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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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14
Abr20

“Isto é uma marca da peste”, dizia meu avô quando lhe perguntava sobre um buraco que tinha na testa

Talis Andrade

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O dia seguinte (continuação)

por Leila Guerriero

“Isto é uma marca da peste”, dizia meu avô quando lhe perguntava sobre um buraco que tinha na testa. Ele era sírio. Na Síria tivera “a peste negra”. É provável que tenha sido a mesma que matou a família da minha avó, também síria, que uma manhã de seus 12 anos, foi à missa –eram cristãos ortodoxos– e, quando voltou, “um ar ruim tinha vindo” e descobriu que os irmãos e a mãe estavam mortos. Para salvá-la, a avó a colocou em um navio com destino à Argentina e nunca mais souberam uma da outra. Ela falava daquela manhã fatídica com um pranto que me envergonhava. Se agora minha avó tivesse 12 anos, não teria nenhum lugar para se esconder. Nenhum lugar para ir.

Muitos têm medo e vergonha de ter medo. E muitos não têm medo, mas não podem dizer que não têm medo, porque não ter medo os torna perigosos.

O homem com quem vivo mencionou há alguns meses, quando matavam camelos na Austrália para que não acabassem com a água necessária para apagar incêndios, a frase “rifle sanitário”. Encontro um artigo de 2009, assinado pelo engenheiro Saúl A. Ubici, de Bahía Blanca. Diz que o rifle sanitário tem como objetivo “eliminar animais perigosos para deter o avanço da doença (…) consiste na eliminação pura e simples dos doentes, por precaução. Uma espécie de eutanásia sem consulta para evitar males maiores”. O artigo fala de vacas com febre aftosa.

Não sei que peste meu avô teve, qual delas matou a família da minha avó. Não lamento não ter perguntado a eles. Fico feliz em tê-los acompanhado na agonia, em ter podido mentir-lhes: “Não se preocupe, amanhã você estará melhor”. Fico feliz que eles não tenham morrido como agora fazemos morrer os idosos: sozinhos, talvez com que lembranças, com que medos.

Todos os meus amigos estão longe: na Espanha, no Chile, no México. Penso naquele poema de Borges: “Quem nos dirá de quem, em nosso espaço, / Sem sabê-lo, nos temos despedido?”.

Teremos um mundo depois disso. Mas que mundo teremos depois disso?

 

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