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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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03
Jun18

O dia em que Reinaldo marcou um gol contra a ditadura

Talis Andrade


Há 40 anos, na Copa da Argentina, o atacante que comemorava gols com punho cerrado desafiou o comando do regime militar

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Reinaldo repete o gesto do punho cerrado em frente ao Mineirão. PEDRO SILVEIRA

 

A Argentina que recebia pela primeira vez um Mundial sofria com as violentas consequências do golpe militar liderado em 1976 pelo general Jorge Videla, que, décadas depois, seria condenado à prisão perpétua por crimes contra a humanidade cometidos durante seu Governo. Nesse contexto, a Copa tinha um enorme peso político para os argentinos. Reinaldo sabia que seu gesto repercutiria muito além do campo de futebol. Hesitou ao empatar o jogo contra os suecos. Porém, a cena do punho erguido, que durou pouco mais de dois segundos, ficou marcada como o momento mais emblemático de sua trajetória na seleção brasileira. “Quando o presidente [Ernesto Geisel] falou aquilo, eu fiquei meio assim, pensativo. Mas, na hora que fiz o gol, não teve jeito. Levantei o braço, não resisti… E aí já era.”

 

Depois do jogo, no hotel da seleção, Reinaldo lembra ter recebido um envelope anônimo da Venezuela. Era, segundo ele, um documento com informações em espanhol sobre a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, dois anos antes. Se deu conta, então, de que poderia estar no radar da Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores dos regimes militares. “Fiquei aterrorizado, mas não contei a ninguém a respeito do documento”, diz o ídolo atleticano, que foi barrado do time titular por Coutinho depois do empate com a Espanha.

 

O Brasil avançou até a segunda fase do Mundial. Para se classificar à final, dependia que o Peru não fosse goleado pela Argentina. Os donos da casa venceram por 6 a 0, em uma partida cercada pela suspeita de suborno aos peruanos. Minutos antes do apito inicial, Videla adentrou o vestiário dos visitantes, deixando encabulados os jogadores que vestiam o uniforme. Nenhum deles jamais admitiu ter recebido dinheiro para entregar o jogo, mas alguns justificariam, nas décadas seguintes, que o encontro com o general teria desestabilizado a equipe. “Aquilo foi um desrespeito ao futebol”, afirma Zico, que, assim como Reinaldo, também perdeu a posição no time brasileiro durante a Copa. “Tanto que o povo do Peru recebeu sua seleção arremessando moedas.”

 

No fim das contas, Videla e todo o governo militar argentino festejaram o primeiro título mundial, conquistado em cima da Holanda.

 

Para ele, a ditadura não perdoou o atrevimento de seu gesto na Copa e a postura de enfrentamento aos militares. “O corpo fascista do país começou a me minar. Não só moralmente, mas com assédio de todo o tipo. Falavam que eu era cachaceiro, maconheiro, viado. Era uma campanha difamatória, linchamento moral. Eu não tinha partido, sindicato, nada. Fui massacrado sozinho.”

 

Reinaldo parou de jogar cedo, aos 29 anos. Não aceitam que um jogador tenha posições políticas, que se proponha a pensar. Fui perseguido por fazer oposição, mas, como figura pública, era preciso mostrar resistência ao regime militar para acelerar o processo democrático. O autoritarismo emburrece a sociedade. Quem pede a volta da ditadura militar no Brasil não sentiu na pele o que eu sofri.” [Transcrevi trechos da reportagem de Breiller Pires para o jornal El País, da Espanha]

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