Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

O CORRESPONDENTE

30
Jun19

Ei, Bolsonaro, até o pênis está diminuindo

Talis Andrade

Ao liberar agrotóxicos numa velocidade inédita, o governo envenena o Brasil

agrotoxico__antonio__rodrguez.jpg

 

 

O que faria Jair Bolsonaro ouvir o que não quer ou pelo menos prestar atenção no que dizem aqueles que não pertencem ao seu clã? Como a urgência dos acontecimentos exige medidas extremas, alguém pode fazer a gentileza de informar ao antipresidente sobre uma pesquisa que causou barulho no Twitter no final de semana, ao ser divulgada pelo Canal History. Realizada por cientistas da universidade de Pádua, na Itália, ela mostra que jovens expostos ao composto industrial tóxico PFOS (sulfonato de perfluorooctano) têm comprovadamente o pênis menor e mais fino do que a média, além de problemas de fertilidade. Outro efeito colateral seria o aumento de hormônios femininos em homens. Desde 2009, o uso deste veneno é restrito entre os 182 países que fazem parte da Convenção de Estocolmo. Ainda assim, o Brasil é um dos grandes produtores mundiais de sulfluramida, um agrotóxico usado para combater formigas que, quando se degrada no ambiente, resulta na formação de PFOS. Até quando? Tudo indica que até muito. E cada vez mais.

A pesquisa feita com jovens da bucólica região do Vêneto, na Itália, foi publicada no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, em novembro de 2018. Mas só ganhou repercussão no último fim de semana nas redes sociais no Brasil. Os cientistas analisaram 212 jovens expostos ao veneno, comparando-os a um grupo de controle, de não expostos, de 171. A média de idade era de 18 anos. Embora seja um grupo pequeno, a investigação foi conduzida dentro dos critérios corretos, por uma equipe respeitável. O trabalho aprofunda aspectos que já vinham sendo investigados por outros cientistas. Os jovens expostos aos produtos tinham pênis menores, menor contagem de espermatozoides, menor mobilidade dos espermatozoides e uma redução da “distância anogenital” (distância entre o ânus e a base dos testículos), uma medida que os cientistas consideram uma marca de saúde reprodutiva. A porcentagem de espermatozoides de formato normal no grupo exposto era pouco mais da metade comparada ao grupo de controle. Como os produtos químicos são transferidos das mães para os bebês, é provável que os jovens tenham sido contaminados antes do nascimento.

Como se sabe, a palavra “pênis” é poderosa. Atrai especial atenção nos dias atuais por conta da obsessão de Bolsonaro, que não para de criar oportunidades para falar de pinto e de tamanho de pinto. Os japoneses que o digam. Em 15 de maio, Bolsonaro foi abordado por um homem com traços asiáticos no aeroporto de Manaus. O estrangeiro disse duas palavras: “Brasil” e “gostoso”. O antipresidente reagiu com “Opa!”, levantou os braços, aproximou o polegar do dedo indicador e perguntou: “Tudo pequenininho aí?”.

Dias depois, ao comentar a reforma da Previdência, apresentada ao país como a cura para todos os males da terra com todos os males, afirmou: “Se for uma reforma de japonês, ele (o ministro da Economia Paulo Guedes) vai embora. Lá (no Japão), tudo é miniatura”. No Carnaval, o antipresidente postou no Twitterum vídeo de dois homens fazendo “golden shower” (modalidade sexual em que um urina no outro), para tentar provar que a festa mais popular do Brasil – e que satirizou todas as trapalhadas do seu governo – era uma versão contemporânea de Sodoma e Gomorra. Não colou – e Bolsonaro passou (mais uma) vergonha.

A sanha do governo Bolsonaro em aprovar agrotóxicos é tamanha que as agências de jornalismo investigativo Repórter Brasil e Pública decidiram criar o Robotox, um robô que tuíta a cada novo veneno liberado pelo governo. Também fizeram um mapa para que cada um possa descobrir com quantos agrotóxicos é feita a água que bebe. Entre janeiro e 14 de maio, um levantamento das duas organizações revelou que 166 agrotóxicos foram liberados, segundo o Diário Oficial da União. Destes, 48 são considerados “extremamente tóxicos”. Apenas 5% são fabricados inteiramente no Brasil, o que significa que o país continua sendo um grande importador de agrotóxicos produzidos por países como China, Índia, Japão e Estados Unidos.

