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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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20
Mar20

Escassez de máscaras e até racionamento de álcool em gel. Profissionais relatam precariedade contra coronavírus no SUS

Talis Andrade

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por Joana Oliveira

El País

Médica que atua nas Unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMA), no SUS de São Paulo, recorreu ao plano de saúde privado para fazer o teste de coronavírus, mas, mesmo explicando que trabalha em pronto-socorro, não conseguiu. “Só estão testando pacientes internados e em estado grave. Também procurei o SUS e, na hora da notificação, que é quando se autoriza o teste, o sistema não funcionou. Isso tem acontecido rotineiramente", lamenta. Suzana conta que, nas unidades em que trabalha, os profissionais da saúde higienizam as mãos e o material de trabalho, incluindo os estetoscópios, mas isso não é suficiente para prevenir o contágio. “Ninguém tem proteção suficiente e não há um protocolo a ser seguido. O paciente, quando chega, tem contato com todo mundo. Põe a máscara e se higieniza, mas deveria ficar em uma sala de isolamento total, o que não acontece. Nossos jalecos, por exemplo, ficam contaminados. Aquelas roupas de astronauta que vemos nas reportagens em outros países não existem aqui. Eu mesma já tive que comprar máscara N95 do meu próprio bolso”, relata, referindo-se à máscara de proteção que tem um filtro de ar que bloqueia pelo menos 95% das partículas em suspensão e ajuda na proteção contra doenças de transmissão aérea, como a Covid-19.

Júlia (nome fictício), outra médica clínica geral que também conversou com a reportagem em condição de anonimato, relatou uma situação semelhante nas unidades de pronto-socorro em que atua, tanto na rede pública quanto privada de São Paulo. “Existe a tentativa de cuidar dos profissionais, mas com o esgotamento de materiais, de máscaras, por exemplo, alguns hospitais estão restringindo o uso desses equipamentos por parte das equipes de enfermagem. Há um problema de compra de material”, conta ela, que trabalha em um hospital particular onde houve o óbito de um paciente com suspeita de coronavírus. Eles ainda não têm o resultado. “Essa situação assustou um pouco a equipe, mas ainda não tem um clima de medo generalizado, não”, diz.

O cansaço, coincidem as médicas, é maior que o medo. Com os pronto-socorros lotados, as unidades da rede pública em que trabalham, que geralmente funcionam de segunda a sábado, farão plantões de 15 horas de duração, de segunda a domingo. “Estamos muito cansadas. Todo mundo que está resfriado, gripado, quer ir, achando que é coronavírus. A pessoa fica gripada hoje, não tem febre nem nada e já vai para o atendimento… Isso que é o pior, porque nos sobrecarrega demais e acaba atrapalhando o atendimento de quem realmente precisa”, explica Júlia.

Nesta quinta-feira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que o protocolo para o SUS nos postos de saúde inclui isolamento em salas amplas, com janelas, e estimulou que pessoas com quadros de gripe nos Estados com transmissão comunitária da Covid-19 buscam o atendimento básico. No Brasil, os dados oficiais dão conta de seis mortes por Covid-19, 621 casos confirmados e mais de 11 mil casos suspeitos, mas os profissionais de saúde afirmam que os números não correspondem à realidade. “Não estamos vivendo no cenário que gostaríamos, não há testes diagnósticos para todos, que seria o ideal. Isso causa uma grande subnotificação de casos, porque 80% das pessoas com Covid-19 terão sintomas leves e não serão examinadas”, reconhece Sergio Cimerman, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Sobre a proteção dos profissionais de saúde, Cimerman explica que o ideal é que todos adotem “práticas corretas de equipamento de proteção individual (EPI)”, principalmente máscaras cirúrgicas ou N95. “O paciente sintomático respiratório deve receber a máscara assim que chegar no pronto-socorro e, desde o momento da triagem, os enfermeiros e profissionais que entrarem em contato com ele também. Se o paciente precisa de intubação, os médicos devem usar óculos de proteção e máscaras N95, que protegem mais”, explica.

Não é o que acontece, no entanto, com a maioria desses profissionais. Em Pernambuco, enfermeiros dizem que o Estado não está disponibilizando máscaras, luvas, álcool em gel e sabão nas unidades médicas. O EL PAÍS entrou em contato com o Governo de Pernambuco, mas, até o fechamento desta matéria, não obteve resposta.

Em São Paulo, trabalhadores do Hospital Santa Marcelina, filantrópico e privado, reclamam de racionamento até de álcool em gel. “O hospital não dá luvas nem máscaras suficientes para quem trabalha em contato com os pacientes. Equipes de enfermagem usam a mesma máscara, que deveria ser trocada a cada duas horas, durante o dia todo. A direção reclama de que a equipe está usando muito álcool em gel”, conta uma profissional do Santa Marcelina, que prefere não se identificar. “Um dia que usei uma máscara porque tinha que transitar entre os pacientes, recebi bronca e me disseram que 'não tinha porque causar alvoroço”, acrescenta.

Outros funcionários do Santa Marcelina contatados pela reportagem falam de uma morte por Covid-19 na unidade, mas o hospital não confirma. “Sabemos que lá tem muitos casos suspeitos, mas ficamos sabendo no boca a boca, a direção não nos informa de nada”, diz uma empregada do setor administrativo. A reportagem entrou em contato com a assessoria do Hospital Santa Marcelina para confirmas as informações, mas não obteve resposta. (Continua

 

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