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14
Jun20

Leite, racismo e neonazismo

Talis Andrade

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Por Joana Monteleone

Brasil de Fato

Alimentos e ingredientes têm sido usados muitas vezes na história como marcas de distinção cultural, social e racial.

Hoje, vemos imagens de racistas brancos consumindo leite nas redes sociais como prova de uma suposta superioridade genética. O leite, assim, passou a ser um código, um símbolo de um grupo social que se orgulha de partilhar uma característica genética, a de ser tolerante à lactose. 

Supremacistas brancos e racistas recuperaram, assim, uma fato da biologia da humanidade para afirmar grotescamente suas crenças. A capacidade de digerir lactose é uma característica genética da relativamente recente da humanidade, uma mudança ocorrida há cerca de 10 mil anos e ainda em transformação. Essa mudança não está completamente disseminada na nossa espécie: apenas uma parte da população branca tem condições de digerir adequadamente o leite animal na vida adulta. Longe de indicar uma superioridade generalizada, é uma característica isolada, tanto quanto quaisquer outras. Mas, ao longo da história, essa característica deu origem a inúmeras teorias raciais, como aconteceu com outros hábitos alimentares.

Atualmente, estamos vivenciando uma reapropriação e ressignificação de antigas ideias associadas a raça, gênero, cultura alimentar e consumo de animais. No século 19, os primeiros estudos de antropologia e genética consideravam elementos como o tamanho da circunferência craniana ou o pedigree familiar para definir arbitrariamente marcadores sociais disfuncionais – como ladrões, assassinos, pedófilos e outros. 

Seguindo essa lógica absurda, hoje, a nova extrema direita, chamada de alt-right nos Estados Unidos, associa o consumo de leite a uma série de atributos positivos sobre a própria existência: por serem brancos e comerem carne (ou caça), formariam uma raça superior.

No século 19, uma teoria evolutiva associada ao consumo de arroz se espalhou pelo mundo, a partir de alguns cientistas europeus: o consumo regular de arroz ou milho estaria associado a certo tipo masculino efeminado e fraco. Homens fortes e saudáveis teriam uma dieta baseada no consumo de carne e proteínas animais.

A teoria fazia parte de um conjunto de crenças vinculadas à dominação colonial, ou seja, povos europeus estariam destinados, por causa de sua genética, de sua cultura  e de seus hábitos alimentares, a dominarem povos mais fracos, que deveriam ser colonizados. Essas teorias serviram de base para a colonização africana e asiática, principalmente. As teorias naturalizavam o racismo e práticas violentas de subjugação.

O primeiro governador-geral inglês da Índia, Warning Hastings, pôde administrar os interesses ingleses da área, no final do século 18, não apenas com a força das armas e da tecnologia militar, mas com a ideia de que os europeus em geral, e os ingleses em particular, tinham uma cérebro mais desenvolvido que os indianos pois comiam uma dieta baseada em carne e leite. A crença geral da ciência na época era de que a inferioridade dos povos subjugados poderia ser transformada a partir de mudanças no que população consumia. Uma dieta baseada em leite, carne e ovos, ao invés de vegetais e arroz, poderia curar a população de seu mal.

As ideias sobre a dieta de proteínas tinham um componente não apenas racial, mas também de gênero. Às mulheres também estava reservada uma dieta doce e de carboidratos, revelando também que o cérebro feminino era fraco e deveria ser subjugado, tutelado como o de uma criança.

Carne e leite passaram a ser vistos como “privilégios brancos”, sendo usados como marcas de segregação de raça e gênero. Na América, essas ideias foram usadas para marcar as diferenças entre trabalhadores brancos, escravos e imigrantes.

Essa foi uma teoria que teve muitos adeptos no século 20. Na Alemanha nazista de Hitler, Joseph Goebbels, seu ministro da propaganda, fazia reuniões incentivando os participantes a beberem leite. O gesto simbolizava o reinado do povo ariano sobre os outros povos, e não por acaso também foi utilizado pelos defensores do apartheid na África do Sul, onde as ideias racistas se baseavam também na capacidade de digerir a lactose.

O mais estarrecedor é que há poucos anos, em março de 2015, a revista ultraliberal The Economist, soltou um artigo em que um economista, Justin Cook, professor na Universidade de California-Merced, tenta explicar as desigualdades globais – e justificar a riqueza dos países europeus e os Estados Unidos – por meio das diferenças genéticas relacionadas à digestão de lactose.

Dessa forma, quando um governante como Jair Bolsonaro faz um vídeo em bebe um copo de leite, ele retoma o simbolismo da supremacia branca. Sua admiração pelas teorias raciais e a maneira como vem conduzindo o governo mostram sua clara associação à direta alt-right – assim como faz o presidente americano Donald Trump –, alimentando as teorias “científicas” mais estapafúrdias, negando, ao mesmo tempo, os conhecimentos científicos que desmontaram, com os mais diversos argumentos culturais e biológicos, não haver qualquer justificativa genética para as desigualdades sociais. 

 

Ilustração: Fotograma de Laranja Mecânica, filme de Stanley Kubrick de 1971, o protagonista é um sociopata ultraviolento, numa clara referência ao nazismo

 

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