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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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O CORRESPONDENTE

29
Jun20

Embaixo do tapete da ditadura militar

Talis Andrade

simanca ditadura .jpg

 

 

III - ‘Julia’, um ficção que traz memórias reais sobre o sequestro de crianças pela ditadura no Brasil

por EDUARDO REINA/ EL PAÍS

- - -

A ditadura militar foi vista e difundida por parte da literatura e da mídia como um período histórico que trouxe benesses aos brasileiros e ao país. Mas que varreu para debaixo do tapete muita sujeira e corrupção e tornou invisíveis as histórias desses brasileiros sequestrados pelos militares logo ao nascer ou durante a infância.

Um crime que foi registrado em vários países na América do Sul. Na Argentina, foram 500 as vítimas. Também houve situação semelhante no Chile, no Uruguai, no Paraguai, na Bolívia. Governos de alguns desses países apuraram responsabilidades dos envolvidos, sendo que na Argentina ex-presidente da República, Jorge Rafael Videla, e toda cadeia de comando militar, foram presos e responsabilizados por este crime.

Além da privação de identidade de cidadãos brasileiros, o sequestro e apropriação dessas pessoas tinham muitos objetivos. O primeiro era colocar em prática os ensinamentos da guerra antirrevolucionária, aprendida nas escolas da França, Inglaterra e Estados Unidos. Pregavam a necessidade de exterminar os inimigos.

Nas décadas de 1960 e 1970, as forças militares que deram o golpe em abril de 1964 acreditavam – a semelhança com o país hoje – que o comunismo iria tomar o poder, tomar Brasília e transformar o território nacional numa Cuba, num Vietnã. Para “evitar” que isso ocorresse, declararam inimigos todos aquelas pessoas e instituições contrárias ao pensamento defendido pelos militares (note outra coincidência atual).

Exterminar o inimigo era, então, mais do que necessário. Iam além. Precisavam acabar com toda e qualquer pessoa/situação que estivesse agregada aos inimigos. No caso, seus filhos e até amigos. Assim que o golpe foi dado no Brasil, os militares ditadores declararam guerra contra os cidadãos envolvidos, ou que presumidamente estivessem envolvidos, nas mais variadas atividades políticas.

Também condenaram ao esquecimento a memória dessas vítimas, forçaram medidas de censura e invisibilidade. Criaram preconceito negativo e de crueldade a qualquer brasileiro que pensasse diferente aos preceitos por eles idealizados.

A vida dessas pessoas de carne e osso, e da ficcional Julia, está intimamente vinculada à violência e à dor. Suas histórias permaneceram escondidas, pois se não se fala o que dói, a violência silencia.

 

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