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O CORRESPONDENTE

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O CORRESPONDENTE

09
Abr22

O PERFIL PSICOLÓGICO DOS ASSASSINOS EM SÉRIE E A INVESTIGAÇÃO CRIMINAL

Talis Andrade

serial killer palhaço.jpeg

 

por GUIMARÃES, Rafael Pereira Gabardo

Resumo:

O objetivo deste trabalho é identificar e compreender a origem do comportamento do assassino em série e destacar as características comuns entre os serial killers. O trabalho faz uma abordagem dos métodos de investigação aplicados nos crimes praticados pelos assassinos. Foram utilizados na confecção do presente trabalho pesquisas em doutrinas, notícias veiculadas pela imprensa e internet, além de seguir o método dedutivo para o desenvolvimento do texto ora apresentado.

 

Abstract:

The purpose of this work is to identify and understand the origin of the serial murderer behavior, emphasize common characteristics between serial killers. The work approaches with investigation methods applied in the solution of crimes perpetrated by the killers. It has been used for elaboration of this present work doctrines research, news thrown by the press and internet, and also deductive system for the development of the study now introduced.

 

Introdução:

"As emoções humanas são um presente de nossos ancestrais animais.
Crueldade é um presente que a humanidade deu a si mesma”
Hannibal Lecte
r

 

Ainda não é de fácil compreensão o que impulsiona certas pessoas a adotarem uma postura que vai de encontro à lógica da preservação da vida, ou seja, indivíduos cujo objetivo é justamente o oposto, qual seja, o de exterminá-la. A origem desse comportamento geralmente é atribuída à determinada psicopatia, malformação mental, herança genética ou algum episódio violento ocorrido durante a infância ou adolescência. Tais indivíduos, ao cometer crimes contra a vida, são comumente reconhecidos pela alcunha de serial killers ou assassinos em série.

Algo que frequentemente deixa as pessoas surpresas é descobrir que essa espécie de homicidas tem vidas com aspectos comuns: possuem famílias, empregos, namoram, conversam com os vizinhos, leem livros, assistem filmes e etc. Aparentemente são pessoas normais que esconderam de todos, durante muito tempo, a sua verdadeira identidade maligna secreta. E isso realmente é assustador.

Há uma falsa noção de que os serial killers são produtos recentes das sociedades modernas, muito por conta da exploração midiática dos casos pelo jornalismo sensacionalista e cinema dos Estados Unidos no século passado e dias atuais. No entanto, ao longo da história da humanidade, verifica-se que eles sempre estiveram presentes em vários tipos de culturas e localidades diversas, porém, num primeiro relance passam despercebidos, já que a denominação serial killerfoi criada somente há algumas décadas atrás.

Na Idade Antiga e Idade Média, por exemplo, os guerreiros e cavaleiros, muitas vezes eram psicopatas que podiam livremente dar vazão aos seus objetivos homicidas sem se importar com qualquer forma de repreensão moral, uma vez que a única preocupação era apenas aniquilar o inimigo, independente da forma que isso ocorresse, ou seja, tinham plena liberdade para agir sem preocupação com as consequências dos seus terríveis atos. Por isso, não há dúvidas em se afirmar que os assassinos em séries permeiam a humanidade desde sempre.

E justamente diante desta afirmação é que surge uma grande perplexidade: os serial killers sempre estiveram por aí e a humanidade não conseguiu suprimir esse comportamento tão maligno da nossa convivência. Contudo, no último século, o avanço na área da psicologia, criminologia e investigação policial propicia fundamentos para uma mudança nesse panorama.

 

1. Serial Killers:

"O anjo caído torna-se um diabo maligno"
Mary Shelley

 

1.1 Origem do termo e definição:

A expressão serial killer é de certa forma recente, o que leva muitas pessoas a acreditar que esta espécie de indivíduo tenha surgido tão somente nas últimas décadas, pois anteriormente não se ouvia falar nesse termo.

Tal denominação foi criada nos anos de 1970 por Robert Ressler, agente especial do Federal Bureau of Investigation (FBI), membro fundador da Unidade de Ciência Comportamental. Segundo ele, ao assistir a palestra de um colega que se referia à sequência de roubos, estupros e assassinatos como “crimes em série”, ficou tão impressionado com a força da expressão, que passou a usar o termo serial killer para descrever o comportamento do homicida que reitera a prática de homicídios.

No entanto, vozes em contrário afirmam que Robert Ressler apenas adaptou o termo “homicida em série” (serial murderer), utilizado uma década antes por um crítico alemão chamado Siegrfried Kracauser. No entanto, não se pode por em descrédito a inovação de Robert Ressler ao introduzir uma palavra tão impactante na cultura mundial.

