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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

13
Jun20

Omissão de dados da pandemia subestima inteligência da população, diz presidente da Transparência Internacional

Talis Andrade

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Marcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC News Brasil

- - -

A emergência gerada pela pandemia do novo coronavírus está servindo para realçar tendências autoritárias e populistas no mundo - seja na forma como a quarentena é implementada e exigida ou na maneira como as informações são dadas à população, opina a presidente da ONG Transparência Internacional, a advogada argentina Delia Ferreira Rubio. Para ela, a emergência exige ainda maior transparência, o que significa mais informações e clareza no que se é comunicado.

Em entrevista à BBC News Brasil, falando de Berlim, na Alemanha, Rubio disse que “é um erro subestimar a população” e querer “tapar o sol com a peneira”, quando questionada sobre a suspensão da divulgação dos dados oficiais do total de mortes por covid-19 no Brasil.

Veja os principais trechos da entrevista, na qual ela fala sobre situações, em tempos de pandemia, na América Latina, na Europa e nos países asiáticos:


BBC News Brasil - O Brasil é hoje o segundo país com mais casos do novo coronavírus, e surgiu uma polêmica porque o governo deixou temporariamente de divulgar os dados sobre as mortes. Os jornais brasileiros fizeram um consórcio para reunir e divulgar os dados nacionais. A Justiça (ministro do STF, Alexandre de Moraes) determinou, então, que o Ministério da Saúde divulgue estes números como vinha fazendo. Qual é sua visão sobre esta questão que envolve dados oficiais, governo e a área da saúde?
Rubio - Nesta pandemia, do ponto de vista institucional, a informação foi uma das vítimas. Em uma reunião sobre políticas públicas, eu mencionei o caso do Brasil. Acho um assunto muito importante. Primeiro, pelo grave que é que um governo tenha decidido que não daria informação sobre essa questão. E do ponto de vista do controle institucional, o que foi positivo é que existem mecanismos para colocar as coisas em seu lugar. Acho positivo que a medida tenha sido revertida. A informação em temos de emergência tem que ser ainda maior do que a que existe em tempos normais.

Temos que conseguir que os governos nos transmitam não só o que fazem e respondem em termos de emergência e de compras públicas e utilização dos recursos, e como as doações são realizadas e ajuda social e etc. Além disso, os cidadãos precisam ter acesso à informação sobre temas específicos ligados à emergência que estamos vivendo. Por exemplo, quais são as medidas que estão sendo tomadas. E isso deve ser informado à sociedade de forma clara para que se possa gerar credibilidade, confiança e uma reação da sociedade diante de um problema que nos afeta a todos. Precisamos saber, por exemplo, que medidas sanitárias estão sendo tomadas. Quais as condições do sistema sanitário para responder à demanda de leitos, de respiradores, de terapia intensiva. Temos que saber também qual é a situação das equipes de saúde.

Em alguns países, os profissionais de saúde, por estarem na linha de frente, foram muito afetados. E isso não é só porque estão próximos dos doentes. Mas sim porque muitas vezes não foram adotadas as medidas para protegê-los da forma adequada - os materiais de proteção, as roupas, as máscaras e etc. E a população tem o direito de saber como está essa situação. Como estão os hospitais, os leitos, as terapias intensivas. E, claro, que temos o direito de saber também quantos testes (de coronavírus) são feitos. Porque o mundo inteiro está acompanhando os dados da Universidade...


BBC News Brasil - ...Johns Hopkins, dos Estados Unidos (que compila dados de mortes e casos no mundo).
Rubio - Uma coisa é olhar esse número de forma fria, mas sem saber quantos testes foram realizados nesse país. Que tipo de teste foi aplicado? São aqueles que buscam saber sobre a doença nos assintomáticos? Sobre aqueles que já têm sintomas? Existe muita coisa que a cidadania precisa saber para poder captar a situação real que está vivendo. Não são números por números. 

 

BBC News Brasil - O governo brasileiro argumenta que só se fala na pandemia, que isso pode gerar medo, parar a economia. Os dados seriam divulgados depois do Jornal Nacional, da TV Globo. Como a senhora vê esses argumentos?
Rubio - Acho que são argumentos que desconhecem ou subestimam a capacidade de inteligência da cidadania. Acho que as pessoas estão muito mais conscientes de qual é a situação e não porque a notícia será dada depois do noticiário. A população está vendo o que está acontecendo. Pretender tapar o sol com peneira nunca foi uma medida razoável para os líderes dos países em situações como a que enfrentamos. Acho que é um erro subestimar a população.

