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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

20
Abr18

BALADA PARA MARGARIDA

Talis Andrade

 

 

¿Quién ha matado este hombre

que su voz no está enterrada?

Manuel del Cabral

 

É melhor morrer na luta

do que morrer de fome

Margarida Maria Alves

margarida .jpg

margarida  desenho.jpg

casa.jpg

Logo-campanha-Memória-Margarida.png

 

 

 

Quem matou esta mulher

que sua voz não está enterrada

De onde vem esta fala

a mudar velhos costumes

Que fizeram dos meus canaviais

no lugar do ouro verde 

floresceram campos de margaridas

Onde estão os negros

os cortadores de cana

que não dão fim a esta praga

 

Temos que calar este povo

como fazia o pai do meu pai

o avô do meu avô

Temos que matar bem matado

cortar a língua quebrar os dentes

dar sumidura no corpo

para que nenhuma alma doutro mundo

apareça a cobrar o que não mereceu em vida

a assombrar o povo que deseja trabalhar

O corpo do morto adube a terra

e toda terra é pouca

para a fome de verde 

dos canaviais

 

Enterrar defunto

em sepultura de cimento

marca o lugar

Sepultura com cruz levantada

no verde dos canaviais

atrai gente para rezar

Com excelências e benditos

todo morto vira mártir

todo mártir vira santo

Não há maneira de se matar um santo

As orações ressuscitam o santo

as promessas os ex-votos ressuscitam o santo

O retrato do morto se leva em passeata

Do retrato do morto se faz uma imagem de pedra

estátua que se leva em procissão

As procissões se sucedem

a esconjurar os fantasmas do medo

a esconjurar os demônios

da escravidão e morte

 

Pra que serve minha escopeta

se o povo não teme a morte

Pra que servem os capangas

se o povo não teme a morte

Pra que serve a polícia

se não há cadeia pra tanta gente

Pra que serve a justiça

quando os longos braços da lei

não alcançam a multidão

 

 

Talis Andrade, poema revisto, in O Enforcado da Rainha, ps. 36/38

 

 

 

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