Mas como se define o serial killer? Essa é uma questão que não encontra harmonia entre os especialistas. Segundo o FBI, os assassinos em série são indivíduos que matam três ou mais pessoas, em locais diferentes e com um intervalo entre eles. Portanto, essa definição usa três critérios para identificar o serial killer, quais sejam: quantidade, lugar e tempo.

Contudo, a definição oficial do FBI sofre diversas críticas, pois ora seus elementos são muitos abrangentes, ora muito específicos. Por exemplo, muitos especialistas indicam que o serial killer pratica seus crimes sempre tendo uma forte conotação sexual em seus atos, e alguns outros criminosos não agem com essa finalidade, como por exemplo sequestradores, matadores de aluguel, mas se for considerado o critério objetivo da quantidade, todos se enquadrariam como assassinos em série.

Também o elemento objetivo de lugares distintos é questionado, já que notórios serial killers realizavam os seus crimes em um único local, como o caso de John Wayne Gacy, que usava o porão de sua casa para torturar e esconder os restos mortais de suas vítimas. Também o caso do alemão Joachim Kroll, o “Canibal de Ruhr”, que matava suas vítimas e as cozinhava em seu apartamento, jogando partes dos corpos no vaso sanitário, o que entupiu o encanamento do prédio e fez com que fosse descoberto. Além disso, não se pode desprezar os casos em que o indivíduo foi preso antes de cometer o terceiro assassinato, pois ele deixaria de ser um serial killer somente pelo fato de sua sequência ter sido interrompida fortuitamente?

Mas será que a diferença entre um serial killer e um assassino comum é só quantitativa? Óbvio que não. O motivo do crime ou, mais exatamente, a falta dele é muito importante para a definição do assassino como serial. As vítimas parecem ser escolhidas ao acaso e mortas sem nenhuma razão aparente. Raramente o serial killer conhece sua vítima. Ela representa, na maioria dos casos, um símbolo. Na verdade, ele não procura uma gratificação no crime, apenas exercita seu poder e controle sobre outra pessoa, no caso a vítima (CASOY, 2014, p. 20).

Por conta dessas críticas, surgiu uma outra definição mais flexível, elaborada pelo Instituto Nacional de Justiça dos Estados Unidos:

Uma série de dois ou mais assassinatos cometidos como eventos separados, geralmente, mas nem sempre, por um criminoso atuando sozinho. Os crimes podem ocorrer durante um período de tempo que varia de horas a anos. Muitas vezes o motivo é psicológico e o comportamento do criminoso e as provas matérias observadas nas cenas do crime refletem nuanças sádicas e sexuais (SCHECHTER, 2013, p.18).

Essa definição mais precisa é importante para, por exemplo, diferenciar o serial killer do assassino em massa (mass murderer). Ambas espécies de criminosos somente possuem um traço em comum: se envolvem em múltiplos homicídios.

Os assassinos em massa são aqueles que, por algum motivo que lhe tirou a vontade de viver ou lhe causa revolta, realizam uma carnificina em locais públicos, geralmente sem ter um plano de fuga e na grande maioria das vezes se suicidam ao final, seja dando cabo da própria vida após levar consigo o maior número de vítimas em seu surto de violência ou provocando um confronto fatal com a polícia. Normalmente usam armas de fogo. Nessa categoria entram também os ataques terroristas, que movidos por um ideal, praticam o homicídio de várias pessoas sabendo que ao final também serão mortos.

Cabe também indicar uma espécie diversa de assassino, o chamado spree killer, os quais geralmente são franco-atiradores (snipers) e que não pretendem ser presos:

Assemelha-se ao assassino serial, mas sua ação é muito mais veloz – porque mata muitos em um breve espaço de tempo -, e suas motivações não possuem um caráter sexual. Poderíamos considerá-lo um assassino em massa, porém mais lento em seu desdobramento […/ mas diferente deste, trata de passar despercebido, fugindo do público como da autoridade. (TENDLARZ; GARCIA, 2013. p.143).

Portanto, verifica-se uma clara distinção entre as espécies de homicidas, destacando que o serial killer nunca quer ser descoberto. Seus crimes possuem sempre um tom sexual e de sadismo.

 

1.2 Quem são os serial killers: aspectos gerais e psicológicos:

A maioria das pessoas tende a imaginar o serial killer como uma pessoa louca ou doente mental, o que se verifica não ser verdade na maioria dos casos. Há, no entanto, consenso de que os assassinos seriais possuem ligações íntimas com a psicopatia e a psicose, que são desvios mentais distintos.

