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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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15
Abr20

Ditadura militar inimiga do conhecimento

Talis Andrade

sebastiao jossé de oliveira cientista .jpg

Impedido de trabalhar em outras instituições de ensino e pesquisa com verbas públicas, Sebastião José de Oliveira prestou serviços à iniciativa privada.

 

II - Quando a ditadura perseguiu cientistas e interrompeu pesquisas: os 50 anos do 'Massacre de Manguinhos'

'Impacto terrível'

por André Bernardo
BBC News

O episódio entrou para a história da Ciência brasileira como "O Massacre de Manguinhos".

O termo foi cunhado pelo entomologista Herman Lent numa alusão ao bairro da Zona Norte do Rio onde fica o Pavilhão Mourisco, prédio-símbolo da Fiocruz, e eternizado como título de seu livro, lançado em 1978 e relançado em 2019.

A capa da primeira edição, desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012), exibe a ilustração do Castelo Mourisco, com uma de suas torres desmoronando.

Com a cassação dos dez cientistas, seus laboratórios foram fechados, suas pesquisas, interrompidas e suas equipes, desfeitas.

"A ditadura militar teve um impacto terrível sobre o desenvolvimento científico brasileiro", avalia a socióloga Wanda Hamilton, pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz (COC).

"Não só sobre os dez cientistas cassados, mas sobre todo o Instituto Oswaldo Cruz. Tanto que, em 1974, o ministro da Saúde, Paulo de Almeida Machado, declarou que a Fiocruz era um 'cadáver insepulto' na Avenida Brasil."

Se cada um dos dez cientistas tivesse preparado um profissional por ano, teriam formado, de 1970 a 1986, 160 novos cientistas. Um número grande, mas abaixo do real.

Só na Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica, onde atuava o médico turco Haity Moussatché, havia, em 1970, 20 estudantes.

O biólogo Renato Cordeiro, pesquisador do IOC, era um deles. "Eu e outros estudantes fomos expulsos dos laboratórios e impedidos de entrar na instituição", recorda o autor do posfácio Momentos sombrios para não serem esquecidos pelas novas gerações, do livro de Lent. "Pesquisas foram interrompidas e sonhos, destruídos."

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Grupo poderia ter formado, em estimativa conservadora, 160 outros cientistas

 

Buscando sobrevivência

Impedidos de trabalhar em outras instituições de ensino e pesquisa com verbas públicas, os 10 cientistas trilharam os mais diferentes caminhos.

Domingos Machado permaneceu como professor da Faculdade de Medicina de Valença, e Hugo de Souza Lopes continuou suas pesquisas no Museu Nacional, mas, sem poder ser contratado.

Sebastião Oliveira prestou serviços à iniciativa privada e Masao Goto dedicou-se em tempo integral a sua clínica particular. Até assumir a chefia de controle de qualidade de produtos farmacêuticos e alimentícios de uma empresa, Moacyr Vaz de Andrade ficou dois anos e meio desempregado.

"A maior preocupação do meu pai era: como sobreviver sem o salário perdido com a cassação? E sem poder trabalhar em qualquer entidade pública?", recorda o neurocientista Roberto Lent, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e filho de Herman Lent.

"Felizmente, foi acolhido pelo presidente da Academia Brasileira de Ciências, Aristides Leão, que o convidou para ser editor das publicações da casa."

Outros quatro cientistas seguiram para o exterior: Augusto Perissé passou a fazer pesquisa científica na França e na Alemanha, Fernando Ubatuba deu aulas na Inglaterra e na Escócia, e Haity Moussatché e Herman Lent foram contratados por universidades da Venezuela.

"As cartas trocadas entre os que partiram para o exílio e os que ficaram no Brasil revelam angústias, problemas e saudades", atesta o cientista político Gilberto Hochman, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz e professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde. ( Continua )

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Ilustração de Niemeyer: ruínas

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