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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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23
Jan21

Diplomacia contra o Brasil

Talis Andrade

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por Gulnar Azevedo e Silva e Reinaldo Guimarães /Abrasco

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Ainda em meados de 2020, os acordos de compra de imunizantes — feitos de modo independente pela Fiocruz e pelo Instituto Butantan, com cláusulas de fabricação local da vacina contra Covid-19 —colocavam o Brasil numa situação privilegiada entre os países em desenvolvimento. Esses dois acordos, somados ao compromisso brasileiro junto ao mecanismo OMS/Covax, garantiriam pouco mais de 300 milhões de doses das duas vacinas para o Programa Nacional de Imunização (PNI) do SUS.

Enquanto as duas instituições públicas brasileiras, com larga experiência na produção de vacinas, trabalhavam nesse sentido, o governo brasileiro, tendo à frente o presidente da República, seus filhos e o ministro das Relações Exteriores, se empenhavam numa guerra ideológica contra a China, inspirada por Trump. Foram mais de uma dezena de ataques a nosso maior mercado de exportação, tendo como alvos a compra de terras, outros investimentos produtivos como a tecnologia 5G e, por fim, a vacina do Butantan.

Em janeiro de 2020, ocorreu uma reunião da Organização Mundial do Comércio sobre os direitos de propriedade de vacinas anti-Covid-19. Nela, ao contrário da grande maioria dos países em desenvolvimento, o governo brasileiro alinhou-se aos países ricos detentores de patentes farmacêuticas contra uma proposta da Índia, apoiada pela OMS, que estabelecia o licenciamento voluntário de todas as vacinas contra a Covid-19.

Com esse retrospecto no relacionamento com Índia e China, associado a um real desequilíbrio entre a capacidade produtiva global de vacinas e a demanda colocada pela pandemia, estamos agora na incerteza em relação ao cronograma de entrega das duas vacinas ao Brasil. Enquanto Fiocruz e Butantan desenharam, a tempo e a hora, uma estratégia de defesa do país no enfrentamento da pandemia, o governo federal e o Itamaraty operaram o que talvez possa ser chamado de maior fiasco diplomático de toda a sua história.

Os indianos começaram a campanha nacional de vacinação no momento em que o Brasil reivindicava o favor de comprar dois milhões de doses da vacina da AstraZeneca da empresa Serum, o que resultou no vexame do avião que nem decolou. E, logo em seguida, a Índia iniciou a exportação dessa vacina para países vizinhos com relevância geopolítica. Somente ontem as doses chegaram ao Brasil.

A China é a principal fornecedora de princípios ativos de medicamentos e vacinas para todo o mundo. A Sinovac vinha mantendo o cronograma de fornecimento do ingrediente farmacêutico ativo (IFA) ao Butantan, mas recentemente anunciou um possível atraso em entregas futuras. Talvez pelo excesso de demanda, mas é possível especular que haja algo mais. Após os ataques irresponsáveis do Brasil nos últimos dois anos, os chineses talvez estejam seguindo seus traços culturais mais marcantes e ancestrais: paciência e pragmatismo.

Há duas vacinas seguras aprovadas pela Anvisa e todo um país à espera para que vidas sejam salvas. Não merecemos uma diplomacia que nos levará a mais mortes.

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