A psicose é uma doença mental que provoca uma alteração na noção da realidade, onde um mundo próprio se forma na mente do psicótico, ou seja, ele vive num delírio e sofre alucinações, ouvindo vozes e tendo visões bizarras. As formas mais conhecidas de psicose são a esquizofrenia e a paranoia. Apenas uma reduzida parcela dos assassinos em série se enquadra no lado dos psicóticos, o que derruba a crença popular de que todo serial killer é louco.

Por outro lado, a psicopatia afeta a mente do assassino de forma diversa. Não cria nenhum tipo de ilusão na mente, ou seja, o indivíduo vê claramente a realidade e sabe que é proibido matar, porém suas perturbações mentais os fazem ser frios e sem empatia. Basicamente o serial killer psicopata vive uma vida dupla, mantendo uma aparência voltada para a sociedade, muitas vezes sendo uma pessoa gentil, racional e que interage com o meio social, porém, sua verdadeira identidade é mostrada somente para suas vítimas: um ser dissimulado e incapaz de sentir pena e de obter satisfação com tortura, estupro e assassinato.

Explicadas as diferenças mais substanciais entre psicóticos e os psicopatas, devem se fazer outros esclarecimentos importantes. O primeiro é que nem todos os assassinos seriais pertencem sempre a um desses dois grupos, mesmo que as estatísticas indiquem que a maior parte deles se encaixa neles. Estudos recentes dizem que a porcentagem de assassinos em série psicóticos está entre 10% e 20%. A porcentagem restante é quase integralmente pertencente aos psicopatas. O segundo esclarecimento: nem todos os psicopatas têm o mesmo grau de psicopatia e, por conseguinte, nem todos acabam se transformando em criminosos e muito menos assassinos seriais. Para termos uma ideia da incidência dessa anomalia comportamental no mundo, a Organização Mundial da Saúde apontou, em 2003, que cerca de 20% da população espanhola padecia de algum grau de psicopatia. Cerca de três anos antes, havia calculado que nos Estados Unidos moravam 2 milhões de psicopatas, dos quais 100 mil moravam em Nova York (RÁMILA, 2012. p.28-29).

Percebe-se então que o número de psicopatas no mundo é considerável, e mesmo sabendo que nem todos psicopatas são assassinos em série, esse percentual é deveras assustador.

A característica mais marcante do psicopata é ausência de empatia, pois possuem um vazio emocional e buscam emoções fortes de forma impulsiva, desprezando as relações humanas e a consequência dos seus atos. A vítima é apenas um objeto para o assassino em série:

Quando os assassinos em série são convidados a expressar as razões dos seus crimes, suas argumentações não despertam no interlocutor confiança alguma e são consideradas, na maioria das vezes, desculpas para evitar o cárcere ou a pena de morte (TENDLARZ; GARCIA, 2013, p.156).

E o que busca o serial killer com o cometimento dos crimes? Ele busca uma posição de superioridade, quer demonstrar que tem o poder e controle e faz isso degradando e humilhando suas vítimas. Alguns sentem essa sensação com a tortura, outros com o momento do assassinato e demais com a desfiguração ou desmembramento do corpo já inanimado.

Assim, os assassinos em série são divididos em quatro tipos:

  1. visionário: são os psicóticos, que matam como resposta às vozes ou visões que lhe exigem que cometam os crimes;
  2. missionário: acredita que a sociedade deve se livrar de determinadas categorias de pessoas (homossexuais, prostitutas, mulheres, crianças), pois crê que estas são o mal do mundo;
  3. emotivo: obtém prazer no planejamento do crime e mata por pura diversão;
  4. sádico: é o que busca satisfação através do sofrimento das vítimas, mediante tortura, mutilação e homicídio, os quais lhe trazem prazer sexual.

Olhando ao passado dos serial killers geralmente se encontram sinais comportamentais comuns entre eles, quais sejam: enurese em idade avançada (urinar na cama), piromania (provocar incêndios) e sadismo precoce (normalmente torturando animais ou crianças, como se fosse um ensaio para o futuro matador). Isso não significa que se uma criança fizer alguma dessas condutas certamente será uma assassina em série no futuro. É impossível fazer uma leitura prognóstica destes sinais. Contudo, o inverso sempre se mostra ocorrente, ou seja, no passado dos serial killers esses comportamentos são frequentes.

É a chamada “terrível tríade”, que também é complementada por outras características na infância: masturbação compulsiva, isolamento social, destruição de propriedade, baixa autoestima, acessos de raiva, dores de cabeça constantes, automutilações e convulsões.

 

1.1.2 Origem do comportamento homicida em série:

O avanço da psicologia, impulsionada pelos estudos de Carl Jung e Freud, permitiu perquirir sobre a origem dos atos humanos e especialmente os atos cruéis. Somado a isso, estudiosos de várias áreas, como policiais, psiquiatras, psicólogos, tem enveredado esforços para identificar as causas do comportamento desses assassinos.

