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31
Mar20

'Quarentena para quem?': trabalhadores enfrentam rotina de transporte público e proteção precária

Talis Andrade

 

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por Felipe Souza/ BBC

Todos os dias quando liga a TV para acompanhar as notícias dos telejornais em meio à pandemia de coronavírus, a catadora de materiais recicláveis Janaina de Melo ouve um recado incessante: "Fique em casa".

Empurrando uma carroça ao lado dos filhos de 12 e de 13 anos, Melo diz que a pandemia de coronavírus não vai fazê-la parar. Pois é o trabalho dela que sustenta não só os adolescentes, mas também uma filha de 3 anos e o marido desempregado. E afirma que a política de isolamento adotada pela Prefeitura do Rio de Janeiro (onde ela vive) — seguindo as normas da Organização Mundial da Saúde (OMS) — derrubou o lucro dos coletores.

E enfatiza que não tem condições de obedecer os recados para ficar em casa. O que ela faz é apenas se proteger da maneira que pode, lavando com água e sabão as mãos e a caçamba da carroça que ela usa assim que termina o serviço.

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Dentro de uma cabine, o porteiro Rodolfo Pessoa Viana passa o dia vendo pessoas passando, recebendo encomendas e liberando o acesso de visitantes em um prédio em Moema, na zona sul de São Paulo. O medo de contrair coronavírus o deixa ansioso toda vez que escuta a recomendação para ficar em casa.

"Quarentena para quem? Ouvir isso para mim é um desespero, um terror. Toda vez que eu escuto para ficar em casa me bate preocupação e muito medo. Eu moro com a minha mãe de 62 anos e tenho esse sentimento de pânico por não poder ficar em casa", diz, em entrevista à BBC News Brasil.

Viana, que trabalha em dias intercalados, disse que não conseguiu nem mesmo reduzir a carga horário no trabalho. A maior preocupação dele é o risco de se contaminar no trajeto entre a casa dele, na favela de Paraisópolis, e o trabalho em Moema, ambos na zona sul de São Paulo. No deslocamento, ele pega um ônibus e um metrô.

"A gente não pode reduzir o trabalho porque os condôminos dependem da gente. Mas eu saio com muito medo. Tenho álcool em gel, uso luvas na mãos e máscara. O que mais assusta é que muita gente que está na rua, na verdade, deveria estar em casa", afirma.

No trajeto das ruas estreitas da maior favela de São Paulo até o condomínio no bairro de casas de alto padrão onde trabalha, Viana identifica uma clara disparidade de cuidados e preocupação em relação ao coronavírus.

"No meu bairro, acham que não está acontecendo nada, não estão nem aí. A rua está cheia e os moradores ainda falam que (o vírus) é uma mentira. Isso aumenta meu medo. Mas quando eu chego na Estação João Dias do metrô, vejo todo mundo de luvas e máscara", diz.
O porteiro conta à reportagem que não anda com luvas porque não encontrou nenhuma à venda.

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Já a faxineira Tatiana Aparecida da Silva trabalha na linha de frente do risco de contaminação. Ela é uma das responsáveis pela limpeza de um hospital de São Paulo.
Em meio à pandemia de coronavírus, ela precisa tomar cuidados redobrados. Isso porque trabalha não só nas áreas comuns, como corredores e salas de espera, mas também faz a limpeza dos quartos do hospital.Ela avalia como incoerentes as críticas do presidente Jair Bolsonaro contra o isolamento social de todos os brasileiros.

"Não parei de trabalhar um só dia, mas seguindo todas as orientações e acreditando na minha fé. Mas achar que todos devem sair de casa e contar com a sorte? Acho que vivemos em uma democracia, então quem quiser assuma os riscos", afirma.

Ela diz que tenta se manter calma porque disse não poder de trabalhar.

"Quem cuida de quem precisa não pode ficar doente. A gente tem que blindar a nossa mente. Tive colegas que saíram com medo de estar muito vulnerável e entrar nas estatísticas. Mas tem que encarar. Eu assisto todos os noticiários, mas não deixo o pânico entrar na minha mente. Eu sigo todas as técnicas de segurança e tenho fé". ( Transcrevi trechos)

 

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