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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

01
Dez18

Guadalajara. A feira do livro que o portunhol serviu de língua franca

Talis Andrade

JÁ PENSOU O BRASIL MANDAR 10 ESCRITORES PARA UMA FEIRA DE LIVRO? PORTUGAL TÁ MANDANDO 40. NO BRASIL É MAIS FÁCIL UM PRESIDENTE ANALFA FECHAR O MINISTÉRIO DA CULTURA E ENTREGAR A CHAVE AO TRUMP.

O BRASIL TÁ FECHANDO EDITORAS, LIVRARIAS E BIBLIOTECAS. COMEÇOU O FRIO GOVERNO DO FORNO E DAS TREVAS. E DAS ESCOLAS SEM PARTIDO. ISTO É, DE UM ÚNICO LIVRO, ESCRITO PELA BANCADA EVANGÉLICA, SOLETRADO PELA BANCADA DO BOI E GUARDADO PELO BANCADA DA BALA

 

Convidado de honra na FIL de Guadalajara, Portugal está a marcar presença com uma embaixada de 40 escritores, mas para lá dos esforços de promoção do país como marca, a cultura parece cada vez mais uma forma de facilitar negócios

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por Diogo Vaz Pinto

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Quarenta soa a batalhão. Parece mais até do que se tivessem abalado daqui uns cem. A fanfarra não soaria mais alto, nem faria tremer mais o chão da língua. São 40 os escritores que integram a embaixada que Portugal levou para o México, com a comissária da participação portuguesa na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), Manuela Júdice, a assumir que buscou “trabalhar a diversidade”. Tendo recebido instruções para dar especial enfoque ao policial e à crónica, a incluir tanto prosadores quanto poetas, mantendo também o equilíbrio entre idade e géneros, a primeira e mais gritante falha na “antologia” de presenças que elaborou é o ter deixado de fora a juventude. Note-se que, entre os convocados de Júdice, os mais jovens estão nos quarenta anos ou a meses disso (Filipa Leal, Inês Fonseca Santos e Vasco Gato). Talvez isto decorra de uma aversão ao risco que, em si mesma, tão bem caracteriza o próprio meio literário, e que passa até pela incompreensão do sentido da palavra ‘juventude’, de como esta encarna uma atitude herética, em rebelião contra a palavra ‘experiência’. Para Benjamin, de resto, “só dela [da juventude] pode irradiar um espírito novo, ou seja, o espírito”. Mas adiante.

 

A tenda de campanha montada em Guadalajara – a terceira maior cidade do México –, conta com 1200 metros quadrados, mas o que a valoriza é sobretudo a sua posição estratégica no terreno, por se situar à entrada da Expo Guadalajara. Se em 2013, quando foi o país convidado da Feira do Livro de Bogotá (Colômbia), Portugal contou com um pavilhão de 3000 metros quadrados, a maior vantagem de se ser o convidado de honra em Guadalajara é o facto de ser este o maior certame aberto e dirigido ao grande público (só ficando em segundo lugar face à feira de Frankfurt, que se dirige apenas aos profissionais do sector) e de o pavilhão português ser de passagem obrigatória para os cerca de 100 mil visitantes que diariamente percorrem o salão de 34 mil metros quadrados. Ali, além do intenso programa do festival literário, a feira conta com a presença de mais de 20 mil profissionais do livro, duas mil editoras e mais de 40 mil títulos.

 

