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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

19
Ago20

“Essa imagem dos militares como um setor muito racional não confere com nenhum momento em que eles estiveram no poder”

Talis Andrade

militar ditadura .png

 

 

II - Governo Bolsonaro é "estado de golpe"

Giulia Afiune entrevista Lilia Schwarcz

 

Você acredita que há possibilidades reais de uma corrosão da democracia em nosso país?

Na minha opinião, isso já está acontecendo. Esse é um presidente que não precisa dar golpe, ele próprio é um estado de golpe. Nós acabamos de saber por uma reportagem da revista piauí, que estávamos a um passo do golpe. A matéria se refere ao encontro do dia 22 de maio em que Bolsonaro chega a dizer que ele queria retirar todos os ministros do STF. Não fez isso, foi convencido pelos seus colegas a não fazer, mas esse é um presidente que a todo momento fala em golpe, fala com grande carinho sobre a ditadura militar.

É um presidente que não sabe fazer gestos de luto, era preciso que ele fizesse isso quando chegamos ao número redondo de 100 mil brasileiros [mortos pela pandemia]. Ao contrário, ele tende a dizer que esse número não é verdadeiro.

Então, é um presidente que nos seus atos e nas suas falas, diuturnamente, ataca as instituições democráticas, ataca o Supremo, ataca a Câmara, ataca o Senado, ataca os governadores dos estados, ataca a região Nordeste, que não o elegeu. É nesse sentido que estou dizendo: ele não precisa derrubar a Constituição, porque ele a rasga todo dia, ele corrói a Constituição por dentro. Não é necessário dar um golpe, porque no seu cotidiano ele já vai lentamente construindo esse golpe.

 

Como o autoritarismo do Bolsonaro se diferencia do autoritarismo de outros líderes do passado? 

O Bolsonaro é um presidente autocrata, no sentido de que ele exerce o poder tentando a todo momento burlar o corpo da lei. Mas o que distingue é ele ter sido o primeiro presidente brasileiro eleito pelas redes sociais. Ele aprendeu com a experiência americana da eleição do Trump. Ou seja, ele fez uma campanha voltada para responder a anseios de um determinado segmento que andava descontente com a situação brasileira – quem não estava né, com a carestia que se montou desde 2013 –, com a violência, com a segurança. São pautas legítimas, eu não discordo disso, eu discordo do encaminhamento do presidente.

Mas o que há de muito específico é ele fazer farto uso desse tipo de tecnologia, encontrar o seu nicho e falar com esse nicho. Na história do Brasil um presidente candidato costuma ter um tipo de discurso de palanque, mas um presidente eleito tem que falar para todos. E Bolsonaro continua com o discurso de palanque, vocacionado para aqueles 30% [da população] que são o seu eleitorado. 

 

Como você analisa o papel das Forças Armadas dentro desse contexto?

As Forças Armadas são compostas pelo Exército, pela Marinha e pela Aeronáutica. O setor que está mais montado nesse momento, é, sobretudo, o Exército. Na sua campanha e quando eleito, Bolsonaro disse que colocaria grandes especialistas no ministério. O que nós estamos vendo é que esse é o governo em que temos mais militares como ministros de Estado. Os militares cresceram muito e estão em áreas em que eles não são especialistas e ocupando o lugar de conselheiros do presidente. Eu acho que eles devem aconselhar o presidente no que se refere às áreas em que eles atuam, mas não nas áreas em que eles desconhecem.

Boa parte desses militares que estão agora no governo participaram daquela intervenção do Haiti. Antes havia a ideia de que se tratava de uma intervenção boa para o Haiti, mas agora nós sabemos que não, que foi um golpismo no Haiti. A ideia dos militares como “salvadores da nação” é antiga e começa na Guerra do Paraguai – quando o Exército foi o único vitorioso, porque o Império começou a sua decadência depois desta guerra. Essa ideia continua durante a Primeira República: nosso primeiro presidente, Deodoro da Fonseca, foi um militar, o segundo, Floriano Peixoto, também. O Exército foi lentamente construindo essa ideia de “salvadores da nação”, mas quando a gente vê o Exército atuando, não é isso que acontece. Os anos da ditadura militar não foram anos bons para o Brasil, tivemos uma inflação galopante, vários problemas de corrupção. 

As pessoas gostam de perguntar qual a minha opinião, eu não tenho opinião, eu tenho uma informação. Essa imagem dos militares como um setor muito racional não confere com nenhum momento em que eles estiveram no poder. Então eu vejo com grande preocupação a presença deles nos postos do poder executivo.

 

Mas os militares ainda têm muita legitimidade, muita gente ainda acredita nessa ideia de “salvadores da pátria”.

Depende do setor. No setor mais popular, sim, e agora cada vez mais porque você tem um chefe do Executivo que vende essa imagem o tempo todo.

A eleição é um contrato entre os eleitores e aquele que é eleito, e essa pessoa fala em nome dos eleitores. Quando uma personalidade como Jair Bolsonaro chega ao lugar em que ele está, ou seja, como chefe do Planalto, ele passa a ser um exemplo para a nação. Não me preocupa o que Jair Bolsonaro pensa ou não pensa, porque nós já sabíamos como ele era: 28 anos atuando como deputado federal com quase nenhum projeto relevante aprovado. O que me preocupa muito é o que ele avaliza, o que ele qualifica. 

E assim ele vai construindo seu eleitorado. Veja que ele já está falando das próximas eleições em 2022. Nós sabemos que o histórico dele como militar não é de sucesso, mas como ele se vende como um militar ele também passa essa imagem [de “salvador da pátria”] para a população. (Continua)

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