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14
Abr20

O dia seguinte

Talis Andrade

Entregador de alimentos de uma empresa de aplicativos nesta segunda-feira, em Buenos Aires.

Entregador de alimentos de uma empresa de aplicativos em Buenos Aires.  JUAN IGNACIO RONCORONI EFE
 

 

por Leila Guerriero

Domingo. Buenos Aires. As pessoas se lançaram aos supermercados em uma debandada de guerra nuclear. Eu também vou. Para comprar areia para o banheiro das gatas. Não há fila porque é um supermercado chinês, mas estaria igualmente vazio se fosse de italianos ou de espanhóis, só que os chineses têm a má sorte que a nacionalidade se note em seus rostos. À noite eu telefono para o meu pai. Ele está furioso. Ele é apenas 19 anos mais velho do que eu. Diz que meu irmão e seus funcionários querem trancá-lo em casa por medo de que os contagie. Digo a ele que não é por eles, mas por ele, que é ele que não deve ser infectado. Ele grita, indignado: “Eles têm medo, eu não! É uma guerra contra os velhos, um vírus perfeito para aniquilar estorvos”. Penso naquela frase que martelam: “É perigoso para os idosos, não tanto para os jovens”, no alívio que muitos devem sentir ao pensar “Ah, eu tenho 45, 32, 20”. Nos “salvos?” pelo acaso das datas. Tudo o que parecia sólido é menos sólido do que o ar.

Até dias atrás falávamos do avanço da direita, da xenofobia, do nacionalismo, de Trump e de Bolsonaro como as bestas negras. Agora, em um cenário de guerra química, nas varandas da Itália o hino nacional é cantado e até os mais hereges se sentem transtornados de patriotismo, atordoados de emoção, cantando “Estamos prontos para morrer, a Itália chamou”. Os cidadãos clamam a seus Governos que lhes impeçam de viajar, que os vigiem, que fechem as fronteiras, que expulsem os estrangeiros, que a polícia patrulhe. A quarentena obrigatória transformou a delação em orgulho cidadão, a suspeita em solidariedade: “Denunciou o vizinho porque não cumpria a quarentena”. O confinamento é vivido como alívio, o controle social como dever. A distância com o outro como “sinal de amor”. (Continua)

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