Essas causas notadamente fazem referência a abuso infantil, seja psicológico ou físico ou sexual, influência genética, desequilíbrio químico na área mental, dano cerebral, exposição a eventos traumáticos e insatisfação acerca de “injustiças sociais”.

Vale destacar novamente que nem toda pessoa que tenha vivenciado algumas dessas referências necessariamente se tornará um psicopata. Frise-se que nos casos estudados sobre os serial killers, sempre há identificação de alguns desses aspectos indicados como causa, mas não é uma correspondência sempre certeira.

Notadamente, o abuso infantil é mencionado com frequência como parte do passado dos assassinos seriais:

Os pesquisadores sobre o tema consideram que o abuso infantil, de qualquer tipo e grau, não constituem uma causa exclusiva na formação de um futuro assassino, mas sim um fator muito importante para a compreensão do tema. Eles argumentam que os pais podem ser fontes de terror para os filhos. A mãe culpa-se mais que o pai, talvez porque comumente desaparece ou diretamente nunca esteve presente. As queixas sobre a mãe (são paradoxais) se referem acerca de seu caráter superprotetor ou muito distante; também de que se trata uma pessoa sexualmente ativa ou muito reprimida. Já sobre o pai, menciona-se serem alcoólatras, agressores ou misóginos. A marginalização e a ignorância sofrida por essas crianças precede suas futuras condutas agressivas, como também poderão resultar em um fanático religioso ou em iniciativas violentas para impor disciplina (TENDLARZ; GARCIA, 2013. p.152).

Também é com frequência relatado que os serial killers passaram por algum acidente ou agressão na infância que gerou danos cerebrais ou que existe alguma alteração química na mente. Por exemplo, John Gacy, o “Palhaço Assassino”, desmaiava com frequência devido a algum tipo de anomalia cerebral. Já Arthur Shawcross, o “Assassino do Rio Genesse”, tinha duas fraturas no crânio.

Outra causa apontada pelos especialistas é a influência do meio social. Muitos indivíduos acabam catalisando os estímulos ambientais ou ficam insatisfeitos com injustiças sociais, ou aparentes incorreções sociais que só existem na mente do indivíduo. Muitos pesquisadores indicam que a violência estimulada pelas mídias pode ser um fator que estimule o aparecimento de pessoas psicopatas. A cultura da violência na televisão, cinema, jornalismo, videogames, para alguns, serve de combustão para pessoas com desordem mental.

Rámila (2012) explana que a violência sempre existiu e em termos globais, inclusive as sociedades eram mais belicosas antigamente. Contudo o que ocorria era o conflito violento entre sociedades distintas. Países guerreavam um contra o outro. Mas hoje a violência está presente internamente, os conflitos ocorrem entre vizinhos e familiares. A violência é glorificada como forma de solução dos conflitos. Além disso, a pressão social em busca do sucesso a qualquer custo motiva o aparecimento do serial killer. Uma sociedade que classifica como pessoas vencedoras somente aquelas que tiveram grandes ganhos materiais acaba gerando um sentimento geral de frustração e injustiça, pois é evidente que a grande maioria não será rica ou famosa. Essa insatisfação propicia ao assassino um motivo para se rebelar e conquistar o seu “sucesso” pessoal.

No tocante à herança genética, a qual se afasta um pouco da concepção de que o indivíduo é produto exclusivo do meio, temos que, embora os assassinos em série comumente venham de lares disfuncionais, não se pode negar a possibilidade de que os mesmos genes que tornam os pais degenerados e perversos, sejam os mesmos genes passados aos filhos que futuramente se tornam assassinos:

Descobertas científicas recentes parecem confirmar que personalidades gravemente antissociais são, pelo menos em parte, produto de fatores genéticos. Experimentos mostraram que quando pessoas nascidas com ‘baixa atividade’ de certo gene (algo chamado ‘gene de monoamina oxidase A’) são submetidas a maus-tratos graves na infância, elas tem uma probabilidade muito maior de se tornar criminosos violentos do que pessoas nascidas com ‘alta atividade’ desse gene. Em suma, parece provável que tanto a educação como a natureza podem contribuir para a criação de serial killers (SCHECHTER, 2013, p.261).

Diante desse prisma, a origem do comportamento de cada serial killer é muito peculiar, porém, apresentado muitos traços comuns entre eles. Mas o certo é a tendência deles de repetir no futuro as causas da sua origem assassina, porém passando da posição de “vítima” para autor.

- - -

Ilustração: do serial killerJohn Gacy,  que se vestia de palhaço para alegrar crianças

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