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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Mai20

Ida de Bolsonaro a manifestação que pediu intervenção militar em frente ao QG do Exército no último dia 19 foi 'divisor de águas' em risco para a democracia

Talis Andrade

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III - Mariana Alvim entrevista Sérgio Abranches

BBC News Brasil - No caso do QG do Exército, não foi a primeira vez que Bolsonaro verbalizou contra as instituições democráticas. O que foi diferente naquele episódio?

Abranches - Toda a carga simbólica.

Nas outras manifestações (de apoiadores de Bolsonaro), havia outras demandas de fato. Eram ensaios da mesma coisa, mas de fato havia outras demandas: a favor do Moro, da luta contra a corrupção, e alguns grupos isolados pedindo fechamento do Congresso e do Supremo, "fora Maia" e etc.

Na do QG do Exército, não. Era uma manifestação exclusivamente antidemocrática. Só havia cartazes, faixas e palavras de ordem contra a democracia. Muito próximo dele para ele não ler.

O que ele alegou, de que naquele dia tinha outras demandas (além do pedido por intervenção militar), não é verdade.

E na porta do QG do Exército, evidentemente um recado importante.

"Ah, mas era o Dia do Exército". Não importa. O que importa é que eles foram para a porta do Exército pedir intervenção militar contra a democracia, fechamento do STF, do Congresso Nacional, e um ato institucional que interrompesse a vigência da Constituição de 1989. Crime, tudo crime.

Qual teria sido a atitude correta do governo? Mandar a polícia dissolver a manifestação com gás lacrimogêneo, como faz com as outras.

É um divisor de águas, tem uma carga simbólica muito forte, e é uma manifestação explícita demais para se desconsiderar.

Houve uma manifestação forte, apoiada pelo presidente, contra a democracia, e uma resposta fraca dos outros poderes, que têm a obrigação de defender a democracia.

 

BBC News Brasil - Hoje, a rejeição do Bolsonaro está na casa dos 40%, ainda não majoritária, como você aponta como uma das características importantes para o impeachment.

Abranches - Está chegando lá. Na verdade, tem de três a quatro pesquisas rolando, em algumas já passou de 50%. Tem obviamente questões metodológicas, de amostra, questões técnicas muito complicadas hoje (com a pandemia de coronavírus e restrições para se fazer pesquisas presenciais).

Com as atitudes que ele tem tomado em relação à pandemia; com as atitudes agressivas contra a imprensa, contra a democracia; e com a economia do jeito que está, eu acho muito pouco provável que ele mantenha a popularidade em um nível de segurança.

Do ponto de vista da base de apoio popular para um processo de impeachment, ele está próximo disso, se é que já não está lá.

O que está fazendo a diferença? É que nós estamos vivendo uma situação tão anormal (com a pandemia de coronavírus).

O parlamentar leva em consideração a pesquisa de opinião. Mas não é a pesquisa que o informa de forma principal sobre o apoio do presidente.

O que o informa sobre o apoio ao presidente é quando ele volta para suas bases eleitorais e ouve o murmurar do povo, escuta os seus cabos eleitorais. Essa é a verdadeira pesquisa de opinião, e essa não está podendo ser feita, porque os políticos estão sem contato pessoal com seus eleitores.

O parlamentar volta para a casa dele (fora de Brasília), aí começa a romaria. Vão chegando as visitas, os cabos eleitorais, as demandas... Ele vai ouvindo — ele é um profissional disso — e vai tirando suas conclusões. Quando ele volta para Brasília, ele sabe com quem deve ficar: com seus eleitores ou com o governo.

Se o governo está forte, ele volta para Brasília governista; se o governo está fraco, ele volta como oposição.

Mas isso não está acontecendo hoje da mesma maneira, porque é difícil para o político transitar do olho-no-olho dos cabos eleitorais e dos eleitores para o telefone ou WhatsApp. Talvez a temperatura demore um pouco mais a ser percebida.

E tem o fato de que uma parte desses parlamentares é sobrevivente de um enorme susto, porque muitos políticos tradicionais não foram reeleitos. Esses que estão lá estão fazendo outro cálculo: será que meu eleitor vai ficar fiel a mim? Porque se ele não vai me eleger, melhor eu me aproveitar, tirar o quanto puder do governo, e depois vou fazer outra coisa, mas pelo menos eu vou calçado.

Essa situação anômala pode produzir um certo inchaço na base de apoio ao Bolsonaro no Congresso. Mas ele tem condições mínimas para formar uma coalizão de sustentação forte. Será sempre uma base fraca, errática e volúvel, e cara, muito cara.

Ele vai ter que dar muito orçamento, e isso vai criar um problema para ele com a equipe econômica. Essa tentativa de formar uma base depois de se recusar a formar uma coalizão quando tinha força e recursos para isso — logo depois da eleição — não é uma situação confortável nem para os parlamentares, nem para o Bolsonaro. (Continua)

 

 

 

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