsciente são conceitos básicos. Não precisamos aqui usar um conceito de inconsciente ligado a instintos ou pulsões de morte, vamos falar dos processos mais simples, das formas simples da mentalidade em vigência na vida e na linguagem cotidiana. Por “consciente” vamos definir aquilo sobre o que temos acordo, aquilo que podemos saber ou aquilo que fazemos porque sabemos. Por inconsciente vamos entender aquilo que não sabemos ou que fazemos sem saber, mas que, ao mesmo tempo, no fundo, também de alguma modo sabemos.

 

Conscientemente, os cidadãos e cidadãs escolheram em nível federal e em alguns estados, como o Rio de Janeiro, aquele que vai realizar a ideia de que “bandido bom é bandido morto”. Escolheu-se alguém que promete a morte alheia. No entanto, inconscientemente, o que se escolheu é realmente matar. Quando alguém vota ou apoia um candidato, sempre o faz esperando que o Estado realize aquilo que cada um faria se estivesse no lugar do governante. Assim, quando se vota em alguém que promete escolas, é porque também faria escolas. E quando se vota em quem promete matar, concorda-se com o ato de matar. Apoiando um candidato, apoia-se o seu projeto.

 

O inconsciente atua em nossas vidas quando não sabemos, ou também quando parecemos não saber. Uma das principais funções da consciência é acobertar o inconsciente. Assim, aqueles que dizem “não acreditar” nas promessas de morte, apenas dizem que não acreditam. Não há nenhuma prova de que não acreditem, mas há uma fala que promete não acreditar. Isso porque toda fala carrega uma promessa em potencial. Há falas que são promessas diretas, mas mesmo as falas comuns trazem promessas indiretas, por isso não confiamos em certas pessoas e nem sabemos por quê. Porque algo nelas nos sinaliza para um “efeito” em nível da linguagem que pode nos comprometer.

 

Não há nenhuma garantia de que o candidato eleito não vá cumprir suas promessas. Nesse sentido, essa crença de que ele não vai fazer o que promete não apenas acoberta como também justifica a escolha, liberando da responsabilidade e da culpa que há de vir sobre as mortes prometidas. À medida que pessoas são mortas em larga escala, o sentimento de culpa vai precisar de uma álibi na consciência. E esse álibi será a frase “é inacreditável que isso esteja acontecendo”, que já circula por aí e continuará cumprindo seu papel.

 

Em 2017, publiquei um livro em que falei muito da capitalização desse tipo de discurso que parece brincadeira. Falava da performance política de Michel Temer, mas fazia análises sobre o poder de Bolsonaro e João Doria, que avançam cada vez mais como líderes públicos quanto mais absurdos se tornavam suas falas e atos, todos vazios, mas hipnotizantes. Analistas que subestimaram a situação achando que Bolsonaro era um simples imbecil têm se retratado. Também eles foram vítimas do inconsciente.

 

Mas o problema do inconsciente é ainda mais complexo. Em um nível ainda mais oculto, o que aquele que apoia um projeto de matança em massa deseja no fundo, ou seja, no inconsciente, é morrer.

 

Um rombo na subjetividade

 

Todos os que vociferam contra a vida alheia querem não apenas que os outros morram, mas querem também morrer. Não é à toa que a metáfora do “vazio” sirva tanto àqueles que não pensam, quanto aos deprimidos. São rombos diferentes na subjetividade apenas porque avançam tratados de formas diferentes. Não quero dizer com isso que o vazio não seja conhecido de cada pessoa capaz de refletir sobre si mesma. Ao contrário. Mas há um vazio mais profundo, aquele do próprio eu, de quem não foi ajudado a existir, de quem não teve apoio escolar, familiar, cultural. Há subjetividades realmente esfaceladas, para as quais não sobrou uma gota de humanidade. Os fascistas de Estado ou potenciais todos têm um profundo rombo na subjetividade, ele constitui um complexo de inferioridade. Esse rombo interno é ocultado por um véu de agressividade que se torna estilo de ser e de viver. Daí o escândalo da agressividade consciente de figuras como Jair Bolsonaro. Ele deveria tê-la ocultado, mas a fez aparecer, encantando as multidões como se fosse algo místico, mágico. Daí sua mitificação.

