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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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07
Mai18

Prisão de Lula completa um mês com tiros, pressão da militância e passos do PT sob controle

Talis Andrade


Da sala de 15 metros, ex-presidente segue o cenário político e avisa que dorme sereno. “Não sei se os acusadores dormem com a consciência tranquila que eu durmo"

 

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Apoiadores de Lula perto da carceragem da Polícia Federal em Curitiba. RODOLFO BUHRER REUTERS

 

por Talita Bedinelli/ El País/ Es

 

"Bom dia, presidente Lula!". São 9h e a saudação anuncia o começo do dia na porta do prédio da Polícia Federal em Curitiba, onde Luiz Inácio Lula da Silva foi preso em 7 de abril, após ser condenado a 12 anos e um mês de prisão pela Operação Lava Jato. Há um mês, o tranquilo bairro de Santa Cândida, uma área de classe média, está agitado. Um grupo de apoiadores do ex-presidente se reveza na frente do prédio para manter uma vigília constante que, prometem, só acabará quando o petista for solto. É uma espera. Mas não sem alguma rotina. Após o bom dia, uma tenda móvel montada na rua recebe shows e discussões políticas. Às 19h, um "boa noite, presidente Lula", amplificado por um microfone e uma caixa de som, marca o fim das atividades. Na próxima manhã, tudo recomeçará.


O objetivo do ato permanente, coordenado pelo PT e organizações como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Sem-Terra (MST), é mostrar ao ex-presidente —e dar um recado público— de que ele não está isolado. É difícil, entretanto, que Lula consiga escutá-los. Sua cela, no quarto andar, fica nos fundos do prédio e a única janela se abre para um pátio interno. Nestes 15 metros quadrados, o presidente mais popular do Brasil está sozinho. Cumpre sua pena em uma sala especial, por ter sido chefe de Estado. Há uma cama, um banheiro privativo e uma porta normal, ao invés de grades. Uma vez por dia, durante duas horas, ele toma banho de sol em um terraço.

 

Além de Lula, a sede da PF de Curitiba abriga outros 21 presos no momento. Ela foi pensada para ser um lugar de passagem para detidos geralmente em flagrante. Mas desde o início da Lava Jato, passou a manter de forma mais permanente investigados que negociam delação premiada com a Justiça em troca de redução de pena. É lá que está, por exemplo, Léo Pinheiro, o executivo da OAS cujo depoimento foi determinante para a prisão do ex-presidente —ele afirmou que o triplex do Guarujá pertencia a Lula. E Antonio Palocci, ex-ministro petista, que deve delatar o antigo chefe em breve. Estar ali é mais confortável do que estar em um presídio comum. "Aqui, ao menos, ele tem alguma dignidade", disse o petista Jaques Wagner, após visitá-lo na última quinta-feira.

 

Por isso, a defesa do ex-presidente não pediu ainda sua transferência para um lugar mais próximo da família, como é de costume. Terá até esta segunda-feira para se manifestar sobre dois pedidos de transferência feitos na Justiça. O primeiro, pela Polícia Federal, que diz que o custo de mantê-lo ali é muito alto —cerca de 300.000 reais por mês com a segurança extra dentro e fora do prédio, onde todo o quarteirão está isolado por barreiras policiais. O segundo, pela Prefeitura de Curitiba, que afirma que moradores do entorno do prédio estão incomodados com o barulho dos apoiadores e as barreiras da polícia, que só deixam passar quem mostra comprovante residencial. "É uma dificuldade de entrar e sair que muda nossa rotina", conta o aposentado Antônio Rosa, 69 anos. "Mas o que enche a paciência mesmo é o barulho, esse bom dia, Lula, boa noite, Lula. Aqui sempre foi um lugar calmo".

 

Para a professora de direito penal da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), Maíra Zapater, há ainda outro problema em mantê-lo ali: a inadequação do local para a prisão. "Carceragem não é um local pensado para o cumprimento de pena. Ele já está em uma situação sem previsão legal, que é ser preso antes do final dos recursos sem os fundamentos da prisão preventiva, que são risco de fuga e possibilidade de destruição de provas", ressalta ela. A professora também afirma que há uma súmula do Supremo Tribunal Federal que permite que presos preventivos possam fazer atividades para diminuir a pena, como trabalhar e estudar. Mas não há espaço para isso na carceragem de Curitiba. O professor de direito da USP, Gustavo Badaró, entretanto, discorda. "Não há como negar que ele está melhor que em um presídio. E ele poderia exercer trabalho ali porque não precisa ser algo formal. É só dar uma vassoura para ele e mandar ele varrer um espaço", explica.

 

Lula disse: "Estou tranquilo e sereno. Não sei se os acusadores dormem com a consciência tranquila que eu durmo". Às quintas-feiras, ele recebe filhos e parentes de primeiro grau. Mais de uma dezena de conhecidos já tentaram encontrá-lo, entre eles o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, o teólogo Leonardo Boff, e a ex-presidenta Dilma Rousseff. E também um monge budista de Brasília, sem qualquer relação com o ex-presidente. Foram proibidos pela juíza Carolina Lebbos, responsável pela execução penal do petista, com o argumento de que isso poderia inviabilizar o funcionamento da sede da Polícia Federal, um prédio aberto ao público que emite passaportes.

 

A cada dia, chegam e saem delegações de diversos Estados para manter o apoio ao ex-presidente. E todos dormem ali. "Pretendo ficar aqui até ele sair. E quero que isso seja o mais breve possível", afirmou o carioca Richard Faullaber, 63 anos, filiado ao PT desde 1981 e professor voluntário em uma favela. "Lula tirou milhões de crianças da pobreza. O trabalho político é fundamental", explicava ele.

 

Na última semana, a porta do acampamento ganhou uma barricada de proteção. E uma viatura permanente da Polícia Militar na porta. Na madrugada de sábado, 28 de abril, uma pessoa atirou contra os habitantes do acampamento pró-Lula, deixando dois feridos. O sindicalista Jefferson Lima de Menezes foi atingido no pescoço e deixou o hospital apenas na última quinta-feira. "Os tiros começaram e mandamos todo mundo para os fundos do acampamento, para deitar no chão", conta Jocimar Soares, 28. "Hostilidade contra a gente tem todo dia. É comum, diário", diz. Na última sexta-feira, um delegado da Polícia Federal atacou a vigília de Lula na frente da Polícia Federal. Logo após o bom dia, destruiu os aparelhos de som. Caixas substituídas, tudo já estava pronto para o boa noite. Transcrevi trechos