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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

14
Abr18

O ladrão que Moro tratou a pão de ló

Talis Andrade

por Moisés Mendes

 

o gerente de moro.png

O gerente Pedro Barusco e o juiz Sergio Moro
Arte: Bold Comunicação com fotos de Zeca Ribeiro/Câmara Deputados (Barusco) e Lula Marques/PT (Moro)

 

A figura emblemática da caçada seletiva da Lava-Jato não é o grande delator Alberto Yousef, condenado a 121 anos e 11 meses de cadeia, mas solto depois de cumprir apenas três. Youssef ficou impune pela segunda vez, depois de enganar polícia, Ministério Público e Justiça no caso Banestado, nos anos 90, incluindo entre os enganados o juiz Sergio Moro, que atuou no caso.

 

Youssef é o operador impune, mas não é a figura da Lava-Jato que expressa mesmo a impunidade. A história mais fantástica é a de Pedro Barusco. Ex-gerente de Engenharia e Serviços da Petrobras, homem do segundo time da empresa, Barusco roubou o equivalente hoje a R$ 330 milhões em propinas de empreiteiras. Confessou que havia guardado US$ 98 milhões na Suíça. E exibiu-se: havia roubado sozinho.

 

Pois nesta quarta-feira, dia 11, Barusco livrou-se das penas e não deve mais nada à Justiça. Livrou-se até da tornozeleira que usava por ordem do juiz Sergio Moro. A juíza Carolina Moura Lebbos, substituta de Moro na Lava-Jato, determinou que Barusco é um homem livre.

 

Prestem atenção no detalhamento do despacho da juíza. Ela diz que o sujeito “cumpriu 739 horas e 36 minutos com ações de prestação de serviço social, 19 horas e 36 minutos a mais do que a pena previa”. Barusco tem créditos a receber.

 

Só faltou um elogio ao mafioso (e por que foi a juíza substituta quem cumpriu essa missão? O titular não quis ficar marcado como o juiz que zerou as dívidas de Barusco com a Justiça?).

 

Este último gesto do Judiciário é o deboche final de tudo o que Barusco representa na Lava-Jato. Foi preso em 2014, confessou que era ladrão, disse que devolveria os US$ 98 milhões, foi condenado a 47 anos e sete meses de prisão. Delatou, ficou menos de um ano preso e foi solto em fevereiro de 2015. Passou a frequentar as praias de Angra, onde tem uma mansão, e agora está zerado.

 

O gerente saiu da cadeia quando prometeu devolver o dinheiro e quando delatou o PT como recebedor de propina equivalente a pelo menos 1% dos contratos da Petrobras. O PT teria conseguido US$ 200 milhões. Ele, como gerente, captou a metade do dinheiro que teria sido conseguido pelo partido no poder.

 

A Lava-Jato aceitou que Barusco agia sozinho. Todos tinham chefe no esquema da estatal, em todos os partidos. Mas Barusco, não. Barusco roubava só pra ele.

 

A Lava-Jato acredita que o Brasil acredita que Barusco era o mais esperto de todos os gerentes médios do mundo, o cara que achacava empreiteiros para juntar mais de R$ 300 milhões. O mais imbecil dos brasileiros não acredita nessa história.

 

Barusco foi poupado de dizer para quem roubava porque agia desde 1997 nos governos tucanos. Roubou por sete anos, de 1997 a 2002, nos governos de Fernando Henrique. E continuou roubando, na inércia, porque a engrenagem andava sozinha, nos governos do PT.

 

Nunca em nenhum momento alguém ficou sabendo para quem Barusco roubava. Só sabiam os que participavam do esquema nos governos do PSDB, quando ele começou a roubar.

 

Como seria possível que um gerente médio arrancasse só pra ele mais de R$ 300 milhões em propinas? Por que as empreiteiras pagariam tanto dinheiro a um gerente sem poder político?

 

Mas a Lava-Jato nos vendeu que Barusco era o único ladrão avulso. Porque a operação não podia mexer no que ele sabia. Barusco poderia indicar os tucanos para quem trabalhava, como fizeram os outros denunciados e processados pela captação de propinas. Mas não disse nada porque não pediram que dissesse.

 

Alguns argumentam que ele poderia indicar cúmplices com foro privilegiado, e aí esculhambaria com a Lava-Jato de Curitiba, que não tem esse poder. Mas é apenas desculpa.

 

Em maio do ano passado, a juíza Maria da Penha Nobre Mauro, da 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, mandou que, além dos mais de R$ 300 milhões devolvidos antes, Barusco teria mais R$ 100 milhões recebidos como propina. E deveria devolver também esse dinheiro. Não se sabe se devolveu.

 

Barusco é o símbolo da impunidade dos tucanos na Lava-Jato. Poderia ter dito para quem roubava nos governos do FH. Quem eram seus chefes, como era a partilha do dinheiro. Mas não sabemos nada.

 

Com o dinheiro que roubou e confessou ter depositado na Suíça e com mais os R$ 100 milhões que a juíza mandou que também devolvesse, Barusco e seus parceiros ocultos poderiam comprar 190 apartamentos tríplex iguais ao do Guarujá, que a Lava-Jato atribuiu a Lula e o condenou por isso. Vamos repetir, em letras maiúsculas: CENTO E NOVENTA APARTAMENTOS.

 

Barusco está solto, sem tornozeleira, com créditos a receber da Justiça, sem qualquer incomodação. Todos os tucanos corruptos estão impunes e soltos. E Lula está preso.

 

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