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O CORRESPONDENTE

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09
Jan22

Era uma vez a carestia?

Talis Andrade

lute-inflacao.jpg

 

por Gustavo Krause

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Desde criança, ouvia de minha mãe: “a carestia tá braba, na feira, o dinheiro não dá pra nada”! Meu pai, dentista em Vitória de Santo Antão, determinava: “Aperta os cintos”. Não tinha o que apertar. O básico estava garantido: feijão com arroz, aluguel e a mensalidade escolar. Não existiam as tentações do consumismo.

Carestia trocou de nome: inflação. Fenômeno complexo e devastador das nações, inclusive o Brasil que, por décadas, desafiou, em conjunto, a ciência econômica e a arte da política. De 1980 a 1994, alguns dados ilustram o grau de instabilidade do País: 5 Presidentes da República, 15 Ministros da Fazenda, 14 Presidentes de Banco Central, 6 planos de estabilização, um confisco, 6 moedas e 720% de inflação média anual.

Crise brutal e impeachment de Collor, levaram Itamar Franco à Presidência da República. O três primeiros ministros da Fazenda foram breves. O Senador Fernando Henrique realizou o improvável: venceu a inflação, ganhou a eleição, avançou na gestão pública e nas políticas sociais.

Puxando pela memória, adoto, como marco inicial do percurso, 18/8/93, data da primeira conversa do Presidente Itamar, Fernando Henrique e Edmar Bacha (autor da leitura inaugural de 2022, No País Dos Contrastes – Memórias da Infância ao Plano Real. Acertei em cheio: consistência, simplicidade e a leveza do humor).

Edmar é mineiro e maneiro. Obedeceu a FHC: “não precisa entrar em detalhes”. Foi direto no coração de Itamar ao definir inflação: “A nossa ‘Belíndia’ tem duas moedas: o dinheiro que queimava no bolso dos pobres e os depósitos que se valorizavam nas contas remuneradas dos ricos. A ideia é criar uma moeda forte, a mesma para pobres e ricos”. Na saída, pediu ao conterrâneo um autógrafo para os filhos Julia e Carlos Eduardo. Bingo!

Além das dificuldades, pairava a profecia/ameaça de Maria da Conceição Tavares: “Se der certo vocês ganham o prêmio Nobel, se der errado, vão para Harvard deixar de nos aporrinhar, pois, errar dois planos é demais”. Deu certo. Porém, Conceição não pertence a Real Academia de Ciências da Suécia.

O deleite da leitura revela lições universais sobre a arte da política: Plano Real foi um casamento entre a técnica e a política. A arma: paciência aliada à persistência.

Outra lição: dialogar, convencer e ser convencido. Habilidoso, Bacha, passou a ser chamado “Senador” pela equipe.

A lição mais atualizada e significativa da saga: no governo Bolsonaro, falta liderança presidencial para enjaular a carestia no regime de metas.

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