Num decisivo contraste com a forma como a comissária avocou os poderes de definição sobre a constelação literária que quis levar a Guadalajara, cinco gabinetes de arquitetura foram convidados a apresentar propostas para o pavilhão português, tendo-se imposto a do atelier Santa Rita & Associados uma vez que, segundo Manuela Júdice, foi a que melhor solução apresentou para que “as pessoas entrassem e nos viessem visitar sem perturbar a circulação da entrada na feira”. A comissária adiantou ao jornal “Público” que “não é preciso dar a volta ao pavilhão” já que este “tem amplitude suficiente para ser local de passagem”. E refere que, “uma vez lá dentro, temos de ser suficientemente atrativos para convencer os visitantes a ficarem. O pavilhão é permeável, mas tentámos criar espaços com conteúdos que funcionem como íman.” Quanto à representação dos órgãos de imprensa, esta resultou de convites endereçados, em alguns casos a organismos, noutros feitos diretamente a certos jornalistas. Aparte isso, o comissariado não promoveu qualquer outra ação em que os jornalistas tenham sido informados sobre esta iniciativa pública que chegou a ter um orçamento previsto de 2,5 milhões de euros. No final, gastaram-se 1,8 milhões, dos quais apenas 340 mil euros correspondem a contribuições de privados.

 

Quando o plano de ataque foi anunciado, estava já em execução. Em fundo, nem os grilos se ouviam. Não houve qualquer margem dada à dissensão, e, à chegada a Guadalajara, a recém-empossada Ministra da Cultura, Graça Fonseca, gabou a riqueza que as novas gerações trazem à nossa cultura, afirmando que “a imagem que conseguimos passar com este programa é que Portugal é uma potência cultural e deve ser olhado assim”. Mas se todos os responsáveis enfatizaram a enorme oportunidade que este destaque representa para o nosso país, uma vez mais se comprovou a condição anémica no âmbito da cultura, e que, por oportunismos vários, continua a ser cúmplice desta lógica de facto consumado, e a opacidade com que são tomadas decisões de fundo sem qualquer discussão, abafando toda a discórdia. Por esta razão, se a comissária veio congratular-se pela centena de novas traduções de autores portugueses a apresentar ou lançar ao longo da feira, é triste constatar que o país se apresenta numa frente unida, com os escritores arregimentados para uma campanha que, no seu desmedido ensejo promocional, dá deles a imagem de generais sem nenhuma estratégia quanto à conquista dos céus, por se ocuparem desde tempos imemoriais na diplomática disputa dos bons lugares terrenos nos quais se vão revezando. É curioso, aliás, notar como, já bem entrados no século XXI, e aparte as pontuais e pequenas quezílias de egos, não se desenham hoje oposições dramáticas entre aqueles que sempre são chamados a representar o país quando se olha ao espelho ou quando se vai mostrar lá fora.

 

Neste ponto, e retirando benefício desta aproximação à cultura mexicana, talvez nos possamos valer das palavras de Octavio Paz, o único Nobel da Literatura daquele país, e que no ensaio “Poesia, Sociedade, Estado” nos lembra que “não seria difícil mostrar que onde o poder invade todas as atividades humanas, a arte tem tendência a elanguescer ou transforma-se numa atividade servil e maquinal”. A censura pode exercer-se de diversos modos, e esta democracia que à cabeça de tudo coloca os valores económicos, tornou-se perita em vencer pela fadiga a ação crítica, assim nos surge esta visão filistina da cultura como facilitadora das relações económicas entre os dois países, ao ponto de Júdice afirmar que “o livro é a porta de entrada para o vinho, o azeite e muitos outros setores” no México.

 

O poeta e ensaísta mexicano que, depois da tardia descoberta da obra de Fernando Pessoa, veio a assumir que, entre os seus encontros imaginários, este foi um dos mais profundos, teve um papel decisivo na divulgação de Fernando Pessoa no universo da língua espanhola, dedicando-lhe dois ensaios e traduzindo mais de 50 poemas. E Paz não foi menos preclaro na hora de estudar a forma como “o poder imobiliza, fixa num só gesto – grandioso, terrível ou teatral e, no final, simplesmente monótono – a verdade da vida (...) Assim, o Estado pode impor uma visão do mundo, impedir que brotem outras e exterminar aquelas que lhe fazem sombra, mas carece de fecundidade para criar uma. E o mesmo se verifica a respeito da arte: o Estado não a cria, e dificilmente pode impulsioná-la sem a corromper e, mais frequentemente, apenas trata de se servir dela, deformando-a, sufocando-a ou convertendo-a em máscara”.

 

 

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