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O CORRESPONDENTE

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17
Mar19

Gabriela Hardt deve prestar esclarecimentos ao CNJ sobre perfil homônimo no Twitter

Talis Andrade

Deve informar se tem conhecimento sobre o perfil “juíza Gabriela Hardt sincera”

o aviao gabi.jpg

 

Migalhas - O corregedor nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, instaurou pedido de providências para que a juíza Federal substituta Gabriela Hardt, da 13ª vara de Curitiba/PR, informe se tem conhecimento da existência de perfil no Twitter denominado “juíza Gabriela Hardt sincera”. O ministro também quer saber se a magistrada tomou "alguma providência para evitar a continuidade de tal prática".

Na descrição do próprio perfil, está sinalizado de que a conta é dedicada aos fãs da juíza e explicita que não se tem qualquer vínculo com a magistrada. A página também declara apoio ao presidente Jair Bolsonaro, citando o slogan de sua campanha eleitoral.

Segundo o ministro, o objetivo do procedimento é esclarecer a situação e tutelar a boa-fé dos cidadãos, que poderiam ser induzidos a acreditar que as postagens refletem posicionamento oficial de integrante da magistratura, "o que é especialmente preocupante em uma época tão pródiga em disseminação de notícias falsas", segundo o ministro.

"Tendo em conta que o referido perfil traz a foto e o nome de uma magistrada, e faz expressa referência à condição de “juíza”, além de utilizar como endereço na conta do twitter o nome da referida magistrada (@GabrielaHardt), tem-se que mesmo a despeito de ter sido adicionado o adjetivo “sincera” no nome do perfil, não é pequeno o risco de pessoas tomarem as publicações feitas nesta conta como sendo efetivamente proveniente de uma magistrada."

Postagens

No perfil, foram publicados os seguintes tuítes: "Galera que tal um movimento popular, pedindo impeachment de todos os ministros do STF, vc topa"; “Urgente: o STF ‘Trabalha’ nos bastidores para tirar Lula, da prisão” e “O STF ACABA DE ENTERRA A LAVA-JATO POR 6 VOTOS A 5”.

A magistrada terá um prazo de 15 dias para prestar as informações solicitadas pela Corregedoria Nacional de Justiça.

Considerações

Segundo Fernando Mendes, presidente da Ajufe, “se cada juiz tiver que justificar abertura de perfil falso, será o caos”. O presidente da Ajufe esclarece ainda que já entrou em contato com o corregedor nacional de Justiça e, que no início da próxima semana, entregará ao ministro os esclarecimentos necessários que demonstram inequivocamente tratar-se de perfil falso.

Veja a íntegra da decisão.

Nota desde correspondente: Perfil falso do máximo agrado da juíza que gosta de ser chamada de "Moro de saia". 

O perfil ativada na campanha presidencial tem o mesmo slogan do candidato Jair Bolsonaro. 

No mais, Gabriela nasceu em uma família que faz política partidária usando o sobrenome Hardt. 

Oligarquia catarinense

Brasil de Fato - A “bolha de privilégios” na qual Gabriela Hardt nasceu foi formada em Indaial, um município do Vale do Itajaí, no estado de Santa Catarina, com aproximadamente 66 mil habitantes. O sobrenome Hardt, ali, está em uma das ruas principais, em avenida, no parque municipal, na escola de educação básica municipal e nas fachadas de uma rede de lojas de departamento e confecções. 

A genealogia de Gabriela remonta à elite política da pequena Indaial: seu bisavô, Frederico Hardt, foi o primeiro prefeito de Indaial, pela Aliança Liberal, entre os anos de 1934 e 1941; também da família, Alfredo Hardt foi prefeito entre 1961 e 1966; já entre 1993 e 1996, o tio da juíza, Frederico João Hardt, assumiu a prefeitura de Indaial, pelo PMDB, com vice do PSDB. 

