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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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08
Dez20

Racistas ameaçam vereadoras negras

Talis Andrade

ConscienciaNegra Ribs.jpg

 

Por Altamiro Borges

Com a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, a porta do inferno – ou a tampa do esgoto – foi escancarada e os racistas ficaram ainda mais ousados e agressivos. Depois das agressões à primeira vereadora negra de Joinville (SC), agora é a primeira parlamentar negra eleita em Curitiba (PR) que sofre ameaças. "Vou te matar", rosna o fascista. Mas Caroline Dartora garante que não se intimida. 

Neste final de semana, a vereadora informou em suas redes sociais que recebeu ameaças de morte e ofensas de cunho racistas. Professora da rede pública e ativista antirracista, ela tomou medidas para preservar a sua vida, já anunciou que formalizará um boletim de ocorrência na Polícia Civil e deu detalhes das ameaças: 

"Acabo de receber ameaças de morte. As autoridades já foram contatadas e todas as providências estão sendo tomadas para que seja garantida minha segurança e da minha equipe. Eles combinaram de nos matar, combinamos de ocupar tudo!", postou a combativa parlamentar da capital paranaense. 

"Macaca fedorenta, cara de favelada"


Ela reproduziu as mensagens recebidas por e-mail com o título: "Vou te matar, Carol Dartora". A postagem começa tratando a vereadora recém-eleita como “aberração. Macaca fedorenta, cabelo ninho de mafagafos, cara de favelada!”. Na sequência, o fascista posta que vai comprar uma arma e viajar a Curitiba para 'matar' a vereadora petista. Ele chega a identificar o endereço da vítima e expõe todo o seu ódio racial: 

"Enquanto você ganha salário de vereadora apenas por ser uma macaca, eu estou desempregado... Eu juro que vou comprar uma pistola 9mm no morro do Engenho, aqui no Rio de Janeiro, e uma passagem só de ida para Curitiba e vou te matar. Eu já tenho todos seu dados e vou aparecer aí na sua casa". 

O racista segue na sua insanidade assassina: "Depois de meter uma bala na sua cara e matar qualquer um que estiver junto com você, vou meter uma bala na minha cabeça. Não adianta avisar a polícia ou andar com seguranças. Nada no mundo vai me impedir de te matar e me matar em seguida". 
 
Em entrevista ao UOL, Caroline Dartora afirmou que foi a primeira vez que sofreu ameaça de morte. "Acionei uma rede de proteção que já estávamos articulando com demais vereadoras eleitas e advogados populares, além do nosso partido. Iremos formalizar a denúncia na Polícia Civil". 

Outras ameaças fascistas de morte

Uma alarmante reportagem da Folha afirma que a ameaça à vereadora de Curitiba “é a mesma recebida por outras três políticas recém-eleitas, em um ataque que parece orquestrado: a primeira mulher prefeita de Bauru (SP), Suéllen Rosim (Patriota), e a primeira vereadora negra de Joinville (SC), Ana Lúcia Martins (PT). Além de Duda Salabert (PDT), a primeira vereadora trans e a mais votada no pleito, em Belo Horizonte – mas, no seu caso, o xingamento racista deu lugar ao transfóbico, chamando-a de ‘pedreiro de peruca’”. 

No caso da jornalista Suéllen Rosim, que se descreve como evangélica e conservadora, as mensagens racistas foram postadas logo que ela foi eleita. Elas são asquerosas: “Bauru não merecia ter essa prefeita de cor com cara de favelada comandando nossa cidade. A senzala estará no poder nos próximos quatro anos”. O autor da mensagem já foi identificado e interrogado pela Polícia Civil de São Paulo. 

Já na agressão a Duda Salabert as ameaças foram enviadas também à escola onde trabalha como professora. "Estou sofrendo ameaças de morte. Ontem recebi esse e-mail. E pior: o grupo odioso enviou esse mesmo e-mail para os donos e para a direção da escola onde trabalho. É uma estratégia não só para me intimidar, como também para forçar que a escola me demita", postou em seu Twitter. 

O caso de Ana Lúcia Martins, também professora e servidora pública aposentada, foi o que obteve maior repercussão. Já está em curso uma campanha nas redes sociais para pressionar o governador de Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL), a lhe oferecer proteção. 

