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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

18
Abr18

O SERTÃO LIBERTADO

Talis Andrade

ANTÔNIO CONSELHEIRO e o POVO.jpg

 

Neste apartado mundo

as palavras são secas

secos os corpos

 

Neste mundo seco

o sermão do peregrino

possuía a força

de uma enchente no rio

derrubando as cercas

derrubando os mourãos

pelourinhos em que a polícia

os padres os fazendeiros

prendiam e seviciavam

os vaqueiros destemidos

os camponeses foragidos

 

Neste mundo seco

o peregrino construiu uma cidade

pelo milagre da oração

Sua palavra era doce

como a água de uma fonte

doce como a água de um açude

 

Na secura da terra

a liberdade criou raízes

raízes verdejantes

E foi chegando gente

foi chegando gente

de todos os recantos 

O peregrino construiu

da noite para o dia

a segunda maior cidade

para o espanto da Bahia

 

Foi um marco nunca visto

uma ousadia que precisava

ser contida

Os jagunços apareceram

com os trabucos

A polícia apareceu

com os fuzis

O exército com os canhões

 

As expedições da prepotência

três vezes derrotadas

três vezes debandaram

deixando para trás

armamentos e cadáveres

 

A escaramuça dos frades

e fazendeiros

virou guerra

a guerra do fim do mundo

 

Canudos está perdida

Era a guerra da Igreja

contra os heréticos

Da República

contra os zumbis

do rei menino

Dom Sebastião

Era a guerra dos latifundiários

contra a multiplicação

dos frutos repartidos

 

Derrubaram as casas

Derrubaram a igreja

Degolaram camponeses

e vaqueiros os guerreiros

de Antonio Conselheiro

Degolaram mulheres e crianças

Degolaram os sonhos

de um paraíso

aqui na terra

 

Morto Antonio Conselheiro

profeta de Deus

os caracarás e urubus

passaram a voar

sobre o Vale do Vaza-Barris

 

Morto Antonio Conselheiro

o corpo desenterrado

para ser fotografado

e degolado

dos camponeses o esquerdo

de correr os rios secos

os desolados campos

onde nada se vê

nenhuma alma

nenhum palmo

de terra verde

por mais mundo

que se andeje

 

A correr os rios secos

a correr os caminhos secos

nenhum pedaço de terra

os nascidos pobres

haverão de ter

 

---

Talis Andrade, O Enforcado da Rainha, ps 29/33

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