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O CORRESPONDENTE

Os melhores textos dos jornalistas livres do Brasil

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O CORRESPONDENTE

16
Jul20

O que Bolsonaro falou durante a pandemia

Talis Andrade

por Ben-Hur Demeneck/ Le Monde

Em dois meses e meio de pandemia Jair Bolsonaro falou o suficiente para preencher 130 páginas de pronunciamentos, entrevistas, coletivas e “lives”. Em uma média superior a mil palavras ao dia, é possível reconhecermos padrões de conteúdo, prioridades e valores do presidente diante da maior crise sanitária do século XXI.

Durante 77 dias de pandemia Bolsonaro falou na mesma medida de tacógrafos que de respiradores. Nunca mencionou a palavra “tecnologia”. Priorizou “povo”, “Deus” e “cloroquina” em vez de “democracia”, “ciência” e “hospitais”. Desacreditou a imprensa, enquanto lançou mão de um arsenal de falácias para contornar fatos presentes no espaço público. Para identificar tais modelos, contamos e comparamos palavras expressas nas manifestações públicas do 38º presidente do Brasil. Ou seja, falas de exclusiva responsabilidade de Messias Bolsonaro.

Cloroquina e outras mentiras

No intervalo de tempo entre o primeiro óbito brasileiro causado por coronavírus até o de número 25 mil, Bolsonaro mencionou “povo” (144) cinco vezes mais que “democracia” (25) e sete vezes mais que “Constituição” (19). Embora os binômios “povo x democracia” e “povo x constituição” não signifiquem oposições diretas como “ditadura” x “democracia”, não é desprezível como o desgastado adjetivo “populista” calhe para descrever Bolsonaro não apenas por repisar o termo, mas se acreditar como sendo seu intérprete e reizinho.

Diante de críticas lançadas pela imprensa, Legislativo ou Judiciário, Bolsonaro não evita reações de fúria nem se constrange em rebater fatos com crenças pessoais ou com imprecisões, contradições, exageros e distorções. Digno de nota é ver agências de checagem pescarem com redes de arrastão declarações carentes de verdade e justificação.

Apenas para citar um exemplo de descontextualização praticado pelo presidente em 31 de março, primeiro diante do Palácio Alvorada e depois em pronunciamento oficial, repercutiu uma fala de Tedros Adhanom, chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde). “O que ele disse praticamente? Tem que trabalhar”, distorceu Bolsonaro. O chefe de Estado brasileiro recorria à credibilidade da OMS não para estimular medidas de restrição sanitária – recomendadas pela instituição –, mas para produzir o efeito contrário.

Pandemia: segunda temporada

Nossa rápida incursão pela retórica de Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 permite concluir que o presidente adota uma retórica anticientífica e populista, apelando de modo irresponsável ao sentimentalismo, à fé, à pessoalidade e ao poder de seu cargo para impulsionar narrativas que carecem de fundamentação e validação. E o mais importante: não se tratam de ações espontâneas, mas de um continuum. A estratégia se mantém ao longo de nossa análise, desde o início da pandemia no Brasil até o registro de mais de 25 mil óbitos.

O enfrentamento de epidemias de cólera no século XIX influenciaram no estabelecimento de uma noção de factualidade tanto da linguagem jornalística quanto do discurso científico. Sem a separação mínima entre fato e opinião, por mais problemática que tal divisão seja, jamais surgiria o gênero notícia e a profissão repórter. Em contrapartida, mais de 150 anos depois, o chefe de governo brasileiro se aproveita de uma pandemia para torturar os fatos até que obtenha deles versões que lhe convêm ao seu plano de poder.

Enquanto óbitos se acumulam ao lado de placebos políticos, nunca se exigiu tanto de cientistas e jornalistas investigativos para confrontar o obscurantismo de políticos autoritários, quando inflam o noticiário com crenças que passam longe de ser verdadeiras e justificadas. Um presidente não pode fazer de conta por SETE vezes que a Covid-19 causa uma “gripezinha”, enquanto a mesma cancela calendários e biografias por todo lugar. O Brasil do século XXI não pode agir como se acreditasse que miasmas causam a cólera, que relíquias ungidas curem pestes medievais e morcegais.

Para azar dos patriotas, o “roteirista” do Brasil aposta demais na paciência e muito pouco na inteligência de seu público. Contudo, ainda dá tempo de lutar contra os arautos da ignorância e desmontar as “ficções políticas”, ainda que estejam anabolizadas com cloroquina. Ainda há tempo de escaparmos da assistência de esta série tragicômica em que se tornou o Brasil. Para tanto, é urgente viralizar ciência e jornalismo. Não permitir que tiranetes sigam deteriorando o espaço público com meias-verdades e mentiras completas. (Transcrevi trechos)

 

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