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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

03
Jun18

O país dos canalhas – Final – A garganta profunda do abismo

Talis Andrade


O Brasil é um país de ficção devorado lentamente por urubus

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por Sebastião Nunes

 

– Sabe no que estou pensando, agora que estou indo embora? – perguntou Philip Marlowe a Raymond Chandler.

– Não faço a menor ideia – respondeu o escritor.

 

– No filme “Corações e mentes”, de Peter Davis, o documentário mais impressionante que já vi. Uma cena que nunca esqueci é a de um grupo de executivos vietnamitas, de paletó, gravata e pastas de luxo participando de uma reunião com executivos estadunidenses, discutindo não sei mais o quê.

– Não esqueceu por quê? – perguntou Chandler.

– O Vietnã estava atolado em violência e crueldade. A população era dizimada nos campos e nos arrozais por Napalm e, nas cidades, por granadas embutidas em bombas de bicicletas. Aviões disparavam contra qualquer alvo que se movesse: homens, mulheres, crianças, bois, cachorros, lagartos. E os executivos, como se aquilo não fosse com eles, bem vestidos e bem falantes, discutindo negócios com os ianques, numa grotesca demonstração de servilismo. Como se eles estivessem de quatro, abaixando as calças e implorando: “Me enraba”.

– E o que isso tem a ver com o Brasil? – perguntou o escritor.

– Tudo – respondeu amargamente Marlowe. – Absolutamente tudo. Talvez nunca chegue a um Vietnã, o Brasil, quero dizer, porque os brasileiros não têm colhões para enfrentar grandes dificuldades. Se gastam em falatórios, discursos e panfletos, como se todos fossem intelectuais metidos em gabinetes assépticos. Nem a violência chegará a proporções vietnamitas, porque sempre haverá a canalha que apela para soluções menos drásticas, porém igualmente trágicas: golpes secundários dentro do golpe primário, a eterna ameaça de intervenção militar, liquidação sistemática de pobres e negros, eleições indiretas à espreita... Sabe por que estou achando ótimo ir embora?

– Por quê? – indagou Chandler.

– Porque, em tão pouco tempo de Brasil, descobri que é mais ou menos como o México, a Colômbia e o Paraguai: eternos paraísos de elites corruptas. E com a elite se vendendo como a elite vietnamita antes que ser apeada do poder.

 

MARLOWE SE DESPEDE

Depois de ligar para o escritor para que o buscasse, já que era personagem e não tinha autonomia, o detetive particular tivera tempo de pensar e concluir.

 

Pensou nos canalhas que o haviam contratado: Amnércio Neves, Joseph Serrote, Ednardo Cunha e Sérgio Cabreiro. O objetivo, não custa repetir, era assaltar o Banco Central. Os desdobramentos, contudo, foram tantos que a tarefa nem chegou a ser definida com precisão. Amnércio e Serrote, oportunistas como eram, tinham encolhido, encolhido, encolhido – até sumir na sombra. Será que ao menos eram cumprimentados pelos vizinhos? Talvez não. Calhordas desse tipo fedem tanto que afastam as pessoas com um mínimo de decência. Os dois restantes estavam presos e, até onde podia imaginar, continuariam presos, com longas penas a cumprir.

 

Lembrou a quantidade de cocaína e outras drogas que rolava nos gabinetes que frequentou. As bacanais que enchiam as noites de congressistas, ministros e ricaços de todo o país. As fortunas que desapareciam em malas, apartamentos, paraísos fiscais, contas forjadas, empresas fantasmas.

 

E o judiciário sempre com dois pesos e duas medidas, prendendo e condenando sem provas, ou com provas plantadas. Os motivos eram óbvios: ninguém chega a procurador ou ministro de tribunal sem costas largas, sem família rica, sem berço de ouro, sem ancestrais importantes. Ou raríssimos chegam. O importante, então, é manter as 200 famílias reinantes reinando. Grimpadas lá em cima. Dividindo o espólio. Garantindo as heranças. O resto que se foda.

 

MARLOWE VAI EMBORA

Pela janela do avião o detetive viu a floresta lá embaixo. Que coisa maravilhosa! Que riqueza inestimável! E tudo vendido a preço de banana.

“Prefiro mil vezes”, pensou, “enfrentar o baixo mundo de Los Angeles, aqueles mafiosos duros matando e morrendo, do que os canalhas brasileiros, pequenos filhos da puta, sem um pingo de coragem, capazes apenas de rapinar e acumular”.

 

A seu lado Raymond Chandler ressonava.

Marlowe suspirou, recostou-se na poltrona e se deixou embalar pelos ruídos das turbinas e pelos movimentos dos comissários de bordo.

Ah, como era bom deixar de lado toda aquela sujeira, toda aquela podridão, toda aquela canalhice, para a qual não via solução.

 

Cansado, abriu o livro que estava lendo nos últimos dias, o delirante “2666”, do chileno Roberto Bolaño. O trecho que releu era sobre os pobres do México.

“Experimentaram o que era estar num purgatório, uma longa espera inerme, uma espera cuja coluna vertebral era o desamparo, coisa muito latino-americana, aliás, uma sensação familiar, uma coisa que se você pensasse bem experimentava todos os dias, mas sem angústia, sem a sombra da morte sobrevoando o bairro como um bando de urubus e espessando tudo, subvertendo a rotina de tudo, pondo todas as coisas de pernas para o ar.”

 

– O Brasil é isso – disse Marlowe.

– Que foi que disse? – perguntou Chandler acordando.

– Que o Brasil é um país de ficção devorado lentamente por urubus.

 

 

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