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O CORRESPONDENTE

Por que o brasileiro continua um analfabeto político? Como conviver com a ameaça de uma intervenção militar? Este Correspondente tenta buscar respostas na leitura dos jornais

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11
Mai20

Crimes da Lava Jato (II): falsa delação “por um prato de comida”

Talis Andrade

 

O que fez eu concordar? Foi ter sido enterrada viva. Estar praticamente no além do último estágio da minha vida. E a opção de retornar à carceragem da PF foi para eu poder viver com um pouco mais de dignidade. Poder comer. Dormir e receber a visita da minha família sem tanta humilhação. Troquei por um prato de comida. E um cobertor!” (sic)

nelma-kofdama- dama da lava jato.jpg

 

 
por Marcelo Auler
- - -
Em janeiro de 2015, a doleira Nelma Kodama estranhou ao ser levada da Penitenciária Feminina de Piraquara (PR) à Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR), no bairro Santa Cândida, em Curitiba.
 
Afinal, àquela altura já se encontrava presa pela Operação Lava Jato há 10 meses, sete dos quais recolhida na penitenciária e há dois condenada em primeira instância pelo então juiz Sérgio Moro a uma pena de 18 anos. Não havia motivos para um novo depoimento.
 

Mais surpresa diz ter ficado ao ouvir a delegada Tânia Prado – originalmente lotada em São Paulo, na época em missão em Curitiba -, questionar-lhe sobre o interesse em prestar possíveis delações.

Até porque, Nelma, como registraria em maio seguinte em um bilhete endereçado ao desembargador João Pedro Gebran Neto, relator dos recursos da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), foi transferida da custódia da SR/DPF/PR para o complexo penitenciário, em 11 de junho de 2014, justamente por se recusar a fazer qualquer delação. Na mensagem a Gebran, explicou a consequência da sua recusa:

Conheci o inferno, em meio a 450 detentas, fui ameaçada (abri inquérito) e nas minhas condições de saúde emagreci 15 quilos e fiquei emocionalmente abalada.

 

O que a doleira já condenada desconhecia naquele momento é que a conversa serviria para lhe envolver na armação de uma “denunciação caluniosa”. Denunciação esta que, cinco anos depois, está sendo apontada pelos advogados Elioena Asckar e Michel David Asckar na Ação Ordinária de Reparação por Danos Morais. Defendem o delegado federal Mario Renato Castanheira Fanton, respectivamente seu esposo e seu genro. Buscam indenização pelos danos morais e à saúde do delegado, em consequência de uma perseguição que ele sofre há cinco anos.

Na inicial, protocolada em 11 de março passado junto à 2ª Vara Federal de Bauru (SP), denunciam crimes cometidos pela Força Tarefa de Curitiba. Falam da distribuição de celulares a presos, como noticiamos na primeira reportagem desta série. Foi publicada na quarta-feira (06/05) – Crimes da Lava Jato (I): acusações a quem investiga Bolsonaro.

Estenderam-se sobre a “denunciação caluniosa” onde a doleira foi envolvida e pela qual agora ela é processada, foco da reportagem de hoje. E ainda avançam a respeito da perseguição a Fanton.

Nelma, como admitiu ao BLOG em outubro passado, só percebeu o que desejavam dela quando a delegada lhe questionou sobre um suposto dossiê que estaria sendo elaborado com denúncias de irregularidades da Operação Lava Jato.  Espertamente, ela aproveitou a deixa para tentar tirar algum proveito:

Aí eu peguei e vi qual que era o sentido de estar ali e como eu estava morrendo no presídio, passando fome e frio, eu ia morrer no presídio, eu falei, ‘opa, pera aí, o que vocês querem? Vocês querem isso? Então, é o seguinte, me traga para cá’, explicou, via WhatsApp, cujo resumo transcrevemos na ilustração abaixo. (Continua)

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