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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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27
Jun20

“Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice”

Talis Andrade

mata velho .jpg

por Julia Doce/ Pública

 

O melhor amigo da antropóloga Mirian Goldenberg, 63 anos, é José Guedes, um nonagenário de 97 anos, alegre, animado e fã dos versos de Luís de Camões. Eles se falam todos os dias ao telefone. No dia 15 de março, Guedes ligou para a amiga desesperado com as notícias da pandemia na Itália. Eles então fizeram um pacto, quando Goldenberg, também assustada com o prognóstico mundial, respondeu que embora o amigo não pudesse mudar a situação da pandemia, se ele se dedicasse a conversar com ela todos os dias, estaria cuidando dela. E vice-versa.

“Eu descobri que a única saída para ter o mínimo de equilíbrio e saúde mental seria dedicar meu tempo, energia e criatividade para cuidar das pessoas que eu mais amo”. Desde então, Goldenberg conta que passa pelo menos 10 horas por dia entrando em contato por telefone com seus amigos idosos, desenvolvendo atividades e jogos com eles, e assim, ajudando-os a passar pelo período de isolamento.

Aquele pacto foi uma epifania para a antropóloga, mas o contato com nonagenários já vem de anos. Autora de livros como “A bela velhice”, “Corpo, envelhecimento e felicidade”, e “Liberdade, felicidade e F#da-se!”, há cinco ela pesquisa essa faixa etária, e há pelo menos vinte atua na área da gerontologia, o estudo do envelhecimento.

Em suas palestras e coluna no jornal Folha de S. Paulo, a chamada “velhofobia”, Goldenberg sempre denunciou o preconceito e abusos contra idosos. Porém, ela conta que nunca viu a situação tomar a proporção atual. No Disque 100, canal que recebe denúncias de violações de direitos humanos, o abuso contra idosos quintuplicou entre março e maio deste ano, desde que a Covid-19 chegou ao Brasil.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a afirmar algumas vezes que não “existe motivo para pânico” porque, segundo acreditava, iriam morrer apenas idosos e pessoas com deficiência. “Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer. Se tiver um com deficiência, pegou no contrapé, eu lamento. Minha mãe tá com 92 anos de idade, se pegar nela qualquer coisa, coitada. Mas não podemos deixar esse clima todo que está aí”, declarou, em entrevista ao Programa do Ratinho realizada no dia 20 de março.

Goldenberg ressalta que a sociedade vem reagindo em diversos países contra discursos que ela considera “genocidas”. “O que era invisível para a sociedade se escancarou”, diz.

Grande parte dos idosos está cuidando de seus filhos e netos nessa pandemia, e não o contrário, diz ela. São pessoas que tiveram que voltar para a casa dos mais velhos, principalmente por uma questão de renda. Para ela, ainda falta escuta e compreensão por parte dos mais jovens. “Lutar contra a velhofobia é lutar pela nossa própria velhice”, resume [Continua]

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