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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

21
Abr20

Pandemia, presidência, psicanálise

Talis Andrade

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Escrevo hoje – e muito – para tentar tecer algum fio ordinário em meio a um contexto extraordinário.

Porque vivemos um contexto extraordinário, certo? Extraordinário sempre me pareceu palavra positiva, feliz, acima da média. Mas é mais. É o que está fora da ordem conhecida, fora do habitual. Só somos habitantes quando habitamos o habitual. Quando deixamos de habitá-lo, saindo do espaço e tempo conhecidos, passamos a estranhos, estrangeiros, desengrenamos a ordem ordinária e caímos na ordem fora da ordem, na extra-ordem, extraordinária.

Com certo grau de ineditismo, em tempos de #fiqueemcasa, estamos estrangeiros dentro de nossa própria habitação, entre as paredes da casa ou as do corpo, que nos enformam e cercam nossos vazios. Desabituamos e desabitamos para, quem sabe, reinventar novas formas de habituar e habitar.

 

Em momentos de caos como o que vivemos, experimentamos desorientação, desconcerto, em alguns casos desespero, ansiedade, pânico. De onde tirar forças para suportar o mundo e nos suportar? Talvez daquilo que fizemos com o que fizeram de nós. Ou seja: desfolhando os discursos inumeráveis que nos formaram, que foram desde o nascimento inscritos em nós. Lançando mão da linguagem que, sim, nos habita, para buscar algum equilíbrio e tentar, no cenário extraordinário, alguma ordem estruturadora. Não é simples, vai além da força de vontade. Afinal, não somos formados apenas por discursos que nos fortalecem, somos resultado também de encontros feitos de medo, de indiferença, de violência, que podem vir à tona sem que saibamos muito bem de onde brotam, podem surgir silenciosos no corpo, amortecem, arrepiam, provocam insônia, palpitação. E cenários catastróficos múltiplos podem entrar na dança do imaginário.

Na busca por linha-guia, outra forma de encontrar suporte está no encontro com o outro, esse ao nosso lado, pai, mãe, esposa, marido, filhos, amigos, namorada, namorado. Em vez de enfrentarmos tudo sozinhos, recorremos a esse pequeno outro, gente como a gente, que nos ajuda a estabelecer contato horizontalizado, de igual para igual. São pessoas queridas que também estão perplexas e que, talvez unidas, possam proporcionar alívio mútuo.

Pois bem: um recurso para lidar com o extraordinário é, então, olhar para dentro, descobrir ali os discursos que nos habitam e que podem nos dar suporte ou nos fazer desmoronar. Outro recurso é olhar para os lados, encontrando no outro um consolo, a piada que distrai, o abraço do corpo ou da palavra.

Mas há ainda uma terceira forma possível: a que olha para cima. Que cria uma relação vertical, obriga-nos a erguer o pescoço e nos faz pequenos.

Consigo pensar em dois modos de buscar socorro em tempos extraordinários olhando para cima: o primeiro é recorrer, lá no alto, a um Deus. Uma entidade que sabe o que está fazendo, que tem planos para todos, que leva embora quem ele acha que já cumpriu missão na terra. Uma entidade que transcende esse mundo natural e limitado, algo sobrenatural, extranatural, igualmente extraordinário. Trata-se de depositar na vontade divina o plano da salvação. A segunda forma é olhar para cima a fim de encontrar um líder, humano mesmo, do mundo natural, seja um pai, que nos foi dado pela contingência, seja alguém escolhido pela maioria por sua excelência em coordenar anseios coletivos, capaz de liderar um conjunto de individualidades que abstratamente chamamos de nação.

(Talvez sejam desnecessários esses parênteses, mas as três formas de lidar com o extraordinário – dentro, lado, alto – não se excluem.)

Eu acharia muito útil, por exemplo, viver em um país cuja autoridade principal fosse capaz de dizer a seus conterrâneos: vamos fazer um isolamento total até o dia x. Depois disso, conforme apontarem os principais consensos científicos e os números – corretamente apurados –, tomaremos novas decisões, tendo em vista o amparo necessário aos mais vulneráveis social e fisicamente, mirando a vida como valor maior.

Quando Nietzsche disse que Deus estava morto, não era o filósofo quem o estava matando. Ele apenas constatava que a figura, lá em cima do eixo vertical, se fragilizava a ponto de ser pulverizada, desmanchada. O pai, o professor, o padre, o patrão. O presidente. Essa coincidente sequência de pês, na direção da qual costumávamos olhar e seguir, caiu. Ficamos a ver navios, pois nos céus nada mais havia. (Continua)

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