AUTO_samuca agronegócios Marina.jpg

 

Segundo o Greenpeace, 25% dos produtos aprovados pelo governo neste anosão proibidos na União Europeia. "O que a gente está vendo é que o Brasil acabou virando um depósito de agrotóxicos que são proibidos lá fora", disse ao G1Marina Lacôrte, especialista em agricultura e alimentação do Greenpeace. De todos os venenos aprovados em 2019, oito são moléculas ou misturas de glifosato, herbicida associado a um tipo de câncer em processos milionários, nos Estados Unidos, e alvo de controvérsias também no Brasil. Hoje, segundo o @Robotox, já são 197 agrotóxicos liberados desde o início do ano.

O progressivo envenenamento do país tem provocado notícias cada vez mais alarmantes. Entre dezembro e fevereiro, mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas em quatro estados brasileiros, 400 milhões delas no Rio Grande do Sul. O principal responsável apontado por cientistas foi o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década. Aplicados por pulverização aérea, os venenos se disseminam pelo ambiente.

As abelhas são as principais polinizadoras das plantas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no planeta dependem destes insetos, que pulverizações de pesticidas estão matando às centenas de milhões. Caso o massacre continue, não é preciso ser cientista nem ter uma inteligência acima da média para prever o próximo capítulo.

Nos anos 90, surgiram as primeiras investigações sobre suicídios provocados por agrotóxicos aplicados na lavoura de fumo do Rio Grande do Sul, em municípios produtores de tabaco como Venâncio Aires e Santa Cruz do Sul. Desde então, esta tem sido uma linha de investigação de pesquisadores de diferentes universidades. Em 2018, o jornalista Solano Nascimento, professor da Universidade de Brasília, cruzou o número de suicídios dos últimos dez anos registrados pelo Ministério da Saúde com o censo do IBGE de todos os municípios brasileiros com mais de 100.000 habitantes. Santa Cruz do Sul aparece em primeiro lugar no Brasil, com média anual de 16 suicídios a cada grupo de 100.000 habitantes. A média no Brasil é de 5 por 100.000 habitantes.

A partir da Lei de Acesso à Informação, da pesquisa em cartórios e da entrevista com familiares, o jornalista seguiu cruzando dados. Descobriu então que, analisando apenas a população de fumicultores de Santa Cruz do Sul, o número de suicídios se multiplica de forma alarmante: são 67 por 100.000 habitantes. O método mais utilizado é o enforcamento. A reportagem publicada na revista Vejaem 26 outubro de 2018, às vésperas do segundo turno eleitoral, recebeu muito menos atenção do que deveria. Dois dias depois, o Brasil elegeria o presidente que poderá se tornar o recordista no número de liberação de venenos.

A linguagem é usada também para exilar aqueles que os donos do poder preferem afastar das decisões. Tanto como para encobrir o que está em jogo. Este é um dos objetivos do projeto de lei 6.299/02, conhecido como “pacote do veneno”, que tramita no Congresso. Se for aprovado, a palavra “agrotóxico” será deletada das embalagens dos produtos e dos documentos oficiais e substituída por “pesticida”, “defensivo agrícola” e – a máxima falta de vergonha na cara –“defensivo fitossanitário”.

O bolsonarismo tem intoxicado o Brasil de tantas maneiras. As relações interpessoais foram envenenadas, as redes sociais estão contaminadas, as pessoas sentem o ódio como um sintoma de uma doença persistente. A violência da eleição, seguida pelo governo que mantém o clima de guerra civil como estratégia de ocupação de poder, têm causado efeitos profundos na saúde física e mental das pessoas. Como o Brasil se colocou além das metáforas, porém, é preciso acordar em pé para o fato de que o governo Bolsonaro está também – e literalmente – envenenando a população. Transcrevi

agrotoxico .jpg

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub