Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

18
Mar18

O assassinato de Marielle Franco no radar da ONU

Talis Andrade

Hoje, Marielle é do tamanho do mundo.

 

Em menos de 24 horas, o caso da vereadora do Rio de Janeiro já havia dado uma volta completa na Terra

 

Marielle por Anderson Gomes.jpg

 

por Gustavo Macedo

 

Com menos de um mês de intervenção militar federal no Rio de Janeiro, o assassinato de Marielle Franco arrastou para dentro do já intrincado tabuleiro político novos atores – agora internacionais. A Organização das Nações Unidas (ONU), que já vinha dando sinais de preocupação deve agora entrar de vez na história. O caso de Marielle atende a todos os critérios para isso. Politicamente, devido à grande comoção gerada, a história adquiriu relevância internacional e chamou a atenção da organização, que estrategicamente escolhe casos emblemáticos que possam servir de exemplo da luta pelos direitos humanos ao redor do mundo. Tecnicamente, além do histórico de outros casos recentes no Brasil, o perfil da vítima, as circunstâncias do crime, seu modus operandi e as alegações de pessoas próximas seriam suficientes para que o caso fosse selecionado.


Tragédias costumam unir pessoas, e foi isso que o mundo inteiro parou para ver na manhã de quinta-feira: um país dividido momentaneamente unido pelo luto de Marielle.

 

A mídia internacional, governos e ativistas ao redor do mundo reagiram retransmitindo a mensagem em solidariedade. Por um momento, Marielle uniu o Brasil aos olhos do mundo.

 

Em menos de 24 horas, o caso da vereadora do Rio de Janeiro já havia dado uma volta completa na Terra. A ONU e a Organização dos Estados Americanos (OEA) emitiram comunicados. A Anista Internacional e Human Rights Watch, ONGs internacionais com sedes no Brasil, emitiram notas condenatórias. Parlamentares Europeus politizaram o caso no âmbito das negociações com o Mercosul; e manifestações públicas foram organizadas em várias capitais ao redor do globo. Em Nova York, prestou-se homenagem a Marielle em evento da ONU. A história agora é global. É nosso dever entender a dimensão que o caso está tomando; e como ele poderá se desenvolver de agora em diante, dentro e fora do Brasil.

 

Marielle também chamou a atenção do órgão da ONU sediado em Genebra que monitora a situação dos direitos humanos ao redor do mundo e, se necessário, procura atuar sobre elas. O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, como é chamado, conta hoje com 51 Relatorias Especiais - as quais trabalham de maneira autônomia, porém complementar. As relatorias atuam sobre os mais diversos temas, tais como liberdade de expressão, defensores de direitos humanos, racismo, violência contra a mulher e execuções extrajudiciárias. Com frequência, as relatorias trabalham conjuntamente sobre um mesmo caso. Por limitação de recursos financeiros, de equipe e tempo, seus pesquisadores buscam selecionar com critério os casos sobre os quais irão trabalhar. Logo, é natural que se pergunte: de tantos temas e relatorias, como definir quem acompanha o quê? No caso da Relatoria Especial para Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extrajudiciárias, chefiada por Agnès Callamard, há uma resposta, e nela há pistas para pensar se e como se encaixa o caso Marielle.

 

De acordo com Callamard, “assassinatos que possam ter tido motivação política ou cujo mentor possa estar próximo de agentes públicos” encaixam-se na definição de assassinatos extrajudiciais. Uma execução extrajudicial é um assassinato cometido por um agente público fora de qualquer processo legal mas motivado por uma agenda de estado.

 

Nos últimos 16 meses, somente a relatoria de Callamard já enviou cinco comunicados ao governo brasileiro referente a episódios em praticamente todo o território nacional. Uma carta refere-se à onda de assassinatos que assolaram o Estado do Espirito Santo durante o fevereiro de 2017. As demais cartas, assinadas com outros relatores da ONU, dizem respeito ao assassinato de 11 camponeses no Pará, o alerta sobre situações de ameaça a ativistas ao redor do Brasil, o assassinato de 5 menores nas favelas do Rio de Janeiro no contexto de uma operação militar anti-drogas, e as ameaças de morte de ao menos 6 ativistas em Minas Gerais.

 

Uma coisa é certa. O sucesso da investigação sobre o caso Marielle vai depender da pressão doméstica e internacional; e exigirá o diálogo de diversos setores do Estado e da sociedade brasileira. O caso ganhou projeção internacional e provavelmente será politizado, como é natural a todas as questões de direitos humanos. Governos, organizações e a opinião pública internacional foram cativados pela história desta jovem ativista negra, de origem humilde e que foi, muito provavelmente por causa de sua atividade política, brutalmente assassinada. Se toda crise é uma oportunidade, esta é a oportunidade de o Brasil mostrar a que veio. Graças à Marielle, o mundo todo acompanha agora o drama da intervenção militar federal no Rio de Janeiro. Hoje, Marielle é do tamanho do mundo. Transcrevi trechos. 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D