A outra discussão, um pouco populista, é o argumento em alguns países de que tudo é a saúde e nada mais que a saúde’. Em outros, o argumento é ‘não vamos focar na saúde porque a economia é o principal’.

Nas sociedades, os interesses devem ser compatíveis. É preciso dar atenção à saúde e também aos efeitos econômicos, sociais, psicológicos e profissionais. São desafios que aparecem na pandemia. Essa é uma emergência que não é somente sanitária. É também uma emergência econômica. Se um país é parado por 90 dias, é evidente que esse país terá uma forte perda econômica. De forma geral e para cada pessoa. Sejam donos de comércios, sejam empregados, sejam trabalhadores informais como é o caso das economias da América Latina. Ou seja, muitas das respostas dos governos para solucionar os problemas econômicos não chegam ou não são suficientes para o setor informal da economia. A opção não pode ser nunca um extremo ou outro. Só a saúde ou só a economia. Mas sim um enfoque equilibrado.

 

BBC News Brasil - Para os trabalhadores informais, se não saírem para trabalhar, pode ser que não tenham dinheiro para comprar comida. Não é uma equação simples.
Rubio - Claro que não. Se fosse simples, não seria uma situação de emergência global. Tivemos antes emergências setoriais, como com o ebola. A Aids foi mais ampla, mas também não chegou a esse nível de emergência. E quando começamos a ver o que o governo chinês fazia, fechando cidades, determinando quarentenas generalizadas e etc, pensamos que essas medidas não poderiam ser implementadas no Ocidente, em sociedades como as nossas.

No entanto, essas medidas foram tomadas. É uma situação especial e cada governo tenta fazer o melhor, mas não é fácil encontrar esse equilíbrio. Mas quando se definem políticas públicas é preciso pensar qual é a situação de cada país. Não se podem copiar receitas de outros países com outros contextos e outra situação econômica. Mas é preciso que se leve em conta que o objetivo é o bem-estar das pessoas.

Uma coisa que me preocupa é se alguém diz que além da saúde é preciso prestar atenção também em outros fatores, aparece alguém para dizer ‘você quer que muita gente morra’. Não, não é isso que estamos dizendo. Estamos dizendo que vocês precisam dar atenção à saúde, mas também existem outros aspectos da emergência. Estamos vendo, aqui da Transparência, uma preocupação por diferentes enfoques. Por exemplo, quem são as pessoas que formam os comitês especiais que assessoram as autoridades nesse momento? Talvez esses especialistas tenham apenas um foco. Mas é importante ter o complexo quebra-cabeça de políticas públicas.

 

BBC News Brasil - Na Argentina, existe um comitê de infectologistas que assessora o presidente Alberto Fernández. No Uruguai, o comitê que assessora o presidente Lacalle Pou inclui economistas, engenheiros e infectologistas, entre outros. No Brasil, o presidente Bolsonaro disse que “vai quebrar tudo” com o isolamento (e fechamento do comércio). Os governadores passaram a adotar quarentenas em seus territórios. Como a senhora vê essas situações? Argentina, Uruguai e Brasil.
Rubio - Acho que em relação aos comitês, o modelo é o uruguaio por causa da variedade dos aspectos da emergência. A emergência é sanitária, mas tem derivações econômicas, institucionais e outras. Mas mesmo no assunto sanitário é preciso ouvir várias vozes. Na Argentina, por exemplo, as crianças não tiveram a devida atenção na quarentena. Psicólogos e professores sabem que existem consequências nas crianças depois desse confinamento. São questões que aparecem agora na Argentina, mas já são quase 90 dias de confinamento (na cidade de Buenos Aires, os pais foram autorizados, somente recentemente, a sair com os filhos nos fins de semana).

Além disso, o ideal é que presidente e governadores trabalhem de forma conjunta. A resposta coletiva é mais eficiente quando é coordenada e de consenso. Em algumas situações, como também ocorreu nos Estados Unidos, os governadores também tiveram que usar suas atribuições para resolver seus problemas com sua cidadania ou em seu âmbito. Na Alemanha, por exemplo, até que a quarentena fosse sendo um pouco liberada, houve uma coordenação entre o governo nacional e as autoridades locais. Eles se reuniam com a chanceler Angela Merkel e as decisões eram combinadas. Quando a situação ficou menos grave, os estados recuperaram sua capacidade de como ir abrindo e tal. (Continua)

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