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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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14
Jun18

Marielle Franco e o futuro do Brasil

Talis Andrade

A morte de Marielle é a expressão mais evidente da violência dos que pretendem calar e intimidar quem defende os direitos humanos no Brasilmarielle deusa justiça.jpg

 

por Fernanda Chaves

 

Prestes a completar três meses desde que perdemos Marielle Franco e Anderson, ainda não se sabe quem foram os autores materiais e intelectuais deste crime que chocou o mundo. O atentado de 14 de março interrompeu a vida e a luta de uma mulher que já se tornara uma das grandes esperanças do Rio de Janeiro e que em pouco tempo estaria entre as principais lideranças políticas do Brasil.

 

Se não, vejamos: em sua primeira candidatura, Marielle foi eleita como a segunda mulher mais votada em 2016 – o que é raríssimo no país. Estava ainda em seu primeiro ano de atividade parlamentar, mas nesse breve período havia se destacado entre seus pares na Câmara Municipal, sendo constantemente procurada para dar entrevistas à imprensa, sobretudo a internacional, e ao mesmo tempo era reconhecida pela população nas ruas de todo canto da cidade. Tinha só 38 anos e já se tornara referência na temática de gênero, no combate ao machismo estrutural e à violência contra mulher, tendo assumido a presidência da Comissão da Mulher na Câmara Municipal.

 

Ela era assim. Quando chegava, CHEGAVA - em caixa alta. Na verdade, Marielle era como uma letra capitular. Inaugurava.

 

E ia além. Marielle também era referência incontestável na luta contra a política de encarceramento massivo da juventude negra; combatia abusos policiais contra as populações das favelas, denunciava o crescente racismo religioso e questionava a intervenção militar no Rio de Janeiro.

 

Sua figura em si legitimava sua atuação. Mulher negra, feminista, nascida e criada na periferia, lésbica. Era a própria personalização dos chamados Direitos Humanos de quarta geração (conforme nomenclatura de Norberto Bobbio). Cria da favela da Maré, formou-se em Sociologia e era mestra em Administração Pública.

 

A morte de Marielle é a expressão mais evidente da violência dos que pretendem calar e intimidar quem defende os direitos humanos no Brasil, e seu assassinato se insere num contexto de avanço neoliberal com traços fascistas – golpe do impeachment contra Dilma, prisão sem provas de Lula e pela primeira vez desde a redemocratização um candidato presidencial que defende abertamente a tortura desponta em primeiro em pesquisas.

 

Num cenário de crise de representatividade em que vivemos, com grande parte da esquerda interditada pelo complexo jurídico-midiático, não tenho dúvidas de que Marielle era uma das raríssimas lideranças com chances de capitanear uma reviravolta política no País no médio prazo. Ela conjugava elementos que há muito não víamos numa liderança de esquerda: jovem, combativa, carismática, inteligente, honesta, sábia e boa de voto. Era querida. Seu mote não poderia ser mais adequado: “Sou porque nós somos”, tradução livre do Ubuntu, uma antiga palavra africana que significa que “uma pessoa é uma pessoa através (por meio) de outras pessoas”.

 

Os números dos últimos anos sobre a situação de defensoras e defensores de direitos humanos no Brasil confirmam a escalada da violência e criminalização a que estão submetidos. Em 2015, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, foram 50 assassinatos conflitos no campo. Em 2016, o CBDDH contabilizou outras 66 execuções de defensores e defensoras de direitos humanos. Os dados oficiais de 2017 serão divulgados em julho, mas já se sabe que foram registrados ao menos 60 casos de criminalização ou morte de defensoras e defensores de direitos humanos.

 

O Brasil está diante de uma encruzilhada. Ou o país enfrenta os grupos criminosos que aparelharam o Estado, elevando inclusive o tom de indignação de suas autoridades diante ao fato inaceitável, ou seguiremos a viver numa situação de violência extrema, onde qualquer pessoa pode ser assassinada em qualquer lugar.