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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

31
Mar20

O que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade

Talis Andrade

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II - Coronavírus: Bolsonaro só acredita na ‘ciência’ quando o resultado lhe interessa 

 
 
 

Baseando-se no método indutivo a partir do próprio umbigo, o que temos assistido é um show daquilo que podemos chamar de ignorância orgulhosa.

Desde que a crise do coronavírus chegou ao país, o bolsonarismo se mostrou no seu estado mais bruto. O bolsonarista raiz tem orgulho de jogar uma opinião como se ela fosse equivalente a fatos científicos. Se o tiozão se gripou e não morreu, então de nada vale dezenas de anos e milhões de dólares investidos no centro de pesquisa epidemiológica do Imperial College London, que se dedica ao estudo das grandes pandemias. A minha verdade é a verdade que eu imponho ao mundo.

No dogma bolsonarista, não faria diferença se Bolsonaro adoecesse pela covid-19 e mesmo que viesse a morrer da doença. Seus seguidores o enalteceriam pela bravura e em nada mudariam de opinião, pois não estamos falando de ciência, mas de crença. São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé. Há muitas décadas, a antropologia se esforça para que a ciência converse com outros sistemas de conhecimento. Mas não é o caso aqui. Afinal, a crença fascista não se assume dogmática e se torna eficiente entre os seus justamente porque emula uma relação com a ciência.

Como venho refletindo há algum tempo, os fanáticos anti-ciência não se consideram anti-ciência – e entender isso é fundamental. O que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade. No mundo todo, a extrema direita flerta com o (parco) conhecimento científico que existe para legitimar as próprias crenças. O grande alerta dessa relação dos fascistas com a ciência foi disparado quando a importante revista científica Third World Quarterly publicou em 2017 um artigo racista que justificava o imperialismo. O artigo havia passado pelo sistema de peer-review, isto é, revisão pelos pares, e mesmo assim foi aprovado. Felizmente, a revista retirou do ar a publicação após denúncias.

No domingo, 29 de março, recebi uma notificação de mensagem que criticava os fanáticos que ignoravam evidência científica. Certa de que era uma mensagem de minha própria rede progressista, surpreendi-me ao ver que era de um dos tantos grupos bolsonaristas que acompanho. Os fanáticos, no caso, seriam os esquerdistas que são movidos pela ideologia. Nessa bolha, eles compartilham estudos duvidosos e até mesmo matérias antigas, como foi o caso na reportagem do El País sobre a Itália antes da crise, que obrigou o jornal a emitir uma nota dizendo que se tratava de uma matéria antiga. O mesmo ocorreu com o uso descontextualizado de uma fala de Drauzio Varella se referindo à epidemia como uma gripezinha.

Esses exemplos indicam que os fanáticos bolsonaristas não estão ignorando a ciência como fonte de autoridade e recorrendo à ordem divina de Deus para justificar seu entendimento sobre a pandemia. Eles recorrem a um recorte conveniente e oportunista da ciência. É uma espécie de populismo científico vulgar. (Continua)

 
 

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