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O CORRESPONDENTE

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27
Ago20

Por que dizer 'tomei cloroquina e por isso me curei', como faz Bolsonaro, é uma 'falácia' e não prova nada

Talis Andrade

Bolsonaro-Cloroquina.jpg

 

por Juliana Gragnani
Da BBC News Brasil em Londres

- - - 

João estava com dor de cabeça. João tomou suco de laranja. A dor de cabeça de João passou.
Podemos afirmar que a dor de cabeça de João passou porque ele tomou suco de laranja?

A resposta é não.

Dizer que sim é criar uma falsa correlação de causa e efeito.

Pois alguém dizer que tomou cloroquina e, por causa disso, se curou da covid-19, como faz o presidente Jair Bolsonaro, é exatamente o mesmo.

Isso é o que se chama de "evidência anedótica", informal, sem valor científico. E o erro de lógica usado para se chegar nessa "evidência" é uma falácia lógica, chamado também de correlação coincidente ou, em latim, post hoc ergo propter hoc ("depois disso, logo, causado por isso"), explica o cientista David Grimes, autor do livro The Irrational Ape, sobre desinformação relacionada a ciência.

Essa falácia lógica é construída a partir da ideia de que dois eventos que acontecem em uma sequência cronológica estão ligados por meio de uma relação de causa e efeito. Outros exemplos: "Eu espirrei e, segundos depois, a luz caiu". A luz caiu por que eu espirrei? "Hoje de manhã nós dançamos. Mais tarde, choveu." Choveu porque dançamos?

"A gente tem uma pré-disposição para pensar de maneira temporal: 'se aconteceu A e depois aconteceu B, logo B foi causado por A'", diz Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela USP e presidente do Instituto Questão de Ciência. "É intuitivo pensar assim. De maneira genérica, não parece que está errado. O método científico é que é contraintuitivo e precisa ser aprendido."

"As pessoas não param para pensar que existem diversos outros fatores. Uma pessoa pode ter melhorado por causa do remédio, apesar do remédio, ou por causas nada a ver com o remédio. As pessoas atribuem facilmente relações de causa e efeito que não estão lá."

Se João tem uma dor de cabeça, toma um banho, bebe água, toma um chá de ervas, toma um medicamento, bebe suco de laranja, sai para caminhar, tira uma soneca… Qual dessas variáveis ajudou a curar a dor de cabeça? Ou então, será que nenhuma teve efeito para a dor de cabeça, que passou sem interferência dessas ações?

Seres humanos tendem a ser "cegos" para as diferentes variáveis, além de ter vieses de confirmação quando querem acreditar que determinada intervenção ou medicamento funciona para alguma doença, observa Grimes.

Mas casos individuais ou isolados não têm qualquer valor científico.

É porque sem controlar variáveis não dá para chegar à conclusão de que alguém melhorou por causa de um medicamento ou outra intervenção. "O que mais a pessoa fez nesse período da doença? A doença pode ter passada sozinha, como muitas passam. A pessoa pode ter começado a se alimentar melhor, parou de se alimentar com algo que estava fazendo mal e nem sabia, começou a dormir melhor, saiu de um período de estresse. Ou então, houve uma resolução espontânea da doença", enumera Pasternak.

Ela cita seu próprio exemplo: "Eu tive asma infantil, que passou na fase adulta. Imagina que depois de 5 ou 6 anos tendo uma criança asmática, minha mãe decidisse que ia me dar homeopatia. E, depois de um ano, a asma sumisse. Qual seria a conclusão da minha mãe? Que a homeopatia curou minha asma, quando provavelmente foi a puberdade, já que é uma doença tipicamente infantil".

"Isso vai dando força para essas narrativas de evidências anedóticas, com pessoas dizendo: 'eu conheço uma criança que tomou homeopatia e a asma passou'. Essas narrativas são muito fortes na sociedade porque são depoimentos de amigos, conhecidos, que viram isso acontecer", diz Pasternak. "A evidência anedótica sempre tem valor sentimental, emocional que é muito mais forte."

Nosso cérebro responde ao apelo das experiências pessoais, opina o comunicador de ciência Jonathan Jarry, do McGill Office for Science and Society, organização dedicada ao ensino de ciências na Universidade McGill, em Montreal, Canadá. "É por isso que a maneira como contamos histórias em livros e filmes funciona tão bem. Nós amamos uma boa história", diz ele à BBC News Brasil.

"Mas quando se trata de avaliar se um tratamento funciona ou não, as histórias podem confundir em vez de educar. Precisamos recorrer à ciência para remover as variáveis ​​contaminantes e chegar a uma resposta objetiva."

Para Grimes, "os humanos têm dificuldade de encontrar padrões". "As coisas mais vívidas para nossa memória são as anedotas, enquanto estatísticas médicas são entediantes e secas", diz.
As anedotas, diz Jarry, podem, sim, ser usada para gerar hipóteses — que então testamos rigorosamente — , mas elas não são de forma alguma conclusivas.

Isso porque há uma série de razões pelas quais alguém pode ter melhorado que nada têm a ver com o tratamento que afirmam ser a causa da cura.

"Do lado de fora, é fácil ver: você tem doença, recebeu uma intervenção (um medicamento) e depois ficou sem a doença. É muito fácil pensar que a intervenção causou a mudança na situação", diz Jarry. "Mas pode ser que a pessoa tenha feito vários tratamentos diferentes.

Depoimentos pessoais estão cheios de variáveis ​​que não controlamos, sobre as quais nem mesmo estamos pensando, e que podem afetar o resultado final. O papel da ciência é se livrar de tantas variáveis ​​quanto possível, limpar para que tudo o que restar seja exatamente o que nos interessa estudar."

Hoje, existem métodos científicos confiáveis para comprovar se um medicamento tem eficácia para uma doença, e esses métodos passam longe das evidências anedóticas repetidas por Bolsonaro (Continua)

 

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