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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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06
Abr20

Rien, por Luis Fernando Veríssimo

Talis Andrade

Representação da população parisiense realizando a tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789

No dia da Queda da Bastilha (14 de julho de 1789), o rei Louis XVI da França voltou à sua casa, Versailles, depois de uma caçada matinal, tomou (presumivelmente nessa ordem) um banho e seu café, e abriu o diário em que anotava os principais acontecimentos do dia, todos os dias. Na falta de um acontecimento notável, Louis XVI escrevia um pensamento e, na falta de um pensamento, recorria a trivialidades, como o número de animais abatidos no bosque do castelo, ou alguma observação de Maria Antonieta sobre os modos da corte, ou uma indisposição digestiva do próprio rei. Naquele dia, nem detalhes da caçada, nem intrigas da corte e nem cólicas mereceram uma citação real. Depois de encarar a página em branco do diário por alguns instante, com um certo tédio, Louis XVI escreveu:

“Rien”.

“Rien”, “rien” de “rien”! A história do mundo chegava a um dos seus cotovelos, quando tudo muda de direção, e Louis XVI não julgou o fato digno de nota. Mas esta crônica não é sobre a insensibilidade dos reis ou sobre a importância da eterna vigilância em quem não quer ser pego de surpresa pela História, e muito menos sobre a incompetência de quem deveria, pelo menos, manter o rei bem informado. Esta crônica é uma proclamação de inveja. Imagine-se morando em Versailles, onde as notícias do mundo real custam a chegar. Imagine-se um Louis XVI desobrigado de saber o pior, abençoado pela ignorância.

Imagine poder escrever “rien” em todas as páginas do seu diário, hipotético ou não, que tratariam da pandemia dos coronavírus e seus estragos se não tivéssemos renunciado à vida real ou assumido a inconsciência de um rei de França, que inveja. Como não podemos nos fingir de Louis XVI, também não podemos exigir os privilégios do seu trono e estamos condenados ao assunto único, esperando que o leitor entenda.

Se o assunto inescapável é repetitivo e trágico, acompanha-o um circo: um governo, pior do que sem cabeça, com muitas cabeças se batendo no picadeiro. Ninguém está rindo.

 

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