"É dever do Estado garantir a segurança de Ana Lúcia, com carro blindado, escolta, celeridade nas investigações e responsabilização de quem está ameaçando, para que ela possa exercer o seu mandato. Só assim poderemos garantir que mais mulheres negras possam estar nestes espaços de decisão e garantir que o crime covarde que ocorreu com Marielle [Franco] não se repita nunca mais", diz o texto. 

Na edição desta semana da revista Época, a vereadora de Joinville deu um forte depoimento. Vale conferir na íntegra: 

***** 

Sem medo dos racistas 

“Não posso permitir que o medo me imobilize”, diz a primeira mulher negra eleita como vereadora em Joinville 

Ana Lúcia Martins, em depoimento a Diego Santos, de Joinville 

04/12/2020 
 
No domingo, 15 de novembro, dia em que fui eleita a primeira mulher negra da Câmara de Vereadores de Joinville, em Santa Catarina, recebi a informação de que meu Instagram havia sido invadido. Na terça-feira 17 e no domingo 22, vieram os ataques racistas e as ameaças de morte. Tudo registrado em redes sociais e por e-mail. Uma das ameaças dizia: “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco”. 

Ao ler tudo isso, o sentimento que me dominou, acima do medo, foi um misto de indignação e revolta. Receber ameaças cujo objetivo é impedir que eu ocupe um espaço democrático para qual fui eleita é revoltante. Pessoas que se consideram superiores continuam nos impossibilitando de nos mover na sociedade. É dolorido e assustador. Mas, ao mesmo tempo, tive forças para imediatamente dizer “não”. Ninguém vai nos impedir. Ninguém pode nos impedir. É um processo democrático. E não deixar que assuma meu lugar na Câmara de Vereadores é matar a democracia. 

Disputei uma eleição dentro dos mesmos critérios das outras candidatas e dos outros candidatos. Mas somente eu, em Joinville, fui ameaçada. Somente eu, em Santa Catarina, fui ameaçada. Isso é uma expressão do racismo. São grupos ou pessoas que ultrapassam os limites da intolerância. 

O racismo nos adoece. E nos mata simbolicamente, nos excluindo dos espaços. Ou nos mata na prática. Como a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, o gaúcho João Alberto Silveira Freitas e tantos outros. 

Depois das ameaças, minha rotina mudou. Minha vida mudou. Afinal, não posso ser alvo fácil de pessoas intolerantes. Mas não convivo com o medo. Não posso permitir que o medo me imobilize. O medo é algo que o opressor nos impõe como forma de dominar. E isso eu não permito. Vivemos cuidando. E, num ato coletivo, sendo cuidadas. Mas sem medo. Porque o medo nos tira a liberdade. Nossos antepassados lutaram por essa liberdade para que hoje estivéssemos livres. 

A presença de uma mulher negra, periférica, professora, mãe solteira, na Câmara de Vereadores de Joinville é um marco histórico para a cidade. É um fato com uma simbologia muito grande. Quando penso nessa representatividade, não penso apenas em quem está aqui, assistindo a tudo isso. Mas lembro, principalmente, dos negros e negras que sofreram muito para que eu pudesse ocupar esse espaço. 

Lembro do protagonismo das mulheres que vieram muito antes de mim. Minha mãe, minhas avós, minha irmã, minhas tias, minhas primas... Eu trago um legado de muita resistência, luta, perseverança e dor. Mulheres negras nunca estão sozinhas. Nós falamos por muitas e muitos de nós. 

Será um grande desafio legislar em uma cidade bastante conservadora, que naturaliza a ausência de outros grupos nos espaços de poder, ocupados majoritariamente pela população branca, de homens brancos. Onde somente os imigrantes europeus tiveram lugar nos registros da história da cidade. E a população negra de Joinville, que já chega a 17%, sempre resistiu. E vamos seguir resistindo em todos os espaços. 

O primeiro movimento para a transformação já aconteceu, com o voto e minha chegada na Câmara de Vereadores. O ato do racismo e da intolerância chamou a atenção para uma prática que antes era silenciosa na cidade. Desnudar o racismo é necessário. O movimento antirracista já começou. E, agora, com políticas públicas e diálogo, quero fazer com que Joinville entenda que precisa mudar e respeitar as diferenças em seus espaços de controle social. 
 
Nota da redação: A Polícia Civil identificou no dia 22 de novembro um homem branco de 22 anos como suspeito. Segundo a polícia, ele sofre de esquizofrenia. Após ser interrogado, foi liberado. Seus equipamentos eletrônicos vão passar por perícia.

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