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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

09
Mar19

OMBROS DO PAI

Talis Andrade

por Rafael Rocha

Ivanildo Lins Rocha.jpg

Meu pai, Ivanildo Lins Rocha

28 anos de saudades

Falecido em 9/03/1991

 


Muitas vezes meu pai ofereceu seu ombro
para que eu pudesse dizer as minhas mágoas.
E dezenas de vezes (ah! Essas lembranças!)
deslizou seus dedos pelos meus cabelos
as mãos pela minha pele
com o orgulho de um vigilante do meu tempo.
Pelas mãos de meu pai conheci caminhos
ermos e perigosos e abismais
e escutei seus conselhos para caminhar
naqueles onde meus pés pudessem sentir a planície.
Ele conhecia quase a fundo meus defeitos
tanto os físicos como os do espírito
e muitas vezes pediu sem arrogância
que eu construísse a vida afavelmente
buscando entender a besta a viver nos outros.
Mas nunca, nunca mesmo, baixasse a cabeça
pra os opressores e os arrogantes.
“Faça o que eu digo. Nunca o que faço”.
Muitas vezes meu pai fechou seus ouvidos para mim.
Fechou seus olhos e não quis enxergar minha vida.
E em quantos momentos (Ah! Essas lembranças!)
aplainou carinhosamente os músculos do meu cérebro
em silêncio, em seu constante silêncio,
como um marceneiro a trabalhar na madeira bruta.
E era nesses instantes que eu o conhecia
mais detidamente como o homem mais difícil
que jamais tinha passado por minha vida.


Conheci os defeitos físicos e os do espírito do meu pai
quando meus primeiros cabelos brancos nasceram
ao ver que os olhos dele não tinham mais o brilho da vaidade.
E entendi que para se lapidar a vida
o homem tem de lapidar primeiro a si mesmo
e depois aceitar o tempo em que viveu como uma dádiva
entregue por algum espírito errante.


Hoje não mais tenho comigo os ombros do meu pai.
Minhas mágoas hoje dormem na solidão eterna.

 

 

---

Do livro “Marcos do Tempo” – 2010

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