 

Ora, o que uma subjetividade fascista deseja é o que ela justamente projeta para fora de si por meio da linguagem e de atos. O desejo de morrer. Ela sabe quais são seus próprios crimes. Sabe de seus pecados quando se trata de alguém religioso. Deus também é uma imagem de acobertamento do inconsciente criminoso para os que vociferam a morte e falam a Deus. O inconsciente que deseja matar. Sabe também que não há deus suficiente para isso, por isso escolhe um deus alucinante que possa conter todos os outros que deliram com o mesmo desejo. Não há drogas suficientes, não há dinheiro suficiente para conter esse desejo. E qualquer um que detenha esse desejo (seja a esquerda ou o papa) é o mal que vem castrar esse desejo que suplantou todos os outros. No entanto, isso não vem do nada. Um fascista experimentou rebaixamentos terríveis em sua infância. Uma imagem desse rebaixamento – que se confunde com a imagem do cúmulo do ódio sublimado – que pode fazer surgir uma subjetividade fascista está na menina que, no colo de Jair Bolsonaro, aprende a fazer um revolver com os pequenos dedos inocentes. A brutalidade de Bolsonaro esconde o grande abuso sobre uma criança. Um abuso que o abusador adulto não desconhece em sua própria pele, na criança que um dia ele foi. Outros seguem cometendo o mesmo abuso e autorizados pelo grande líder.

 

E porque sentem vontade de matar e vontade de morrer, porque o sentimento de culpa está ali para destruir e precisa ser calado, o fascista se entrega à sua performance de horror, imitando o chefe para quem terceirizou a ação de destruir. Esse é o motivo fundamental que faz pessoas que em tudo são vítimas em potencial, se devotarem ao próprio algoz.

 

Alguém pode achar esse tipo de análise um pouco cruel, porque é nosso hábito mental acreditar que a sociedade é consciente e que tendemos ao bem de todos, o que é uma grande hipocrisia. Verdade, no entanto, é que tendemos ao lugar para o qual formos levados. Por isso, é sempre melhor se deixar levar pelo respeito, pela dignidade, pela compaixão.

 

Do sexo, da misoginia e da homofobia à fama

 

Dito tudo isso, podemos falar do uso político da sexualidade nos últimos anos. Não foi por acaso que Dilma Rousseff foi objeto de tanta misoginia. Sexo é uma categoria de análise tanto quanto gênero e ajuda a entender o seu caso. Mas também ajuda a entender Bolsonaro.

 

O Presidente da República recém eleito era apenas um deputado menor, caricato, como tantos outros que vemos por aí há anos “mamando” no Congresso Nacional, para usar uma expressão do povo. Cresceu na opinião pública desde suas violências para com o deputado Jean Wyllys e Maria do Rosário.

 

O ódio dos deputados homofóbicos a Jean Wyllys e dos sexistas e machistas contra Maria do Rosário não deve ser analisado como simples espontaneidade do preconceito. A espontaneidade não é um argumento quando se trata de tantos grupos envolvidos com projetos de poder. A orientação para a homofobia e a misoginia não é espontânea quando se trata de poder. Sobretudo se associarmos o neopentecostalismo das novas igrejas do mercado a isso.

 

A homofobia mostra-se hoje como um padrão bastante manipulável. Ela não é mais rejeitada. Foi com Jean Wyllys, mas não será mais assim. A eleição de uma figura como Alexandre Frota mostra que as pessoas mais moralistas não têm apenas rejeição, mas também atração pela homossexualidade. Desde que o homossexual seja autoritário e, principalmente, cínico. Aqueles que votaram acreditando na “família tradicional procriadora” logo perceberão que os gays estão autorizados, mas apenas dentro do armário, como sempre. O ódio a Jean Wyllys vem também do seu orgulho gay, de ele ser o único deputado que assume sua orientação sexual de maneira ética e saudável. Se todos tivessem que assumir, seu negócio de “família tradicional, deus, etc” cairia por terra. Nenhuma novidade na sociedade que prefere a hipocrisia. Ela se livra da responsabilidade.

