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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

10
Set20

O massacre das ignorâncias

Talis Andrade

ivan bolsonaro gado mito.jpg

 

 

por Moisés Mendes

- - -

O Brasil foi reconhecido mundialmente nas últimas décadas como um dos países com os mais eficientes programas de imunização em massa. Foi, mas não é mais.

A última informação é esta: pela primeira vez o Brasil não vem atingindo as metas para nenhuma das principais vacinas infantis. A queda da vacinação de crianças caiu em alguns casos em 27% nos últimos cinco anos.

Não é só por desleixo. É por falta de empenho dos governos, por alegada falta de verbas (que há para salvar banqueiros) e pela falsa sensação de que não é mais preciso vacinar os filhos.

Mas é também, e muito, por ignorância. O Brasil conseguiu regredir no entendimento de que vacinar crianças salva vidas e é um dever. Estão combatendo a vacina como faziam no início do século 20.

O presidente do país lidera o combate. Um presidente eleito como sendo ele próprio um produto de medos e de ignorâncias.  Por desalento, por moralismo, por cansaço com o sofrimento pessoal e coletivo, as pessoas acreditaram que Bolsonaro é um militar. E que os militares são salvadores.

Assim Bolsonaro foi eleito e chamou mais militares para defender seu governo. Pelo menos um terço das pessoas acreditam que os militares formam uma elite.

E que essa elite resolve todos os problemas. Que os militares são moralmente inabaláveis, são disciplinados, organizados e bons gestores.

Não são nada disso. Não há nada que prove que os militares sejam de fato uma elite, em nenhum sentido. Mas as pessoas resignadas ou engambeladas duvidam das vacinas, mas não duvidam dos militares.

No imaginário do brasileiro, os militares vão consertar o país e tirá-los da desesperança. Nunca consertaram. A antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz arrasou essa semana no programa Roda Viva e falou desse e de tantos outros enganos.

Lilia lembrou que o primeiro governo militar do marechal Deodoro da Fonseca foi um fracasso. O segundo, de outro marechal, Floriano Peixoto, também fracassou. Os dois forjaram a República da Espada, de governos mantidos  à força. Foram autoritários e medíocres.

E a ditadura iniciada em 1964 devolveu o país aos civis, duas décadas e meia depois, com uma dívida externa quase impagável, uma inflação destruidora e as estruturas de serviços e institucionais devastadas.

Os militares quebraram o Brasil. Isso sem falar das perseguições, das torturas e dos assassinatos. A mística militar, como observou a pesquisadora, é uma ilusão. Os militares não formam uma elite pensante e tampouco estão habilitados como gestores.

Mas Bolsonaro está aí, num governo com mais de 5 mil militares em todas as áreas. “Eles se espelham numa espécie de missão civilizatória que não se realiza”, diz Lilia. Mesmo as missões ‘de paz’ no Haiti, tão exaltadas, tiveram resultados vergonhosos.

Hoje, Bolsonaro tem nove ministros militares, mais do que João Batista Figueiredo. “Esse governo chama por um passado que jamais existiu. A mística do Exército glorioso, mas autoritário, faz parte dessa farsa toda”.

Foi nisso que o brasileiro acreditou ao eleger Bolsonaro. Muitos se consideram agora logrados por associar hierarquia, disciplina e ‘moralidade’ à eficiência na gestão do Estado.

Alguns dos personagens que sustentam eleitoralmente esse projeto são o que Lilia chama de os vingadores, o homem macho e branco ultraconservador que põe a culpa de desencantos e fracassos nas mulheres, nos negros, nos gays, nos índios.

Mas até a ideia de uma ideologia perdida em meio a isso tudo acaba por esconder desinformação e ignorância, potencializadas agora pelo mundo da pós-verdade, das fake news, do ódio, da difamação e da QAnon, a nova rede dos adoradores de bobagens e de teorias da conspiração.

Vivemos a realidade da ignorância involuntária e da ignorância estratégica, assim classificada pela canadense Linsey McGoey, que analisa fatos e fenômenos existentes, mas negados deliberadamente.

É como o bolsonarismo se manifesta para uma certa classe média arrependida – como uma falha tática na tentativa de se livrar das esquerdas.

Para esses ignorantes estratégicos, Bolsonaro acabou sendo o que eles não achavam que ele seria. O ignorante estratégico, que fingiu não saber que Bolsonaro é um fascista, tenta negar agora o que sabia que Bolsonaro de fato era há muito tempo.

É desalentador, porque a conclusão de Lilia é esta: o Brasil sairá mais pobre e mais desigual da pandemia manipulada por Bolsonaro.

E pode ser acrescentado que sairá mais desinformado e ignorante, pelo fortalecimento do negacionismo e até dos remédios milagrosos criados pelos que desprezam a matança do  coronavírus. A peste aprofunda a incapacidade de discernimento.

Enquanto isso, Bolsonaro e seus generais destroem a universidade pública, a pesquisa, a Amazônia e a saúde, e os filhos de Bolsonaro propagam informações falsas a partir de uma estrutura de dentro do Palácio do Planalto.

Crises, disse Lilia Schwarcz, podem acionar coragens que movem propósitos, o que não estamos conseguindo fazer. Bolsonaro e seu glorioso Exército de generais de pijama estão vencendo.

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