Na década de 1920, Frederico Hardt começou a construir o império empresarial da família. A Firma Frederico Hardt teve início como uma fábrica de laticínios pioneira na região. Mais tarde, na década de 1940, ampliou o mercado para comercialização de outros gêneros alimentícios, ferragens, louças, tecidos e confecções. Desde a década de 1970, a família é proprietária da Hardt Confecções e das Lojas Hardt, uma rede de lojas de departamento, com mais de 150 funcionários, distribuídas também nas cidades catarinenses de Timbó e Blumenau.

“Essas oligarquias políticas familiares são extremamente conservadoras, com pensamento político sempre de direita, autoritário, o que contribui a explicar o comportamento político da juíza em relação ao processo do Lula”, explicou o professor Oliveira. 

Elite jurídica

Segunda dos três filhos de Jorge Hardt Filho e Marilza Ferreira Hardt, Gabriela nasceu em Curitiba, mas foi criada em São Mateus do Sul, cidade com cerca de 45 mil habitantes, a pouco mais de 150 km da capital paranaense. 

Na cidade interiorana, o pai de Gabriela trabalhou por mais de 20 anos como engenheiro químico em uma unidade de industrialização de xisto da Petrobrás. Já a mãe, foi professora em colégio particular e Secretária Municipal de Educação. 

Quando jovem, Gabriela cogitou seguir os passos do pai e cursou engenharia química por dois anos. Optou, no entanto, por fazer carreira no poder judiciário. Mudou-se para Curitiba e formou-se em Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a mesma em que Sergio Moro foi professor de Direito Penal e Processual Penal entre 2007 e 2018. 

No ano em que Moro começou a lecionar na UFPR, Hardt foi aprovada em concurso para juíza substituta federal. Entre os 52 aprovados naquele ano, o nome de Gabriela Hardt consta como 49º, com média geral de 6,62. 

Em entrevista à TV da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), em maio de 2017, Hardt diz que “entrou tarde” na magistratura, com 34 anos, já mãe de duas filhas. Antes de chegar à 13ª Vara Federal, Gabriela atuou na Justiça Federal de Paranaguá, litoral paranaense, e foi corregedora da penitenciária federal de Catanduvas.  

Na Lava Jato, enquanto cobria férias de Moro, Hardt foi responsável por expedir ordem de prisão ao ex-ministro José Dirceu, em maio deste ano. Depois da exoneração de Moro, a juíza já condenou 10 réus em processos da Lava Jato, entre eles, o ex-diretor de serviços da Petrobras, Renato Duque, e o lobista João Antonio Bernardi Filho. 

Ainda na entrevista à Ajufe, Hardt afirmou que a carreira de juíza “exige sacrifícios de ordem pessoal e familiar, mas é uma carreira gratificante, a gente se sente valorizado”. 

Fechando o círculo

No Facebook, o perfil de Gabriela Hardt é fechado para aqueles que não são amigos. Nas poucas informações públicas, estão fotos de viagens - entre paisagens na Bahia, no Japão e na Colômbia -, fotos com a família e fotos de competições de natação. As páginas curtidas pela juíza passam por políticos como Eduardo Jorge e Marina Silva e vão até fã clubes de influenciadores digitais, como a página “Família Jout Jout”. 

Fora da magistratura, Hardt integra a equipe de maratona aquática do Círculo Militar, um tradicional clube paranaense, fundado por militares em 1934, cujo título para associação custa R$7 mil e as mensalidades, mais de R$ 200.  

Segundo o professor Ricardo Oliveira, a família, a formação e os círculos sociais de Gabriela Hardt explicitam o “ethos do poder judiciário brasileiro”. Ou seja, um conjunto de hábitos e valores sociais, com raízes conservadoras, que tendem a preservar “interesses particulares da classe dominante”.  Os impactos dessa elitização do poder judiciário para a sociedade brasileira, na avaliação de Oliveira, são “autoritarismo, exclusão social, aumento da corrupção e da impunidade”. 

 

 

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