 

A relação que se tem com a homossexualidade é ambígua da esquerda à direita. A hipocrisia ajuda a acobertá-la. Por isso, enquanto a direita odeia Jean Wyllys, que a politiza, adora Alexandre Frota, que não a politiza, embora sua inscrição sexual seja pública e notória. A hipocrisia é um véu necessário para manter tudo como está, por isso também uma figura como Frota se torna tão essencial nesse momento. Ele funciona como uma prova – ao nível consciente – de que não há homofobia no governo que há de vir desde que se esteja do lado do opressor. Desse modo, não será a homossexualidade que será punida, mas a homossexualidade do outro. Com corrupção já acontece isso. Não é a corrupção que será punida, mas a corrupção do outro. A lógica do fascismo é a do cinismo: dois pesos e duas medidas para confundir os que ainda acreditam em regras e princípios ou para agradar os que se sentem contemplados com o jogo.

 

Por fim, e pedindo perdão por escrever tanto em uma época em que os “textões” estão estigmatizados, precisamos falar de Pabllo Vittar.

 

O que ela tem a ver com isso? Pabllo Vittar, como acontece com mulheres, trans e travestis, move as ambiguidades próprias do desejo de todos os recalcados. Não é por acaso que o Brasil é o país que mais mata homossexuais e pessoas trans e travestis, muito antes do fascismo eleito.

 

Bolsonaro tem uma tarefa para a qual não está preparado e, como em relação a tudo o mais, não prometeu nada. A tarefa de livrar seus eleitores do desejo por pessoas como Pabllo Vittar. Um desejo insuportável, mas tão insuportável que é mais forte que o cidadão o manifesta. Há várias pessoas que dizem votar em Bolsonaro para que não precisem mais ver Pabllo Vittar na televisão. Se o cidadão que vocifera contra a artista não gostasse simplesmente da sua obra, poderia desligar a televisão. A televisão não é uma obrigação. Ninguém será punido por não ver televisão. Ou seja, o que a move é o desejo. Mas quem tem um desejo que não pode escolher, um desejo autoritário, um desejo que não negocia consigo mesmo, pode precisar de um “freio”. Em função da imensidão desse desejo, ele precisará de um país inteiro autoritário, de um ditador na presidência, de um ditador maluco assassino a garantir a paz do seu desejo. No entanto, ele poderia simplesmente desligar a televisão com um controle remoto. Ou trocar de canal.

 

Para esse eleitor, que são milhões, é preciso muita mais do que um ditador. Por mais que prometa matar meio mundo, por mais que prometa vender o Brasil, acabar com todos os direitos do povo, tornar a vida dos cidadãos um inferno econômico e social, ele não poderá resolver o desejo em relação à imagem de Pabllo Vittar, ao que ele representa.

 

Mesmo que se destrua a televisão, que se matem todas as travestis, que se matem as mulheres, que se matem os críticos, os psicanalistas, os educadores, que se queimem os livros, que se implante a escola sem partido e que os imbecis de plantão continuem falando de “ideologia de gênero” sem saber o que dizem, mesmo que se exploda o Brasil com uma bomba atômica ou guerra civil, o desejo por Pabllo Vittar é indestrutível.

 

Nem Bolsonaro poderá curar esse desejo.

 

Pena que um mundo tenha que ser aniquilado porque alguém não pode, livremente e de maneira amorosa, viver de bem com o seu desejo.

 

Então, precisamos começar tudo de novo. Se tivermos tempo, uma sexologia política pode nos ajudar.


> Leia a coluna de Marcia Tiburi, toda quarta-feira, no site da CULT
 

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